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Gerardo Mello Mourão

8.1.1917 - 9.3.2007

Riviere Briton, 1840-1920, UK, Una e o leão

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 


 

A obra do poeta:


 

Ensaio & crítica:

 

Fortuna crítica:

 


Depois de sua morte:

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

A menina afegã, de Steve McCurry

 

Rafael, Escola de Atenas, detalhes

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Thomas Cole (1801-1848), The Voyage of Life: Youth

 

 

 

 

 

 

Os 90 anos de Gerardo

 


 

Coisas de saudade, o padre e a casa. O padre, muito mais: Francisco Soares Leitão, vigário de Nova-Russas, CE, o padre Leitão, um homem culto; primo, segundo pai e amigo. A casa, rua Eduardo Garcia, 833, em Fortaleza, que "torrei" para pagar contas do meu insucesso como açougueiro na praça do Recife. A casa, bom, a casa ainda tem jeito: está lá, no mesmo canto, passei dia destes em frente... e a vontade dePadre Leitão oferecer o dobro do preço. [Que preço pagaria eu pela "volta" do padre?]

Lá naquela casa, mil novecentos e setenta e pouco, entraram-me de tropel o padre, o outro primo, poeta Juarez Leitão e um livro de poesia, O PAÍS DOS MOURÕES, de Gerardo.

— Chico José, você conhece este poeta? - Juarez Leitãoindagaram-me ambos, Juarez e o padre.

Não. Não conhecia. Tomamos um vinho do Porto. Juarez, a filha Camila recém-nascida, era vizinho. Folheei. Um e outro poema na diagonal. Pano bem rápido.

Naqueles mesmos dias havia eu comprado um cordel: Peleja de Zé Pretinho dos Tucuns com o Cego Aderaldo. Lera-a num jato, tirinete muito alto no gabinete do contador Waldemar Queiroz, de grata memória, presentes, dentre outros, o meu colega auditor, Mussa de Jesus Demes. Este ficou muito admirado com o meu entusiasmo pela cantoria. Eu também fiquei.

Conto-lhe, meu caro leitor, esta viagem dupla: Ceg'Aderaldo, emCeg'Aderaldo suas raízes sertão, e Gerado Mello Mourão, em sua expressão clássica.

Foi assim que ganhei a certeza de que a Poesia, Orlando Tejo, sua viagem às orgens clássicas, Zelimiera, o poeta do absurdodiferente do que alguns incautos apregoavam, não havia morrido. Certeza que se coroou quando pus as mãos em ZÉ LIMEIRA, O POETA DO ABSURDO, de Orlando Tejo.

Dia seguinte ao encontro com o padre, o primo Juarez Leitão e o livro de Gerardo, fui à Livraria Renascença, Rua Major Facundo, quase esquina com Pedro Pereira, e adquiri O PAIS, que li e reli já não sei quantas vezes.

Depois, o prazer do contato pessoal: 1994, tendo eu escrito alguma coisa (Sirah e mais alguns poemas publicados em Psi a Penúltima), fiz questão de localizar o MESTRE. 

A generosidade de um prefácio: foi assim que Psi, a Penúltima, veio ao mundo. E a visita ao Rio de Janeiro. A amizade de todos estes anos. E, principalmente, a admiração ao Poeta.

Mais não tem de GMM no Jornal de Poesia por culpa dele. Parece que nunca adaptou-se aos recursos do "anexar-enviar". Eu mesmo, a divulgá-lo no Jornal de Poesia, tive que digitar-lhe os três livros inteiros: O PAÍS DOS MOURÕES, PERIPÉCIA DE GERARDO e RASTRO DE APOLO. Também as TRÊS PAVANAS. E SUSANA.

Dia 8.1.2007 telefonei para a casa do Poeta. Estava ele no hospital, mas disseram-me que não era muito grave. Deixei o abraço. Passei um email pedindo ao neto dele, Antônio, que entrasse em contato para suprir a page. Por mim, sua obra há de estar integral no JP. [Era grave. O poeta morreu em 9.3.2007.] 

Gerardo Mello Mourão é poeta? Sim! Gerardo é O POETA! É assim que eu digo até para quem não queira escutar.

José Inácio Vieira de Melo, também do fã-clube de GMM, mandou correr na net esta homenagem (abaixo), reproduzida com igual entusiasmo na lista pessoal do poeta Rodrigo Petronio.

