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Márcio Catunda


 

Taverna existencial II


O Banquete.


Ratos, cães famintos roubam restos à mesa farta.
Engolem detritos pela boca sarjeta dos comensais.
Entrego, maldito, a migalha dos mórbidos anos
e rejeito sobejos dos beijos residuais
dessa descomunal prostituta insaciável que mostra os dentes
e dança mendigando maus pratos de tratos
e mãos sujas de que se prova o asco.
Cansei de ceder à fome dos glutões.
Cansei de reverenciar esses vilões da opulência.
Renuncio a todos os cardápios de mornos condimentos.
Bebo apenas o licor da embriaguez
e pago o último trago da puta de bolorentos peitos...
(Amanhã estarei triste ainda
e retomarei aos bordéis da vida...
 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Frederic Leighton (British, 1830-1896), Memories, detail

 

 

 

 

 

Márcio Catunda


 

Enigmas


Que entardecer existe
na essência do mundo
além dos portos do destino?


A quem pertence o navio
que faz ondas
no mar da vida?


No mar do poente
o roteiro enigmático
da frota das nuvens.


O farol da luz
e a nave do sol
no cais do infinito.
 

 

 

Da Vinci, Cabeça de mulher, estudo

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Irineu Volpato

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

John Martin (British, 1789-1854), The Seventh Plague of Egypt

 

 

 

 

 

Márcio Catunda


 

Acaraú


 

"Revejo em sonho a terra
estremecida do Acaraú"
Padre Antônio Tomaz




Refúgios de passados idílios,
areia branca onde o cajueiro flora amores
e onde na noite ensolarada,
imerso nas ondas de um perfume antigo,
os sentimentos se renovam num cheiro de castanha assada
ou do velho benjamim, cujo verde se mantém fiel.
À brisa dos açudes os coqueiros abrem o leque das palmas.


No alpendre da mais bela casa,
era um tempo em que passava um anjo que me arrebatava...
Ando solitário nos desvões do que ainda me resta.
Mudou-se o rosto do meu tempo.
Já não há ressonânciaa de antigas serestas,
não se sabe o paradeiro do companheiro de aventuras
e a cidade já não me pertence.
Apenas a sombra da formosa mangueira,
na esquina da praça,
me acolhe com afeição
e parece recordar aquele tempo
quando tudo era diferente!


Fevereiro de 1999
ÁGUA LUSTRAL, poemas de Márcio Catunda, Sete Letras,
Casa da Palavra, 136 páginas

 

 

 

Maura Barros de Carvalhos, Tentativa de retrato da alma do poeta

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Luiz Paulo Santana

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Michelangelo, 1475-1564, Teto da Capela Sistina, detalhe

 

 

 

 

 

Márcio Catunda


 

Prototagma


Deus o dissidio decidiu sem deicídio
e Zeus isso não desdisse.
Aos filisteus ateus deu os eus,
decoro deu aos feios corifeus de Orfeu,
nos breus inebriou os hebreus,
ergueu os egrégios, gerou gorjeios nos egos egeus,
agregou degredos aos gregos aedos,
segredos e medos legou aos ledos,
pesadelos desprendeu de Dédalo,
a Delos deu caduceus
e aos eunucos caducos inculcou sulcos.
Rejubilou-se ao leu, em gélido jubileu.
Injetou pejo no pajem, projetou no lajedo o adágio,
teceu a seda de Teseu, alçou Alceu ao apogeu.
No Tejo despejou as cerejas.
De terno enterneceu-se, eternizou-se.
Ressarciu o sobejo saduceu.
Saciou-se de berços, cioso de ocios.


Cérbero bebeu nos umbrais.
De brisas são as sobras do Brasil.
Cérebros cujo brio sé se viu com bombril.
Abreu celebra o celta de Ceuta,
Erebo hiberna em Berna.
Das Hébridas febris fogem lebres e hebreus,
Ibéria, libo teu débil brilho de lírio,
levito na indelével verve,
fervilho na ilha fertil,
ervilha, vertente do inerte cerne.
Baderna o imberbe bérbere.
Abrem os olhos os abrolhos.
Oleos nos sobrolhos, obro com opróbrio,
Coloro a sóbria ombridade,
om sobriedade, ombro obumbrante,
cobro o logro sóbolo,
o brônzeo brado que retumba.
O bardo dobra a penumbra:
me alumbra sol e sombra,
sobra a obra do assombroso sobrado.
 

