Velazquez, A forja de Vulcano

Maria da Conceição Paranhos

 

paranhos_44@hotmail.com

 

Alexander Ivanov. Priam Asking Achilles to Return Hector's Body

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Tiziano, Mulher ao espelho

 

 

 

 

Maria da Conceição Paranhos

comenta o prefácio de Soares Feitosa

para o Recordel, de Virgílio Maia

 

 

1. Num primeiro e-mail: 

 

From: "Maria da Conceição Paranhos" <paranhos_44@hotmail.com

To: <soaresfeitosa@uol.com.br

Sent: Thursday, December 04, 2003 4:17 AM

Subject: Dor e júbilo

 

Meu amigo,

DOR: morreu um dos maiores poetas brasileiros, meu amigo Affonso Manta. Estou sofrendo muito com isto. O meu mestre Tasso da Silveira dizia que quando um poeta morre é como se um cofre de tesouros tivesse submergido em alto mar para sempre. Affonso Manta é um patrimônio da humanidade. Depois lhe relatarei a vida deste grande poeta. Estou em luto, poucas palavras. O poeta Inácio vai lhe enviar, a meu pedido, material para você inserir em seu sítio (acho que é uma fazenda, na verdade, uma imensa fazenda, o seu site, e aqui já se inicia o júbilo).

JÚBILO: seu texto. É de uma beleza confrangedora - foi o adjetivo que me veio. "Ah, meu caro Vergilius - Nunes Maia ou Publius Maro, tanto faz -, a legitimidade do nosso canto é tão-só a sustentar o júbilo. Se cantamos a vida, cantemo-la como a não-morte; se cantamos a morte, que seja um psalmo de ressurreições. Poeta Virgílio, creia-me, o catálogo das mãos é inesgotável porque as mãos dos novos hão de garantir as nossas mãos. Por sobre, sempre por sobre; assim tem sido". — Diz você, com absoluta propriedade.

O que você realiza em seu texto é uma lúcida captura do mundo, nos catálogos que tipifica. Ocorre uma vizinhança com a experiência individual e social espantosa. Mais que vizinhança, uma co-percepção do mundo criado pelo homem, mundo cultural e poiético, à semelhança do gesto de Javé no início deste mundo em que nos é dado o canto. E, ainda à semelhança de Deus, viu e vê o criado e achou e acha que era e é bom. Ato genésico, o seu.

Mais: com seu inventário articulado poiéticamente você erige uma Ars Poetica. Veja, no anexo, os trechos que destaquei do seu texto e se não é isto que você realiza - uma arte poética encorpada e radical.

Suas palavras sibilam e zunem, são como aríetes, às vezes, na percepção do mundo e da natureza da arte. Da Arte.

Que texto, o seu! Parabéns mesmo, parabéns são poucos, viva você!

Um beijo e um abraço de sua amiga,

Conceição


 

 

2. Num segundo e-mail: 

 

From: "Maria da Conceição Paranhos" <paranhos_44@hotmail.com

To: <soaresfeitosa@uol.com.br

Sent: Thursday, December 04, 2003 11:08 AM

Subject: Dor e júbilo

 

Meu amigo,

Ontem, escrevi um longo mail para você, dizendo de DOR (morte de Affonso Manta, um dos maiores poetas brasileiros) e JÚBILO (pelo seu texto, com amplo comentário. Mas como meu Windows está acusando um erro desconhecido para mim, talvez não o tenha recebido.

Quanto ao Manta, espero de você uma super-homenagem a ele em seu sítio (que, como o dissera antes, no primeiro mail, é fazenda e fazenda sem limites, sem ser latifúndio, graças a Deus! Penso até que os poetas do MST deveriam enviar suas conribuições...Veja bem: acho a causa justa e a ela adiro; sou contra alguns procedimentos de pessoas isoladas - abusos).

De qualquer modo, havia uma colagem do seu excepcional texto para arquivo do Word, comentado seus catálogos e os substratos anímicos, e outros, destes, em alguns aspectos, que anexo agora, como já o fizera no outro. Parabéns!