 

                                             Soares Feitosa

 

 

 

José Inácio Vieira de Melo

 

Rodrigo Petronio

 

 

From: José Inácio Vieira de Melo
To: jivm.inacio@ig.com.br
Sent: Tuesday, January 09, 2007 12:20 AM
Subject: 90 ANOS DO POETA GMM

 

 

NOVENTA ANOS DO POETA

GERARDO MELLO MOURÃO

 

O poeta Gerardo Mello Mourão está completando noventa anos hoje, 8 de janeiro de 2007. Desejo ao vate cearense muita saúde. Que continue trazendo para os apreciadores da poesia o "aroma e maciez e música" de seus versos. Vida longa ao bardo do Ceará e dos Brasis!

Aproveito para convidar a todos para que façam parte da comunidade do poeta no orkut. Basta clicar no link abaixo e adicionar:

http://www.orkut.com/Community.aspx?cmm=157056

Agora, ofereço aos meus amigos, um poema de Gerardo Mello Mourão do livro "Peripécias de Gerardo", volume integrante da sua famosa trilogoa "Os Peãs".

 

 

 

 

Tu me pediste noticias da Grécia:  
de Lisboa 
por Goa e Madragoa e Itamaracá  
me fui partindo e, pois, já tenho  
algumas noticias da Grécia e escrevo  
entre a mulher da bela cintura  
dos olhos verdes  
e o mar: 
por mar chegadas, por mar envio  
as notícias da Grécia;  
redijo em alto mar entre  
a madrugada jônia e a madrugada  
de Maragogi — sudeste  
do país dos Mourões. 
  

E eras uma vez: 
da cintura de Apolo o tornozelo dáctilo  
vinhas e ao vinho o pé arisco — 
de corda em corda a pisar na cítara  
e em teu andar 
notícias recentes da Grécia: 
muitos corpos foram assados e o cheiro  
da cútis das vítimas de fina raça  
subiu das brasas e a fumaça  
odorífera e a labareda e as libações  

embriagavam os belos mancebos vindimados;  
e era uma vez 
Febo Apolo, o deus do arco de prata e lira de ouro  
e ao teu andar, ao pé arteiro, a melodia  
corda a corda 
das notícias da Grécia: 
aguardo informes: — aplacara a hecatombe o deus irado  
   ou, vagabundo  
passeia Apolo pelos bosques  
de aljava a tiracolo?

 

Escrevo no meio do mar entre a Grécia e a Itália  
talvez Ilíria; 
respirei quanto pude a violeta divina  
vem o vento dos montes e à essência  
das rosas maceradas  
amadurecem-me as narinas sábias:  
tal a rosa-dos-ventos dia e noite ao faro  
dos navegantes.

 

 

 

E era uma vez Apolo e era uma vez uma palmeira  
e os escravos de Dona Úrsula Mourão acharam  
a imagem de São Gonçalo  
e foi trazida para casa e louvada  
em cânticos e ladainhas  
e na manhã seguinte a divina creatura  
era de novo achada ao pé da mesma palmeira  
e foi trazida para casa e louvada  
em cânticos e ladainhas 

e no terceiro dia — fugira durante a noite — 
voltou à sua palmeira  
e Dona Úrsula Mourão, mais os homens e as outras mulheres  
e as crianças 
foram cantando e se assombrando até a palmeira sagrada  
e em duas medidas de sua sombra  
riscaram um retângulo  
e ergueram uma capela e onde 
era seu    tronco é hoje o altar 
de São     Gonçalo dos Mourões 
e estas  
são notícias da Grécia:

 

respirei fundo a violeta divina  
de Tênedos a Delfos e guardei  
a palmeira nos olhos e o templo na serra;  
e era uma vez 
na ilha flutuante uma palmeira  
uma palmeira em Delos e ali  
soprou Apolo a flauta e desde então se fez  
estável a ilha 
imóvel Delos por pisá-la um Deus:  
e era macho e belo e tangia também  
uma cítara de ouro e do arco de prata  
a flecha disputava ao relâmpago  
alvo e risco no céu; e sobre a pele 
da serpente na trípode sagrada 
uma virgem fundou o lábio imaculado 
de conceber o oráculo: o divino pênis 
aquecido na boca a sacra Pítia 
da garganta emprenhada devolvia o sorvo cálido  
a palavra profética: —
  

