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José Alcides Pinto 

 

Jean Léon Gérôme (French, 1824-1904), Plaza de toros

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 


 

* 1.9.1923, vila de São Francisco do Estreito, Santana do Acaraú, CE.

+ 2.6.2008, Fortaleza, CE.

 

Dossiê do Poeta Alcices, uma homenagem do JP, última viagem do poeta, 2.6.2008

 


Poesia :


Ensaio, crítica, resenha & comentário: 


Fortuna Crítica e outros escritos sobre Alcides:


Alguma notícia do autor:

 

Era uma sessão de fotos do poeta com os amigos dele, Juarez Leitão e Soares Feitosa, para ilustrar um belo livro do também amigo e poeta Dimas Macedo sobre a obra de Alcides Pinto. Em meio à festa, este clic. Jamaica, filha dele, bateu, 12.3.2000, vejam:

José Alcides Pinto, 12.3.2000


 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Leonardo da Vinci, Embrião

 

Octavio Paz, Nobel

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Da Vinci, La Scapigliata, detail

José Alcides Pinto


 

Dados Biográficos:

 

José Alcides Pinto, ficcionista e poeta, nasceu em São Francisco do Estreito, distrito de Santana do Acaraú, no Ceará. Faleceu em Fortaleza, CE, em 2.6.2008

Filho de José Alexandre Pinto, capitão de tropa de cigano, e de D. Maria do Carmo Pinto, descendente dos índios Tremembés, que se fixaram na povoação de Almofala, no Acaraú, no fim do século XVII.

Diplomou-se em Jornalismo pela Faculdade Nacional de Filosofia da antiga Universidade do Brasil e em Biblioteconomia pela Biblioteca Nacional. Fez o curso de especialização em Pesquisas Bibliográficas em Tecnologia no Instituto Brasileiro de Bibliografia e Documentação (IBBD) e o Curso de História da Américas ela Universidade do Brasil.

Jornalista profissional, tendo ingressado na imprensa muito jovem. Colaborou nos Suplementos Literários do "Diário Carioca",' "O Jornal", "Diário de Notícias", "Correio da Manhã", revista "Leitura" e em toda a imprensa de Fortaleza Pertence à Associação Brasileira de Imprensa (ABI), ao Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Estado do Rio de Janeiro e Sindicato dos Jornalistas Liberais do referido Estado.

Romancista, crítico literário, teatrólogo e poeta, tem livros publicados nesses gêneros, participando de várias antologias nacionais e estrangeiras. Recebeu o Prêmio José de Alencar da Universidade Federal do Ceará referente a obras no gênero Romance e Conto (1969). Coube-lhe, ainda, o Prêmio Categoria Especial para Conto (1970), concedido pela Prefeitura Municipal de Fortaleza. É o principal responsável pela introdução do Movimento Concretista no Ceará. Em 1972 foi incluído na Enciclopédia Delta Larousse.
 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Jean Léon Gérôme (French, 1824-1904), Morte de César, detalhe

José Alcides Pinto




Augusto Frederico Schmidt


1

Para que este cofre, este cadastro enorme?
Esta poltrona disponível e fofa?
Meu retrato nesta sala de Conselheiros?
Para que estas estantes de aço, tudo muito particular.
Tudo tão pessoal e íntimo às minhas mãos inúteis e gordas.
Não obstante, eu amo o mar e as infantas mortas.
Os anjos tristes e genuflexos, de vestes cor de nuvem.
Sou a própria instituição; tenho vergonha de ser um objeto.
Um poeta: meus amigos me olham com reserva.
Como gostaria de ser anticapitalista.
Eu: Augusto Frederico Schmidt, apenas um simples assalariado.

2

sou um objeto que se conhece contraditório:
para que esse cofre de bronze à minha frente?
Augusto Frederico Schmidt, modelo de capitalista-milionário.
Para que tanta estatística à minha mesa?
Minha alma é leve e cheia de liberdade.
Ninguém compreende por que sou tão prático e capitalista.

