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Miguel Carneiro

Email do escritor

Thomas Cole (1801-1848), The Voyage of Life: Youth

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Poesia & Conto:


Lusofonia para o mundo:

Poemas em inglês


Um livro inteiro do poeta Miguel Carneiro:


 

Ensaio, crítica, resenha & comentário: 


Fortuna crítica: 


Contos:


Alguma notícia do autor:

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Ticiano, Flora

 

Albrecht Dürer, Mãos

 

 

 

 

 

 

 

 

Jornal de Tributos, o lado profissional de Soares Feitosa

 

 

 

 

 

Miguel Carneiro


 

Bio-bibliografia:

 

Miguel Antônio Carneiro nasceu em Riachão do Jacuípe em 14 de Junho de 1957. Poeta, ficcionista e dramaturgo. Publicou, na França, Poémes (1977), com tradução de Pedro Vianna. Publicou os livros de poesia Pelas Lupas do Jaguaracambé e Outros Poemas (1986), Os Cânticos (1993) e Boca do Tempo (2002). Pela Editora do Brasil publicou o opúsculo infantil No País dos Kiriris (1991). E os livros de contos Esconso e Outras Histórias (Selo Letras da Bahia, 1994) e O Diabo em Desordem (Coleção Apoio, 1999), Sete Cantares de Amigos (Edições Arpoador, 2003). Na internet duas de suas obras no site: www.ieditora.com.br. Inserido com verbete na página 438 volume I da Enciclopédia de Literatura Brasileira de Afrânio Coutinho e J. Galante de Sousa, Editora Global, São Paulo, 2001.


 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Jornal do Conto

 

 

 

 

Miguel Carneiro


 

Obras do autor:
 

  • Poèmes, tradução de Pedro Vianna, Paris: 1977.

  • Pelas Lupas do Jaguaracambé e Outros Poemas, Salvador: Empresa Gráfica da Bahia, 1986.

  • No País dos Kiriris, Salvador: Editora do Brasil na Bahia, 1995.

  • Os Cânticos, Salvador: Gráfica da Assembleia Legislativa da Bahia, 1996.

  • Esconso e Outras Histórias, Salvador: Fundação Cultural do Estado da Bahia, Coleção Selo da Bahia, 1996.

  • O Diabo em Desordem, Salvador: Secretaria da Cultura e Turismo, Coleção Apoio, 2001.

  • Boca do Tempo, Salvador: Editora Maracujá De Vez, 2002.

  • A chegada da comitiva de FHC ao inferno. Cordel. 2003.

  • A peleja da mulher cacaueira contra o pão que o diabo amassou. Cordel. 2003.
     

Revistas:
 

  • Sitientibus, n.º 17, julho e dezembro de 1997, Universidade Estadual de Feira de Santana, Bahia, “O diabo era coxo”, págs. 271/274.

  • Néon, Salvador, n.º 21, setembro de 2000, “Waldick Soriano; Quem gosta de mim sou eu” págs. 56/57.

  • Néon, Salvador, n.º 28, julho de 2001, “A paisagem poética em Edvaldo Assis”, págs. 37/38.

  • Executivo, Campo Grande, MS, “Francisco”, pág. 11, dezembro de 1999.

  • Revista da Bahia, nº 27, “Revelações do Grotão”, págs. 55/59, novembro de 1998.

 

Jornais:

  • “Sob o olhar do cordeiro”, A Tarde, Salvador, Bahia,
    Suplemento Cultural, pág. 10; 9/01/1991.

  • “O anacoreta Tamatião Fumega”, A Tarde, Suplemento
    Cultural, pág. 12; 8/01/1994.

  • “Amarescente”, A Tarde, Suplemento Cultural, pág. 3; 22/09/1994.

  • “Um mercador de emoções” A Tarde, Suplemento Cultural,
    pág. 5; 29/07/1995.

  • “José de Oliveira Falcon, um bardo na luta social”, A Tarde, Suplemento Cultural, pág. 12; 16/03/1996.

  • “O último dos coronéis”, A Tarde, Caderno 2, pág. 5; 9/10/1998.

  • “Breve olhar de anseios” A Tarde, Suplemento Cultural, pág. 11; 28/11/1998.

  • “O canário de Hildérico” A Tarde, Caderno 2, pág. 3; 4/11/1999.

  • “O diabo em desordem”, A Tarde, Suplemento Cultural, pág. 3; 20/02/1999.

  • “Meus cumprimentos, Capitão”, Suplemento Literário de Minas Gerais, n.º 65; PÁG. 23/24; Março de 2000.

