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Ana Cristina Souto


 

Saudade


Não é a ausência dos ausentes
É a agonia de um suspiro doloroso.
É o torpor de trevas amortalhadas.
É um espectro que cavalga descontente;
aspirando o pó do caminho nebuloso,
num vago tropel de cortejo solitário,

Jaz em companhia ao seu cavalo de tróia;
tenta invadir o coração inusitadamente
e depois compreende o mal de ser serpente.
Escapar à vida,
quem da morte jamais voltou;
parece ter dentro de si, o inferno encarcerado.

Reprise de sombra e escuridão;
- cálice amargo de fel centrifugado.
- saudade é quase lepra e maldição!

Não me pergunte uma única vez o que é saudade;
jamais saberei responder a contento.
Será um horrível suplício?
Ou um castigo trazido do Olimpo
sob a ira de Zeus por desacatá-lo?

Ah incógnita maldita!

Ainda que eu traga no peito
a dor descomedida desse indecifrável enigma
só posso adiantar que nenhum punhal
é capaz de ferir nossa alma
assim,
- tão feroz e lentamente -

              Apoteose única de dor;
              formando crateras abismais
              tocando a sinfonia da morte
              convocando os soldados sepultados
              que nos deixa à vigília dos fantasmas
              e à espreita dos abutres.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Thomas Colle,  The Return, 1837

 

 

 

 

 

Ana Cristina Souto


 

Amor de Primavera


Espreita-nos o pôr-do-sol
em nossa contemplação.
Das palavras mutuamente sussurradas
em que tornam-se imortais nossos instantes
de plena ternura intemporal.

Um fim de tarde perfeita!
Nossos braços entrelaçados
jurando promessas infindas
do mais doce e sereno amor
Onde os risos eram uma melodia
e os beijos permutados e ininterruptos
nos padeciam num delírio de nirvanas.

Caminhávamos sobre corais e musgos;
jogávamos pedrinhas ao mar
e elas viravam pequenos corações

Escorrego e enrosco-me em teu peito;
- Ávido de trajetos e incertezas -
e sinto teu coração que transborda de universo
em lentos compassos de espera
transportando-me ao portal do paraíso perdido.

Nossos devaneios comedidos
são segredos glaciais de almas supremas
que somente nos sonhos dos amantes
entregam-se aos mantos azuis de aspirações
que faz-nos inexatos –
Mas nesse momento, nada importa!
Já que é úmido o orvalho que mata nossa sede.

Tua presença inebria-me
tua mão estendida à minha
remete-me à primavera do sertão;
A aridez do desejo.
O silencioso milagre da Natureza
e as folhas murmurando recitais
de culto ao nosso amor.

A chuva amena rega
aqueles botões de rosas
que distraidamente tu roubas
e enfeitas os meus cabelos;
E a brisa levemente exala um aroma de flores
confluindo com a doçura constante dos poentes.

Do teu sangue -
florescem crisântemos.

Sim! Eras tu!
           - A primavera que eu esperava.

 

 

 

Ruth, by Francesco Hayez

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Mauro Mendes

 

 

 

 

 

 

 

John Martin (British, 1789-1854), The Seventh Plague of Egypt

 

 

 

 

 

Ana Cristina Souto


 

Coroa de Flores


Fitei de longe ameaças bombásticas
Então rasguei todos os versos que te fiz
Vestígios do meu sadismo caprichoso
E vesti de flores meu corpo libertário

Não senti angústia ao ver a morte te levando
Toquei até as tuas mãos frias e rígidas
Olhei-te a última vez e disse a mim mesma:
-Vai embora e leva todo o teu mal contigo!

Contratei mulheres choradeiras
Dessas que choram em velórios
Debruçavam-se no caixão - aos prantos -
Como se ali estivesse um filho morto

Pela primeira vez senti comoção
Com tal belo ensaio!
Mas por dentro eu ria
Quase tendo as entranhas esgarçadas

Para aparentar condescendência a tua desaparição terrena
Te enviei uma coroa de flores
Com a frase mais importante que te desejei

em todos os instantes vividos:
“O Mal por si só, se destrói!”

Arranquei meu véu preto e pus

um nariz vermelhinho
Em homenagem ao Palhaço Carequinha
O maior artista circense brasileiro
Embora triste, nos transmitia tanta alegria
E declamei sua resposta célebre:

- ''Você tá chorando, Carequinha?''

(O garoto perguntou-lhe com dificuldade.)

''Não, foi um cisco que entrou no olho'', respondeu.

E os que permaneceram ali presentes
Saíram em burburinhos
Destilando palavras de pura hipocrisia
Já outros despediram-se rindo,
Ou aplaudindo o espetáculo.

 

 

 

Hélio Rola

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Urariano Mota

 

 

 

 

 

 

 

Jean Léon Gérôme (French, 1824-1904), The Picador

 

 

 

 

 

Ana Cristina Souto


 

Desafios


Quando tudo se detém
formo elos de pretextos.
Pressuponho o futuro
e fujo da infância soterrada.

Dou vida aos meus anseios secretos.
Estilhaço desafetos com pólvora.
Junto-me as pessoas que me enaltecem.
Embriago-me com a paisagem dum lago

Escrevo odes ao nosso amor.
Ilumino com estrelas minha estrada obscura.
Decapito palavras nefastas.
Eternizo a magia do primeiro encontro.

Pinto murais com nossos nomes;
Cravo nosso amor em árvores centenárias.
Exorcizo os fantasmas do passado.
Desafio às sombras das nossas mortalhas.

