Architectura

                                                                                             

Um dia, Ela 
desenhará em chãos longínquos a casa só nossa, 
que eu farei com estas mãos.

 

 

Os tijolos, eu os amassarei com os meus pés.

 

 

Às telhas —
hei de aprontar o barro mais macio,
e as formas serão por mim,
uma a uma, completadas;

 

 

Ela as alisará longamente — 

seus dedos molhados de um profundo silêncio:

só os pássaros.

 

Fortaleza, manhã de 19.11.1998

 

 

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Maria Alice Vila Fabião

 

Quase escultura... 

Acha que posso achar lindo, mesmo assim? Você, às vezes, escreve versos tão belos que magoam! Como posso não achar lindo? O culminar nessa terceira estrofe!... Sufoca. 

Não importa que as "leónidas" não tenham chovido como se sonhara, nem que SF estivesse por ali meio bobo, ou que a manhã de 19 ainda não tivesse chegado: afinal não só não está incapaz de escrever um único verso como escreve versos como estes! Que me deixariam, também a mim, em profundo silêncio, não fora ter esse lugar "reservado para a sua opinião"... É belo. 

Um abraço, claro, SF. 

Alicia  18.11.98



SF, 

Não se admire do aparente laconismo da minha reacção à supresa com que deparei no endereço que me deu. 

Subitamente, fiquei confusa, devo confessar. Demasiadas idéias ao mesmo tempo, e os olhos a caírem-me, sem explicação na data: não, não era um poema que eu ainda não conhecia, mas sim um, acabado de fazer, quase no minuto; mais: que, para dizer a verdade, só iria ser escrito dali a algumas horas, já que o dia 19 ainda era futuro. 

Arquitectura — escrevemos nós — não é o mesmo que escultura, mas no poema era, pelo menos para mim. 

Porquê? Se tivesse conseguido  desenredar todos os sentimentos, todos os pensamentos que nada deviam ao raciocínio frio,  eu teria conseguido escrever muito e muito mais. 

Assim fiquei-me pela reacção instintiva: dizer-lhe que o achava belo, como continuo a achar. 

É um poema (recuso-me a chamar-lhe poemeto, como a outros que assim classifica) contido, tão completo e perfeito em si mesmo como a mais ínfima, mas perfeita, das moléculas de que podem nascer mundos - porque em si os contém, já. 

Desde o primeiro instante, no aturdimento provocado pela surpresa inicial, o meu cérebro estabeleceu, instintivamente, uma conexão natural, em que a palavra fundamental estava lá, perturbante, quase aparentemente deslocada, inexplicável, no final do poema: pássaros. 

Em tempos, entre as muitas traduções feitas, houve o caso de uma pequena enciclopédia de animais,  para crianças. Foi uma época de pesquisar a vida dos animais na natureza, um deslumbramento de descobertas que não mais iria esquecer. 

Entre eles, sobressaía um pássaro: o jardineiro..., cujo nome completo não consigo recordar. Mais tarde, conheci-o pessoalmente, num programa de televisão. Nem sei se será brasileiro. Não tinha a plumagem das aves-do-paraíso, nem qualquer outra característica que o tornasse particularmente atraente aos olhos dos humanos. No entanto, para mim, ele ficou um símbolo, para todo o sempre. 

(Como gostava de me lembrar do nome completo, porque também ele significativo... Vou chamá-lo apenas, jardineiro.) 

Na época de cortejar a amada, o jardineiro não tomava nenhuma das atitudes, por vezes ridículas, por vezes de uma graciosidade maravilhosa, que os seus confrades tomam para conquistar a companheira da época ou da vida. 

Em vez disso, limitava-se a fazer o ninho, mas a fazê-lo com todo o rigor, com o maior dos cuidados. Era um ninho feito no chão, quase uma casa, à frente da qual estendia o seu jardim.  E não era qualquer flor que lhe servia: o jardineiro punha requintes de bom-gosto na obra que queria oferecer à sua amada: só pétalas de flores azuis, nada de outras cores, que tornariam a sua obra vulgar. Pétalas, vidrinhos, tudo quanto fosse azul... (Não era azul a flor da felicidade, para Novalis? Quem sabe se ele não encarnaria a alma do poeta, na sua procura de felicidade?) Poeta ele era, o jardineiro. Arrumava, voltava a arrumar, mudava as coisas de sítio, escolhia os melhores ângulos... Ficava-se a olhar, a estudar efeitos... Mais do que todos, ele sabia do verdadeiro amor. 