                                          'EAEYOEPÍA 
  

 e é na boca das virgens e no ventre das ninfas 
a semente fecunda 
e à sua volta — e à sua cítara  
as fêmeas aprendiam a língua e a voz dos deuses  
e os rapazes aprendiam o poder dos deuses  
e os adolescentes mortos  
tornavam à vida e a vida era fundada  
à sua volta e à sua citara;  
e era fundada a morte à volta  
de seu arco de prata — e os outros deuses  
o expulsaram do Olimpo — 
estas são notícias da Grécia:

 

 

 

de erguer-se o canto, toda voz se apaga  
e as ilhas cessam de flutuar e os deuses  
invejavam os carneiros e os pastores  
tangidos pelos montes da Tessália  
à lira de ouro. E ao seu acorde  
em pétala e aroma a bem-amada abria  
o coração do heliotrópio e o rosto  
do adolescente — amor alheio à vida e à morte — 
nas folhas do jacinto doloria  
e à mera melodia iam surgindo  
o loureiro, a romã, o girassol e o mirto  
e o zimbro e o lotus  
e o galo e o gavião e o cisne  
e a cigarra e o grifo  
e era a palmeira e à sombra dela  
a invenção do santo e as ladainhas  
de Dona Úrsula Mourão;  
estas são, amor, as notícias da Grécia  
e eu recebi no mar:  
ao sul a palmeira de Delos e ao norte  
as palmeiras — Camaragibe e Ibiapaba, Pais dos Mourões — 
lá onde a vida 
aguça a seta nas aljavas de prata  
e a morte 
se canta à lua-cheia na viola na cítara  
de Apolo adolescente.

 

Tenho notícias da Grécia, algumas: 
notícias para a tua cintura pequena e os calcanhares 
o chão dos deuses exilados  
e lembranças de um deus: no exílio,  
de seu canto se sustentava e ao canto  
— sustento dos deuses e perigo dos deuses — 
floresciam os homens e o rei Midas foi punido  
e em sua própria frauta soprou Mársyas  
sua própria morte; e ao canto  
— ó sustento dos deuses, ó perigo dos homens! — 
por auroras e noites perigosas  
tenho notícias da Grécia — algumas — 
da corte de Admeto na Tessália  
da cor das águas ao redor das Cícladas  
das virilhas cheirosas de Kirina, Hotel Adrianos,  
do vôo do gavião no ar da tarde  
do poeta caldeu na noite de Poséidon  
dessa relva curvada à brisa do Parnaso  
Danai tragountai Danai e Lyda e uma canção  
e uma taberna e o vinho  
e a inocência e o espanto de Hiacinto  
e o zéfiro da morte em meus cabelos.

 

Ao terror da delícia os olhos brilham 
pisa a planta dos pés a palmilha de pedra  
rastro incandescente de um deus:  
quem sou eu que te trago 
as notícias da Grécia — algumas —?  
o doce filho 
da raça dos Mourões — país de para lá  
da linha do Equador onde o pecado  
não é e os homens  
são machos e as mulheres  
fêmeas — onde 
à sombra das palmeiras e em seus troncos  
aparecem os deuses e seus santos.

 

Vem, formosa mulher, camélia pálida,  
que banharam de luz as alvoradas  
na concha de tuas mãos a água verde  
flauta diáfana de água à pétala 
do lábio estremecia 
e desmanchada ao canto — ao canto  
a água sugeria de novo o gomo verde  
a flauta diáfana de água  
ao milagre dos dedos e do sopro:  
bem que me deste, tu mesma, as notícias da Grécia  
e eras jônica e coríntia, às vezes dórica  
em teus quadris eólios tua concha  
à relva eólia 
à pétala do lábio estremecia e era 
a melodia de tuas flautas escondidas:  
começara 
no golfo de teus olhos a viagem  
ao verde mar por onde  
a lua esverdeara a lua  
de mel dos cabelos  
de Helena à espuma  
do desvairado amor:  
e estas são notícias da Grécia e um deus  
tangia cítaras e ovelhas e os homens  
jurados à beleza  
domavam o cavalo, a nau, a lança, a espada e a terra  
orvalhada de sangue dos guerreiros — um deus  
anunciava 
a vida e a morte por amor do amor  
e anunciava a vida e a morte e os machos  
do país dos Mourões.