  • “A luz nas tormentas”, Jornal União, João Pessoa, Paraíba,
    Correio das Artes, pág. 13; 02/01/2000.

  • “Solilóquio de um desesperado” Jornal União, Correio das
    Artes, pág. 5; 3/09/1999.

  • “Cantilena de Sorongo” A Tarde, Suplemento Cultural, pág. 5 ; 28/08/1999.

  • “Canto Nordestinado” A Tarde, Suplemento Cultural, pág. 11; 14/10/2000.

  • “Na trilha do Blues” A Tarde, Caderno 2, pág. 3; 13/03/2000.

  • “Tocós” A Tarde, Suplemento Cultural, pág. 5; 23/11/1991.

  • “No viés do franzido” A Tarde, Suplemento Cultural, pág. 6; 12/02/2000.

  • “Marinheiro de primeira viagem”, A Tarde, Caderno 2, pág. 3; 17/02/2000.
     

Prêmios: 1º lugar no concurso de Contos promovido pelo Xº
Festival de Inverno de Vitória da Conquista, Bahia, em
1999.
 

Escreveu as peças, ainda inéditas: No Batuque de Massalino; Gare du Nord ; Cabra Cega.
 

Foram encenadas as peças: Pan Escola de Teatro da UFBA, 1973; Sob o olhar do Cordeiro, Sala 5, Escola de Teatro, 1993; Onde se escondeu Rasgaluna que não quis ver o luar? Sala 5, Escola de Teatro, 1994; Tamatião Fumega, O Anacoreta, Teatro Expresso Bahiano, 1995; La Nonna di Palermo, Teatro Santo Antonio, 1996; Pensão Paraíso, Teatro Casa do Comércio, 1995; Os Dragões da China, Teatro Martim Gonçalves, 1997.
 

Roteirizou: O Iniciado, em Super 8, com direção de Artur Moreira, 1973; O Glorioso São Roque do Jacuípe, em vídeo, com direção de Luis Wenderhausen, 1998. Fez Assistência de Direção do curta-metragem, em 16mm, Riachão do Jacuípe, com direção de Ilya Flarerty São Paulo, 1975.


 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Miguel Carneiro


 

O Herói Anônimo


Quando a opressão
Clama por Justiça
Eu então me engolfo nessa Legião.

Defendendo em plagas distantes
A liberdade instalada em meu coração.
Eu já estou mutilado
Diante de tanta revolução

Não tenho mais uma perna
Não possuo nem mais uma mão.

Dentro de mim
Bate apenas o vento
De uma nova rebelião.


 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Miguel Carneiro


 

Cangaço
Para João Bá


Para quem pensa
Que o cangaço se acabou
Vive parado na história
O cangaço continua
Silencioso na memória
Sem volantes, cangaceiros
Ou Lampiões
Matando muito mais gente
Pelas cidades e pelos sertões.

Quem imaginou
Que no tempo do Capitão
Houve mais mortandade
Enganados todos estão
O cangaço anda solto
Com a anuência do grande Cão
Agora dando gravatas
Em insuspeitos cidadãos
Matando muito mais pais de família
Pelas cidades e pelo sertão.

O nordestino morrendo de fome
E o preto pobre metralhado na invasão
Lampião foi um santo
Besta é aquele que difama o capitão
Diga-me se o cangaço
Não tá aí agora, não
Sem clavinote, fuzil ou mosquetão,
Silencioso na capital Federal
Em pleno coração de minha Nação.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Theodore Chasseriau, França, 1853, The Tepidarium

 

 

 

 

 

Miguel Carneiro


 

Prece de um Pecador


Meu Senhor fui negligente
E agora estou doente
Por conta de minha transgressão
Não amar só a ti
Diante de tanta farra e profanação

Meu Senhor estou convalescente
E busco o vosso perdão
Meu Deus
Não me abandones
Sou apenas um pobre grão
Pecando nesse pobre chão

Meu Senhor fui descuidado
E agora estou ferrado
Diante de tanta violação
Abrande minha pena
Diante do vosso Tribunal de Apelação

Pequei, Senhor!
Tenha piedade de mim
na hora de minha condenação.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Caravagio, Tentação de São Tomé, detalhe

 

 

 

 

 

Miguel Carneiro


 

Miguel Carneiro na peleja dos caminhos



abxz – Em fevereiro deste ano perdemos um amigo, os jovens (principalmente os alunos do CRIA) um mestre e a literatura um poeta singular. Como você via Zeca de Magalhães e de que forma o vê hoje?