 

 

William Bouguereau (French, 1825-1905), Mignon Pensive

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Nicolau Saião, 2003

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Jean Léon Gérôme (French, 1824-1904), Plaza de toros

 

 

 

 

 

Márcio Catunda


 

Icone halogeno


Áton vem à tona,
ôntico,
tônico átomo imantando o horizonte.
Num átimo assoma
altissonate, tótem onipotente,
Lótus, vórtice, óvalo volante.
Votivo pórtico, ótico próton,
cor colosso, espasmo dos atônitos,
ignoto trono, pólo, holos, Apolo.
Holofote, fóton, domus, cosmos, sóter,
Theos, Zeus, Deus.


Polux à polis apela
na pálida lápida, a pétala.
Na lapela, o apelo:
Penélope disse odes a Odisseu.
Cogitei sobre o jocoso, o sediço acesso ao Coliseu.
Ócio solicito, solércia, cerciai-me a inércia!
Abrasam luzes, asas azuis oxidam-se,
poluem-se as proles de Lúxor.
Apolo abraça-as, lasso…
A lupa de Petrarca na arca, a pétrea parca pula no Patriarca.
Pulula a pátria arcaica.
Cala a cara de Caracala.
A opaca lampa estanca na anca do monarca.
A monada, a arcana arca, manada da comarca
carcomem os logram, malogram os monólogos.
O prófugo ultrapassa o sátrapa.
Pátroclo proclama a prole atrabiliária.
Pan gira o panegírico da gíria.
O apátrida atrapalha-se com a prática do sátrapa.
Pandora adora o pão de ouro. Ouropeu europeu.
Átropos tropeça no tropel da praça.
Acrópole rola aos pés de Pisa.
O pároco pára o pesar da Papisa.
De gozo e zanga o algoz agoniza.
A pistola profetiza, a estola estiliza, alista-se a pista.
O tolo atola no lodo, o ledo de Toledo lê Otelo.
Adolesce no dolo o doleiro psicodélico.
A pândega languidesce na adega,
apavoram-se de agouros os parvos.
Vou agora lavar a lavoura.


A escória agnóstica escora a pernóstica perfunctória.
No lapso do acrobata, Protágoras protagoniza:
opta pela bata da pitoniza.
Atropos cose a estola do pitecantropos.
Sofre de chofre o sôfrego:
esma e esmola, postula póstuma proposta.
Tregua ao pústula, esdrúxulo,
luxo ao bruxo lúbrico.
Ao protótipo do paradoxo, o sodômico dorso,
antes o horto ortodoxo,
o insólito lençol do docente -- sólido crisol do solilóquio.
Sinto do do ente decente:
tem o tato do tatu, a tutela cautelar.
Tolda o toldo aleatório.
Teme a tomada do dolo – lota o lato leito.
Anota à toa o ato ilocutório,
Em alto tom, distoa disto: destila o alcool do Alcorão.
Sem intimação toma o timão da mão do vilão,
alivia o aluvião, avia o avião.
Ali havia aleivosia, só via a lei suave,
Só ouvia o assovio da cotovia.
Ave, algaravia!


Armou-se mítico circo.
Solstício no ar: místico armistício.
Emito hemistíquios elípticos.
Circe enfeitiça o artífice,
Iça-se o artifício de Ulisses.
Solicita o cenobita.
A mestiça atiça a mecha ametista.
Cala-se o viço da sediça Calipso.
Fixo a si, Sísifo asfixia-se.


Fênix freme no fenômeno cênico.
Homem, doma o hormônio,
Momo, o homônimo sórdido é mordomo,
Anão anônimo, soma o som do ômega,
assoma ao horizonte.


O frenético fascínio, o cinético desatino,
o cibernético cosmético,
o Caronte supersônico, carente de encômios,
o cômico, o histriônico,
acoplam-se em cúpulas e cópulas.


Exploro a remota redoma,
o pleroma do motor.
Anoto os tropos, os trópicos de Átropos,
o pódio do ódio, a paródia.
Forjo o fenótipo do ciclope.


Midas teme as ermas eras,
Hermes imerge nas ermidas,
artemísia de Artêmis, arames de Sermiramis,
matizo as artes sistêmicas.
Homero emite o étimo,
contempla o sétimo cêntimo,
consente-me o cêntuplo.


Destarte, instalo a este este êxtase.
Insto o instante instável: investigo o instinto.
Instigo a vertigem a instituição.
Intimo o imo hialino.


Aos mitos admito.
Os ministros administram-se litros sinistros.
Nos interstícios cito interlúdios,
edito ludica bula, abulo a libélula abúlica,
gloso o libelo da volúpia.
Eclode a écloga, de um gole engulo o bolo,
óbolo da egrégora,
prolongam-se oblongos prolegômenos.
Desdenho da anemia acadêmica, decadente anêmona,
anômala glândula.
Empola-se a endêmica polêmica.
Empala-se a palúdica pulha.


Sei dos domínios indômitos,
Ônix de Poseidon.
Adônis redimido dos demônios,
Transponho os dons canônicos.
Componho com os gnomos.