 

Pois o Major Galdino, meu avô,  
cortava a taquara da serra com seu punhal de dois gumes  
e ao fim da tarde e ao nascer da manhã  
no alto do pé de tamarindo  
pendurava a gaiola de alçapão armado e dentro dela  
ou galo-de-campina de cabeça de púrpura  
ou juriti arrulhadora:  
e da copa das cajaranas de ouro  
o outro galo-de-campina — a outra juriti — 
vinha aprender 
a banda de laranja a talhada de melão o arroz 
a água do pequeno alguidar de barro e o canto 
solitário entre as varetas de bambu — e logo 
eram duas gargantas a cantar e era  
aos ouvidos do risonho Major  
um canto novo — e tu,  
pássara chamadora,  
ao furo de meu punhal na taquara  
a flauta pura ao céu  
azul irás sorvendo  
soprada em sopro novo a velha 
canção que cantavam as pássaras de amor no Tamboril  
em sopro novo a velha moda  
que cantavam os machos à janela das fêmeas  
no país dos Mourões.

 

há uma raça dos homens  
e uma raça dos deuses  
e a raça dos que tocam  
pelos bosques dos homens  
a música dos deuses:  
estas são as notícias da Grécia as notícias  
que tenho da Grécia  
e levo para a Grécia e sou o primeiro  
a levar para a Grécia carregando  
no céu da boca o gosto de teu nome  
e no ritmo do andar o peso de teu corpo  
de tua cintura pequena.

  

Gerardo Mello Mourão

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Jamesson Buarque

 

jamessonbuarque@yahoo.com.br


 

Nênia a Gerardo e um Convite

 

 

Caro poeta e amigo, Soares Feitosa, como sabe, faleceu nosso miglior fabbro; nosso Dante, como bem disseram Drummond, Hélio Pelegrino e Nelson Rodrigues; nosso único poeta planetário, como disse Jamesson BuarqueTristão de Athayde - porque nosso único poeta prescrutador das almas e das raças humanas em todos os tempos e todos os espaços -; nosso único poeta, não só no Brasil mas no Ocidente e quiçá no mundo, que tornou possível uma epopéia no mundo contemporâneo, tão dado à indigência e à filistia de uma crítica somente pautada em dogmas. Faleceu o poeta que nem era de meu partido nem era de minha igreja, para pensar como Pound, mas ainda assim é aquele que sempre comoveu meu espírito com recorrência e me fez ver que faço parte de um sistema genealógico que se chama mundo Ocidente América Brasil Nordeste em nome e respeito da humanidade. Dele o lembro assim, de imediato:

 

E surgia ao salto de um peixe de prata na cahoeira

a garganta respondia ao trom das águas

e o reflexo dos mangarás vermelhos se quebrava na lagoa

aos cangapés e deles súbito

o fauno de sete anos relinchava no barranco

erguendo a saia

da menina aguadeira

 

Um ente apto para peixe, como Apolo e o Cristo, afeito ao ar e à água, conhecedor da terra e sabedor do fogo, como um menino que espalha um grito porque descobriu que a vida é azul e o coração bate. Também menino buliçoso, brincador das coisas mais belas e fundador de belezas. Ele, este valete de espada: a criança inocente do jogo e o guerreiro experiente bem armado de gládio e escudo, o qual ensinou a Jorge Luís Borges, a pedido do mesmo: "a noite já pode mais do que o dia". Nosso poeta - o único que cantou a genealogia das Américas, como disseram Pound e Octavio Paz a respeito de "O país dos Mourões" - foi embora para a possessão dos céus, e cabe-nos, se somos sérios e temos, por isso, dignidade crítica, manter o trom de sua voz reverberando na intuição, sensibilidade e inteligência nacionais a serviço de uma nova linhagem de poetas diferentes das mesmices que mal caducam nossas letras, porque o contrário é bom: caducar quando não nos largamos na inércia de gesso dos fósseis. Não podemos depositar Gerardo Mello Mourão na memória nem depositá-lo à sombra da árvore mais alta, dizendo que foi poeta; temos de espalhá-lo e distribuí-lo para todos os ouvintes, para todos os navegantes, para todos os náufragos, para todos os andarilhos, e para os esquizofrênicos, para os analfabetos, para os sábios, para toda a gente até as reticências do impossível, porque "é nosso exercício a gentileza da morte", como dizia o próprio poeta.

