Jean Léon Gérôme (French, 1824-1904), Morte de César, detalhe

 

 

 

 

 

Três jovens poetas goianos conversam com Soares Feitosa


Carlos Willian Leite, Francisco Perna Filho e João Aquino Batista, três jovens poetas goianos, entrevistam o editor de poesia, Soares Feitosa. Goiânia-Fortaleza, em 5.3.2005, por email:

Continuação

 

14. Carlos Willian Leite - E Paulo Coelho é literatura?

SF: Poeta, o século XX foi o século do desespero, oriundo da desesperança dos bodelés e dos rambôs, agravada pelo desencanto niticheano para quem legítimo só o super-homem. Ah, meu caro Willian, o que fazer com essa escumalha, judeus, nordestinos, palestinos, os mal-amados, os baixotes e feiosos como este seu amigo aqui, barrigudo e de cabelo pixaim? Sim, isto mesmo, o que seria de nós? E, por seu favor, você, goiano (Brasil?), não se considere fora da lista dos enjeitados. Ante tamanho horror, imperioso surgissem “esperanças”, ainda que todas falsas: nazismo, comunismo, fascismo, integralismo e mais uma centena de outros ismos, inclusive o concretismo. O século XX assistiu, como nenhum outro, à derrocada das certezas científicas. Espie num avião, um bichão daquele tamanho, avoando igual a um passarim – quem acreditaria? Einstein e outros monstros do saber puseram abaixo todas as certezas. A complicar, ainda aparece um certo Vintém-não-sei-o-quê e diz que a filosofia seria apenas uma patologia da linguagem (Ludwig Wittgenstein). E Freud, tanto pior, a garantir que os meninos, ainda na barriga da mãe, estão todo o tempo a imaginar safadezas para tomá-la, mãe, do pai, matando-o. Tanta confusão e incertezas, muitos caíram em descrença, como quem passa um apagador na lousa. Crucial surgissem as crenças, muitas, de reposição, uma atrás da outra, Duchamps e penicos. Apareceu até um “profeta”, doido como todos os profetas, um certo Jim Jones, um norte-americano que provocou um suicídio coletivo de centenas de pessoas aqui na América do Sul, na Guiana. Mas, saciadas as novidades, adveio a certeza de que era tudo fraude, Stalins, penicos, Hitlers, Picassos, Fidéis, latas de sopa, Pol-Pots, Pinochets, os generais daqui e os de lá. Um grande vazio tomou conta do mundo no final do século XX. Dois gênios surgiram a preencher o caos: Paulo Coelho escrevendo, e sua reverendíssima, o bispo Edir Macedo, pregando. Tenho que tirar o chapéu, mas nem uso chapéu algum: gênios, ambos! Com direito ao Nobel, digamos um Nobel da Paz. Por que não, também o de Medicina? A cura! Sim, meu caro poeta, você não imagina o bem interior que a leitura do escritor e a mensagem do bispo a quem passou a vida acreditando num ideal subitamente morto. Prozac? Melhor ouvir sua reverendíssima! Apavorações com o giro do mundo? Melhor peregrinar com o mago e chorar bem sentadinho à margem do Rio Piedra! Veja, poeta, o Roberto Freire, político do Recife, um cara para além de sério, corretíssimo, inatacável como homem público, passou a vida toda pregando o comunismo como o maior bem do mundo. Num segundo, o comunismo desaba. Fazer o quê? Ler o Paulo Coelho! Nem sei se ele o lê, e se não lê, não sabe o que está perdendo. Há mais um, o monge Boff. Puxaram-lhe, de uma hora para outra, o tapete. O que fez o frei? É um novo Paulo Coelho, menos místico é certo, do mesmo saco porém, farinha fina, escrevendo sobre galinhas e águias, ele, é claro, a águia; nós, as galinhas. O Bilgueites exporta tecnologia?! Pois nós exportamos esperanças, galinhas e novelas. O resto é apenas inveja dos cifrões do mago e dos milhões de sua reverendíssima. Lanço a idéia de o Banco Central premiá-los urgente. São milhões de dólares que o Brasil carreia  por conta dessa dupla, Edir e Paulo. Agora, se o Coelho vai continuar a ser lido quando essa fase de "desconsolo" passar, eu não sei não. Aliás, sei. Lá em casa [casa de minha mãe], havia um livro de um certo Orizon Swift Made. Nunca mais soube dele. Era do ramo "conselhos". Nem daquele outro, das amizades e influências — também "conselhos" —, simpaticíssimo, Dale Carnegie. Muito menos de Humberto de Campos. Nem do Laranja Lima. Tenho que literatura não é  "conselho", mas a abordagem do humano, lá dentro, faca bem afiada cortando tão fino que a gente nem o percebe. Literatura? Coisa naturalmente muito fácil de fazer... desde quê. Desde que o quê? Pergunte a Dostoievsky.