Armam-se farpas, paspalhos esfarrapados.
Escandalizam-se as cãs.
Abomino os diáconos anacrônicos.
Amo a mônada ôntica.
Transeúnte misantropo,
Tropeço nos trâmites do antro.
Unto de humus o atônito triunfo.


Aos juros abjuro,
Abdico ao açucar do súcubo.
Não sucumbo ao cúmulo.
Auguro sepulcro ao íncubo,
Inauguro um hino ao guru.
Na bela Babel embalde há banais abanos
e ébrios soberanos.
Vacas bacantes, Bacos cambaleantes,
Balcões balcânicos.
Pan predica o pânico.
Eis a épica apocalíptica.
Calígulas engolem lúgubres signos,
Cálidas Calíopes, as afrodites etíopes,
Com o sabre da Calábria, abro o lábaro, calibro,
digno-me de túnicas inconsúteis.


Mordo a mordaça.
Soma-se a Sodoma a moda do remorso.
Dá-me asco a dama de Damasco.
A mosca osculou o colosso da moça,
inoculou o ídolo de Moscou.
Amor deu a mordaz modorra?
Engomou gorros em Gomorra?
Esmou no marasmo das masmorras?


Aguço a saga da raça, sagro-me sagaz.
Satisfaço-me na safra, alço-me a galáxia.
Recuso o crisol do sórdido.
Ignoro o fascínora.
Encorajo o sorumbático,
conjuro o equinócio do ócio.
Laboro com as hostes,
Coloro de ósculos as corolas,
apodo os coptos, rapto os rapsodos,
capto mentes mentecaptas,
tomo sintomas de gnomos,
nado nos pseudônimos das gônadas.


Está a fazer sal o rei Faissal?
A Caaba acaba por abalar a Cabala?
Das almoço ao lobo do moço?
Por amor dele, ameaças?
Saciaste-te de salsas da Alsácia?


Típica de hípica, a épica púdica!
Viril, vige a vírgula de Virgílio,
a lirica, argila do vergel,
adeja gélida, lúgubre sigilo.
Átila estala o látego,
Catulo cata o tule de Toulouse,
lubrifica a musa lúbrica,
Camões come os mamões da lusa,
Calíope liba o mamilo da cafusa.
Afrodite etíope pisa punhos impunes,
lutas púnicas do patife Putifar.


Onírico onanaista solipsista.


Semeiam os que se amam.
Amam-se os que se entremeiam.
Sem medos de Medeias medram seus dramas.
Amam seus adros, bradam encandilados pelos candelabros [alumbrados.
Somam o sêmen ao supremo prêmio.
Primam nos prementes prantos.
Nos proêmios, nos prismas,
nos promontórios do adamanto,
um manto os imanta
e os anima e aproxima,
distantes conquanto nos quadrantes atlânticos.
Espantam-se os amantes.
Quebrantam-se nos recantos.
Sob os cantos ou nos gumes dos queixumes.
Sem ciúmes, nos remansos dos acalantos descansam.


Soprem sobre os coprófilos, suprimam os neófitos.
Fuçem as fossas das tropas.
Tropeçem nos potros e nos trópicos,
Alvoroçem o ofício, esboçem fósseis,
ossifiquem os equinócios.
Esquematizem esquimós e moluscos.
Abulam Nosferato e os equinos,
os nós, as nozes, Zenon e Tumósis.
Amenizem os domínios de Amenófis,
Amem, ofídios!


Nero engendra ingente gentalha.
A onerosa genese degenera.
O gen do gentio, a genitalha.
Energiza-se a ogeriza.
O estágio do agiota, a lógica do idiota.
O adágio do nojo, a botija da indigência.
O indigesto gesto.
Astros, estros, ostras, extras,
sequestros, sequelas, querelas...
selam-se os enleios.
Zelos gelam-se.
Ajax jaz, ajaezado a andalusa.
Haja ausência nas adjacências.
Jason faz jus à lisonja.
Haja exigência.
Timeu intimida Himeneu.
Meti-me no mimetismo,
liminar milímetro.
Redimi-me ao mínimo.
A libelo de libido tímida.
Atino ao átimo,
sinto-me no íntimo.
Imito os latinos, desatino ao intimidar os Átilas,
limo o estilete do estilo.
Dos álibes libo dileto deleite.
Deito-me no leito.
De arrimo arrumo o cinto,
insto-me, instilo-me peristilos,
bastam-me meus périplos,
bíblicos periélios que elucubro,
salubres lucros e salmos lúgubres.
Ilustro-me de astros e estros.
 

 

 

Alexander Ivanov. Priam Asking Achilles to Return Hector's Body

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Ruy Espinheira Filho