Miguel Carneiro – Meu compadre Narciso era um ser antagônico, chegado a um embate e confrontações. Gostava de ser “gauche”, embora, de índole, fosse “carlista”. Jamais recuou ou abaixou as calças para as putinhas que hoje dominam na mídia a literatura que se pratica nessa província de todos os santos e inevitáveis demônios. Lembro, muito bem, de nosso primeiro encontro, nas tardes ensolaradas do verão de 1983, eu levado pelas mãos do poeta Ronaldo Braga, das terras de Cruz das Almas, porto de Luciano Fraga, Nélson de Magalhães Filho, poetas no sentido da palavra. Eu estava ensaiando “O Homem e o Cavalo”, uma peça de Oswald de Andrade, que é uma cópia barata de “Mistério Bufo” de Maiakovisk, e Narciso se engajou no projeto para fazer a personagem do poeta. Ensaiávamos no TCA. A peça não rolou, mas a amizade com Narciso se estabeleceu. Daí para cá, sempre estive ao seu lado, e ele ao meu. Por confiança, deu-me seu filho mais novo, Raoni Magalhães para que eu batizasse. Narciso é ave rara, de penugem nobre, de vôo belo... Os que foram para a cerimônia de cremação lá no Jardim da Saudade, muitos dali, enquanto Narciso viveu, sacanearam o tempo todo com o nosso bardo das Laranjeiras, limando, torcendo a cara, engavetando os seus projetos. Na Bahia, Narciso mostrou que a poesia “dèjà vu”, sem uma ênfase na quebra de paradigmas e no social, sem estar antenada com o mundo, bolora, cria mofo e se exaure. E Narciso tinha algo de diferencial em relação à fauna literária proviciana. Narciso tinha farinha no saco. E a coisa mais abominável para mim é lidar, no dia a dia, com poeta “ingnorante” e disso a Bahia está plena.

abxz – Você é chegado a embates e por isso tem alguns desafetos no meio literário...

MC – O poeta paulista José Paulo Paes, em seu poema “Poética”, traduz a minha peleja nessa seara de homens sem ética, pois só sei viver sem estar atado a peias. Ele diz: “Não sei palavras dúbias. Meu sermão/ chama ao lobo verdugo e ao cordeiro irmão. / Com duas mãos fraternas, cumplicio / A ilha prometida à proa do navio. / A posse é-me aventura sem sentido. / Só compreendo o pão se dividido. / Não brinco de juiz, não me disfarço em réu. / Aceito meu inferno, mas falo do meu céu.”
Sempre se soube que no meio literário baiano viceja a “mauvaise herbe”, que não inova nada, não contribuiu com algo novo, é o mesmo ramerrão de versos plagiados. Ser poeta todo mundo quer ser, mas poucos são. E contista é uma coisa meio difícil, você não pode enganar. Ou é ou não é. Na poesia, com a semana de 22, todo mundo virou poeta e a merda se alastrou. É tanta porcaria que se publica na Bahia que eu tenho é vergonha. Eno Teodoro Wanke, poeta paranaense, disse certa feita que “é fácil distinguir entre o verdadeiro e o falso poema. O falso permanece escrito ou impresso na página. O verdadeiro salta, palpitante de vida e de alma, e fica para sempre inscrito em nós, morando na gente, lembrado na memória, sentido no coração.”

abxz – Você já contou seus mortos?

Miguel Carneiro – Essa história é gozação do poeta baiano Henrique Wagner que num poema “Miguel Carneiro, Meio-Dia”, me homenageia. A verdade é que sou um homem marcado por tragédias que me deixaram para que eu andasse por essas avenidas dessa cidade que nomeiam de “Jesus”, com a cabeça baixa e ombros arqueados. Sou de peleja, de caminhos tiranos e sofrer não escolhe o lugar. Carrego, sim, almas de vaqueiros desconhecidos que com a espora e a chibata construíram cidades. O livro de Deus tem páginas infinitas e quando Ele, do alto, o abre, chama o seu escolhido. E como disse o encantado de Codisburgo; “Viver é um negócio perigoso”.

abxz - Como eles emergem em seu labor literário?

MC – Eu sempre vivi de lembranças. O poeta Antonio Carlos de Britto, Cacaso, disse num verso telegráfico: “Minha pátria é minha infância,/ por isso vivo no exílio”. Quem escreve não é o homem, caminhando para barbas grisalhas e cabelos brancos, estou com duzentos anos no lombo, mas minha criança que testemunhou tantos esquifes no passado os traz do limbo. Minha literatura é feita para dar voz à gente que eu vi e vejo, para a geração de minha filha Laura, àqueles que morreram em covas rasas, e que batem na minha porta em busca de um pão, que catam latinhas de cervejas para sobreviver, e que passaram e passam por essa vida sem deixar riquezas. Escrevo a história daqueles que tiveram caráter, bondade e lirismo.

abxz – Escrevemos cada vez mais para um público cada vez menos(1)?