Perdôo os atos falhos.
Cubro nossas faces com véus transparentes.
Aventuro nossas visões em missões seculares
e expurgo nossas trevas antes do leito.


 

 

 

Culpa

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Ricardo Santhiago

 

 

 

 

 

 

 

Jean Léon Gérôme (French, 1824-1904), Bathsheba

 

 

 

 

 

Ana Cristina Souto


 

Desideratum


Não deixarei recordações
de instantes matinais.
Desconsiderarei expressões inconseqüentes.
Legitimarei o orgulho apunhalado.
Não ignorarei meu amigo imaginário.

Não embalsamarei meu coração a qualquer maneira.
Meu sangue, não jorrarei às ribanceiras.
Conduzirei minha alma, mesmo amargurada;
pelos atalhos de estradas minadas,
sem o temor de ser estraçalhada.

Graças à tormenta efêmera do tempo,
renascerei num eclipse solar.
Nos encantos dos meus etéreos anos,
destinarei solidariedade
às estrelas que invejam a minha luminosidade

Criarei asas e voarei alto;
Irei muito além das colinas mais inóspitas.
Peregrinarei pelo universo paralelo.
Sobre a Terra e as nuvens mapearei meus horizontes.
E purificarei minha alma que jazia .

E toda vez que o sol se pôr;
Sonolenta dormirei nas florestas encantadas.
Renovada, migrarei em busca de novas eras;
Seguindo luzes que driblam o caos
- Extasiando a atmosfera.

Foi-se embora impiedosa agonia.
Darei vôos rasantes nas águas do Lago Ness.
E o monstro invencível e solitário que habita adormecido,
acordará feliz com meu mergulho há tempos esperado.
Já que minha desiderata presença,
            - será sua confidente eternizada...

 

 

 

Herodias by Paul Delaroche (French, 1797 - 1856)

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Luciano Maia

 

 

 

 

 

 

 

Jean Léon Gérôme (French, 1824-1904)

 

 

 

 

 

Ana Cristina Souto


 

Despedida


Esquivo-me
Às tentativas predatórias
de tuas mãos.
Onde o meu inexato olhar
procura o que perdeu-se
em pistas falsas.

Tomo o rumo do teu disfarce;
Encontro natureza morta.
Sem chorar minha sorte,
tranco a porta.
Num travesseiro de espinhos,
sangro
- desfigurando minha face.

Em incontida aflição
bebo o amargor de todos os venenos
e aprisiono os meus versos
em canções que não compus.

Engulo lágrimas - como palavras
que corrói a minha garganta.
        E com o céu chorando/chuva
           no silêncio dos meus passos
              despeço-me do teu domínio
                 sem olhar para trás...

 

 

 

Valdir Rocha, Fui eu

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Jean Léon Gérôme (French, 1824-1904)

 

 

 

 

 

Ana Cristina Souto


 

Dos Meus Sonhos


Carrego meus sonhos como abrigo
e perco-me em minhas invenções.
Há muito não me comando
- Sem meus sonhos perco o mundo;
Fico sem rumo, sem prumo...

Nunca perdi a pureza do sonhar;
Minha dócil mania.
Até em instantes de lucidez
o surrealismo persiste;
Mesmo com as pálpebras semicerradas.

Venci a dor com a tua partida.
Guardei comigo o peso do que fomos.
Escuto tua voz num silêncio orquestral.
Quase virei guardiã dos teus pensamentos

Cobri nossa vida anônima.
Provei dos prazeres e dissabores
Colecionei calos na alma
Às vezes, senti-me ilhada;
Presa num labirinto de espelhos
e às mil faces questionei-me:
- Amá-lo seria possível mesmo no impossível?

Alcancei bela esfera!
E hoje,
no inimaginável destino arrebatador,
mesmo tendo o sofrimento como professor;
Libertei-me das vestes antigas.
No céu eu aterrizo;
              na certeza
              - de que meus sonhos não morrerão.

 

 

 

William Bouguereau (French, 1825-1905), Admiration Maternelle

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Raymundo Silveira

 

 

 

 

 

 

 

Poussin, The Empire of Flora

 

 

 

 

 

Ana Cristina Souto


 

Etéreo Amor


Enfim, chegaste em minha vida!
Hoje do amor quero a companhia
não a ânsia que desespera o coração,
E sim a chuva que cai fininha
e embala nossos sonos;

-sem a euforia extasiante das paixões-

Não me venera mais a dimensão das desrazões
para minha plenitude ou ilusões.
Por tudo que sofri, escrava da paixão;
- prefiro o amor maduro que há em ti.

Desses que enleva as minhas complexidades;
que se desfaz em mil facetas
para imperar nos meus instantes de incertezas.
Que me dá a tranqüilidade de um ombro amigo
e o calor ameno de um coração abrasador

Teu olhar em meu olhar refletido
teu sensual olor...
Permitida, entrego-me sem pudor
Repleta de ti
- a esse desejo possessor.

És tu meu templo!
Meu Taj Mahal!
A felicidade me trouxe aconchego à alma.
Aspiro e transpiro
esse amor previsto.

Não sei como pude permanecer até agora sem ti.
Talvez vivi o nosso amor em outras vidas
para estar lapidada na hora certa de tua chegada.

           Protesto o que é mortal:
                 - porque nós dois
                        estamos eternizados.

 

 

 

Da Vinci, Homem vitruviano

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José Carlos A. Brito

 

 

28/11/2006