 

15. Chico Perna - PSI, a penúltima - com quantos mandacarus se faz um candelabro?

SF: Veja, o poema funda-se todo numa notícia de jornal, o Diário do Nordeste, uns cinqüenta, cem mil exemplares, não faço idéia quanta gente leu, mas um só escreveu. Os demais, desconfio, passaram batidos àquela notícia. Em suma, há de ter todos os mandacarus do mundo para fazer um Psi-candelabro; há de ter mandacaru nenhum para fazer um Psi-candelabro. O Menino nunca andou em Paulo Afonso, mas ele a descreve com força tal que você, quando se dá conta, já está lá dentro. A várzea dos touros e garças, na tarde rubra do Velho Chico, meu caro Chico! Tudo resume-se, parece, ao sinistro “desde quê”, tal como naquela maldita história dos talentos, do Cristo, vide Mateus, «a quem já tem, tudo se lhe será dado; e de quem não tem, tomar-se-lhe-á o que não tem». O Menino, tinha-os todos! O resto é Bilac e Haroldo de Campos falando mal dele.

 

16. Carlos Willian Leite - Qual o grande poema brasileiro?

SF: O Navio, de Antonio Frederico Castro Alves. Ninguém lhe foi maior. É o gênio da língua. Outra expressão grandiosa, Cruz e Souza, pena que não se tenha assumido da negritude. Ninguém escreveu mais branco, parecia um concurso de sabão em pó a disputar a brancura de um tanque de roupas. Contudo, ainda que branquelo, o gênio sopra em Cruz e Souza. Um registro em prol de Augusto dos Anjos, embora eu lhe desgoste o lado triste, lúgubre e crepuscular. Nem sei com que coragem me atrevo a expressar uma opinião destas. Outro dia, a Folha de São Paulo correu uma enquete entre os poetas brasileiros. Os meus, acima, levaram chumbo. Elegeram Sousândrade. Com todo respeito, nunca consigo passar do primeiro verso desse maranhense ilustre. Não estou nem aí! Gosto porque gosto, não porque tenha ouvido dizer que a senhorita Bíundinchen gostasse, que aliás, nada ouvi. Uma moça muito distinta, essa Bíundinchen. Dia destes, a sandália despregou-se-lhe em pleno desfile. Ela continuou desfilando, com a alpercata pra lá e pra cá, pendurada no mocotó, como se nada tivesse acontecido. Impávida “colossa”!, meu caro poeta, com todo respeito! Aquilo é que é classe! Poema em estado puro! O resto é barraco. E palavrão. E o tiro do juiz. Bem na nuca! À queima roupa, aliás, à queima-cabeça. Diz ele que teria sido acidental. Acidental?! O perito disse: «Sumária! Execução clássica, sumária». As mãos postas, implorando, a vítima. Pou!

 

17. Carlos Willian Leite - E o grande poeta?

SF: Antônio Frederico Castro Alves, ainda que sob a maledicência de Bilac, no passado, e de Haroldo de Campos bem recente. Castro Alves é o POETA. Outro dia, fui ver a tradução da Ilíada, de Haroldo de Campos, que o Deus o tenha em Sua "gulória". Pois lá estava, na última estrofe, a mais bela de todo o poema, quando Homero canta em onda alta o final de Heitor. Haroldo seguiu as pegadas da péssima tradução de Odorico Mendes, que apelida Heitor de “doma-corcéis”, expressão que não existe no falar brasileiro. Aqui, Brasil, meu caro poeta Carlos Willian, você que é quase pantaneiro, sabe que a maior patente do sertanejo é a de «domador de cavalos». Assim mesmo, a expressão forte, do coração para cima: domador de cavalos! Esta outra, “doma-corcéis”?! Por Zeus! Evidente que o compêndio da tradução, de rica expressão gráfica, do doutor Haroldo retornou à prateleira feito um relâmpago. Se você está pensando em me presentear com um exemplar, mande, por seu favor, uma manta de carne de sol com duas garrafas de manteiga da terra. Sal, fogo e azeite — precisa mandar não, dou jeito por cá. Voltemos a Castro alves. No Navio há uma mágica ligação do Menino com a Quinta, d’ELE, via Beethoven. Muita gente desavisada pronuncia “Estã...”, quando o correto é iniciar o poema, pode contar as sílabas, com “Tã...!” Agora, por favor, tente pronunciar o “tã”, nada a ver com a empresa de aviação. Veja, a língua vai-se postar no palato, à raiz dos incisivos, para se explodir, mantra universal, ...! É d’ELE...! A do Destino, também conhecida como Quinta, Tã-tã-tã-tãann! Direto d’ELE para as oiças surdas daquele surdo muito doido. Quem copiou quem? Ninguém! Quinta e Navio, ELE que entregou-os, gratuitos, sem intermediários, com Suas próprias mãos, ao surdo, ao Menino. No Navio, há mais, muito mais, veja isto: «Auriverde pendão de minha terra/ que a brisa do Brasil beija e balança...» Pergunto, a terra, quantas são as terras em Castro Alves? Em primeiro, a terra do Menino, um solo utópico, Geo, Geia, Gaia, auriverde de riquezas e esperanças, com todos esses nomes bonitos que ecologistas saíram a inventar; mas há esta outra, nada utópica, a do Brasil, aqui, debaixo dos nossos pés, uma terra carrasca, madrasta, escrava, banal, cruel. Há infinitas coisas outras no Navio. Faço um ensaiote, já disse, mostrando as “rimas do lado de fora”, os “ascendimentos”, os “acendimentos”. Quando aprontar, avisarei.

