Mais de 3.000 poetas e críticos de lusofonia!

 

 

 

 

 

Ana Cristina Souto


 

Finjo Ser


Feliz e amaldiçoada
nuvem e metáfora
casta e cortesã
aberta e fechada
sã e bipolar

solidária e indiferente
mortal e reencarnada
caça e predadora
fêmea e macho
reservada e depravada

libertária e enclausurada
ninfa e hetera
céu e inferno
autoritária e submissa
punhal e espada

presente e passado
anja e diabólica
idônea e inescrupulosa
enigmática e decifrada
terra sólida e areia movediça

flor e espinho
cultuada e desacreditada
luz e escuridão
criança e anciã
silêncio e trovão

vinho e cachaça
dolorida no prazer e prazerosa na dor
água e óleo
berçário e caixão
mármore e pedra-sabão

paz e guerra
bíblia e alcorão
bálsamo e arsênico
metal e plástico
matéria e átomo

oásis e deserto
tinta e sangue
carta e bilhete
branca e negra
humana e animal

perfeita e amputada
abstêmia e alcoólatra
muralha e telhado de vidro
livro e gravura
brisa e tufão

Ana Cristina Souto e Ana Cristina César
companhia e solidão
viva e parasita
fogo e fumaça
carroça e avião

moderada e exacerbada
sincera e mascarada
corajosa e covarde
fadigada e incansável
sereno e tempestade

eu e você
bússola e perdição
concreta e abstrata
princípio e fim
secreta e poeta.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Ana Cristina Souto


 

Fio da Suspeita


Todos de pé!
Como se declaram?

Culpados!?
Inocentes!?

- Não! Isso não!

Somos apenas cúmplices
- de um crime de amor-perfeito...

 

 

 

William Bouguereau (French, 1825-1905), Reflexion

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Donizete Galvão

 

 

 

 

 

 

 

Jacques-Louis David (França, 1748-1825), A morte de Sócrates

 

 

 

 

 

Ana Cristina Souto


 

Insônia


A ansiedade maltrata
essas pálpebras cansadas.
Agonizo minha insônia com presságios
- ilusões defuntas.

Teço os olhos em teias de aranhas
Tortura infinda;
Desfaço meu sonhos em cinzas.

- Sono afã –

Busco-te à exaustão;
devorando livros
e em cada página
as horas esvaem-se em minutos.

- Insônia
      Ah! Ladra das noites!

Chega a manhã com o canto dos pássaros.
Minha vigília e aflição
estampam
- além dor
      minha face cotidiana.

 

 

 

John William Godward (British, 1861-1922),  A Classical Beauty

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Ronaldo Costa Fernandes

 

 

 

 

 

 

 

Riviere Briton, 1840-1920, UK, Una e o leão

 

 

 

 

 

Ana Cristina Souto


 

Lenda Medieval


Te quis mais que a própria vida!
Supri o falso amor.
Me desfiz rubra de medo ao teu não!
Tua farsa envolveu minha incontida alma
e o teu sim, fugiu às regras do meu desatino.

Foste um tolo desprezando o meu amor.
Me ofendeste com palavras impuras,
me desvencilhaste do teu rol de amantes;
tornando meu acalanto, em pranto, em toada.
Consagrando minha Terra Perdida.

Não há mais tempo para nós dois.
Sonhei por alguns instantes, eu sei!
Mas não temi tal desafio,
que há muito eu já previa,
ao teu doloroso golpe,
das horas vivas que matei contigo.

Em busca de respostas suicidas
quebrei a cabeça em 5 mil peças
mas nunca entendi,
por que depois de tanto encorajar-me a amar-te
te escudaste em tamanha resistência?

Tenho apenas teu vulto na memória.
Adormecido! Inatingível!
Resgatei teu lado sombrio
das paixões de emboscadas infernais
dos sofrimentos nos porões medievais.

Tu foste o mais indigno do meu amor!
Jamais chegaria a um Persifal,
que lutaria mil batalhas para me salvar
'Que venha a vida ou a morte’ só para ao meu lado estar

Clausura nos meus versos
refeita no meu faz-de-conta
não vivo a solidão imensa de um luar de agosto.
Na busca dos meus idos dias de descompasso
caíram máscaras das preces e promessas

Agora sim!
Virei ao avesso!
E nesse instante de lucidez
eu me sinto e me consinto
feliz a brindar e me embriagar de absinto.

E as palavras que a ti reservei
perderam-se nos atalhos dos caminhos.
Sepultados estão os dias de agonia.
Ceifo lírios dos secretos jardins...

Enfim, passaste em lembrança
acorrentada em calabouços.
Não foste tu a arrancar
a ‘espada da minha pedra’.

