Mais de 3.000 poetas e críticos de lusofonia!

José Peixoto Júnior 

Poussin, The Empire of Flora

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Poesia, Conto e Memória:


Ensaio, crítica, resenha & comentário: 


Fortuna crítica: 


Alguma notícia do autor:

  • Bio - bibliografia

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Leonardo da Vinci, Embrião

 

Octavio Paz, Nobel

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Jean Léon Gérôme (French, 1824-1904), Bathsheba

 

 

 

 

 

José Peixoto Júnior



Filho de Brasília


Castro Alves é filho de Brasília!
Patrimônios, os dois, da humanidade;
Deles são a petúnia, a sálvia, a gília
Dos canteiros de flores da cidade. *
Ambos buscaram (noites de vigília!...)
Conseguir, preservar a liberdade;
Esse bem, garantia da família
E riqueza maior da sociedade.

“Cecéu”, um apelido da infância.
Por símbolo o condor — gênio entre as aves —,
Para um gênio de andina culminância.

No céu da poesia ele é um astro:
Antônio Frederico Castro Alves,
A mãe: Clélia Brasília Silva Castro.


*- mais de mil canteiros de 25 espécies de flores enfeitam Brasília-DF, Brasil
 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Jean Léon Gérôme (French, 1824-1904), Consummatum est Jerusalem

 

 

 

 

 

José Peixoto Júnior


 

A Vaca na Cilha


"Mas na seca cruel de dezenove
A vaca, numa cilha, não se move,
A Conchinchina em pé, assim morreu."
Marchet Callou


Eis uma estátua da fome:
A rês que, por astúcia do vaqueiro,
Mantém-se em pé. Em volta, o mundo inteiro
Desaba. Falta pasto. Água some.
A seca retratada tem um nome:
Castigo!... É assim que o Deus verdadeiro
Exempla o povo, o bom ou desordeiro,
Pra não deixar que o "bicho ruim" o tome.

Se penitência, gente, é o pecado
Do nosso pai Adão! Alcança o gado,
Os bichinhos do mato, o chão até.

O sol ofusca, o mundo é policromo.
Na cilha, a rês às vezes morre, como
A vaca "Conchinchina" do Marchet.


 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Titian, Venus with Organist and Cupid

 

 

 

 

 

José Peixoto Júnior



 

Poeta,

Re-releio os Poemas da Besta, sabedor que você não é boi de arado. Réquiem em sol da tarde mostra-o. Leio-os e me recolho ao romanticíssimo Femina. Clama-se: "Já não haverá mais tempo!"


Feitosa, um abraço!

Peixoto, 25-2-97

 

“Todo silêncio é frágil” 
 

Você tem o dom de produzir versos inigualáveis, expressivos, como o epigrafado, acima. Verso assim se imortaliza, toma o freio no dente e vai-se embora sozinho, chega à distância de não se saber de que cabeça veio. Já está atingindo esse patamar aquele “no meio do caminho tinha uma pedra”. Pode se despedir do “todo silêncio é frágil”, vai desapregar do seu nome.  

Poesia é como flor e perfume. A flor o olhar abarca; o perfume insinua-se sem ser visto. Com ele cego não tem desvantagem, goza-o igualmente àqueles que têm mais do que os simples olhos na cara.  

O José Hélder de Souza me deu um exemplar da II Coletânea Komedi (1998) onde deparei com uma homenagem* a você, que vai junto. Vê-se que você já fez escola. Um discípulo o saúda de público. E com razão, “PSI, a Penúltima” merece lugar de honra entre os nossos livros de poesia. Não sei porque esse livro ainda não freqüenta os balcões das livrarias, trazido a elas por um dos nossos grandes editores. A fortuna crítica que o apresenta tem força de pô-lo, além fronteira, ao lado de um José Luís Borges, de um Octavio Paz e de outros monstros sagrados da poesia, pois você é um deles. De há muito não o seguram os limites das “Edições Papel em Branco”. Brasília, jul/98. 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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Soares Feitosa




O sertão, de Peixoto Júnior


 

Segundo Genuino Sales, meu amigo, professor e contista dos bons, a verdadeira educação deveria iniciar-se pelo sertão. Não apeSoares Feitosa, 2003nas na cidade do interior, mas lá na brenha propriamente dita. Um sovaco de serra, daqueles boqueirões paraibanos onde se criou meu outro amigo Pedro Nunes Filho, historiador e memorialista do Recife; na chapada do Araripe, de José Peixoto Júnior; nos sertões de Santa Quitéria-Monsenhor Tabosa, meus; nos aclives de Pedro II, Piauí, de Genuino — que tanto faz, que este país Nordestes é o mesmo e único. Criado brabo, telúrico e chãos, em pleno chão da Terra. E no lombo dos bichos. E no vôo dos Céus.

Ainda segundo Genuíno, teria o menino que ficar lá mesmo nos matos, à luz do querosene, lamparina, onde seria alfabetizado na cultura clássica, grego e latim. Em paralelo, o chão lhe daria a terra-Terra; o estudo, de mestre-escola, os ares. Finalmente, digamos, aos 12 ou 13 anos, o jovenzinho viria para a cidade grande. E, obviamente, a partir de suas raízes de chão, só assim estaria preparado para “entender” esse mundaréu tão estranho que é a pólis que nada tem de pólis.

— Bote outra, mestre Genuino! — disse-lhe. Ele botou e brindamos aos matos, aos pássaros, à vida rude de campear e correr nos cavalos de pau.