O seu poema? 

A parada nupcial é, nos pássaros, como muito bem sabe, sobretudo, um complexo conjunto de gestos e comportamentos, entre os quais, fundamental, sobressai a construção do ninho. 

"só os pássaros."

SF, o seu poema é extremamente perturbador, além de belo. 

Você põe o mesmo requinte do jardineiro na construção da sua oferenda a "Ela". O trabalho - seu: as mãos, que, tal como na escultura, representam o contacto directo, sobressaem, poderosas... 

O cumprimento dos rituais nos mais ínfimos pormenores, ali: o começar por amassar os tijolos com os próprios pés  Não compra, não procura: faz, amassando, no gesto fundamental, o barro-terra, com os pés (gesto simples, do homem também da terra), para o transformar nos elementos fundamentais da sua oferenda. 

Para as telhas - o culminar da sua obra - guarda o barro mais macio... Quantos mais pormenores? As formas, uma a uma, apenas completadas pelo poeta - que a Ela o desenho, a escolha da oferenda que espera receber: a casa, símbolo de união e intimidade - quando "só nossa". 

"Ela as alisará longamente" - alisar... longamente... O gesto de aceitação, de colaboração, naquele ritual de acasalamento... 

O coração ficou-me, no fim, naquele verso: "seus dedos molhados de um profundo silêncio:" 

Que outro verso podia estar ali? Você, SF, sabe do que fala, da arte do ritual de construir, com as suas próprias mão: o alisar o barro, exige as mãos molhadas — o ritual do amor partilhado, mais puro no silêncio profundo. 

Palavras para quê? "Só os pássaros." 

Sei que não consegui desembaraçar a confusão de pensamentos suscitados pelo seu poema. Só sei que, inexplicavelmente, me calou fundo. 

O que eu não fui capaz de dizer, leia-o você mesmo, SF. 

Aposto que lançou as palavras, sem mesmo se dar conta da perfeição da sua própria "Architectura". Uma contenção plástica perfeita e uma "plasticidade concreta", se é que se pode dizer tal coisa, igualmente perfeita. Você disse tudo: nada a pôr, nada a tirar. 

Acabo, depois de ter dito tudo isto, com a mesma frustração que ontem me manteve quase silenciosa. Sei que não consegui traduzir os sentimentos (não posso falar de pensamentos, neste caso) em palavras. 

"Ela" compreenderá, sem necessidade de explicações, tenho a certeza.

E você saberá que o achei tão belo, que dá vontade de nos embrulharmos nele - e sonharmos com jardineiros-pássaros  e flores azuis, de Novalis. 

Alicia - 19.11.98 



Dois esclarecimentos do autor:

 

Architectura foi realmente escrito na manhã do dia 18.11.98. Por engano, datei-o com 19. Isto, naturalmente, espantou os leitores. Alicia, no primeiro e-mail comenta "que a manhã de 19 ainda não tivesse chegado" 

As "Leónidas", referidas por Alicia, seria a intensa chuva de micrometeoritos anunciada de véspera pelos astrônomos do mundo inteiro. Decepção, foram poucos!

SF

 

 

 

Helder Ventura

 

A poética na arquitectura diz-se uma realidade espacial que pela sua proporção, harmonia e funcionalidade, potencia uma das mais clarividentes e reveladoras experiências que nós humanos podemos viver.

A poética arquitectónica assentará no despreendimento e na capacidade de abstração, mas também na interpretação do que se procura materializar como espaço, na modelação e controle da luz, no "assentamento" na paisagem e na convergência dos tempos de acção, esta última talvez a condição mais difícil de obter...

No entanto, lê poesia apenas quem a procura...

A terra, a transcendência do Amor, a necessidade de (a)riscar, o sonho, a transformação, são tudo matéria do espaço arquitectónico.

Obrigado por me ter provocado esta leitura esquecida da minha profissão.

Helder Ventura

 

 

 

 

Emílio Burlamaqui

Caro poeta SF

 

Em mãos os poemas Habitação e Architectura, ambos do mais assinalado valor.

