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Maria
Azenha
Mamã! Mamã federal !
(ao Pedro, meu filho)
mamã:
o meu corpo caiu na pia baptismal. Foi um percalço.
recebi a tua bênção com os óleos santos
em algodão de rama.
Mas que faço agora eu neste bordel das lágrimas,
com tantas orlas com tantos véus,
a fabricar poemas nas morgues do Céu?
Que faço agora eu artesã do sangue
com a minha mão profana que ficou grávida?
E a minha mão direita é ainda uma têmpora
num país distante com lágrimas de sal
mamã!:
envia um telegrama a todos os jornais, anuncia
com o meu coração em febre,
com todos os meus punhos cerrados como que a rezar,
que eu fumo cambodja, liamba,
hiroxima, armas nucleares,
que rendilho a ferros todos os meus cárceres
com as palavras brancas do medo
que saltam dos meus olhos.
Eu roubei a todos os arcanjos as palavras do ódio!
eu fumo cachimbos, goelas de bairros, narcóticos, drugstores
democráticos; mato vinte e sete pessoas por cada prato faço
massacres na américa central cravo balas nos vestidos amarelos das
crianças estrangulo o tempo com o sexo dos eléctricos ilumino as
fezes com feiuras sacro-santas faço ícones com toda esta tristeza
humana.
mamã,
eu rasgo «cânceres» de papel, trabalho as sombras
com as lágrimas de plástico,
mexo na história com cadáveres brancos
estendo os meus braços em tecnicolor
como numa tela circular humana.
mamã,
eu encolho os ombros, espirro,
bebo cafés evangélicos, grito com os filhos.
mamã, vivemos juntos!, isto é o meu mau génio.
ah, mas o Vaticano,
esse grande gangster de robe,
que anuncia
a paz para os domingos, essa pia
baptismal onde eu também caí com fome
foi um percalço.
e o pavimento lustral da carniçada humana
pisando o sangue , os incensos
da guerra,
onde não cabe agora aí o trigo!
mamã,
e os uniformes azuis a dizer
tão bem com as velas,
e os pássaros
e as indochinas
e os vitrais da esperança com tanta luz.
a difundir as trevas com vapores de chumbo.
e os trigais maduros a vencer
o chão, a curvar a terra
aos anéis do mundo; e as lutas armadas
e as recitações de tréguas
e as missas solenes lidas à breviário,
cantadas por gorilas
com sapatos d'anjos.
e a guarda civil e as patrulhas
e os ofícios e as escolas
e as embaixadas anfíbias nas tuas nádegas
onde fica agora aí toda a tua força política.
e os tribunais de togas a julgar
os crimes a barricar as fomes
esquecendo as dívidas.
mamã,
onde fica o grande rio das palavras onde fica guatemala
onde fica a noite dos tam- tans onde fica a esperança
com os olhos de napalm?!
onde fica a vida mamã-sacrária?
mamã! mamã federal,
esta manhã eu mijei todas as rimas
todos os versos brancos,
nessa pia baptismal!
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