Tudo isto é o que me vem a propósito do livro de Peixoto Júnior, Sobre o mundo, Thesauros Editora, 2001, Brasília. Peixoto Júnior mistura o biográfico, os mitos, as cantorias, histórias de bois, da bagaceira do engenho de rapadura (e, por favor, se no céu não tiver engenho de rapadura, até estou meio diabético, mas dispenso a minha vaga por lá), das feiras e quermeses, de cegos e aleijados, de coronéis e suas manteúdas, de mulheres “gaieiras” e outras não tão santas — tudo no linguajar da terra-chão.

Lendo agora o Peixoto Júnior, em pleno dialeto “nordestino”, foi que me pude penitenciar perante Guimarães Rosa em quem sempre critiquei a invenção de um outro idioma que não o português. Perdão, seu Rosa! As suas histórias e as de Peixoto não teriam maior graça se não se assumissem de nossa fala ancestral, com expressões seiscentistas, direto de um Portugal primitivo aprisionado nos grotões da pátria, e das corruptelas que nos levam, lá, a chamar neblina de librina...

Depois, as colocações de raro sabor, de profundo saber: “Os bens de fôlego em quantidade grande espalhavam-se pela extensa área dos bens de raiz”. Ora, quem fala tão bonito assim é o livro de Josué nos informando que aqueles loucos, do deserto, tão parecidos com nós outros deste deserto imenso, o semi-árido nordestino, haviam passado a fio de espada tudo aquilo que respirava... Os bens de fôlego e seus espelhos embaciados. Está morto, compadre! — assim dizemos, aqui, dos caídos.

Noutra passagem, Peixoto Júnior nos fala de uns céus... “Construiu na beira do talhado, donde a vista lanceava sobre o sertão cinzento, verde nas águas quando o mato acorda, sertão que fica, na lonjura, azulzinho azulzinho até se mudar em céu”. Bom, isto só para quem é de lá é que há de entender, refrescar, benzer, lembrar. E prossegue: “Júlio-preto parecia ter intimidade com bicho de pêlo, de pena ou de ferrão e possuir o dom de rastejar”. E as historinhas de mocós (um rato selvagem, saborosíssimo de que também se aproveita o coalho para fazer o melhor queijo da região) e seus rastejos nos lajedos de pedra lisa —persignando-se na hora de morrer... tome-lhe chumbo, meu compadre mocó! Se é cruel? É a lei, de lá.

A descrição agronômica da terra fértil: já conhecia uma outra, de um coroné pernambucano, que terra fértil é aquela em que morrem gentes, muitas, de morte brigada, que ninguém é doido para brigar por terra magra nem por muié feia. Peixoto Júnior nos ensina esta outra: “Já se saía com o gado quase alcançando o lombo da Baixa, onde os paus nasceram muito perto um dos outros”. Ah, Peixoto, um outro cantador, este aqui, noutro dia escrevera: “eu apertei a casca limosa da floresta vasta,/ quando meus pés chiaram lama entre os dedos tarsos,/ quando meu lombo se encharcou da chuva rápida [1]” —, não, Peixoto, este outro cantador, este seu velho amigo aqui, falava do Amazonas, numa homenagem a Thiago de Melo, mas terra fértil deve ser assim mesmo como você descreve.

Ainda me lembro, um dia muito distante, descia na garupa da burra do tio Vicente, que Deus o tenha em Sua glória, os gruteões da serra. Era lá nos sovacos da Girita, Serra das Matas, a caminho da casa dos avós, Bom-Jardim, Joaquim e Francisca, naquele tempo. Chegava-se, súbito, num lugar moitoso, ensombrado e assombrado, um filete d’água onde a burra tomava das rédeas para beber. Ali os paus cresciam linheiros, pipinando os chãos de tantos paus, as vergônteas do mameleiro tão distintas, esgueiradas aos céus, tão diferentes daquela garrancheira de lá do sertão de favelas e galheiras de baixo ventre. Era aquilo um fértil, de úbere e chã, de chão profundo e escuros céus de nuvens fartas. Ah, Peixoto, certamente que a fartura da Baixa de que você fala é a mesma desta outra, minha, de lá, dos outeiros da Serra das Matas... (Será que lá, nos meus, ainda correm águas?). Melhor que nem me contem.

E Peixoto nos conta das lendas: “Dizem que morcego é passarinho do diabo. Esse “rato cego” tomara conta da casa-grande, havia tempo. Enchera-a de sua inhaca pestilenta. O ar fedia. Vôos fantasmas ao som de gritinho, considerados por Júlio risadas do maldito”.

De que nos falta o livro de Peixoto? Com toda certeza de uma boa sova no próprio Peixoto! Como é que se atreve com tanta verve do bem-contar a nos servir um livro magro de pouco mais de 100 páginas?!

Meu caro Peixoto, o mesmo anjo que um dia pegou o Profeta de peia e exigiu que ele profetizasse; que também pegou São Jerônimo e exigiu que traduzisse o Livro em língua do vulgo e não para os eruditos — foi assim que tivemos o Corão e a Vulgata —, que ele também te pegue de peia e te obrigue a nos dar um livro de pelo menos umas 600 folhas de espiar e cantar — Um sertão, vereda de grande olhar — é o que este teu colega exige de ti. Enquanto não vem, guardo este, de cabeceira e leitura amena. Louvado seja!

 


[1] Soares Feitosa, in Thiago
SOARES FEITOSA, Francisco José, Ceará, 1944, edita o Jornal de Poesia:
www.jornaldepoesia.jor.br