A Sra. Fabião, em transatlânticas observações, disse tudo. Ela mesma poeta — sua prosa plena de iluminuras. E oleira, posto que sabe que  barro se alisa com os dedos molhados.

Depois da lusitana Maria Alice, pouco me restaria a comentar. Como ela, fiquei pasmo com o magnífico "só os pássaros"!

A beleza foi a moradora primeira das duas vivendas.

O encontro de dedos (desta vez feito sobre o oceano), Michelangelo chegou a esboçar na Capela Sistina. Mas lá, não chegaram a se tocar — jamais o farão.

Parabéns, Poeta grande; cumprimentos à Sra Fabião e o abraço do 
     

                              Emílio Burlamaqui

 

 

 

José Nêumanne Pinto

 

"Architectura" é de um lirismo rasgado, aberto, sem vergonha. Melhor dizendo, sem vergonhas. É de um lirismo que canta, fingindo contar. Mas é também de um lirismo que dói, se Poeta José Nêumanne Pinto fazendo de bálsamo. Ele faz que cura, mas, na verdade, fere, e fere fundo, a paisagem cinzenta deste nosso mundo sem amor e sem humor, o mundo da globalização que desemprega e do mercado que nos vende tudo, em troca de nossa mera alma impura.

"Architectura" é de um lirismo agoniado, fora de moda. De um lirismo também cruel. Porque dá inveja, muita inveja, não saber construir um poema assim, não poder construir um poema assim, não construir um poema assim. O poeta-architecto é um fazedor, e 'faze' tão completamente, que 'faze' o amor que deveras sente. Vai ser inspirado assim lá em Pau Grande, no Raiz da Serra, ô, meu vaqueiro.  

Zé Nêumanne, seu peão

 

 

 

 

Lindair

 

Francisco, desculpe a forma rude e pouco poética, mas, Architectura é uma paulada... não tive outra coisa a fazer senão me debulhar em lágrimas... aliás, este não é meu estilo... mas não deu para fazer de outro jeito, tive que chorar mesmo! Já pensou? eu, uma coroa, uma profissional experiente... todos esses rotulozinhos que a gente acumula pela vida afora (a propósito, tenho 27 anos de psi) absolutamente desmanchada!

 Mas, devo lhe dizer que ler sua poesia valeu muito mais que todas as sessões de análise que pudesse ter. A propósito, você me autoriza a imprimi-la e enviá-la para algumas pessoas amigas? Bom, muitas coisas ainda poderia dizer, mas prefiro me recolher e ouvir somente os pássaros... 
                                                                    

                                                  Lindair

 

 

 

 

 

 

Edna Menezes

 

Sent: Monday, December 15, 2003 12:06 AM

Soares, esse poema Architectura, parece-me uma emanação mágica que "deambula" entre o branco e o incolor,Edna Menezes entre o silêncio e a falta de som, entre a lágrima e a dor. É a construção de um ser em suspense, eternidade de palavra que pensa ser concreto. E como diria Manoel de Barros " pelas palavras posso ver o quanto é branco o silêncio do orvalho". Edna Menezes

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Luiz Paulo Santana

 

From: "Luiz Paulo Santana" <lupasan@uol.com.br>
Sent: Monday, December 15, 2003 11:00 AM

Francisco, rejubilo-me por você, com tão belas e profundas manifestações. Superam a poesia que é a sua fagulha, o ritual do desprendimento, o rito que embala o voo. Helder Ventura é perfeito ao metaforizar "Architectura": um poema cuja "moradias" é uma doce e bem aventurada paz de espírito. E, com justiça, Elídia se derrama em poesia. Insuportável. Porque não é para suportar. E para se deixar levar na torrente. Como esquecer? Jamais!
 
Fraterno abraço,
 
Luiz
 

 

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Geraldo Vasconcelos

 

 

Sent: Sunday, April 16, 2006 12:41 AM
Subject: sobre o poema "Architectura"

 
Poeta,
permita-me duas palavras;
com toda licença de Hölderlin,
Rilke e Heine, pois poucas vezes
vi da poesia sublimar-se beleza
e delicadeza em forma de poema
tão lírico e amoroso e humano;
como dixit: só os pássaros...
 
Forte abraço,
Geraldo Vasconcelos.

 

Link para Geraldo Vasconcelos

 


 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

William Blake (British, 1757-1827), The Ancient of Days

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Ticiano, Flora

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