 

18. Chico Perna - Qual é a importância da oralidade para poesia brasileira?

SF: Brasileira? Claro que a oralidade é fundamental à poesia, não apenas à brasileira. A escrita só veio a ser inventada muito recentemente. No Nordeste, muitos cantadores de prestígio não sabem ler. Alguns até sabem, mas lêem muito engraçado. No meu tempo de menino, eu também lia assim, «pantasma», que era como se escrevia “phantasma” na ortografia dos cordéis antigos. Um dia, assisti a uma discussão de que «pantasma» seria um bicho muito mais perigoso do que fantasma. Chamado a opinar, desempatei pró-pantasma, meu caro Chico, um bicho muito mais terrível. Poesia visual tem oralidade? Claro que não. Apenas um pantasma, perdoem-me os concretos, que já não assombra nem um pouco. mas ainda faz muito barulho. Parece que só no Brasil. Poeta Francisco, naquela minha caminhada silenciosa de cinqüenta anos, houve um momento que, de tão desesperado com os concretos, me segurei nos cantadores, precisamente no grande Orlando Tejo, com o seu magnífico Zé Limeira, O Poeta do Absurdo. Ali eu tive a certeza de que a Arte não morrera. Escreviam os incautos que a poesia estava morta. Não! Não estava. Nunca esteve. Nem morrerá. Eles, sim, cum Christo!

 

19. Carlos Willian Leite – O Rodrigo Petrônio disse em entrevista publicada no Jornal de Poesia que o Paulo Leminski era um lúdico barato e que o Chico Alvim era um Jeca Tatu inventado pela Folha de São Paulo, concorda com ele?

SF: Devem ser! Nunca me pari de amores por aquele Leminski. Aforismos de frases curtas, o dedo em riste. Prefiro ler o Livro das Lamentações, Provérbios, Eclesiástico, Eclesiastes ou o doido Jeremias e sua jumenta esturrando ao cio das primeiras chuvas, no deserto. Contudo, a convivência obriga-me ao respeito. Há quem goste. Por que ofendê-los? Viva o poeta Leminski! [Viva Bilac! Viva o poeta Haroldo Campos!] O outro, Alvim, já escrevi para ele diversas vezes, nunca me respondeu sequer convite enterro. Não pode prestar! Perdão, pode sim! Ele é amigo da Maria Maia, de Brasília, gente minhíssima e grande poeta. Pelos santos, e não são poucos, inclusos São Francisco do Canindé e Santa Maria Maia, vivo beijandoMaria Maia e abraçando urtigas, cansanções e cururus. Quem sabe, esse Alvim seja dos bons. Cururu coisa nenhuma! Deve ser dos melhores. Aliás, dos ótimos! Claro que é! Viva a poeta Maria Maia! Viva o Alvim! Nunca li nada dele. Um amigo me disse que um poema dele é assim, só isto, nem uma letra a mais:

                    Mas
                    é limpinha.


Poema? Deve haver um engano. Do meu amigo, é claro. Se o Alvim aparecer aqui farei festa, festa grande. É de lei. Se você vai fazer uma festa, que a festa seja decente. Sou do sertão, já disse! O Rodrigo Petrônio? É um cara de altíssimo valor! É jovem. Aposto um monte de fichas nesse Petrônio. Garanto-lhe festa. Das grandes!

 

20. João Aquino: Você só começou a escrever na maturidade. Para referência aos seus milhares de admiradores no Brasil inteiro, quem você nomearia, individualmente, como seu herdeiro poético?

SF: Veja, meu caro poeta Aquino, os poetas são duas famílias: os crespusculares, do triste e do soturno; e os aurorais, alienados certamente, loucos que andam achando graça sem ver de quê. Acho que não há meio termo. Mais de 90% dos poetas, dos melhores poetas, são do triste e do sortuno. «Minha alma é triste»  — já estou ouvindo alguém recitar. O Menino, assim o chamo carinhosamente, é auroral. E Pessoa, quando travestido de Álvaro de Campos, e Whitman, e Jó. Como negar que Jó é um super-poema dos mais belos que o engenho humano já produziu? Os aurorais estão em franca desvantagem numérica. Por isto é que é tão fácil falar mal do Menino. Outro dia, um escritor até muito bom nos ensaios, Flávio Kothe, desceu a ripa no Menino, que seria plagiário de Heine. Nada, absolutamente nada a ver! Pois bem, recebi recente um livro belíssimo, do Mayrant Gallo, da Cidade Bahia, muito bom poeta, famoso em todo o trecho. Vejamos, pois, este belo poema de Mayrant: 

CEDO

O rapaz que entrega jornais

é o primeiro a se levantar

mas você não sabe.

 

Noite ainda, sol ou chuva.

 

É o primeiro e de moto percorre

toda a cidade.

 

Enquanto você dorme,

enquanto você morre.

