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Paulo de Tarso Pardal 

pardal@ufc.br

Jean Léon Gérôme (French, 1824-1904)

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Livro de inteiro teor:

                            


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Alguma notícia do autor:

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Michelangelo, 1475-1564, David, detalhe

 

Jean Léon Gérôme (French, 1824-1904), Slave market

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Poussin, The Judgment of Solomon

 

 

 

 

 

Paulo de Tarso Pardal



Bio-Bibliografia


Formado em Letras pela UFC. Mestre em Literatura pela UFC, com a dissertação O Espaço alucinante de José Alcides Pinto. Além de contista e crítico literário, Pardal é músico. Publicou o CD Pirralho, em 2002, uma coletânea de chorinhos de sua autoria. Atualmente, é professor de Literatura do Departamento de Literatura da UFC, e professor da Faculdade Farias Brito. Sua mais recente linha de pesquisa está centrada na ficção contemporânea dos autores cearenses.

Publicou:
1. Margem Oculta (contos) Fortaleza : Ed. Oficina, 1995.
2. Difícil enganar os deuses (contos) Sobral : ASEL, 1999.
3. O espaço alucinante de José Alcides Pinto (dissertação de Mestrado) Fortaleza : UFC Edições, 1999.
4. Pensaios (ensaios) Fortaleza : Ed. O Curumim Sem Nome, 2000.
5. Sonetos (poesia) Fortaleza : Edições Livro Técnico, 2000.
6. Discurso do Imaginário (ensaios) Fortaleza : Edições Livro Técnico, 2003.
7. Pirralho (partituras) Fortaleza : Edições Livro Técnico, 2003.

Endereço:

Av. Desembargador Gonzaga, 333/403-D, Cidade dos Funcionários, Fortaleza (CE) CEP: 60823-000
E-mail: pardal@ufc.br
Fone: (085) 279.5122 - 9909.9706
 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Jean Léon Gérôme (French, 1824-1904), Consummatum est Jerusalem

 

 

 

 

 

Paulo de Tarso Pardal



Adolescíamos,

de

Soares Feitosa
 

From: Pardal
Sent: Saturday, December 27, 2003 10:48 AM
Subject: Re: foto e ensaio JAP

 

Caro poeta Soares Feitosa,

 

"Adolecíamos" já é poesia pelo título, um sugestivo e bem-achado neologismo de que vai partir toda a recordação de um ser sem mágoas de outros tempos, principalmente aquele em a descoberta do amor é pedra fundamental para o entendimento de que a vida não precisa de explicação, mas de sensibilidade para seTiziano, Mulher ao espelho enxergar, nos pequenos gestos, o verdadeiro sentido dela. Este é o tempero fundamental para que poetas, como você, transfigurem o real em algo que só eles enxergam. 

Cada vez mais, convenço-me da imensa responsabilidade que os poetas da vida pós-industrial carregam nas costas. Fazer poesia é algo muito sério, que precisa ser trabalhada com responsabilidade temática e com domínio lingüístico. 

Essencialmente, acho que a poesia das coisas está no preciso olhar do poeta e na cunhagem exata da linguagem. Neste poema, há tudo isto, além da clara visão madura do ser que está por trás dele. Os versos "Se algum gesto foi feito à tesoura/ era apenas um disfarce" (acho que aqui está a alma do seu poema) deixam uns sugestivos vazios na semântica do texto que instigam o imaginário do leitor, o que demonstra que você tem consciência de que o leitor pós-moderno é um ser necessariamente participante do poema. Esta, talvez, seja a condição mais essencial da poesia de hoje.

 Foi muito bom ler este seu poema. Gostaria de ler outros do mesmo quilate.

Um grande abraço.

Pardal



Soares Feitosa, 2003

Clique para Soares Feitosa

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Jean Léon Gérôme (French, 1824-1904)

 

 

 

 

 

Um esboço de Leonardo da Vinci

 

 

Cussy de Almeida

 

 

 

 

Antônio Houaiss

 

 

 

 

 

Carlos Nóbrega

 

 

 

 

 

 

albano Martins

 

 

 

 

 

 

 

 

Urariano Mota

 

 

 

 

 

 

 

Paulo de Tarso Pardal

Diário do Nordeste, Fortaleza, Ceará, Brasil

22.3.2007

 


Casa de lembranças

 

O professor e escritor Paulo de Tarso Pardal analisa a obra “Côdeas”, de Carlos Augusto Viana, um dos ganhadores do Prêmio Unifor de Literatura

 

O título do livro de Carlos Augusto Viana é, antes de tudo, um achado. Côdea quer dizer crosta, casca, parte exterior; vem do latim cutina, de cútis, pele, invólucro; é do século XIV sua origem. É um termo, portanto, que é utilizado para identificar a parte exterior, mais superficial das coisas, o que é incoerente para a sua poesia, pelo o nível de sofisticação dos poemas - é aqui que inicia o trabalho do leitor.

