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Soares Feitosa, dez anos

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Mary Wollstonecraft, by John Opie, 1797

 

 

 

 

 

Estudos & catálogos — mãos

 

 

 

 

Dos Leitores

 

 

 

 

Renato Sutanna:

 

Prezado Soares:

Uma vez, durante uma viagem de ônibus (não me lembro entre qual e qual cidade, mas sei que foi num ônibus), um amigo - que estudava a física, mas que tinha certo interesse por livros, principalmente romances e poesias - me perguntou se eu conhecia a prosa de Pedro Nava. Respondi-lhe que não a conhecia a fundo, mas que tinha lido algunsRenato Suttana trechos. Então ele me perguntou o que eu achava dessa prosa, mesmo com a pouca experiência que tinha dela. Como não me ocorresse nenhum adjetivo para qualificar a escrita desse autor, e na tentativa de dar uma idéia do que eu pensava de uma prosa que para mim me parecia consistente, fundada numa vivência profunda do mundo e das coisas - principalmente, uma escrita calcada na memória e na ancestralidade do ser e da palavra -, eu apenas lhe disse que a achava “substanciosa”.

O amigo riu, julgando inusitada a expressão, e redargüiu que o fazia pensar em qualquer coisa como uma sopa, um caldo ou uma iguaria qualquer, rica em proteínas. Mas tinha entendido o que eu quisera dizer e por isso acrescentou que também achava a prosa de Nava bastante consistente, embora, de sua parte, como eu mesmo, a conhecesse pouco e muito de ouvir falar.

Leio agora o seu “Estudos & catálogos: mãos” e esse breve episódio da alguns anos atrás me vem à memória. Como qualificar essa prosa que você me envia, senão recorrendo àquele adjetivo, isto é, dizendo-a “substanciosa” também - num sentido que implica agora não tanto o que eu tinha visto em Nava, mas num sentido que implica certa relação do espírito com a terra, com as coisas do chão e do mundo ao redor, que você tão bem consegue evocar nesse prefácio que não só é ele mesmo uma peça de grande interesse, mas que, ao apontar tão delicadamente para a poesia do prefaciado, nos traz também um desejo imenso de mergulhar nela, para descobrir mais tesouros, mais seiva, e nutrir o espírito com a substância grossa da vida? 

Muitas coisas me evocou esse prefácio: nordestes, Graciliano Ramos, Guimarães Rosa (no estilo entrecortado das frases e naquilo que João Cabral de Melo Neto chamaria de palavra “colada à coisa”, da qual extrai o seu ser e a sua substância e com a qual você consegue lidar de maneira tão própria e pessoal, apesar de tudo) - mas me evocou principalmente a personalidade do Feitosa, a cada dia mais da terra, a cada dia mais à espera de que o mundo se abra numa grande aparição reveladora. Neste ponto, sou obrigado a repetir a expressão do Mauro Mendes: “Cadê o livro? Cadê o meu”? Assim, na expectativa de ler, além do belo prefácio, também o livro do Virgílio Maia propriamente dito (para o qual, acredito, o prefácio constitui um excelente chamariz), deixo aqui o meu elogio e o meu pedido de que, quando possível, você nos dê a informação de como consegui-lo (o livro), impresso ou em versão digital (na eventualidade de que exista alguma), para que possamos conferir a coisa e ver se o prefácio não ultrapassou o objeto a prefaciar, o que estou certo - num bom sentido - não será o caso.

Para aproveitar esta carta, gostaria ainda de lhe perguntar uma coisa. Conheci recentemente, no Jornal de Poesia, alguns poemas de Affonso Manta, que muito me agradaram. Leio, em seu “Estudos & catálogos”, uma notícia, fornecida por Maria da Conceição Paranhos, de que o poeta faleceu recentemente, o que terá sido, com certeza, uma grande perda para a poesia brasileira, conforme a própria Paranhos comentou. Assim, minha pergunta é: que acesso podemos ter a outros poemas do autor, para além do pequeno vislumbre que tivemos de sua obra no Jornal de Poesia?

Existem livros publicados dele e estão acessíveis no mercado ou, como receio seja o caso, tudo não passará de raridade - como, por exemplo, a poesia de Orides Fontela, que só podemos ler por fragmentos na Internet e que está, esta última, a esperar por uma boa edição completa de seus poemas, já que se trata de uma presença tão nobre na poesia de língua portuguesa dos últimos anos? Você teria alguma informação a me dar?

Bem, com os votos de que outros prefácios, outros poemas, catálogos, estudos e mãos venham por aí, num sempre crescente nível de qualidade, vai aqui o

meu abraço.

Renato Suttana

 

Nota do Editor:

Vejam como a coisa funciona em rede-web: Conceição Paranhos fala em Afonso Manta, o que leva Sutanna a falar de Orides Fontella. O JP promete uma bela página para Orides; e complementará, no possível, a de Afonso Manta. Viva a Internet!