 

O poema faz o maior sucesso! Ilustra a 4ª capa do livro de Mayrant, um livro muito bonito. A revista Iararana, do meu amigo Aleilton Fonseca, um grande poeta, publicou-o com destaque. Merececidamente. Parabéns, meu caro Mayrant! Quando o li, disse aos meus botões: Que bom, o entregador de jornais agora tem moto! No meu tempo, entregava-os a pé! Pois enquanto o Mayrant vê só-desgostos ao jornaleiro, vejo-lhe a vitória de uma moto, pra cima e pra baixo: vruuummm...! Certamente, o Mayrant não quer que eu vá, nem ele vai por mim, bem cedo, pegar o jornal lá na redação, a muitos quilômetros daqui de casa, ainda que manhã bem calma, tanto pior se for chovendo ou fazendo sol, ou no “casamento da raposa”, que é sol-com-chuva ou chuva-com-sol, tanto faz. Ele diz que eu (leitor) não sei que o rapaz da moto, desde muito cedo, está no trabalho enquanto eu durmo. Claro que sei, meu caro poeta Mayrant. São as tarefas do humano, as tarefas da noite, as tarefas do dia. Os animais não se revezam em turnos, só o Homem. As galinhas, todas de uma vez, mal escurece na fazenda, caem no sono. Os galos, todos os galos do mundo, acordam o dia na hora exata, vide Tecendo a Manhã, belíssimo, de João Cabral, e Rio Macacos, do filho de véia minha mãe. A prevalecer a reclamação do poeta Mayrant, os hospitais não atenderão à noite, nem os padeiros aprontarão o pão da manhã. Sequer teremos jornais matutinos, da madrugada, manhã. Evidente que, depois da tarefa noturna, quem as faz de noite, tem que dormir de dia. No meu tempo de jovem, 18 anos, tomei conta de uma redação de um pasquim local, da política, varando a noite inteira. De manhã bem cedo, numa hospedaria muito modesta da Rua General Sampaio, o Hotel Brasília, jogava este corpo aqui em cima de uma cama, a dormir feito um gambá. Aliás, nem sei se gambá é bicho bom de sono. Sei que é muito bom de catinga, assim eu, que as águas eram poucas e os banhos escassos. Não sei se a catinga do redator é que levou o político ao insucesso, um certo Pequim, boa gente, mas levou chumbo, chumbo grosso. Se o candidato tivesse ganho, ainda hoje estaria eu mourejando na prefeitura, ou, quem sabe, na política, seria um senador, um presidente da Câmara ou do Senado. Ora, ora! Também sou nordestino, igual ao Renan e ao bravo Severino. Pois quando acordava, ainda morto de sono, era levantar feito um gato, almoçar bem ligeiro, pegar um monte de livros, metê-los debaixo do braço a sovaqueá-los até dizer chega, livros, que nada nos cai gratuito dos céus, e a gente aprende mesmo é pelos sovacos, nem que seja ao rigor das muletas, a Srª. Dona Vida, de professora. Meu caro poeta Mayrant, não consinta que esse cabra do seu poema falte ao serviço, a me deixar sem jornal. Ligarei reclamando meu exemplar, inclusive para você. No segundo dia, se o dorminhoco repetir a proeza, cancelarei a assinatura e me mudarei para a concorrência. Se o entregador do jornal concorrente também for "descansado", terei a certeza de que a praça comporta um jornal de gente ligeira, com sangue no olho, dormindo na hora que é para dormir, acordando na hora que é para acordar. De moto, poeta Maytant, eu, entregando os jornais: vruuummm! E, durante as entregas, entre um jornal e outro, passarei na porta dela (vide sanfoneiro Dominguinhos, com o som à toda altura), detonando os escapes, pruuuunnnmmmn! — que era assim que os pleibóis do meu tempo faziam, eu liso, um pé-rapado, só olhando, de pés. Veja, meu caro poeta Aquino, o Mayrant encerra o poema afirmando que eu (leitor) estou morrendo. Qual é o mal de estar a morrer? Morrer também é bom, meu caro Mayrant, vide Estudos & Catálogos – Mãos:

Ah, meu caro Vergilius – Nunes Maia ou Publius Maro, tanto faz –, a legitimidade do nosso canto é tão-só a sustentar o júbilo. Se cantamos a vida, cantemo-la como a não-morte; se cantamos a morte, que seja um psalmo de ressurreições.

Poeta Virgílio, creia-me, o catálogo das mãos é inesgotável porque as mãos dos novos hão de garantir as nossas mãos. Por sobre, sempre por sobre; assim tem sido.

 

Poeta João Aquino, o poema de Mayrant é perfeito, afinal verbera contra a “injustiça” de alguns dormirem enquanto outros trabalham. Atende perfeitamente ao plano utópico, do Paraíso, é claro. Nem sei se por lá os anjos dormem ou passam dia e noite cantando benditos. Muito menos se há motocicleta ou "doma-corcéis" por lá. Por Zeus, se tiver “doma-corcéis”, dispenso minha vaga. Ah, ia esquecendo, meu caro poeta Aquino, o termo médio que você referiu na pergunta, percebo agora que ele existe. Tomemos este exemplo em Álvaro de Campos, Tabacaria, que, para mim é pior poema de Álvaro Campos, mas é o que mais agrada ao soturno geral, a crepuscular clientela da poesia, poetas e leitores. Tabacaria começa com maldições do tipo «não valho nada, não sou ninguém», um tom de ressentimentos e tristeza, mas no final... Ah, meu caro poeta João Aquino, no final a aurora escancara-se, explodindo-se de pura Aurora: Esteves, o da Tabacaria, ele sorriu. É o gênio de Pessoa: a tristeza absoluta... uma luz bem fininha (suficiente, porém) no sorriso de Esteves — auroral!

