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Ana Cristina Souto


 

Paraíso Perdido


Despencamos do céu numa enseada
os tubarões foram com a nossa cara
a tempestade mudou a rota dos nossos passos
e nos deslumbramos a cada miragem.

Apanhamos conchas e fazemos colares
nos alimentamos de flores e frutas
a cachoeira é nossa eterna fonte de água
que lava nossa alma e mata nossa sede

Quando chega a madrugada, contemplamos as constelações
e observamos ao longe, a dança dos aborígenes
selvagem melodia a ecoar;
afastando os maus espíritos e amenizando a cólera dos Deuses

Já nos decidimos!

Consumiremos nossos dias aqui
nessa ilha de imensos girassóis
que o tempo vai corroendo sem pressa

A mesma calmaria de nossos delírios
ou desejos mais incontidos
a desbravar nossa suave geografia corpórea
e mergulhar nesse oceano que nos purificará eternamente.

Consagremos nossa Terra Prometida!

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Michelangelo, 1475-1564, Teto da Capela Sistina, detalhe

 

 

 

 

 

Ana Cristina Souto


 

Poema de Ninar


Vem amor!

Conta-me aquela velha história
a dos nossos antepassados.

Sim! Nossos!
No teu passado eu já existia:

        - sou tua mãe;
                 tua mulher;
                        tua filha.

Remeta-me às palmada que te davas
quando insistias em cair daquele pé de serigüela;

Lembra-me à nossa lua-de-mel
em que sofri uma queda no banheiro
e passamos a noite inteira projetando sonhos;

E aos 6 anos
que me ensinastes a equilibra-me sobre duas rodas, dizendo:

        - vai filha! Nunca tenha medo ! Sempre estarei por perto...

O cravo brigou com a rosa/ debaixo de uma sacada;/ o cravo saiu ferido/ e a rosa despedaçada./
O cravo ficou doente,/ a rosa foi visitar;/ o cravo teve um desmaio/, a rosa pôs-se a chorar.

          Vem amor!

                 Pousa o peito no meu peito
                                  - e dorme...


 

 

 

William Blake, Death on a Pale Horse

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Eduardo Lacerda

 

 

 

 

 

 

 

Andreas Achenbach, Germany (1815 - 1910), A Fishing Boat

 

 

 

 

 

Ana Cristina Souto


 

Recolha


Recolha aquelas palavras
o vinho entornado
a blusa amarrotada
o sorriso cínico
os sóis, as luas.

Recolha também as flores roubadas
       os nossos mortos
         livros de TAO
            o lugar à mesa
               o presente impune.

E a rede na varanda
a nossa canção
a xícara de café
toalha molhada
as mesmas mentiras

                Recolha-as!

- Não deixe vestígios de ti!

        Os sonhos;
               deixe-os por mim...

 

 

 

Um cronômetro para piscinas

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Jorge Pieiro

 

 

 

 

 

 

 

Poussin, Rebecca at the Well

 

 

 

 

 

Ana Cristina Souto


 

Rios e Anjos


Meus sonhos são como correntezas dos rios
que dispersam minhas mágoas,
levando-as distante.
Águas que muitos já ancoraram ou naufragaram

Lembrando que foram elas
que me fizeram repensar
Na existência latente da minha vida
que tanto sacrifiquei por tua causa

Tantas tormentas
Tantos silêncios
Tantos vazios
Tantos ensaios...

A minha espada cortou o teu mal!
A tua voz não ordena mais meus ímpetos
Sem o teu poder me sinto bem mais capaz;
O perigo não mais existe: venci o inimigo!

E por todos os rios onde passarei
pararei por breves instantes
às águas frias e escuras
e as contemplarei com serenidade.

És tudo tão singelo, mágico!
Esperança não é mera semelhança com a realidade
Estou cheia!
Farta dela!

Finalmente o vento soprou em minha direção
e hoje leva-me em busca de novos espetáculos
tornando-se as sombras dos rios coloridas
como auroras boreais.

E fizeram-me enxergar que a tua rejeição
por inexato que possa parecer
foi minha redenção e proteção
às minhas noites de solidão

Não eras tu,
- meu anjo guardião!


 

 

 

Velazquez, A forja de Vulcano

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Ruy Vasconcelos

 

 

 

 

 

 

 

Rubens, Julgamento de Paris

 

 

 

 

 

Ana Cristina Souto


 

Sangue – veneno da alma


Entorpeço-me no abismo da alma
no acaso dos dias de pura covardia
quase perdidos num delírio de breves metáforas

Tenho sede de drogas violentas;
já experimentei quase tudo
mas minha pior viagem
foi o seu sangue
injetado ao meu.

Por que Lestat?
Por que cravou seus dentes em minha carne?
Por que confluiu sua maldição a mim?
Por que me fez vagar como uma morta-viva?

Não tenho alma, ainda assim, sobrevivo!
Não tenho sequer ilusões.