 

 

 

 

 

 

Salomão Pinheiro Maia


Poeta Soares Feitosa, meu agradecimento pelo envio de Jornal de Poesia: logo no primeiro "ferro", sente-se o punho forte do escritor. É de gente grande, dono de "ferros", terras sem cercas, onde o peregrino casado pode repousas as saudades d´Ela, de sua burra Vencedora, e as dela, sempre com o livro às mãos, ensinando. Ensinando aos queriam aprender, como Napoleão, pai de Virgílio, nascido no vexame do saber tudo.

Jogo-lhe à frente já pronto o Tartaruga, há quatro no fundo da gaveta, escondido, com medo de vista alheia, mas agora só de você conhecido.

Um abraço.

Salomão. 2/4/04

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Sandra Regina Sanchez Baldessin

 

Sent: Friday, January 09, 2004 11:31 PM
Subject: você, poeta!


Meu muito querido Francisco: a você, poeta, o direito indelegável, personalíssimo, de nos marcar, leitores cativos, com as suasRegina Sandra Baldessin palavras-gestos, palavras-bailarinas, que nos enredam numa dança de leitura, intensa, intrincada e muito, muito prazerosa...

Recebi sua correspondência, a pequena nota manuscrita, o seu abraço, o aconchego do seu carinho, tudo, guardado naquele envelope... Lembrei-me da poetisa  russa, Anna Akhmatova " (...) ASSIM NÃO SE ESPERAM CARTAS, ASSIM SE ESPERA A CARTA..."  Agradeço, poeta, agradeço comovida!

Hoje a tarde (sábado)  lerei o seu texto na primeira reunião do ano do nosso Centro Literário, acredito que me permita fazê-lo. Saiba que eu o havia lido no site e, inclusive, escrevi-lhe um mail, o qual você não acusa o recebimento e pediu-me que enviasse novamente, porém, não guardei cópia, pois foi escrito no "calor" do impacto da leitura, no corpo mesmo do mail. Quem sabe você ainda o encontre, pois não foi devolvido.

Sabe, Francisco, você é uma dessas pessoas especiais que, por algum milagre, cruzam o caminho da gente, sou feliz que tenha cruzado o meu caminho... Que 2004 seja pleno de tudo que lhe faz bem.

Beijo você, com o carinho de sempre.

Sandra Regina

 

 

 

Cristiane França:

 

From: "cristiane" <cristiane@hstacruz.com.br>
To: "Soares Feitosa, Jornal de Poesia" <soaresfeitosa@uol.com.br>
Sent: Monday, January 12, 2004 7:03 PM
Subject: agradecer a lembrança

Caro Soares,

Sorte? "Há de ter sorte para abrir um livro. Abrindo-o na página certa, no poema certo."

O que há em mim que pediu encontrar a poesia?

Desafiamos por vezes a sorte... Poema certo, lugar incerto...

Segure o vento... Segure o vento... Minha querida sobrinha de pouco mais de um ano, aperta os olhinhos de estrela e estica a mãoCristiane França pequenina: em deleite apodera-se! Chama-se Beatriz, igual a de Dante.

Recebi sua lembrança no dia de hoje. Estou segurando o vento, página 6, chama-se página 6. Parei um pouquinho para agradecer sua delicadeza em soprar na minha direção "o sol, o galo, a lufada de vento..."

Pensei agora como é bela a escrita não virtual. Algumas palavras, uma assinatura... O texto enviado torna-se magnífico com o desenho das letras feito pela tinta da caneta. Obrigada, pelo cuidado do gesto. 

Agora sou eu quem sopra em sua direção:


Ladeando o desequilíbrio e a normalidade.
Não sou feita de nenhum destes mundos.
Não é a loucura, não é a adaptação que me inscrevem.
Meu ser é a improbabilidade, a indefinição.
É sentido da intuição mais pura.
É a vida levando a si.
A alma sem o corpo.
A paixão sem a razão.
O amor pelo amor.
Se me fez de tal forma,
Sustenta-me ou salva-me!
És ou não o Deus da misericórdia?

Um abraço,

Cristiane França.

 

 

 

Lêdo Ivo:

 

Rio de Janeiro, 9 de janeiro de 2004

 

Meu caro poeta e amigo Soares Feitosa

Aplaudi, num silêncio intimamente rumoroso, o seu primoroso ensaio sobre muitas artes: a de ferrar cavalos e bois, a de fazerLedo Ivo cercas; a de tirar leite de vaca ou fazer queijo; a arte de ver e ler as águas... E obervar formigueiros.

Curiosamente, em minha poesia, há muitas cercas, um ferrador de cavalos, águas e chuvas; e em minha prosa há muita comida, de modo que me senti em casa lendo o seu texto instigante.

Um 2004 eletrônico e planetário, a serviço da poesia, é o que lhe deseja o seu amigo,

Lêdo Ivo

 

 

 

 

 

Francisco José Aguiar Moura

 

Caro Soares 

 

O sangue latino-americano que corre em minhas veias me proprorciona momentos de recorrente saudade. Ora disto, ora daquilo, ora daqule(a). De repente me deu saudade do colega bentanista amigo-irmão-Soares Feitosa, agradável companhia e papo não menos, e seu Jornal de Poesia. Procuro no site da Secrel e tomo um susto logo tranqüilizado pelo Google. Lá estava, no mesmo lugar, o Jornal de Poesia. 