MC – A questão aí não é culpa dos escritores, mas do poder público. Há uma taxa de analfabetismo alarmante em nosso Estado. Aliado a isso, os autores baianos sequer são indicados nas escolas, quer de segundo grau ou nas universidades. Nós fazemos nossa parte, escrevemos, testemunhamos o tempo que nos é permitido na face da terra. Cabe ao poder público incentivar, publicar, distribuir e fazer com que os autores baianos sejam conhecidos. Nas universidades, no campo das Letras, estudar um autor baiano torna-se heresia. Só se faz mestrado ou doutorado sobre morto. É uma burrice sem limites.

abxz – Você não acha que ao publicar livros de pouco ou nenhum valor literário, conseqüentemente sem interesse maior algum, com o dinheiro público, o Estado, através do Selo Letras da Bahia, não está desvirtuando sua real função apenas para ficar na boa com um meio tão importante para a sociedade?

MC - O problema da Coleção Selo Letras da Bahia é que, no governo Paulo Souto, havia gente como membro da comissão julgadora que não tinha nada a ver com a área literária. Eram estranhos no ninho. Tinha um que era filho de um influente jornalista baiano, já falecido, foi convidado para membro e ganhava o jeton. De literatura ele não entende nada. Outra coisa é que a comissão parecia um jogo de cumpadre. Só aprovava os livros se o sujeito fosse da curriola. Como eu briguei com um medíocre que fazia parte da comissão, resultado: dois livros que coloquei lá, foram rejeitados. Não havia um critério de qualidade, havia, sim, o jogo que é moda no meio literário baiano. Outra coisa é que se sua obra for menor, mas você ostenta um sobrenome de relevo, sua porcaria é aprovada em detrimento de inúmeras obras de autores baianos que lá voltam com aqueles pareceres vazios, sem nexo. Teve um amigo aqui na Bahia que aplicou um golpe nessa comissão do Selo Bahia. O poeta Zeca de Magalhães zanzava pela Academia de Letras e lá, através de Cunha, se aproximou do Prof. Waldir de Freitas Oliveira e disse ao mesmo que determinada obra que estava para ele analisar era de um poeta, parente de um famoso senador baiano do passado. A obra era de um iniciante, sem a menor qualidade. O professor, para homenagear a família do Senador, aprovou a porcaria do livrinho de poesia. Resultado, o cara tinha o sobrenome de um senador, mas jamais fora seu parente, pois tinha nascido num interior, numa cidadezinha perdida nos cafundós do Amazonas, nem ele sequer sabia da existência desse senador baiano. Zeca de Magalhães tinha essa faceta, de ser generoso, e entregar o próprio coração mesmo que a obra não prestasse. Agora eu só espero que no novo governo o critério e os membros sejam realmente imparciais e sérios. Obra de chapisco faz o leitor se afastar e pega mal para a Coleção, para o próprio Estado. Espero, e reitero novamente a minha preocupação, que esse governo atual não caia no mesmo rema-rema da gestão anterior. Nesse jogo escuso de protecionismo.

abxz – Houve um projeto de dissertação de mestrado sobre a sua obra, rejeitado pela UEFS (Universidade Estadual de Feira de Santana), não foi?

MC – É, rolou essa história. Em outubro de 2003, a professora Edinage Silva, que é formada pelo próprio Departamento de Letras e Artes, apresentou um anteprojeto “O texto de Miguel Carneiro: um mediador entre o real e o imaginário”, mas foi rejeitado por parte da banca. Na UEFS, só se estuda Jorge Amado, José de Alencar, Machado de Assis, SÓ MORTO, é uma vergonha o que fazem com o dinheiro público.

abxz – No entanto, escritores de diferentes matizes, escolas e gerações, mas principalmente os jovens, têm dedicado poemas a você, além de mostrarem bastante respeito pela sua obra...

MC – Generosidade dos amigos, só isso. Não sou flor que se cheire. Talvez para me acalentar, não me deixar tão enraivado com essa gente lustrada, de verniz, feito a barata de Kafka.

abxz - Em que campo da literatura você se sente mais confortável?