Quanta dor!

Meu vampirismo está aquém do meu credo.
Não me julgo, entretanto, não me aceito.
Minha hóstia virou um cálice de cicuta!
Por que envenenou-me de desesperanças?

Agora?

Não tenho terra
Não tenho céu
Não tenho vida
Não tenho verso

Não me peças uma mordida / um beijo
nem tampouco minha amizade
pois te darei a imortalidade
numa infernidade eterna.


 

 

 

William Bouguereau (French, 1825-1905), João Batista

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Anderson Braga Horta

 

 

 

 

 

 

 

Delaroche, Hemiciclo da Escola de Belas Artes

 

 

 

 

 

Ana Cristina Souto


 

Tédio


Resisto ao descuido do acaso
Não desperto para vida embargada
Em mim gela fadiga crônica
Meu canto não faz boemia no banho
Minha cobiça incorpora-se às minhas incertezas.

Vivo sozinha tresvaliando meus sonhos
Por uma estrada deserta e macabra
Valho-me de falsos penhascos
Cometi todos os pecados
Que conflitam meu mundo em elo perdido.

Evoco coisas vãs
Guardo no recôndito, ilusões destroçadas
Tudo será findo ou eterno?
Não tenho tempo para sonhar
Não sei em que século estou.

Abrando meus dias
Tecendo versos doutra lei
Palavras concretas afrontam minha razão
- que as mato em lutas internas -
Mas meu triunfo não é plácido nem doce.

Converso com a via-láctea
Deliro no leito de uma tarde escura
Grito em legendas pagãs
As noites perdidas em mim são sepulcros
Enlouqueço ao amanhecer.

Convoco fantasmas suicidas
Sem tanger essas almas peregrinas
Continuo torpe ao tic-tac do tempo
Morro com meus verbos mal traçados
Apunhalo meu tédio com minha história.

Exponho meu rosto pálido aos espelhos
Cicatrizes de noites insones
Vejo minha vida indo embora
Submissa ao léu atemporal
Sem liderar batalhas ou conquistas.

Tudo que era insubstituível
já não tem mais propósito
Estou refém dessa ausência mordaz de vida
Não sinto-me aliada a nenhuma sensação
mas no íntimo, rompo represas de lágrimas.

Tanta coisa acontece ao meu redor...
Estagno meu semblante matinal
Exílio-me ao ostracismo amargo minhas tormentas de dor
E se ainda houver outros amanhãs
estendo os músculos às bocas malditas.


 

 

 

William Bouguereau (French, 1825-1905), L'Innocence

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Adriano Espinola

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Ana Cristina Souto


 

Te Amo! Meu Amor


Te amo!
Com todos os amores do mundo;
do mais profano ao mais tenro.

Te amo!
Com todos os elementos da terra;
síntese de minha quinta essência

Te amo!
Num lugar etéreo;
- onde sonhos proibidos são permitidos...

De tanto amor;
     - meu amor!

Te amo!

 

 

 

William Blake (British, 1757-1827), Angels Rolling Away the Stone from the Sepulchre

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Eduardo Diatahy B. de Menezes

 

 

 

 

 

 

 

São Jerônimo, de Caravagio

 

 

 

 

 

Ana Cristina Souto


 

Universo


Tua tez alva
estende-se à planície nua.
Te encontro na rua dos pecados
e dispo os teus pensamentos.

Torno o espanto da vida em alma furta-cor.
Em exceções de sistemas doutrinais;
travo nossa batalha milenar
como missionários de paz

Semeio nosso silêncio momentâneo
exploro os traços suaves e másculos do teu corpo
tranqüilizo-me nos teus braços protetores
entrego meus desejos às nossas desventuras

A teus pés me lanço entrelaçada
ruflo meu coração em batidas disritimadas
cuido dos vendavais imprevistos do tempo
abandono minha aflição no portal da tua alma

Permito arroubos de rebeldia e alegrias incontidas
floresço em tua terra fértil
aguarei teus olhos da sede lacrimal
repouso minha cabeça na tua arquitetura corporal

Transcendo solenemente nossos conflitos
uno nossos brasões familiares
envolto teus dias à claridade eterna do amanhecer
e finalmente enlevo nosso amor ao universo unilateral.


 

 

 

Ticiano, Flora

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Aurelino Costa, Portugal

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Ana Cristina Souto


 

Volta
 


Toca-me!
Teu lugar
está comigo.


Sinta-me!
Teu cheiro
está comigo.


Fita-me!
Teu olhar
está comigo.


Fale-me!
Tua voz
está comigo.


Cante-me!
Tua canção
está comigo.


Dispa-me!
Tua nudez
está comigo.


Cubra-me!
Teu corpo
está comigo.


Traga-me!
Teu cigarro
está comigo.


Volta!
Teu lugar
está comigo.


 

 

 

Da Vinci, La Scapigliata

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Vicente Freitas

 

 

28/11/2006