 

 

 

Rafael, Escola de Atenas, detalhes

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Ruy Camara

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Ana Cristina Souto


 

Mistérios da Alma


Só serei tua numa condição
- Que seja tua eterna amada!
Teu olhar só exilará o meu
e nos momentos de crise conjugal
sejamos cúmplices de nossos espasmos.

Se por ventura, tu desejares entender a minha alma
lamentarei tudo que vivemos,
pois alma de mulher é - i n d e c i f r á v e l -
Sendo assim,
para ti, serei apenas um disfarce.

Não percamos a pureza infantil!
Não divaguemos o que seria impreciso.
Nos embriagaremos de absinto;
e me unificarei ao teu universo paralelo
como imperatriz do teu Amor

Apenas aconchegue-me em teus braços;
minha morada,
espaço em que farei minhas queixas;
é sempre neles que preciso estar
nos meus momentos de dor ou ternura

Não importa o meu passado!
Importa apenas o momento presente.
Os tropeços dos meus caminhos
perderam-se nas areias duma ampulheta
- Há tempos rasguei as horas (in)vividas

Meu amor! Não procure me entender.
Tenho TPM!
Tomo ansiolíticos para dormir;
falo pelos cotovelos e ainda por cima,
Não sei fazer café.

Para não termos tais conflitos extremos,
ame-me com todas as ilusões incalculáveis.
Olhe-me e sinta-se mais perto da vida.
pois te amarei perdidamente
e te erguerei um pedestal colossal.

Não será em qualquer cama
que nosso amor despojará...
Serão em lugares etéreos
que consumaremos nossa comunhão carnal
e te depravarei com meus enigmas de fêmea

Vamos ficar mesmo nas entrelinhas de vãos pensamentos.
Não queiras saber de mim, que farei o mesmo por ti.
Apenas cubra-me com lençóis brancos
desses guardados em baús de fantasmas
e sigamos avante com nossos amargos ou doces mistérios.

 

 

 

Frederic Leighton (British, 1830-1896), Antigona

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João Soares Neto

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Ana Cristina Souto


 

Daquela Noite


Foi ali amor
- no dorso da noite –
A lua nos olhou indiferente.
Claridade impostora.
Entre o céu e a Terra
o corpo pairava no ar
e caía no abismo dos teus braços
abraçando minha alma.
E a ti entrelaçada
minhas pernas abraçavam o mundo
- ao redor de nós -

Nascida em teu corpo
depois da escalada
ao cume dos meus seios
dispersamos a inveja
fitada da multidão

Antes que revelem
o que diriam de nós
à falta de pudor
- que não nos suplicia -

        Em algum lugar
          ainda assim estarei em ti
             na nudez dos teus sentidos;
                 À miragem final daquela noite...

 

 

 

Michelangelo, Pietá

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Floriano Martins

 

 

 

 

 

 

Poussin, The Nurture of Bacchus

 

 

 

 

 

Ana Cristina Souto


 

No cume da noite


Rompo o tempo com uma canção de bolero
Persigo minhas presas como uma pantera faminta
Saboreio a caça com total serenidade
Converto meus anseios em fome saciada

Renego às memórias ancestrais
Venço o dia com o suor do meu cansaço
Glorifico cada instante como sendo o último passo
Concebo o mundo como um enigma decifrado

Evoluo com a idade do calendário
Experimento a insensatez da lúcida esperança
Distraidamente chuto as pedras do caminho
E desbravo horizontes com a minha peregrina jornada

Fujo de mim e esqueço inúmeras verdades
das sombras e das escuridões
Uma ilusão alada
Encorpora-se ao meu coração

Permaneço em repouso
Um cheiro de ervas inebria o luar
Escalo cumes para tocar as estrelas
E finco minha bandeira na noite devassada.

 

 

 

Da Vinci, Cabeça de mulher, estudo

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José Aloise Bahia

 

 

 

 

 

 

 

Poussin, The Triumph of Neptune

 

 

 

 

 

Ana Cristina Souto


 

Página Virada


Dos momentos perdidos e vividos
Convivemos em aparente comunhão
Fingindo ser felizes
À síntese de um vão contentamento

Nossas vidas
Nossos destinos
Não estavam traçados
E sim, amaldiçoados!

Dos diversos infortúnios
Em que a vida me infernizou
Tu foste o mais cruel castigo;
- Meu cálice letal -

Chorei cada queixume
Sem começo, nem fim
E eis-me agora a caminhar
Tendo que levá-lo comigo
nas entranhas das minhas páginas de livros de sebos

Desfolhadas ao léu
Empoeiradas pelo tempo
Corroídas pelas traças
Imersas de inspirações e aspirações
Por pessoas que jamais conhecerei em minha vida.

 

 

 

Leonardo da Vinci, Embrião

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João Batista Oliveira Filho

 

 

28/11/2006