Estou feliz com sua performance maximal. Você está crescendo mais do que um jequitibá. E, paralelamente à sua auto-construção como ser humano, a sua bela e ímpar contribuição a uma literatura que encontra raquitizada cada vez mais neste País. Nos seus textos, corre o sangue da Vida, o sangue quente do contato com as vísceras.

Você dá as mãos ao expressionismo kafkiano, sim, e à sua condição de judeu sefaradita. Afinal, os marranos são irmãos destes, são "rapazes" da estirpe do Maimonides, Marx, Engels, Mendelssohn, Freud, Einstein, Wittgenstein, Henri Bergson, Edmund Husserl, Martin Buber, Karl Popper, Einstein, do Freud, do Spinoza...

Lembrei-me, também, da piada dos "cinco rapazes judeus" que mudaram os rumos da história da humanidade, passada para mim por um amigo querido, o Roberto Ponczek, um desses mesmos "rapazes", apaixonado por Baruch Spinoza, com livro e tese de doutorado sobre o filósofo considerado anárquico por seus irmãos: Moisés: "o mais importante é a lei, e esta se faz com a cabeça"; esus Cristo: "o importante é o amor, e este se situa mais em baixo, no coração"; Marx: "o mais importante é a igualdade social, e esta é sentida um pouco mais embaixo, no estômago"; Freud: "o importante fica ainda mais em baixo, no sexo, pois é neste local que se situam os desejos". Finalmente, o quinto, Einstein: "meus quatro colegas judeus estão relativamente equivocados pois o importante é que tudo é relativo". Envio-a para você sentir ainda mais a alegria de ser criador de Criador e sua criatura. Foi Ele quem disse, não foi mais ninguém: "Sede perfeitos, como eu o sou".

Continua a informação do Ponczek, me dizendo que, certa vez, quando perguntado por um pastor se acreditava em D'us, Spinoza lhe teria respondido: "Eu não acredito em D'us, eu conheço D'us". E, quando um rabino americano fez a mesma pergunta a Einstein, este lhe respondeu: "O D'us que acredito é o D'us de Spinoza". Por este motivo, Spinoza é conhecido como "o filósofo embriagado de D'us". Depois de Spinoza e Einstein é perfeitamente possível conciliar o judaísmo com a ciência e a filosofia modernas.

Isto você faz no seu texto, isto você É no seu texto, com a diferença de ser poeta.  E poesia é verdade (Poesie ist Wahrheit, quem o disse foi Goethe). Poiésis: o mais alto conhecimento, pois há o contato direto com o mundo empírico, sem intermediações da lógica causal.

O Virgílio Maia deve estar muito feliz com tudo isso. Que ele receba o meu abraço e as minhas homenagens.

Vou tentar lhe enviar os comentários sobre seu texto mais tarde, se for corrigido o erro do meu Windows.

Abraço e beijo.

Conceição


 

 

Notas do Editor:

i) A página sobre o poeta Affonso Manta já está no ar. Evidentemente, material remetido de iemdiato pela poeta Maria da Conceição Paranhos. Basta clicar!

ii) O problema de Word não era no computador de Conceição Paranhos, mas no de Soares Feitosa. Com alguns solavancos, depois de espantar os vírus, os email's apareceram.

A seguir a análise, do tipo tomografia do texto, sobre o Prefácio do livro do poeta Virgílio Maia:


 

Maria da Conceição Paranhos 

comenta 

Estudos & Catálogos, Mãos

de Soares Feitosa

 

Ao dono, indelegável, personalíssimo, o direito de ferrar. Algo solene, quase místico, manhãzinha, que de tarde o sol, a poeira e a fadiga do gado seriam por demais. O proprietário, tomando nas mãos o ferro-quente - um cabo bem comprido, com uma madeira na ponta ou um sabugo de milho a protegê-lo. O ferro em  ponto de brasa, marcava, de próspero, as reses recentes: as de compra e as de nascido.

O vaqueiro, no quinhão que lhe tocava (de cada cinco bezerros nascidos e criados, um para si; ou um em cada quatro; a variar, condições da terra), havia de ferrar, ele mesmo, com as mãos dele, a sorte dele. E com sua própria marca. Mas, de marca comum, no outro lado da rês, da banda esquerda, ferravam-nas, proprietário e vaqueiro, com a marca do santo, dita também da freguesia.