3

A poesia eu queria, mas Deus só a deu ao Manuel Bandeira.
Mas Bandeira dividiu alguns versos comigo.
Esses se juntaram à minha melancolia —
Essa tristeza enorme que carrego por onde ando
ou sentado nessa poltrona as doze horas do dia.

4

Não quero o cofre de bronze, joguem fora todos os níqueis.
Toquem fogo, derretam, ou distribuam com a pobreza.
Não quero o cofre de bronze, nem o Banco, que minha alma repele.
Quero a poesia de Cruz e Sousa, a do Alphonsus, a do Bandeira.

5

Tudo se quebra dentro de mim, tenho todas as razões para ser poeta.
Todas as razões do mundo, e mais as que o Bandeira dita:
Você, meu caro Schmidt, não é outra cousa, senão um grande poeta.
Talvez, por isso, Bandeira tenha me emprestado alguns versos.
Por isso, todo o vocabulário de minha poesia é seu.

6

Tudo se quebra dentro de mim, se estilhaça,
como uma parede velha larga o seu reboco
aos golpes do vento, ou ao simples toque de dedos frágeis.
Tudo se quebra dentro de mim, se tento escrever um verso.-
Assim choram as pedras, quando o fogo arde em seu coração.

7

Matem. Assassinem o milionário, o capitalista-banqueiro.
E salvem o poeta-cidadão Augusto Frederico Schmidt.
Brasileiro, natural do Rio de janeiro, romântico, simbolista,
e modernista também; um poeta de gosto fino.
Uni poeta com a alma de António Nobre na pele.

8

As minhas tristezas não cabiam no elevador.
Ficaram imprensadas entre as páginas dos colecionadores.
Minhas tristezas já não cabiam dentro de mim:
apólices, seguros, estatísticas, escravizaram-me a essa poltrona
fofa as doze horas do dia e mais as noites de insônia.
E por causa disso engordei tanto.
Por isso, usava suspensórios, e me tomavam por europeu.
Por isso, usava camisas de linho branco, bastante largas,
e lenços de seda para enxugar o suor do rosto.
Mãe: palavra doce, símbolo claro, desenhado no céu da manhã.
Um verso, apenas um verso meu, trazia-me tua presença
ao ritmo isócrono dos astros, entre as flores pálidas de tuas mãos.

9

Meu coração, em louca disparada, atravessa o Aterro do Flamengo.
Chove em que País? Em que lugar do mundo?
De súbito a escuridão no meio do trânsito:
o poeta Augusto Frederico Schmidt acaba de morrer.

 

   

 

Tiziano, Mulher ao espelho

 

 

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A menina afegã, de Steve McCurry

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Andreas Achenbach, Germany (1815 - 1910), A Fishing Boat

José Alcides Pinto


 

A Rendeira


Entre seus dedos macios os bilros atritam,
como dardos de fogo crepitante;
voam no espaço limitado, voltam velozes,
de uma a outra mão domesticados.

Voam e volteiam em ritmos iguais e sonoros
como sons de uma harpa celestial:
enquanto a mão prende um feixe de linha
a outra retira e espeta o espinho na almofada.

E os dedos trocam os bilros
num vaivém de ritmos atroantes
e é como se mãos de crianças se enredassem nos
desenhos do estrado
que a artesã-rendeira vai ao tempo bordando.

2.

Entre seus dedos macios os bilros estalam
como dardos de fogo queimam-me as veias.
E a pobre anciã que os bilros atira,
de uma a outra mão, não sabe que minha alma
é crucificada pela canção que vai gemendo
— uma canção de amor, mas de que época passada?
Triste e murmurante como um gorjeio.
Não obstante fazei (e desfazei) com vosso novelo de ouro
e vossos bilros esse bordado claro como a lua,
alvo como as varandas das nuvens que no céu pervagam.