O poema que leva esse título descreve uma casa. É uma descrição externa (côdea, portanto), mas, na verdade, é uma casa de lembranças, cujos elementos descritos estão vergados diante do peso da angústia do passado. Quando o leitor termina a leitura, tem duas surpresas: 1) a casa imaginária está desenhada em sua memória (conseqüência da precisão das descrições e do nível de sugestividade); 2) na construção sintática, não há um só verbo, mas o leitor consegue imaginar todas as ações e o movimento que os objetos poderiam ter feito, apesar de tudo estar parado, porque o poema é apenas uma paisagem de recordações, está no passado - é quase uma natureza morta; deixa de sê-lo porque esse poema é uma evocação ao passado, portanto, com um nível muito mais profundo do que uma simples descrição.

No primeiro momento, justifica-se, pois o título; num segundo, entra o leitor com sua recriação e faz a sua relembrança de uma imaginária casa, cujo desenho se forma também pelo que está escrito, e, essencialmente, pela memória reconstruída de uma casa que é de cada um. Este é o poder da poesia, em particular, e do texto, em geral.

Este poema, no entanto, é dos mais simples do livro Côdeas, a linguagem é das mais referenciais, diretas, e há poucas abstrações, como ´culpas de rabiscos desidratados´, ´vento cítrico´ e ´húmus da memória´, expressões poéticas das mais inventivas (marca de Carlos Augusto Viana), que fazem parte da composição do imaginário das lembranças. Com elas, o leitor cria um novo nível de significação para os objetos descritos.

Outros poemas são quase totalmente construídos com imagens assim, abstratas, plurissignificativas, e, ainda outros, que resolvi chamar de poemas-rasteira: joga o leitor no chão: quando menos se espera o poema já foi, já passou:, como, por exemplo, em ´A encomenda´: ´O morto - / indiferente às moscas e aos lamento / mais ignora / os que se iludem com o açúcar das horas.´; ou, ainda, em ´Vida ´: Palavra servida crua. / Talo / que se devora / de dentro para fora.´ É isso o que este livro traz de novo: a poesia comprimida ao mínimo significante, para atingir um máximo de significado.

Côdeas, assim, é um livro que acentua as características gerais de Carlos Augusto Viana (e já podemos até falar em um estilo particular de linguagem) e traz novos elementos: reciclagem e atualização necessárias a todo bom poeta.

Se nos livros anteriores, tais como: Inscrições dos lábios; A báscula do desejo, havia um confessionalismo mais tradicional, embora mesclado com essa abstração das imagens, agora, há uma certa recorrência temática, que mostra várias visões sobre um mesmo objeto; há, agora, algo de mistério em muitos poemas; a reflexão e o olhar atento sobre o mundo e sobre as coisas do mundo ganharam profundidade. A visão é outra: tudo está mais intenso e maduro. O olhar contemplativo transformou-se em olhar construtor de um artista plástico.

Dos temas recorrentes, a casa, motivo apenas de descritiva contemplação nos livros anteriores, agora, reveste-se de um olhar mais perscrutador; há um narrador mais perquiridor dos meandros tanto daquilo que lhe serve (ou serviu) de abrigo, proteção, como da angústia que a lembrança do passado traz, embora a evocação de uma memória possa representar, também, sabedoria. Este é o novo movimento que Carlos Augusto Viana dá à sua poesia. Nesse sentido, os versos como um todo desse livro, Côdeas, dão bem a dimensão da metamorfose por que está passando o poeta. Assumindo uma nova postura, ele se recicla, rejuvenesce e pode reconstruir-se. Este é o novo movimento.

Há um forte apelo sensorial nas imagens que da reinvenção da casa advêm, assim como ela representa, em alguns poemas, uma perda irreparável, como se cada narrador tivesse em busca de algo que já não exista, mas que é preciso recordar, para manter viva a memória de um passado, daí a perda. É por conta disso que o retrato da casa está, quase sempre, destruído pelo tempo - é a consciência de que o passado está em seu devido lugar, com paredes corroídas, mas é um tempo que fez e que ainda faz parte do ser que o evoca, daí a recorrência.

A linguagem de Carlos Augusto Viana, desde o primeiro livro, Primavera empalhada, é formada por grandes metáforas, normalmente, através de processos sinestésicos de associações abstratas.