Conta-nos Euclides, em Os Sertões, sobre aquelas gentes, nós, iletrados, que sabíamos "ler" fluentemente qualquer marca de gado. Para os meninos da cidade grande: marca de gado, meu jovem, um ferro em brasa, o boi ali, subjugado; o ferro, rapidamente à perna-alta da rês, até fumacear num olor de carne-couro, chiante, queimante. Uns esturros de dor, no bicho. Passa-se-lhe, a “desinfetar”, um óleo rápido de carrapateira. É soltar... a ver criar e recriar — graças a Deus! Estas, parece, algumas notícias das mãos. Catálogos. E suas serifas. Arte. A arte dos ferros, tão vasta como a arte de decifrar o catálogo das naus dos aqueus, em Tróia, contra Tróia. E cavalos.

Reparava, meninote, na perna esquerda dos bois. Se um A ali, era de Anastácio, santo, o padroeiro de Tamboril, de lá, a rês. Um Q? De Quitéria, santa, padroeira, cidade do mesmo nome, vizinhança. Um S? Espere aí, meu caro, este boi é "meu", Sebastião naturalmente, São Sebastião, «Ó mártir de Cristo,/ ó santo varão,/ livrai-nos da peste,/ São Sebastião!», janeiro, 20, padroeiro da Serra das Matas, dita outrora Vila da Telha, hoje Monsenhor Tabosa.

Os modelos da Ferrari, o catálogo de todos os filmes, o relato completo das grifes de marca, roupas de vestir - sabe-os todos, meu jovem? Pois sabíamo-los aos ferros, os nossos ferros. E berros. Um chocalho num timbre alto; outro mais soturno, outro chocalho, e outro e outro. Tropel. De galos e auroras, meu caro engenheiro. Tecem a manhã os teus galos. Tecem os bois e seus chocalhos a tarde chegante.

Arte, coisas — o catálogo das letras finamente desenhadas. Nem tão grandes a não inutilizarem o couro do animal com uma mancha exagerada; nem tão miúdas a ponto de o vaqueiro não as "ler" à média luz, de média distância. E sabíamo-las de cor, a reproduzi-las no chão com um graveto fino. E suas serifas. Arte! Aqueles pequenos rabichos que rebatem a perna do A ou repuxam um pequeno rabinho duplo na ponta baixa do P.

Conceição Paranhos:

Aqui você inicia a inscripção da escrita. Leu e foi tomado do que se chama em filosofia existencialista de "choque do reconhecimento". Inicia a observação da encriptagem. Decodifica no mundo empírico. Assim a Arte nos move.

Raciocínio indutivo-dedutivo.Até aqui, atos do Homem. A partir daqui, atos da Mulher (a Mãe). Paixão e Ressurreição.

 

Experimente, na tela do seu computador, com a fonte Arial,Modelo sem serifas que é um modelo tipicamente sem serifa. O A será um V de cabeça para baixo, atravessado por um garranchinho sem nenhum enfeite. Cabral. Retas. Arial.

Veja, agora, no modelo Times, o mesmo A. Repare que no final de cada perna da letra há um rebate, um acabamento a mais, uma pequena sapata. Esse enfeite é a serifa. Rabichos. Rebatido. A proporção justa, da divisãoModelo com serifas áurea. A haste maior e seu acabamento, eis a beleza das marcas de ferrar. Catálogos. Virgílio Maia, poeta, é especialista em marcas de bois. E Socorro Torquato, a mulher dele, sabe desenhá-las em pedra & fogo. Assina-as: Côca.

Há, dentre muitos outros, o catálogo dos leites. As coisas de gerar, parir, alimentar e comprar - gado - são minhas. Coisas d'Ela, as vasilhas impecavelmente lavadas, enxutas; os panos de coar, com uma marca vermelha, em ponto-de-cruz, serifas, o mesmo "ferro" do ferro dos bois. Coisas minhas: "espichar" os úberes (sem aniquilar os bezerros, evidentemente), levar para dentro de casa, ao fabrico dos queijos, os baldes de leite, sempre dizendo que estão bem leves, mas em tempo de me arrebentarem o espinhaço. Dali para frente porém o traço do coalho, os utensílios, as formas de moldar, mãos, levíssimas mãos, o grau de cozimento da coalhada, estas coisas são d'Ela, um catálogo fêmeo.