Ó constante anciã, abelha doméstica, operária invencível.
Tão pobre é vossa casa, tão ricos os vossos dotes,
que eu trocaria todos os meus bens por essa modesta oficina,
onde vossas mãos vibram como uma taça de prata
despedaçada.

Ah, que destino leve, que imperceptível revoada de anjos
em torno de vós adeja — artesã das horas reinventadas.
Sob vossa cabeça curva, sob vossa nuca caída,
jaz meu coração morto e esburacado.

3.

Já é noite
e ela a tanger os bilros como um pastor de ovelhas;
cantando uma velha canção, mas de que época?
Talvez uma canção de amor, dita em segredo.

Como o pastor tardo, vai o rebanho tangendo,
na ondulação do campo e do ritmo cadente da marcha,
também murmurando uma canção, úmida e sombria,
sob a neve do crepúsculo, mas de que época passada?

E vai a rendeira recolhendo a lã de seu novelo
alva como os cachos de leite da lua
sob o balir das ovelhas que ressoa em meus ouvidos.

As estrelas se acendem
e ela a trocar os bilros sob a luz da lamparina
e há uma fada invisível dobradas sobre seus joelhos
imitando, como os bilros da sombra, os gestos da
anciã-rendeira.

 

   

 

Um cronômetro para piscinas

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Rodrigo Petronio

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Entardecer, foto de Marcus Prado

José Alcides Pinto



Unicórnio Dourado


O mar não é tema: tema é o ar do mar.
A poesia é didática - luz
sobre a história e esquecidos altares.
Toda estética; toda, puericultura
lagos oceânicos; ilhas, promontórios
as cidades primevas, o sangue dos heróis
tudo fica muito aquém e além de tuas caldeiras.
De tuas membranas, de tuas
álgidas montanhas marinhas
surge o unicórnio dourado
carregado de sonho e solidão.
E sobre as ondas aquece-se; talvez
esquecido do tempo; a que fim
este unicórnio soçobra-se de mim?

Plumas e pratas patas - unicórnio
um e único - mar
oh soberano rei dos sorvedouros!


 

* Veja poema de Soares Feitosa sobre o soberano rei dos sorvedouros
 

   

 

Titian, Noli me tangere

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Lucas Tenório

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Titian, Venus with Organist and Cupid

José Alcides Pinto



OFÉLIA


Dizei-me em que lago ou rio
jaz a inamovível Ofélia.

Ofélia, a louca, afogou-se.

Ofélia, a louca, em que lago
ou rio de correnteza,
entre sebes afogou-se?
Entre estrelas, orvalho, espuma
afogou-se a bela Ofélia?

Lua de alvo palor,
dá-me notícia de Ofélia
que por amor, só por amor,
levada na correnteza,
como um círio, um cisne, uma pétala
entre lágrimas afogou-se.

Dá-me notícias o vento?
Nem a fonte sussurrante
viu passar a louca Ofélia?
A doce pomba no abrigo?

Nem os pássaros viajantes
dão-me notícia de Ofélia?
Pelos bosques afagantes
não passou a pálida Ofélia?

Corvos da noite, gralhas, tempestades
que varrem as nuvens, por acaso,
não vistes um grão, um só grão
do corpo úmido de Ofélia?

Voa incerto sobre cerros,
planícies, desfiladeiros,
o corpo álgido de Ofélia?

Se, em verdade, Ofélia é morta
à penugem fatal do amanhecer.

Dizei-me se à vespertina luz
Ofélia, a louca, apodrece.

Dizei-me, ó sopro da tarde,
se Ofélia, a louca, repousa
em pântano resplandecente.

Dizei-me se ouço a voz dela
que só aos deuses é dado ouvir
seu nome apenas; dizei-me
se não é de anjos essa voz flutuante
na vaga do céu descorado.

 

   

 

Michelangelo, 1475-1564, David, detalhe

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Adriano Espinola

 

 

 

 

2/6/2008