 

21. Carlos Willian Leite - Se o que sobra da literatura é a literatice, o que sobra dos Blogs de poesia, é bloguice?

SF: Sou a favor dos blogs. Um crítico local, Manoel Ricardo de Lima, escreveu que o poeta Adriano Espíndola era ótimo porque publicava no Rio de Janeiro. Adriano é excelente poeta e amigo meu, mas nada a ver com o local em que editou seus livros. Indaguei ao crítico local onde o livro de Jó e o livro de J (o supremo poema da fundação do Gênesis!) foram publicados. O blog serve para romper esse círculo perverso em que o autor não tem, até mesmo pela distância geográfica, acesso aos jornais da corte. O poeta cria o dele, blog, divulga-o para os amigos. E nada mais fácil que fazer uma mala-email. O problema é que não há tempo para ler tanta coisa. Sou a favor dos blogs. Inteiramente a favor. Abaixo os colonizados, lobotomizados, que só vêem o bem, o bom e belo se for de fora, das estranjas, no mínimo da corte, Rio e São Paulo, uma indigência em todos os sentidos.

 

22. Carlos Willian Leite - Existem as gerações de 70, 80, e 90, mas, mesmo já estando na metade da década, ainda não existe a geração de 2000. Há uma crise criativa na poesia brasileira atual ou isso é culpa da Internet que nivelou todo mundo?

SF: Franca palhaçada, isto de gerações. Não as creio. De que geração é o cantador Chico Pires, um bardo nordestino nascido na Inglaterra? E Cervantes? E Castro Alves? Gerações? Um tema muito ameno ao Pedro Lyra, meu amigo, que fez uma antologia com os amigos dele, naturalmente. Comigo não que ainda não era amigo. Botou alguns até já ultrapassados de idade na suposta geração escolhida, mas assim é que se faz: amigos! Acho uma bobagem isto de saírem por aí enfiando grilo em cordão, os taxonomistas, tudo gente do op-cit: você é preto, você é judeu, você é palestino, você é nordestino, classificações que nada têm a ver com a face do Homem, o espelho de Deus, à Sua imagem e semelhança. [Sem esquecer o juiz matador. Sim, nele também, a redimir e a alevantar, o rosto de Deus.] E cá para nós, "classificações" que nada têm a ver com o DNA, todos iguais, nós, desde a mais escurecida savana africana até o mais louro dos viquingues. Geração do poeta? Ora, ora! O poeta, se Poeta for, não tem geração, posto que gerado de dentro da terra, desde os tempos, gerando o seu próprio tempo, continuando-o, mãos sobre mãos, nesta ciranda mágica, o Conhecimento, o Homem, a partir do dia em que descemos das árvores, até o dia em que este planeta glorioso submergir nas trevas da entropia. Pergunte a Dante.

 

23. Carlos Willian Leite – Poeta, na pergunta nº 3, "Em qual Igreja o senhor reza?", quis dizer literariamente. Aqui em Goiânia está cheio de igrejas literárias. Qual a sua?

