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Aníbal Beça


 

Poema Cíclico


A trave dos meus olhos
é pólen de crisântemos:
farpas cronológicas
Metro a metro a seta ideográfica
abre aspas ao vento:
mandala vertical

Quem me confere
estas asas nubladas
de arcanjo do limbo?

Ah tempo adiposo
a marca do teu risco
esferográfico
abre mais mais uma estrada
(sem acostamentos)
paralela às estrias do sono.

Eis que a pálpebra de palha
se apresenta:
dos meus olhos saltam
pássaros ariscos

prontos a deflorar begônias
em setembro
e 38 ponteiros
(rubis ciclotímicos do silêncio)
acupunturam poros fóbicos:

Calendas
a fala do espelho
(espectador anônimo)
mostra-me por inteiro:
Vital conselho
entre o sudário que me hospeda
e a angústia que me habita.

A miração flutua narcisicamente
o rasto da sílaba
o grão onomástico sussurra:
Anibal.

Quão particular este silêncio
(viés oculto)
que me sabe desnudo
despudoramente nu
encalhado num atol:
leito circunscrito

às algas do meu avesso.

Sem embargo
trago sempre no alforje
um fardo de estrelas:
sei-me estivador
desse caisa agônico
atarefado Sísifo

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Caravagio, Êxtase de São Francisco

Aníbal Beça



A Palavra Noturna


Canto 1. Parto da Palavra

Tudo é manto negro
neste meu começo.
Tudo ainda é noite
nesta luz diáfana:
calor dessa ausência
no seu firmamento.
A saliva muda
na insolvência vaga
desarticulada.

Os músculos flácidos
como mamulengos
procuram cordões
para a dança clara
da cifra da fala.

O que nomear
se desse silêncio
apenas os olhos
alcançam o giro
em dois movimentos?

Abrir e fechar
o lapso da luz
vão desse vazio
no dizer do nada.


Vastidão de coisas
que avançam rondando
prontas para o salto.

A vespa da véspera
de facho fogoso
no baile da língua
soprando veneno
em fundos ouvidos
para o precipício
do não dito mudo
medo do maldito .

Quer dizer das coisas
cantá-las uma a uma
raiz de crepúsculo
impulso bendito
o primeiro beijo
a sair da boca:

faça-se a palavra
da doce colmeia
do mel dessas vespas
molhadas de orvalho.

O primeiro grito
- parto da palavra -
se faz em sussurro
macio de gozo
veludo de ventos.

Chuvas da ventura
regai esse chão
de pegadas leves
vôo de viagem
vento inaugurando
sílaba de nuvens
desnuda no abismo
de águas invertidas.

Vertical/idade

o encanto da música
no ritmo de asas
solo de condor
Fênix rediviva.

Alteie, se alteie
no teto bem alto
asas da distância
ruflando afastadas
nesse ritmo longe
para melhor ver
e dizer dos sonhos
das tramas pequenas
e suas nervuras.

O sol da goela
na luz da garganta
vibrando seus raios
de setas vocálicas
trazendo essa música
lá do fundo da alma
no desvão escuro.

Ó raiz tão clara
meu fogo das cinzas
nomeia teu sopro
na lavra de brasas
e acorda esses sons
que são desse mundo
silêncio das coisas.

Falante palavra
fala para as mãos
decifrarem códigos
acordarem músculos
na gesta dos gestos.

A escrita se evola
na nódoa do tempo
e o turno noturno
vaza a claridade
alteando as estrelas

Eis o meu início:
a luz do meu verso
a escrita vivida
lâmina cravada
nos dedos ariscos
tangida na voz
de mãos caminhantes
na colheita branca
de folhas sedentas.

Eis o desafio :
história remota
fincando no fim
seu próprio começo:
a História da vida.
 

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William Bouguereau (French, 1825-1905), L'Innocence

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Nei Duclós

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Michelangelo, 1475-1564, Teto da Capela Sistina, detalhe

Aníbal Beça


 

A Palavra Noturna


Canto 2. A Palavra Compartilhada

E assim se fez verbo
o dom da palavra
para repartir-se
porque ele era só.
Da vértebra curva
veio para ouvir
aquela que se houve
para ser ouvida
na aventura a dois:
chamada Mulher
a chamado do Homem.

E dessa partilha
verbo de parelha
se multiplicando
na conjugação
da fala e de corpos
os iguais chegaram.

E tudo era claro
não havia a noite
mas havia a fala
e o falo dos outros.

E entre outros havia
os que não falavam
eram os do vôo
de alada alegria
os de quatro patas
os de escamas vivas
os de sangue quente
e os de sangue frio
os lisos de pele
e os que rastejavam
de língua fendida.

Vicejavam campos
na brota dos lírios
na festa dos olhos
alçada de cores
subindo colinas
tocadas de azul
do céu do telhado.

A vista vazava
os vales os bosques
regatos dormindo
na calma tranqüila
do leito das águas
lambendo as raízes
de doces begônias
no beijo sereno.