A prensagem do queijo, d'Ela. Um rápido torque no cabo da prensa. Toque, nem por demais para não ressecar ou espatifar a massa (e perder no peso, na hora de vender), nem de menos para não azedar o produto, de tanto soro, a perder na qualidade... Sim, um apertar de braços, abraços, Ela. Também do catálogo fêmeo, o desenformar do queijo, desembrulhando-o, alvíssimo (tomando-lhe o sal), úmido, lúbrico, uma tarefa da noite cedo. De mais um pouco, as coalhadas e suas terrinas, ceia e rezas - d'Ela, minha. E a noite.

 

Conceição Paranhos:

Essa suspensão de palavras com "E a noite" é a fonte da perdição e da culpa, da descoberta das saídas e da compreensão dos mistérios da vida. Da Vida.

 

Levá-los, queijos, à feira; negociá-los em açúcar, querosene e alguns álcoois são coisas de minha lavra, numa tropa de burros. No cavalo mais dócil, de parelha com a burra Faceira comigo em cima, Ela. Na volta, um cálice de Imperial. Ou do Porto. Sem esquecer o nome das reses. Ela quem ajuda a escolher. Flor do Pasto à vaca “mais bonita do lugar”, Ela disse. [Eu disse: Flor, tu!] O touro Canário, lhe botei este nome, aos canários de um certo alpendre. Ela sorriu. Mas zombou que noutras casas, de alpendres e saias, havia canários. Eu disse que não seriam amarelos tanto quanto.

 

Conceição Paranhos:

Lirismo e encantamento, da magia, do oculto, do inconsciente e de sua projeção em júbilo.

 

Ah! o catálogo das águas?! Aquele cavar, escolher onde cavar, recavar (porque tudo que um dia eu cavo, a cheia vem e entope), coisas minhas, catálogo meu. Encher os cântaros — cabaças, roupas, lajedos, moitas de melão São Caetano, perfumar as redes em sol de capim-santo... falem com Ela, digam que fui eu que disse. Mas o fabrico da moringa de sola, dita também borracha-de-sola, curtindo antes o couro em cinza e cascas de angico... Assovelar cada uma das peças em paciência. E Arte. A arte dos couros; selas, gibões, peitorais, chinelos, inclusos os d’Ela (com as vaquetas mais tenras); sim, estas coisas estão comigo, sempre estiveram. Botar a moringa de sola a limpar o gosto e o cheiro da sola com tantas e tantas águas, falem com Ela. Também os canecos-de-beber, potes, jarras, bandejas, toalhas e ornatos de fino crochê; rendas e bilros; linhas brancas e de matiz.

 

Conceição Paranhos:

Leo Spitzer fala de "enumeração caótica", traço de estilo que imprime ao ato assim enumerador uma nova forma de percepção de mundo. Isto está aqui no seu texto.

 

Ainda no catálogo das águas, reparar no tempo, no "olho" dos formigueiros, "profetizar" se vai chover ou não, poupem-na. Se sabe, talvez saiba, mas de puro recato, Ela não diz. E o catálogo dos animais. Dizemos animais tão-só aos cavalos, burros e jumentos - e dalgum político mal-abuzado. Gado é gado! Peá-los a campo, encabrestá-los, montá-los bravios, a pulso e ordem — cavalos e burros; jumentos não, que são dóceis e calmos de natureza — não remetam a Ela, tarefa minha, só minha.

 

Conceição Paranhos:

Ordenação do mundo inconsciente, condução de seus lucros para o consciente, abolido (felizmente) o superego.

 

Aos animais miúdos, patos, galinhas, pavões, perus, e os pássaros de dentro de casa — "assum-preto" — soltos, Ela quem os dirige. Ninhos — pô-los a pôr, deitá-los, tirá-los, o primeiro xerém, falem com Ela, por favor, que não entendo dessas artes. Espingardear os inimigos, costurá-los à faca? Ela está inocente, mas saberá desembrulhar seus mortos.