Sobre este aspecto, há um poema muito esclarecedor e que pode ser lido como metalinguagem: ´Sub tegmine fagi´: ´O que sou (...) são emaranhados de líquidas imagens´

A idéia destas imagens mostra não só o nível de abstração, como a transitoriedade delas, da sua amorfia, da total ausência de forma, ou formas em constante movimento, daí o emaranhado delas. O movimento neste sentido é consciente. Os dois primeiros versos do poema ´A fome´ - ´Assim os alimentos do poema:/ o que não se conhece´ - dão os fragmentários caminhos para a compreensão da poética de Carlos Augusto Viana. O poema vem do desconhecido, uma tese defendida por muitos: Quintana, Drummond, João Cabral et alii.

O poema, aliás, como material de reflexão, é um questionamento constante, e, quando isso ocorre, o poeta reitera o material de que ele é composto: ´minhas mãos se estendem/ à seiva viscosa do nada.´ A matéria-prima do poema, portanto, tem de ser buscada em outro mundo, e o leitor tem de reinventar o poema, para entrar no universo de silêncios desse desconhecido mundo. Normalmente, os metapoemas falam da dificuldade de se achar a matéria da poesia, ou tentam defini-la através de abstrações. Tudo se encaminha para o questionamento ou para o nada, pois não há uma única definição, ou não há uma definição que possa satisfazer um universo em ebulição, como é o da poesia. O importante desse movimento reflexivo é a consciência da imprecisão, da vaguidade e da sugestividade contida em que cada definição. Com esse movimento, o poeta inicia um grande diálogo com o leitor, chamando-o para o campo das herméticas composições; é uma maneira de convencer o leitor de que a poesia que ele está lendo é matéria abstrata, vaga, sem referenciais seguros do mundo real, mas é poesia que exige sua participação.
 



PERFIL
Quem é Carlos Augusto Viana

Carlos Augusto Viana, nascido em Fortaleza, aos 22 de março de 1955,
Carlos Augusto Viana (faz, hoje, portanto, 52 anos) é graduado em Comunicação Social pela UFC e mestre em Letras por essa mesma Universidade. É jornalista (editor de Cultura e colunista deste ´Diário´) e professor-assistente do Curso de Letras da Uece, lecionando, também, Literatura Brasileira nos Colégios Batista e 7 de Setembro.

No entanto, não obstante essa diversidade profissional, inscreve seu nome na História da Cultura de nosso Estado como o grande poeta de sua geração. Em 2003, com o livro ´A báscula do desejo´, foi o vencedor do Prêmio Osmundo Pontes. Agora, confirmando a sua familiaridade com o fazer poético, a habilidade em estabelecer inusitadas alianças entre as palavras, acaba de vencer o I Prêmio Unifor de Literatura, com o livro de poemas ´Côdeas´.

Possuidor de um lirismo em que se entrecruzam as teias do passado e as do presente, Carlos Augusto Viana, nesse livro, em poemas predominantemente curtos, mas densos, com imagens singularíssimas, em feixes de melodias e sugestões, conduz o leitor a um encontro com o encantamento. Dominando, com a mesma habilidade, os versos metrificados e os livres, com um acentuado predomínio destes sobre aqueles, recorrendo, pois, a ritmos múltiplos, sua poesia é, sobretudo, uma superposição de imagens.

É membro efetivo da Academia Cearense de Letras; membro-honorário da Academia Fortalezense de Letras; e da Sociedade Brasileira de Médicos Escritores; integra, também, a Associação Brasileira dos Bibliófilos. É autor dos seguintes livros: ´Primavera empalhada´; ´A báscula do desejo´; ´Inscrições dos lábios´; e ´Côdeas´ (poesia); e de ´Drummond: a insone arquitetura´ (ensaio).
 



OPINIÃO
“Familiaridade com a poesia”

José Alcides PintoJosé Alcides Pinto
Grande poeta no verso livro, é insuperável na forma fixa. Há um poema seu, ´Soneto com mel e porcelana´, que é um dos mais belos em nossa língua. É um desses que eu gostaria de ter escrito.

Teoberto LandimTeoberto Landim
Desde seu livro de estréia, ´Primavera empalhada´, já demonstrava familiaridade com a poesia, não só pela arte de cultivá-la, mas também pelo nível de leitura dos grandes mestres.

Francisco Carvalho
Francisco Carvalho
Revela extrema sabedoria no desenvolvimento de suas predileções temáticas, com suficiente qualificação para promover e sustentar o diálogo da modernidade nos domínios da prosa e do poema.
 


Jorge Tufic
Jorge Tufic
Sua poesia é uma partitura. Tudo nele é música. É a leitura posta na posição vertical, fluindo e se encachoeirando, aqui e acolá, imitando espirais ou curso de rios.

 

   
 
 

 

 

 

 

7.4.2007