Navego aleatório e encontro Um cronômetro para piscinas. Leio, releio, tresleio, entre embevecido e admirado, tentanto entender de quanto é capaz a imaginação criadora do artista. "O artista enche o mundo de beleza", tira do nada o belo; o detalhe que ninguém vê, como a pôr em pé sucessivos Colombos. Nisto a Arte! Vejo uma "lufada de vento ao contrário", "um corisco teria sido mais lerdo" e "um olhar tão doce e gentil que, imediato, lancei-lhe o perdão". E vejo que tudo é belo! No mais, como pode minha vã e comum filosofia perscrutar os miolos geniais?

Telepatia, coincidência, chegando em casa noitinha, vejo um envelope e, no sobrescrito eu reconheci: É ele! O poeta, o gênio que se dignou mimar este plebou com sua Arte e, fosse pouco, ainda votos de feliz 2004. Tudo me deixando na mais comovente gratidão e lisonjeado.

Retratinho de bom menino já prenunciando o gênio futuro, emoldura Estudos & Catálogos: Mãos. Sustente meu júbilo, caro amigo!

Feliz 2004! Deste seu colega-betanista-amigo-irmão, que (com licença de Luia Carlos Lemos) nem aprendiz de aprendiz é.

Aguiar Moura

 

Em tempo: 

Aguiar Moura escreve esse monte de "doidices" tão-só movido pela generosidade, a partir do velho Seminário da Betânia, Sobral, CE, Feitosa e Moura, de lá, colegas, há muito tempo, um tempo bom, aliás, um tempo ótimo. 

 

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Outras opiniões

&

Página do autor

 

Ascendino Leite

 

Mestre Soares Feitosa, poeta,

Você me retirou, por audaciosos inventos, da cova "sadhâmica" em que me tem metido a velhice avançada. Não estou pasmo. Estou ferrado. 

Grande feito! Precisei viver tanto para merecê-lo. Depois de ter examinado várias crateras roseanas, vi que você é um mestre ousado e pode passar da invenção das coisas com retumbante êxito. 

Gratíssimo,

Ascendino

6.1.04

 

PS: Pergunto a Soares Feitosa: quem é Conceição Paranhos? Soares: Repito: quero saber quem é essa Conceição eclética!Ascendino Leite Professora, Literata, Ensaísta, Crítica de ofício? Fã ou tiete pedindo novo Sagarana para formar novo trinfalismo sobre nosso idioma agonizante?

Muito mais que tudo isso, estou sentindo uma pessoa sábia, uma escritora admirável!

Ascendino.

 

Nota do Editor: Ascendino Leite, 21.6.1915, próximo dos novent'anos, um entusiasmo de adolescente.   

 

 

 

Maria Lilia Martins Carneiro

 

Caro Soares

Estou sem palavras para demonstrar a minha alegria e perplexidade com a recebimento do papé & tinta: alegria de ver o carteiro chegando com o envelope do JP timbrado, coisa de caipira! (Mas é muito bom receber envelope do carteiro); perplexidade em ver que um dito "prefácio" é na realidade um livro completo de poesia em prosa, como só vejo semelhante em Guimarães e em Saramago, em que as palavras soam melodiosas e nos envolvem por completo. 

Meu Deus, como alguém consegue transformar o bruto ato de ferrar bichos em um bailado diáfano e contrito? Estou pasma! 

Parabéns e obrigada pela oportunidade.

Um abraço

Maria Lilia

 

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Outras opiniões

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Sânzio de Azevedo

 

Meu caro Poeta

Soares Feitosa:Sânzio de Azevedo

 

Você, com seu prefácio ao livro do poeta e amigo Vrigílio Maia, fez mesmo foi um tratado de nordestinidade. É uma bela mistura de memorialismo e de ensaio, sem falar na poesia.

Fico aguardando o livro do Virgílio, do qual já conheço o belo prefácio. 

Abraços,

Sânzio


 

 

 

Andréa Santos

 

Caro Soares Feitosa,

Que tenhas um 2004 cheio de realizações!

Bem... Grata eu fiquei pela lembrança enviada (até porque não sei como conseguiste meu endereço). Li e reli as voltas do gado, das letras, dos sinônimos a moda céltica – mas sem as obscuridades,Andréa Santos entretanto com a profundeza do homem de letras que és. Seus jogos de palavras me impressionam, afinal é só um prefácio, e a composição “cava” e “recava” com “ela” a curiosidade catingueira, as emoções que em algumas ocasiões somente as mãos podem nos dar.

Estudos e catálogos – mãos, chegaram-me em boa hora, pois pude catalogar com as minhas mãos a inexaurível fascinação pelas criações alheias e minhas.

Obrigada pela surpresa e vos confesso: espero mais!!

 

 

Maria da Conceição Paranhos faz uma análise crítica do tipo tomografia. Basta clicar aqui ou na foto 

Maria da Conceição Paranhos



 

 

 

 

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