 

Conceição Paranhos:

Embora em todo o texto você mostre semelhanças com Borges, é mesmo de Kafka - mestre de Borges - o seu manejo da palavra em função de uma significação que preserva o sentido da realidade empírica, todavia conduzida de modo lúdico e encantatório (mais uma vez e sempre no seu texto).

 

Ia-me esquecendo, uma tarefa muito d'Ela: fazer, em letra calma, uns papeluchos «Ave Maria concebida sem pecados, rogai por...», a apregá-los (com um grude ligeiro, de goma, feito no bico da colher, na chapa do fogão de lenha); isto mesmo, pregá-los pelo lado de dentro, em todas as portas, em todas as janelas. Também nos currais quando os bichos adoecem, nos moirões da porteira, protegendo a nós todos, brutos e viventes. Contra os de fora! Por dentro. E "esquecer" um desses papéis no fundo do bolso do meu gibão. Percebo que Ela o troca quando o suor do meu rosto... papel. Um longo aboio. Amarfanhado.

 

Conceição Paranhos:

A origem de SUA poiésis. 

Catálogos! O catálogo dos Doze - tribos e apóstolos. Trivium e quatrivium, ou, digamos... uma lista... a lista dos galos. Galos? Sim, galos,  manhãs e auroras. 

Ou da tarde rubra (Gular), num saguão de sombras, cimento, o olho em riste, desafiante, galo-galo: - De que me defendo?

Os catálogos. As Leis. A legislação, o código, os códigos, a pólis -legislação eidética, a moira e a hýbris conduzindo a palavra poética. Ampliação, redução, mergulho na memória individual e histórica, bíblica. Os Doze exorcizam os próximos passos na sua escrita.

 

Nada melhor para assustar as aves de arribação que um aboio bem longo. Ferros de bois. Hoje, os computadores e as máquinas de satélite nomeiam e rastreiam os bois. Naqueles tempos, um chocalho, uma pisada mais arisca, uma cor de pelagem, o formato dos chifres e orelhas ou, irrefreável, a marca de ferros. Desaparecemos?

Dizem que sim, tal qual os livros-copistas e seus monges foram sumindo. Também os palimpsestos. Mas o poeta Virgílio me mandou os originais deste livro embrulhados num pedaço de couro de bode, todo escrito em letra de fino traço. Como haveremos pois de sumir com todas essas coisas?!

 Catálogos! O catálogo dos Doze - tribos e apóstolos. Trivium e quatrivium, ou, digamos... uma lista... a lista dos galos. Galos? Sim, galos, manhãs e auroras. Ou da tarde rubra (Gular), num saguão de sombras, cimento, o olho em riste, desafiante, galo-galo: — De que me defendo?

 O catálogo das cercas. Somos terra e cercas. Daqui para frente, não! Um risco no chão e se levantam marcos. Cercas. O catálogo abrange a cerca de jangarela, dita também de rama ou de ramada; as de lombo; as de arame de três pernas mais os estacotes na vertical; as de arame com doze fios, à prova de bodes e bacorinhos; as de fachina (de fachos, verticais, especantes) com moirões de sabiá a insultar com o tempo; mais as cercas modelo Piauí: quatro fios de arame por sobre uma muralha justaposta, exata, construída à eternidade com as pedras de Piracuruca, léguas e léguas, vide estrada de rodagem Altos-Campo Maior-Piripiri.

 

Conceição Paranhos:

Os limites. Escrita extremamente erótica, mais ainda, lúbrica, aprisionada, para não se perder, nos limites da linguagem que expressa uma percepção e experienciação violentas da vida. Séries metafóricas, todas fálicas.

 

Dizem que ninguém mais sabe fazer uma muralha inca. As pedras talhadas à mão destra, justas, sem emendas, nem cimentos; ou, pelo contrário, as mãos é que já nasciam talhadas em pedra. O que fazer agora do nosso catálogo de hinos do santo padroeiro, dos desenhos das farinhadas, dos engenhos da rapadura, caieiras, tijolos, telhas, cal, piões, cumeeiras, biqueiras — o que mais, meu Deus? — se do sertão, dizem que acabou, resta apenas um juazeiro com a gente debaixo (INSS) jogando sinucas?