E para alargar
o chão da morada
para contentar
impulsos dos pés
vontade liberta
de ter aonde ir
nos sonhos mais soltos
espanando o igual
nas favas do tédio
havia o impossível
do mar dos mistérios
mar das descobertas

Thálassa, ó Thálassa

mar da poesia
o mar do possível
mar de outras terras.

Esse o paraíso
assim nominado
pelas maravilhas.

A calma morada
dos dois que se canta.
 

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John William Godward (British, 1861-1922), Belleza Pompeiana

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Junot Silveira

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Titian, Three Ages

Aníbal Beça



A Palavra Noturna


Canto 3. A Palavra Descoberta

Bem assim frente a frente
se inauguram os sons
aos olhos da surpresa
Eis a trave despida
para as vestes da fala
e a cegueira da boca
cospe tateando signos
palpando seus rochedos
de alfabeto de pedra:

E viu para falar
ouviu para dizer
tanta beleza agora
se vai a solidão
na maciez da pele
na relva dos cabelos
na fenda diferente

E ele a chamou mulher
e sentiu o seu cheiro
e porque era de espanto
foi deitar-se com ela
no verde da campina
descobrindo seus poros
com o tato da língua
numa conversa muda
mas cheia de arrepios
reinventando colinas
na planície da pele.

E a palavra de pedra
em pedra se afirmava
no mastro dos rochedos
banhado pelas águas
esculpindo nas ondas
o sino das sereias
do mar de Adamastor
este anagrama ereto
encrespando banzeiros.

No lastro das carícias
pesa o rumor dos corpos
com seu barulho de água
no suor represado.

E a vida nesse instante
não era a mesma vida:
um tempero de febre
ardia na mudança.

E a mulher que era voz
ainda adormecida
balbuciou nomeando
esse homem fricativo:
- amado meu amado.

Então ele se soube
de pedra amolecida
mas senhor da tarefa.

E olhou-a como nunca
olhara em sua volta:
a íris revelando
o seu contentamento
no semblante de calma
na viva descoberta
do fogo prometido.

E desde aquele dia
baniu a solidão
para o deserto da alma
o reservado limbo
do batismo da dor.

Havia agora como
repartir as centelhas
descobertas dos olhos.

A granulada areia
moldando-se em faísca
nas águas de klepsydra
nos pingentes de Thánatos.

O tempo de perguntas
no templo do insondável
lance contemplativo
de ave transfigurada
ao acaso do vôo:


a rápida gazela
anuncia na véspera
seu salto mais vivaz
e os miosótis murchos
caem de volta à terra
para o sono das pétalas.

Aí se viu parente
da condição finita
personagem do enigma
no trampolim do efêmero.
 

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Valdir Rocha, Fui eu

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Ivan, 2003

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Titian, Venus with Organist and Cupid

Aníbal Beça



A Palavra Noturna


Canto 4. A Palavra Viageira

No vôo transitório
rio passando sem volta
colheu águas moventes
regou musgos porosos
espojou-se na argila
um cavalo sem crinas
alimária de ventos
lambendo águas de ontem.
E havia sempre a pedra
para os ossos da canga
e a possibilidade
de ir nos pés da viagem
cravo de ferradura
espetando a paisagem
borboleta pousada
no galho da passagem
balançando desejos.

Fremente impulso de ir
buscar para ficar
no verbo de partir
sem ter onde chegar.

Vontade de mover.

Apenas construir
um solo de pegadas
no sopro de ocarina
de música tão breve
como o passar das nuvens.

Saber-se passageiro
ao lado da parceira
no destino de andar
de ver para fincar
as flechas andarilhas
no chão da novidade
as palavras certeiras:

eis seu arco e seu alvo

Sons palmilhando a língua
lira de novos nomes
crismados nos crepúsculos
na luz de várias luas:

adiante vai a lebre
ali abre a açucena
cantam os rouxinóis
vagam os vaga-lumes
mangas bananas pêras
encharcadas de cheiro
para o olfato da tarde.

Tudo era descoberta
no abrir dessas palavras.

E a viagem seguia
construindo-se andaime
de leve arquitetura
nas ogivas das bocas
dos dois que se encantavam
nesse jogo onomástico.

No repouso dos corpos
no embalo da fadiga
vinha a fala alumbrada
palpando a geografia
guiada nas carícias
de dedos alpinistas.

E eles se revezavam
no batismo do corpo
na ablução das salivas
purificando as partes
no sal de suas águas.

A lua em seu modelo
nessas quatro mudanças
serviu para dar nome
aos dois quartos crescentes
bandas de níveas nádegas
com suas duas curvas
claras e tão macias;
colinas e montanhas
desenham os dois seios
com a cor do alabastro
e a relva dos pentelhos
o manto da vagina
raízes de alfazema;
a boca uma romã;
estrelas são os olhos;
os búzios são ouvidos
e o nariz promontório
e a forma mais ereta
obelisco de rocha
forjado pelos ventos
o pênis de atalaia.

Nomes adocicados
alfenim de momentos
rebuçados na língua
e o tempo derretendo
no espaço dos sentidos
nas bocas de um só gozo.
 

   

 

William Blake (British, 1757-1827), Christ in the Sepulchre, Guarded by Angels

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Lau Siqueira