Allan Banks, USA, Hanna

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Thomas Cole (1801-1848), The Voyage of Life: Youth

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Jornal de Poesia, editor Soares Feitosa

 

Wilson Martins

não está mais em O GLOBO

 


Não sei os motivos, nem quero sabê-los: a coluna de Wilson Martins não foi publica neste sábado em O GLOBO. WM já não pertence aos quadro de O Globo.

O jornal Gazeta do Povo, de Curitiba, PR, continuará publicando-a.

O Jornal de Poesia também.

Soares Feitosa.


Gazeta do Povo

1º.8.2005

 

 

Monumento editorial

 

Eis o percurso sucinto de um tratado que honra e enobrece nossa história intelectual: “Escrito originalmente como tese de doutorado em 1970 – 1975, este livro foi revisado e editado em inglês em 1982, ano do centenário do nascimento de Monteiro Lobato; a sua atualização corrigida apareceu em português em 1985. Agora, vinte anos depois, sai a nova edição: a segunda em português, mas para o autor a quarta versão” (Laurence Hallewell. O livro no Brasil: sua história. 2.ª ed., rev. e amp. Trad. Maria da Penha Villalobos/Lólio Lourenço de Oliveira/Gerson de Souza. São Paulo: EdUSP, 2005).

Apresentando-a, ele recorda a observação de Tácito, segundo a qual “quinze anos constituem muito tempo, bastando para as crianças tornarem-se homens, os homens jovens fazerem-se maduros, os maduros envelhecerem e os velhos morrerem […]. Na indústria e no comércio do livro, as multinacionais fugiram quase todas […] agora estão voltando […].” Estão voltando até demais, no momento em que reaparece o livro de Hallewell, confirmando ao mesmo tempo a globalização e a aceleração da história, duas realidades que as almas sensíveis se recusam a aceitar. Praticamente, todas as nossas grandes editoras comerciais estão ou em vias de estar sob o domínio de multinacionais, repetindo o que de há muito vinha ocorrendo em outros países. Nomes de firmas tradicionais e respeitadas, que deixaram a sua marca na história da edição, estão agora encobrindo a realidade dos conglomerados, na França, nos Estados Unidos, na Alemanha, condição única de sobrevivência: o trabalho editorial, que já era e sempre foi uma indústria envergonhada, assumiu abertamente em nossos dias a condição de indústria propriamente dita e conseqüente internacionalização.

Os editores de antiga definição tornaram-se funcionários de empresas que administram pelo rígido princípio de custo/benefício, numa atividade em que, por natureza, os benefícios raramente correspondem aos custos envolvidos. Daí a fórmula editorial predominante: só se publicam livros de garantido retorno financeiro, dependendo, na melhor das hipóteses, da contribuição aleatória do mecenato institucional. Estamos, cada vez mais, no mundo dos denominados best-sellers, expressão cujo sentido real é praticamente um ato falho. Valorizam-se os escritores não pelo gabarito literário, mas pelo número de exemplares vendidos, para o que concorrem com tanta inocência quanto irresponsabilidade os meios de comunicação: avalia-se o público da literatura pelo máximo denominador comum, de exigências decrescentes na escala da qualidade.

Para homenageá-lo no centenário de nascimento, o livro de Hallewell foi pensado e escrito sob o signo de Monteiro Lobato, célebre, justamente, por ter sido o primeiro editor brasileiro de orientação deliberadamente comercial (no que malogrou, sejam quais forem as racionalizações que procuram justificá-lo). A ironia da história situou-o, seja adiante do seu tempo, como precursor do conceito globalizado de edição, seja fora de todos os tempos, orientando-se por idealizações determinadas pelo gabarito das classes cultas da época. Entregando-se à produção e venda de livros, “Lobato logo se deu conta de que o mais sério problema que o livro enfrentava no Brasil era a falta de pontos-de-venda: com pouco mais de trinta livrarias em todo o país, dispostas a aceitar livros em consignação […] seu primeiro passo foi aumentar os possíveis pontos-de-venda para perto de duzentos, utilizando a rede de distribuição da Revista do Brasil” – história contada inúmeras vezes e que não é necessário repetir.

Hallewell põe em exergo a declaração de que era “um editor tradicional” – exatamente o que não era, nem poderia ser, editor que imaginou “pontos-de-venda” pelo Brasil afora entre farmacêuticos e agentes do correio, cuja maior parte jamais prestou contas, nem devolveu os exemplares mandados em consignação. O “caso” Monteiro Lobato é mais complexo e contraditório do que pensam admiradores e detratores, uns e outros simplificando polarizações que não raro chegam à injustiça, se não à má-fé pura e simples. No que se refere às atividades práticas, há episódios semelhantes às de Balzac, conforme observei em palavras que Hallewell me faz a honra de transcrever com aprovação. “Lobato é um extraordinário raté, um raté de gênio, que realizou tudo o que desejava, porque para ele a realidade começava e terminava dentro dos limites da idéia. Mostrar o que podia ser feito, o que devia ser feito, e lutar até o momento da aceitação das suas idéias, realizando apenas o indispensável para convencer os adversários e os descrentes, e deixando aos outros a exploração sistemática e organizada de tudo”.

De Antônio Isidoro da Fonseca aos editores contemporâneos, passando por Paula Brito e por Garnier, por Francisco Alves e Bertaso, por José Olympio e Ênio Silveira, a história do livro brasileiro é, afinal de contas, uma história de que nos devemos orgulhar, assim como é motivo de orgulho a magnífica edição da Universidade de São Paulo. Hallewell tratou a matéria em alto plano de seriedade historiográfica e incomparável afinidade com nossa vida intelectual. Não menos valiosa é a atualização a que procedeu, acrescentando novos capítulos à edição original (“Na época da ‘abertura’”, “Na Nova República”), assim como tópicos subsidiários, sem esquecer os livros para crianças (atividade comercial de substanciosos rendimentos) e para cegos, empresa humanitária que mereceria maior reconhecimento.

Os observadores de nossa vida pública e dos homens que a representam só podem encarar como ironia involuntária as Propostas para os candidatos à Presidência da República, apresentadas pela Câmara Brasileira do Livro em julho de 2002, “enfatizando a natureza abrangente do livro, com interfaces não apenas com a cultura e a educação, mas também com a política de desenvolvimento industrial, com a política do trabalho e emprego e com a política de desenvolvimento e tecnológico (inclusive em setores como saúde, combate à pobreza e meio ambiente), propõe-se a criação de ‘um organismo de âmbito nacional para o desenvolvimento e aplicação de uma política de Estado para o livro e para a leitura’”. Esse “organismo” já existia, continua existindo e chama-se Ministério da Cultura, cabendo perguntar se os seus sucessivos titulares jamais se interessaram realmente em implantar uma “política de Estado para o livro e para a leitura”.

Wilson Martins


 

 

 

 

 

 

27/09/2005