A experiência totalizante de tempo e espaço da obra de Gerardo Mello Mourão, caro soares, sempre nos ensinou, entre tantas coisas, que a morte é sempre conosco. No entanto, seu ensinamento não diz respeito à inevitabilidade óbvia da morte, mas a sua vitalidade. Ao enfrentar a morte, ao assumi-la como herança - e Gerardo Mello Mourão é cantador das heranças, porque é nosso grande genealogista -, o poeta se permite viver a totalidade. Um de seus melhores exemplos é a "Nênia da Sibila":

 

Onde agora

a forma

restauração da rosa espedaçada? Onde

o rastro onde o gesto onde a maneira

da corola outrora?

 

E bem que possuías. Bem que teu sopro

batidas desprendiam-se e caíam:

era o canto, era o aceno a aparição

na sílaba caindo de teus lábios

pétala à pétala apagando-se a flor

pétala à pétala a tua boca o fruto

do enigma com seu sumo.

 

Restaria o perfume restaria

o ouvido tantas vezes ansioso

a espera alguma noite de um rumo qualquer

que não sabemos bem:

 

de pedra agora lisa onde palavra

e riso foi teu rosto apenas

água e limo descem:

quem sabe que lembrança de teus olhos

de tua lágrima?

 

Ora de fogo ora de água ora de ar

brotava e transitava a palavra de Apolo

e foi-se transformando tudo em cinza

areia

soprada

e um sino às próprias badaladas gasto

e as ondas de seu som desmaiado se esquecem

do caminho da volta à cor primeira.

 

[...]

 

Entretanto às vezes quantas vezes

uma saudade chega a um instante parece

noite

eterna solidão de eterna noite

e teu último poeta fere na pedra a boca

súbito lembrada de teu nome

 

Nesta nênia, que é o canto décimo primeiro de "O país dos mourões", Gerardo Mello Mourão lamenta a morte de sua primeira esposa, Magdalena, e, de maneira plangente, entrega-se ao sabor da saudade. Como a morte, em sua vitalidade, é sempre uma passagem, seu signo é o signo da viagem. A pergunta-chave do cantador da "Nênia da sibila" é "onde"? O lugar onde se encontram os mortos, o lugar para onde foram crava uma interrogação infinita no peito da humanidade diante da perda, da lonjura e da saudade. Contudo, este último sentimento deixa-nos a lembrança como herança e, por isso, transforma-nos no mundo das tradições, fundando nossa memória. É dessa maneira, caro poeta, que o convido e convido a todos os leitores e críticos e mais gente de efetiva responsabilidade, para a tarefa pejada de difundir a obra de nosso poeta, que, como bem disse Carpeaux, "certamente pertence à estirpe dos grandes". Se aquele sabor de saudade nos leva à plangência, e por isso lamentamos a perda, devemos ficar atentos para que a obra não se perde, e devemos em nossas leituras e escritas convocar nosso poeta do mundo dos mortos, como ele fez com Jorge de Lima, Luiz Gonzaga, Juvenal Galeno, Pessoa, Efraím Tomás Bó, Godofredo Iommi, Dantas Mota, Pound, Eliot, Castro Alves, Gonçalves Dias, Leopardi, Höederlin, Góngora, Camões e Camões e Camões, D. Dinis, Dante e Dante e Dante, Tibulo, Ovídio, Propércio, Horácio, Catulo, Virgílio, Homero e Homero e Homero. E para ressuscitar mortos é preciso ser sabedor de nossas heranças, como sabia Gerardo Mello Mourão:

 

Herdei o ferro em fogo - herdeiro

e do ferro e do fogo

fazenda, cabedal, moeda

gasto ferro e fogo na compra

das noites e dos dias e das fêmeas

na compra da lágrima e sorriso

e compro eu mesmo a minha própria dor

e lavro o mármore

do chão de viver e do chão de morrer

marcada a letra a fogo e ferro

 

Assim, indo em busca de seus fantasmas mais queridos, o poeta formula uma metonímia dos fantasmas mais queridos por todos aqueles congregados em uma mesma cultura, como a brasileira. Com isso, Gerardo Mello Mourão nos dá o ensinamento de como aplacar a saudade. Sejamos, portanto, caro Soares, bons aprendizes: vamos convocá-lo do mundo dos mortos, fezendo-o de nosso fantasma mais querido, para aplacar a saudade e para lembrarmo-nos de não nos esquecer de nossa origem telúrica, de nossa genealogia e da vitalidade da morte.

 

O mesmo abraço,

Jamesson Buarque.

 

 

 

Wilson Martins

 

William Blake (British, 1757-1827), Christ in the Sepulchre, Guarded by Angels