Mais de 3.000 poetas e críticos de lusofonia!

 

 

 

 

 

Marcos Antonio Menezes


 

Mariposa


De escarlate pintou os lábios.
Vestiu-se de transparências.


Mais uma vez, ela sabia que o cetim a esperava.


A porta foi aberta e um homem adentrou-lhe os aposentos.


Tudo estava completo, mas, e os olhos?
Ah! Estes eram apenas ausências...
 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Tintoretto, Criação dos animais

 

 

 

 

 

Marcos Antonio Menezes


 

Mofo


Disforme esta feia
forma que nosso
amor produz


Traga a luz
este quadro em
preto e branco.


Jogue sobre a tela
todo o guache que
o estojo esconde


Pinte de amarelo
o que sinto
e de roxo o que não digo


Só não deixe escorrer tinta
sobre a almofada
Não suje o gato de pelúcia


Que pena que nosso sexo
seja um animalzinho
de estimação!
 

 

 

William Bouguereau (French, 1825-1905), Admiration Maternelle

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Maria Maia

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Jean Léon Gérôme (French, 1824-1904)

 

 

 

 

 

Marcos Antonio Menezes


 

Pássaro bobo


O albatroz em seu vôo solitário
sobre o azul do mar procura um porto.


Estou a deriva, perdido na espuma branca do mar.
O que nos separa
eu e o albatroz
são as ondas.


Ele, acima, eu, afogando nelas.
 

 

 

Michelangelo, Pietá

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Jorge Tufic

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Poussin, The Exposition of Moses

 

 

 

 

 

Marcos Antonio Menezes


 

Ronda


A vida lhe escapa como areia entre os dedos.
A mão,
O punho,
O soco,
A mesa.
A praça,
A rua,
O ponto de ônibus.


Nos olhos, um brilho mórbido,
Na visão opaca, o reflexo do outro.


A multidão,
A luz de néon-
Somente!...
Na garganta, um grito, um gemido de dor.
Volta e olha,
Rodeia e não fala nada.


A busca,
A espera.
Talvez venha.


O relógio da matriz está quebrado.


O "coletivo" pára.
No sobe e desce, ninguém.


O bêbado lembrou Elis;
A garrafa vazia e
O cheiro de pinga, João.


A lua nova já vai sumindo, e nada...


Chora, mas não se desespera
Autocomiseração...
O espelho d'água lhe reflete o rosto
Rugas no canto do olho.


Volta pra casa, a cama vazia, o lençol cheira a naftalina.
Puxa fumo, deita e dorme.
 

 

 

Rafael, Escola de Atenas, detalhes

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Antônio Houaiss

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Poussin, The Empire of Flora

 

 

 

 

 

Marcos Antonio Menezes


 

Estrela cadente


A estrela caiu rapidamente deixando um riso dourado no céu.


Estrela cadente, atenda meu pedido,
Que seja só um a atender.
Arranque este meu sofrer,
Transforme meus jardins,
Coloque flores nos canteiros vazios -
flores rubras - ,
Mas deixe os espinhos.
Minhas mãos já se acostumaram a eles.


Estrela cadente,
Mate minha sede com suco gelado de graviola.
Deixe escorrer pela minha garganta a seiva grossa e úmida
Que alegra o peito e o sexo.


Não! Não diga não!
Não me deixe pros abutres:
Estas aves de bicos finos já perfuraram minha alma
E agora, com paciência,
Estão destruindo meus sonhos.
Levaram pelas garras a única coisa que é minha:
a dor.


Estrela cadente,
Traga na sua cauda um anjo bom de cabelos loiros e
olhos azuis.


Ficarei aqui fitando o céu com olhos gulosos,
Preso às minhas mordaças a esperar
Que por este céu uma estrela despenque,
Deslize suave e venha pousar,
Como borboleta amarela,
Bem na palma da minha mão.
 

 

 

Michelangelo, 1475-1564, David, detalhe

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Aníbal Beça

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Poussin, Rinaldo e Armida

 

 

 

 

 

Marcos Antonio Menezes


 

Lobo do mar


O ocre odor dos tempos
enche minhas narinas famintas.
Famintas de vida que me entre
pelas ventas e inunde
minhas entranhas,
estranhas vertigens,
coloridas de blues.
Tristeza,
vômito,
escarro na garganta,
vaidade, viuvez,
solidão de coruja agourenta,
veleiro preso ao porto,
marinheiros sedentos,
sexo misturado com
whisky importado,
alfândega fechada.
Amor aduaneiro.


E o grande nariz
a cheirai incenso indiano.
Entoar um mantra,
fazer preces ao céu,
pedir amor derramando
entre espumas de sabão,
bolhas coloridas soltas
ao vento, brisa fria
que vem do mar sul.


Traga o mar, traga
além de peixes grandes
e sal
traga pescadores robustos.


Dançar na areia,
correr na areia,
transar na areia.


Assistir a vela ir
pouco a pouco
deslizando pelo mastro


Partirei amanhã
na primeira maré,
odor salgado a incitar
as narinas.
 

 

 

Jean Léon Gérôme (French, 1824-1904), The Pipelighter

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Izacyl Guimarães Ferreira

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Jornal de Filosofia

 

 

 

 

 

Marcos Antonio Menezes


 

Eu


O grito, o gemido
a dor, a gota de sangue.
Ouça!
Vem do lado de lá.
Hoje acordei com um sorriso de hiena.
O que minha boca não falava
meus olhos denunciavam.
A perda do halo fez chorar
minhas entranhas.
Estranhas vontades do nada.
Um grande vazio,
sempre uma sombra,
nunca o gozo.
Será que você existe, felicidade?
O grito já esta mais perto.
Ouça!
Vem do sótão.
Nada tinha no vazio e nada foi colocado.
A dor que parecia distante voltou.
Ouça!
A voz do grito se parece com a minha.
É a minha!
O grito é meu.
A dor é minha.
O vazio é meu.
O sangue que escorre é meu.
Meu Deus! Porque sempre só?
 

 

 

Aurora, William Bouguereau (French, 1825-1905)

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Rodrigo Marques, ago/2003

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Ingres, 1780-1867, La Grande Odalisque

 

 

 

 

 

Marcos Antonio Menezes


 

Maresia


Agora não é mais a onda grande que dá medo, pânico,
É a onda calma que passa lentamente sua língua no rochedo,
Lambendo-lhe as vísceras.
O que fica é o branco da areia a confundir os olhos.
Nem uma lembrança,
Nada a assanhar as narinas com fortes odores.
Leve, a cabeça repousa sobre os ombros,
Após o turbilhão que lhe invadiu os sentidos.
Tudo o que resta são cinzas
E tal como Fênix irá ressurgir no vício que foi saciado.

 

 

 

Rubens_Peter_Paul_Head_and_right_hand_of_a_woman

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Weydson Barros Leal