SF: Poeta, desculpe-me ter metido os pés pelas mãos. Aqui, Ceará, não freqüento igrejas, nem de clérigos, nem de poetas. Saio muito pouco de casa ou do escritório e não vou a nenhum lugar sem ter sido enfática e insistentemente convidado. Entrar de "penetra"?! Nem no céu! Pois bem, no meu tempo de Bahia, 1994-1998, um tempo bom, anote aí, por seu favor, estes nomes: Maria da Conceição Paranhos Conceição Paranhos, Luís Antonio Cajazeira Ramos, Gerana Damulakis, Hélio Pólvora, Carlos Cunha, João Augusto Sampaio, Aleilton Fonseca, Ruy Espinheira, Ildásio Tavares, Aramis Costa, Florisvaldo Matos e mais uns três ou quatro gatos pingados — estes os meus na Cidade da Bahia. Freqüentávamo-nos. Vieram-me depois, lá, o Inácio Melo, a jovem poeta Vanessa Buffone e o Cancão de Fogo, meu amigo Miguel Carneiro. Em Pernambuco, meu convívio de poesia foi praticamente nenhum. Era açougueiro e auditor, ambientes em que a poesia pouco circula. Mas havia bons nomes dentre os meus colegas de repartição: Diná Gasparini, Manoel Ambrósio de Queiroz Neto, Lourival Francisco de Souza, Pedro Nunes Filho, Joel Marques da Silva e Suely Annunciato. Dentre os poetas estabelecidos, resumi-me a César Leal, Francisco Brennand, Weydson Barros Leal e Sébastien Joachim. Disse "resumi-me" porque só vim a conhecê-los, no Recife, quando já estava transferido para Salvador. Anote mais, por favor, do Recife: Majela Colares e Cláudio Aguiar. Deve estar faltando nomes, que véio é véio. Para que, meu Deus, fui-me meter a citar nomes?! Anteriormente a 1993, não freqüentava nenhum ambiente de poesia, nem tinha livros de poetas modernos em casa. Aqui no Ceará, eis os nomes: Artur Eduardo Benevides, Francisco Carvalho, Juarez Leitão, Dimas Macedo, os irmãos Maia, Virgílio, Luciano e Napoleão; os Rodrigos, o Marques e o Magalhães, dois jovens poetas de grande prometimento, e mais uns poucos que a velhice me obriga à injustiça de esquecê-los. Ah, veja estes dois, estou mesmo caduco: José Alcides Pinto e o Sinésio Cabral, espie só que esquecimento imperdoável Eipa, eipa, ia esquecendo o Paulo de Tarso Pardal e o Floriano Martins, uma bela parelha de amigos. Ah, meu Deus, que bobagem esta minha de cair na gelada de citar nomes! Faltam: Pedro Henrique Saraiva Leão, Beatriz Alcântara, José Telles e Ruy Câmara. Como você vê, não freqüento maus poetas. Já no plano literário, a igreja de que me considero fiel é esta aqui: a igreja do lampejo do inefável. Se tal templo existe, não faço idéia. Para mim, o poema pode ser triste, perverso, maldito até, mas há de trazer, preferencialmente bem dissimulados o acendimento e o ascendimento. Retomemos o exemplo de há pouco, Tabacaria, de Álvaro de Campos. Claro que é um super-poema! Toda aquela moldura de tristeza e desespero é tão-só para dar azo ao sorriso do Esteves. Sem aquele lampejo, Tabacaria, para mim, não seria nada. Tomemos outro exemplo: O Crime do Padre Amaro, de Eça. Nenhum romance foi tão anti-clerical. Pois bem, demonstro em Salomão que, pelo contrário, O Crime do Padre Amaro é um livro devoto, santificado, beato e carola, dois pontos. É que em meio a toda aquela patifaria de Amaro e do padre mestre, cercada por todos os lados por um clero absolutamente ímpio e corrupto, surge-nos, bem apagado mas luminescente, lá dentro dos matos, um santo, o abade Ferrão. Num único parágrafo, Eça nos descreve o bem-dentro-do-mal, o justo em estado puro, como se fosse um Abrãao circundado de Gomorras, Ferrão, bom e justo, apesar do nome. Em Primo Basílio, também de Eça, outro lampejo da mesma estirpe: a bondade do amigo do marido traído, que jura de pés juntos que Luísa é pura e inocente. Ora, ora! Logo quem, a trêfega Luísa! E por aí vai. De Machado, em Cubas, a figura do bem naquela senhora que toma conta, honestíssima, do "refúgio" do casal. Em Capitu, o bem sem limites no agregado José Dias, para mim a figura central do romance. Capitus, Bentinhos, Escobares e demais patifes servem-lhe apenas de ornato e realce. Veja, meu caro poeta Carlos Willian, recebi recente um opúsculo artesanal do poeta Renato Suttana. O Livro da Noite, este o título; o email do Suttana também soturno: fantasmananoite@ig.com.br. Ele escreve, lá pelas tantas: «Vazio, branco, imerso em sombra e perplexidade, apenas alcanço constatá-lo, vendo que, lenta e lucidamente, estou sendo arrastado para baixo», pág. 37. Você acha pouco? Um novo Augusto dos Anjos no trecho? Isto vejamos, se sim, se não; parece que sim, parece que não. Saí catando e sublinhando em cada capítulo do livro de Suttana mínimos laivos de luminescência, uma tarefa quase impossível. Pois não deu outra! Por mais sombria seja a noite-Suttana, grifei: «...o morto optou pela sabedoria, erguendo...», pág. 9; «...esse fio de perplexidade por cima de um abismo...», pág. 14; «...olhando para o teto..., pág. 20»; «...a única meta é a madrugada..., pág. 23»; «...tudo o que faço é prosseguir..., pág. 24»; «...o dia é claro e nítido..., pág. 29». Já chega, não? Um poeta que se garante olhando para o teto, será qualquer coisa, menos crepuscular. Presumo que Suttana vá levar um grande susto quando ler isto aqui. Sabe-se ele um auroral? Quem, então, escreveu por ele em tom de auroras? [Faça um contato com o poeta, quem sabe, ele lhe presenteie umRenato Suttana exemplar do belo Livro da Noite! Basta clicar na foto, ao lado.] Acaso Eça sabia-se devoto, religioso, carola, quando demonstrou que o verdadeiro clero português era o padre Ferrão e não aquele bando de facínoras, espelhado em Amaro e Padre Mestre? Sei não, sei não, meu caro poeta! Tenho apenas isto para concluir: um mínimo risco de auroras num panelão de escuros é o contra-ponto, como se fosse uma gota apenas de luninescência, por mais insignificante, para pôr a perder todo o mal. Luminescência? Isto mesmo, meu caro Willian, a luz já estava criada anteriormente ao sol, à lua, às estrelas — Gênesis, capítulo inicial, confira por seu favor. Luz? Que luz seria, se não é a do sol, nem a da lua? Haveria, então, uma outra "luz"? É incrível, mas não é o mal que corrompe o bem. Pelo contrário, o mal sempre perdeu, sempre perde, sempre perderá, vide Auschwitz: de lá escapamos, ainda que a milhares de quilômetros de distância; comemoremo-lo, vivos, nós, que, afinal também morreremos. Os pósteros hão de ser melhores do que nós. Isto mesmo, meu poeta, melhores! Até outro dia, ninguém se atreveria a recriminar do tiro da "autoridade" na nuca de um ninguém-vigia de mãos postas. Hoje, sente-se a necessidade de garantir uma pensão alimentícia em favor do inocente, o órfão. Alimentícia, não seria um indenização apenas? A indenização, sem dúvidas! Mas a alimentícia também! Veja, o desatinado, no tiro, assumiu-se de pai quando o privou de pai. Pelo bem, pelo mal, agora é "pai". Se o tribunal vai conceder, é outra história. O próximo tribunal, ainda que só no Século Cem de Ésquilo (vide Salomão), há de conceder. Não é fácil, meu poeta Carlos Willian Leite, creia-me, descortinar o lampejo. É ele que, quanto menor e mais dissimulado, dá o grifo, o "sublinhado", da verdadeira obra de Arte. Esteves, o da Tabacaria, sorriu. Passe um risco debaixo, por seu favor. [Goiânia e Fortaleza, 5.3.2005]

