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Sânzio de Azevedo
Poesia do nosso
chão
Jornal A Tarde – A
Tarde Cultural
Salvador – BA, sábado, 8 de outubro de 2005
Sabemos que o advento do Modernismo no
Brasil trouxe, além de uma saudável ânsia de renovação, alguns
equívocos, dentre os quais a abolição da rima (o que muitos julgavam
novidade, sem saber que eram brancos os versos greco-latinos), a
quebra da métrica e o abandono do soneto, tipo de poema que se
praticava em nossa terra desde o Barroco.
Felizmente esses equívocos passaram e,
principalmente depois da Geração 45, poetas há em nossos dias que,
mesmo freqüentando o versilibrismo, não se pejam de vez por outra
compor versos medidos ou de fazer sonetos, já que a modernidade de
um poema está no discurso, e não necessariamente na forma ou fôrma.
José Inácio Vieira de Melo, nascido em
Alagoas e radicado na Bahia, em seu livro “A Terceira Romaria”
(Salvador: Aboio Livre, 2005, prefácio de Hildeberto Barbosa Filho e
“orelha” de Mayrant Gallo) é um exemplo do poeta de hoje,
transitando com desenvoltura do verso medido para o verso livre. Seu
verso livre é espontâneo, como se vê na primeira estrofe de “Rural”:
Eu vou pra roça, ajudar o dia a
amanhecer,
chamar os bezerros pelos nomes de suas mães
e ver a vacaria apojar
e sentir a chuva de leite em meus olhos.
Ou como nos quatro versos que compõem
o poema “Rastros”:
O poeta traz os segredos da poeira.
Em sua mão pulsa o nó do espanto:
um sorriso bêbado de eternidade:
um poema.
Ao ler “Narciso”, composto de sete
versos, vamos constatar que o antepenúltimo é um decassílabo sáfico,
com ictos nas sílabas 4ª, 8ª e 10ª:
Já não quero saber do amargor do
vinho,
sei que sou um bicho espalhafatoso.
Assim vou, degrau por degrau,
lavando o sal do mar de meus olhos,
tirando os véus, despetalando as máscaras.
Qual lâmina d’água decepará a dúvida?
Qual sonho inscreverá a verdade?
Isto coincide com a lição de Mário de
Andrade, retomada por Manuel Bandeira, que diz: “no verso-livre
autêntico o metro deve estar de tal modo esquecido que o alexandrino
mais ortodoxo funcione dentro dele sem virtude de verso medido”.* No
caso em foco, não temos alexandrino, mas decassílabo; entretanto, o
fenômeno é o mesmo.
Parece-nos entretanto que, apesar da
alta qualidade de textos livres como “Caramujos”, “Ribeira do Traipu”,
“Cantiga de Amor”, “Retrato”, e vários mais, José Inácio Vieira de
Melo, a nosso ver, se realiza melhor nos poemas compostos de versos
medidos, notadamente naqueles vazados em redondilho maior, verso
medieval dos romanceiros hispânicos que remanesce na poesia popular
do Nordeste brasileiro.
“Romaria”, que faz intertextualidade
com os versos que lhe servem de epígrafe, uns anônimos e outros de
Humberto Teixeira (da canção “Légua tirana”, com melodia de Luiz
Gonzaga), nem sempre tem rimas consoantes, mas o caráter popular do
poema é patente:
Dentro de mim, nas lonjuras,
bem dentro do meu juízo,
um romeiro caminhando
em busca do que preciso
.........................................
Oh que estrada mais comprida,
tanto azul, tanta poeira,
em que plaga do Universo
estará meu Juazeiro?
Já o poema “Construção” é totalmente
sem rima, mesmo toante ou atenuada, mas igualmente vazado
rigorosamente em versos de sete sílabas, como se vê lendo a segunda
estrofe:
A rima das minhas rimas
pasta-se em nuvens informes:
relincha desembestada
em capucho de algodão.
A “Ladainha corporal” é composta de
dois quartetos e dois tercetos, mas não é um soneto, porque em
versos livres, o que Mário de Andrade, com sua lucidez, já
condenava. Entretanto, “Ave”, na página anterior, é um soneto,
embora com uma ou outra rima.
Com sua maneira bem nordestina de
cantar, em versos que nos fazem ouvir “Pandeiro, triângulo, zabumba/
e a sanfona de Gonzaga” (Disritmia”), em poemas cheios de mandacarus
e algarobas, vacarias, olhos d’água e ventos andarilhos, José Inácio
Vieira de Melo faz uma poesia original, bem dele, e bem de nosso
chão.
É o caso, para encerrar este
comentário, do belo poema “Cerca de Pedra”, na verdade uma trova no
esquema rimático popular (ABCB), mas com rima toante:
Aqui, na Cerca de Pedra,
nesta noite caatingueira,
estou em silêncio, ouvindo
o silêncio das estrelas.
Quem escreve versos como estes é poeta
de verdade. Nem é preciso dizer mais nada.
* BANDEIRA, Manuel.
Itinerário de Pasárgada. Rio de Janeiro: São José, 1957, p. 37.
Sânzio de Azevedo é poeta, contista e
ensaísta. Um dos mais importantes estudiosos da literatura cearense,
com vários títulos publicados, dentre eles Para uma teoria do verso
(1997) e Cantos da antevéspera (1999).

Leia José Inácio
Vieira de Melo
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