Não! Não e não! Quem saberá, daqui mais uns dias, no catálogo das coisas de comer, notícias de um chouriço, que era apenas um estranho doce de sangue de porco? Um doce de sangue de porco? Talvez fosse nossa herança marrana a desmentir ao mundo a condição de cristãos-novos.

 

Conceição Paranhos:

Continua a trabalhar a lubricidade - o delírio na linguagem - e sobrevém a queda na tragédia da história.

 

Lubricamente matávamos o porco: as mãos viajando no quente das vísceras... Só quem já matou é quem sabe como é. A festa, os rins do bicho, assando-os ligeiros, afogueando-os ao primeiro trago. E a matutagem, um ritual de amizades em que metade ou mais das carnes saíam gratuitas, de puro gáudio, à certeza da retribuição quando do próximo porco do vizinho.  

 

Conceição Paranhos:

Lautréammont conhecia, como você, este mundo de sangue e vísceras fumegantes.

 

Falemos agora da sorte. Sorte de vaqueiros, sorte de leitor. Há de ter sorte para abrir um livro. Abri-lo na página certa, no poema certo. De gostar ou não gostar. No primeiro lance, um lance de mãos. Foi assim que abri este. A esmo. O poema As Horas do Dia. Comecei pela hora uma:

 

O dia vai começando
e diante d'Ele me calo.

No seio da escuridão

se escuta assim um abalo:

toda a caatinga estremece,

pois mais parece uma prece

o primo cantar do galo.           
 

 

Conceição Paranhos:

A redenção operada pelo conhecimento (no sentido bíblico) da palavra como gatilho das emoções mais fortes, a partir do ato de abertura do mistério do livro que, não tenho dúvidas, "cai" em nossas mãos quando dele mais carecemos e nos ajuda a discernir algumas das faces da inominabilidade (do "indizível", como preferiam os poetas do Romantismo, em seu movimento de streben ins Unendlich).

 

A emoção me disse que o fechasse imediatamente. Nessa mania de achar as coisas com as mãos como sói acontecer com os cegos, 

 

Conceição Paranhos:

Os cegos. São eles que têm o poder da clarividência, personagens ou motivos de sub-rogação, freqüentes na tradição literária / poética, para indicarem a ruptura com a visão comum, de superfície, e o ingresso no proto-, prete-, inter-, intra-, super- e hipernatural.

 

reabro-o, momentos depois, bem em cima da estrofe da quinta hora, que, noutro canto, um dia, cantei (Antífona):

 

Pontualmente,

de manhã bem cedo, pontualmente:
                                                        o sol,
                                                        o galo,
                                                        a aurora,
                                                        a lufada do vento,
                                                        a manhãzinha,
                                                        o café forte,
                                                        a porta aberta.  

 

Mais um entalo. E outro silêncio, a suspendê-lo só bem depois, para correr, na calma, o livro inteiro. Um defeito gravíssimo, a droga deste livro: é um só! Devia ser cem, um cento. Em multi. Sons. Aboios. Poeiras. Cinzas e memória. Pior é o seu autor: também único. E os juazeiros fervilhando de sinucas...

 

Conceição Paranhos:

Ah, este entalo! Ah, este silêncio! Ah, este porque se é "trezentos, trezentos e cinqüenta" - e o poeta Mário de Andrade só estava usando um eufemismo ou uma metonímia - e porque se tem a capacidade de ouvir e entender estrelas.

 

Ah, meu caro VergiliusNunes Maia ou Publius Maro, tanto faz —, a legitimidade do nosso canto é tão-só a sustentar o júbilo. Se cantamos a vida, cantemo-la como a não-morte; se cantamos a morte, que seja um psalmo de ressurreições. 

Poeta Virgílio, creia-me, o catálogo das mãos é inesgotável porque as mãos dos novos hão de garantir as nossas mãos. Por sobre, sempre por sobre; assim tem sido.

 

Veja o texto inteiriço e outras opiniões

 

Página de Mária da Conceição Paranhos

 

Página de Virgílio Maia

 

Página de Soares Feitosa

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

William Blake (British, 1757-1827), Christ in the Sepulchre, Guarded by Angels   William Blake (British, 1757-1827), The Ancient of Days