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Da generosidade dos leitores:

 

Choveram comentários! Vale conferi-los um a um, cada qual abordando uma faceta diferente. Todos são-me caríssimos, mas este, do Rogério Lima, do meu modesto escritório de Direito Tributário, amigo e muito culto, advogado, não posso deixar de registrar. Nada escreveu, apenas falou.

Ainda era cedo, manhã. Tangia eu, calmamente, com o Michel, da área técnica do escritório, uma planilha de crédito fiscal. Com a advogada Manuela, discutia, também muito calmo, as contra-razões a um Recurso Extraordinário. Do estagiário Flavius, cobrava-lhe uma CND desesperada. Atendia os telefonemas que, no escritório começam ainda a caminho, no celular, que jamais o desligo. E preparava, eu mesmo, no computador, um duplo recurso ao Primeiro Conselho de Contribuintes, de IRPJ e CSLL. Aproveitava aquele dia relativamente calmo (?), para dar os retoques finais na 3ª Expedição da Biblioteca Cururu, para dali a pouco, 22.3.2005.

O advogado Rogério chegou. Seco e direto:

— Na minha escola primária, a professora dava a nota com um sinal de + (mais) ou com um sinal de - (menos), depois da nota. O aluno podia ganhar um dez, assim, 10+, uma nota superlativa. Podia ganhar um zero com o sinal de menos, 0-, que significava muitos graus abaixo de zero! Por isto, Coronel, dez-mais para a explicação do Paulo Coelho e do Bispo Macedo. Zero-menos quando o senhor diz que não é religioso.

Rodrigo Marques, poeta e cururuzista juramentado, tremeu. Manuela, jovem, culta e bela, parou o computador e tremeu. A estagiária novata (se tinha alguma gota de sangue, deixou de ter) tremeu. Noélia, que acumula as funções de «bibliotecária», «do café» e «da xerox», foi a pique com as xícaras, o café e as bolachas, tremendo.

Quebradas, bem miudinhas, xícaras e bolachas, no chão. Também no chão, o bule derramado. O café já começava a espalhar-se para a porta de frente, nos pés, nos sapatos.

O pior é que vinha eu de uma semana sem dormir por conta do esbregue da poeta Micheliny Verunschk contra as fotos, que, segundo ela, de indiscutível mau gosto, as fotos, ainda desviariam a atenção da entrevista. Como se fosse pouco, agora a bordoada do meu amigo, o advogado Rogério Lima, gente de casa, do escritório. Súbito, porém, um grito, do lado de fora:

— Bem na cara!

Na cara de quem? Uma briga aqui embaixo? Algum assalto? No hall? Um seqüestro-relâmpago? No rosto? De quem?

Não! Não era nenhuma briga. Apenas uma louca da rua que grita todos os dias pamonha e canjica, mas não possui um único pé de milho, nem traz produto algum para vender. Consta que, alérgica ao cereal, sequer os come: canjica, pamonha, cuscuz ou milho assado, que já lhos ofereci mas ela disse que não. Apenas grita-os. E isto basta, gritá-los, que doido é doido, aliás, doida. Pacífica e distinta, mas sabe “responder” quando a atentam. Deve ter sido: «Bem na cara!» E o palavrão.

Fez-se um silêncio turvo.

O advogado Rogério tomou-se de um ar de achado com o grito da doida. Disse que lera a expressão "no rosto", mas já não sabia de onde. Rodrigo Marques e a nova estagiária confirmaram: haviam lido "no rosto" ou teria sido "na cara", mas não lembravam o contexto.