MC – Literatura é o pão que o “dianho” um dia amassou com o pé. Nada em literatura é prazeroso quando se leva ela a sério. João Cabral, cego no fim da vida, num apartamento no Rio, entre tiroteios e balas perdidas, com uma nevralgia crônica, cunhou essa pérola, na década de 70, numa entrevista ao Suplemento Literário do Diário de Noticias,:”quando não posso me renovar, eu me calo”.

abxz – Então qual a função que a literatura exerce na sua vida, uma vez que a sua face moderna é mesmo angustiante?

MC- Só me sinto humano porque escrevo. Isso é uma constatação minha, não um julgamento. Só encontro a minha missão como parte do rebanho de Jesus Cristo quando o povo emerge em minha obra e sai do limbo para ganhar voz. Literatura é o que me faz viver. Não a faço por deleite ou almejar fama. Faço como compromisso social e vislumbrando um mundo mais fraterno, mais justo, mais farto, mais irmão. Sou um homem angustiado, pois meu irmão do lado ainda passa fome, num país continental, farto e cheio de riquezas naturais. Sinto-me constrangido quando minha obra não toca o coração do meu irmão, seja ele brasileiro, francês, alemão ou americano. Pois em todos esses idiomas tenho trabalhos publicados e traduzidos.

abxz – Como vê a critica literária hoje?

MC – Alguém já disse antes que: “todo crítico literário é um escritor frustrado”. E quando ele ou ela entra na trupe de perseguição, ou de silenciar pelo que o outro escreve, ou fica em cima do muro, ou em silêncio, é que no fundo gostaria de levar aquele poeta, ou aquele escritor para a cama. Porém, eu os vislumbro como peça da engrenagem do sistema neoliberal a que este, ou aquele sujeito ou ator social é serviçal. Mas nem sempre peneiram. Essa gente está viciada no jogo do “cumpadismo”, do toma lá da cá, permitem que isso cresça, invada e viceje no pasto medíocre da literatura baiana, porque é uma forma de controle e manipulação. Na essência, somos todos um covil de chacais, rindo da desgraça alheia, enchendo a cara de graça nos coquetéis que os chapas brancas promovem e a gente vai, depois da cabeça zonza, dormir com boca fedendo após comer a amante. Até agora nada mudou, continua o mesmo ramerrão no quartel de Abrantes.


abxz – E os jovens escritores baianos? Há nomes que merecem mais atenção?

MC - Há uma coisa perigosa que Ceça, (Maria da Conceição Paranhos), minha poeta maior, me disse em certa feita: “um fato é a vida literária o outro é a literatura em si”. Quem fica? Os jovens precisam tomar cuidado, pois essa coisa desenfreada, feito Roberto Carlos, o cantor, de lançar todo ano um disco é semelhante a essa gente que todo ano quer lançar um livro na praça. Não trazem nada de novo. Eu me sinto envergonhado quando chego na LDM ou na Berinjela, ou nas livrarias EDUFBA e folheio um novo livro dessa gente.
Aí na terra de Jorge Araujo, Adylson Machado, Agenor Gasparetto, terra de Fernando Ramos, de Altamirando Camacam, de Adelmo Oliveira, Maria Eleonora Cajahyba, Geraldo Maia, há gente produzindo coisas legais que eu sei. Mas em linhas gerais eu posso citar na prosa: Alex Leila, Maria do Carmo Salomão João Filho, Pablo Reis; na poesia: Henrique Wagner, João de Moraes Filho, Ronaldo Braga, Aline Costa, Carine Araújo, Nélson Magalhães Filho, Luciano Fraga, Maria Isabel Sampaio Lima, você próprio, Gustavo Felicíssimo, Fabricia Miranda, Bernardo Linhares, Wladimir Saldanha, Mauro Mendes, Bel Mascelani, Raimundo Bernardes...

abxz – Eu gostaria que, para terminar, você falasse um pouco sobre a sua obra, o CD com poemas que está para ser lançado, bem como o novo livro de contos que deve sair em breve também...

MC – Eu vou transformar uma novela que fiz o ano passado em um romance. Isso em junho, quando voltar da Itália. Vou para Gênova, para o Festival Internacional da Poesia, pois ganhei no ano passado uma passagem de ida e volta para me apresentar nesse Festival com um poema chamado a Lenda Nagô dos Afoxés, que já foi publicado neste abxz.

 


O cd são dez faixas com poemas que os amigos recitam e três poemas que viraram música através de meus parceiros João Bá, Amenom Mascelani, Tomé Barreto e que o público grapiúna poderá conhecer em breve.

 
 

 

 

 

 

 

12/09/2007