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Luis Manoel Siqueira


 

Feitiço


A clarabóia dos seus olhos não esconde
um sonho triste do outro lado da vidraça
é como um tigre envolvido pela sombra
de um caçador que nunca encontra sua caça.


O circo inteiro já partiu de manhãzinha
sem perceber toda a tristeza do felino
a fera presa no jardim do seu vestido
era o meu sonho de amor quando menino.


Alguém de negro joga cartas sobre a mesa
a um marinheiro de gravata azul marinho
o rei de copas sai da carta e o tigre mata
e o marinheiro se transforma em passarinho.


Por muito tempo esse feitiço foi cumprido
e vem de noite arranhar a sua porta
como quem chora a perfeição desse destino
meio felino, marinheiro, gaivota.


(De: “A URGÊNCIA DE ANIMAR O CORAÇÃO”)
 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Goya, Antonia Zarate, detalhe

 

 

 

 

 

Luis Manoel Siqueira


 

O grande circo mexicano


Um dia, alguém escondido
algum emissário das sombras
pôs fogo no circo de lona
e incendiou meu passado.


As chamas que pela janela
queimaram a minha infância
gravaram por sobre a retina
lampejos no meio da praça
a dança de vultos, fumaça
os baldes de mão em mão
e alguém que chorando me abraça
no meio da multidão.


Quando um circo bom vai embora
então o milagre termina
para onde você foi, menina ?
com seu vestidinho florido
enquanto nas cinzas de agora
procuro o meu sonho perdido.


(De: “A URGÊNCIA DE ANIMAR O CORAÇÃO”)
 

 

 

Leonardo da Vinci, Embrião

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Nelly Novaes Coelho

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Thomas Cole (1801-1848), The Voyage of Life: Youth

 

 

 

 

 

Luis Manoel Siqueira


 

Bolsa de valores


Um caminho no sertão
vale uma avenida
e um cavalo, mesmo velho,
um caminhão.


Um banho de enxurrada
vale, assim, a própria vida
num açude ou corredeira pelo chão.


Um aboio de vaqueiro vale um hino,
e o pião de um menino
um avião.


Um chocalho de ovelha
vale um sino
e uma casa, mesmo velha,
a solidão.


Contemplar a natureza vale a pena
um poema vale igual a uma oração.


E o valor daquela estrela imorredoura?
que igreja se compara à manjedoura ?


(De: “A URGÊNCIA DE ANIMAR O CORAÇÃO”)
 

 

 

Leighton, Lord Frederick ((British, 1830-1896), girl

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Nauro Machado

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Jean Léon Gérôme (French, 1824-1904)

 

 

 

 

 

Luis Manoel Siqueira


 

Telegrama urgente para Solange Siqueira


Um dia você recebeu
uma boneca suíça
e resolveu que com ela
jamais iria brincar.


(Ela era bonita demais
diante dos outros brinquedos)


O tempo passou e lhe fez
boneca mais que suíça
Aquela menina morena
que adorava cantar.


Mas Deus mudou seu caminho
brincando de marionete
(Que dados estranhos ele joga
no jogo que só ele ganha?)


Nublaram as suas idéias
do sonho de ser feliz
e os cães paramentados
fecharam as portas dos templos.


"Aqui não pode ficar
quem faz o livre-pensar
e pra poder frequentar
somente usando o crachá"


As suas mãos revidaram
criando flores de prata.


Agora o jogo termina
e como sempre acontece
o vencedor se recolhe
ao seu silêncio profundo.


Escuta um conselho do amigo:
não entre no céu loteado
do clero esclerosado.


Procure um planeta florido
e um anjo assim distraído
que saiba tocar violão
e espera por teu irmão:


- Eu levo a boneca comigo.

 




Notas Explicativas (Ao modo Soares Feitosa)

1. Numa viagem de meu pai àquele país, deu-lhe uma boneca belíssima.
2. Solange, assim como a boneca, também era.
3. Deus brinca de boneca com a gente e com "dados viciados".
4. A boneca e a dona se confundem. Só que uma canta e é moreninha.
5. Aos vinte e três anos, Solange apresentou problemas psiquiátricos graves Esquizofrenia. Mesmo assim, terminou o curso de Arquitetura e noivou com um amigo de infância. Mas eu e ela, desde os 17, havíamos deixado de freqüentar igrejas protestantes. Por pedido de meu pai, ela voltou a essas igrejas para casar lá, mas elas se recusaram pelo fato de termos nos afastados. (Meu avô era pastor presbiteriano e construiu várias igrejas no sertão — veja a ironia).
6. Solange por muitos anos desenhou jóias e ficou muito conhecida no Recife como designer.
7. Agora, a morte. E o vencedor se recolhe...
 

 

 

William Bouguereau (French, 1825-1905), Reflexion

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Dalila Teles Veras