— ?!

— Sim, quem lembra?

— ?!

Então, o ar de achado foi o meu:

— Meu caro Doutor Rogério – disse-lhe eu na maior calma –, veja, na entrevista, uma pergunta, lá está, por seu favor, alguém escreveu, me dê este papel, aqui, ó: «Sem esquecer o juiz matador. Sim, nele também, a redimir e a alevantar, o rosto de Deus

Tão súbito como chegara, num átimo, o advogado, o rosto, o dele (e o de todos nós) por sobre aquele café respingoso e bolachas esfarinhadas, sem nenhum medo porém dos cacos de loiça, as xícaras quebradas, pontiagudos. Nem do bule que ainda fumegava. A enfiá-lo, cada qual de si, culpas, rosto, de chão adentro, no cimento duro do piso duro do escritptorium.

— Louvado seja! – e todos ali contritos e assombrados... rogamos pelo... juiz!

Sequer terminara nossa contrição, Rodrigo Marques, o cururuzista, confirmou que a expressão "o rosto" estava na penúltima pergunta. Se estava na penúltima, tudo a ver com Psi, a Penúltima.

A jovem estagiária, muito assustada, disse que depois que lera a tal Psi, a Penúltima, suas notas, na faculdade, haviam mudado de dez para nove. E se benzeu. Mas estava bom assim mesmo, penúltimo, penúltima.

O advogado Rogério, refeito do susto que nos dera, garantiu que todo o texto da entrevista, de não sei quantas páginas – e abanava-as, veemente – resumia-se apenas à expressão "o rosto". O rosto do Homem.

Pegou a entrevista inteira, destacou com a tesoura o pedaço que lhe interessava, um fragmento de apenas duas linhas, e guardou-o na carteirinha da OAB, cuidadosamente. Tomado de grande fúria, nem parecia aquele Doutor Rogério de sempre, calmo e distinto, rasgou as muitas folhas em pedacinhos. Aliás, passou-as no triturador. Acusou-me de fraude. Jurei-me inocente. Não acreditou.

A estagiária ainda teve o desplante (agora corada, ou seriam as manchas do café, do chão?), de dizer que estava a comprovar que escrever seria muito fácil.

— Difícil é "ler"! — ela disse.

Sim, ali estaria a prova, segundo a jovem estagiária, um texto imenso a se resumir a duas linhas perdidas no penúltimo parágrafo, aliás, na penúltima resposta. Pior, as fotos e as falas contra o juiz! Todo o texto havia sido produzido, segundo o doutor Rogério, apenas a desferir bordoadas no magistrado, para, no final, numa virada súbita, persegui-lo com a Graça. E a entrevista? Quem falou em entrevista?! Não há entrevista alguma!

A advogada Manuela, espantada com a desenvoltura da jovem, insistiu no «desde quê». O famigerado «desde quê», parece, esqueciam-no. Aproveitou para perguntar sobre o Mandado de Segurança para soltar o avião. Eu disse que o havia "aprontado", enquanto no café, no chão.

O filósofo Alexandre Forte, também advogado, marxista da linha kardecista (pode?), vinha chegando. Disse que era contra, mas sem saber o quê. Reparou nas manchas do café. Garantiu que havia, ali, no chão, uma aeronave, desenhos, alçando vôo. Entreolhamo-nos.

Rodrigo Marques, poeta e cururuzista, foi até a cozinha conferir o estoque de cururus. Trouxe-os numa caixa de papel A-4. Estavam todos mortos. Eram de barro cerâmico. A senhora mãe dele, artista plástica, os fizera e os cozera em fogo alto, em tinta de cururu. Ninguém sabe como, quebrara-se a perna de um deles.

Os clientes começaram a chegar. E os telefones, todos de uma vez, aos berros. Ninguém acreditou que ali seria um escritório de advogados. Noélia providenciou uma bebida: era refresco de maracujá. Exigi café. No meio daqueles loucos! Menos a estagiária. Menos a doutora. Menos a Noélia.

— Não! Não sou religioso!

Ninguém acreditou.

Pedi algo mais quente do que café, para rebater. Alídio, o filho doUm cronômetro para piscinas comerciante que matara a amante, terminava de retornar. Trazia castanhas. Mandei torrá-las. Disse-me ele que o cronômetro para piscinas, até ali, havia funcionado perfeitamente. Rogério, ainda muito agitado, recitou um versículo de 1Samuel (7, 12) no mesmo tema. Pedi outra "lapada". A estagiária benzeu-se.

Um ambiente deveras confuso, com certeza. O Coronel emborcou goela abaixo mais outro cálice. Esqueceu, certamente, da pressão alta, de puro sal, as castanhas, que as comeu ainda quentes. Ele disse que seria suficiente “ouvir”. Se bom de ouvir, "desde que", lá dentro, porque verdadeiro.

Ninguém sabe quem, parece que das mulheres a mais jovem, ali, a estagiária: «Porque é da Tua boca, Senhor,/ e para os Teus ouvidos/ que a boca deles fala». Disseram que era do Coronel, de um poema dele, Talvez outro salmo.

 

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