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Luís Vaz de Camões



A dor que a minh' alma sente


MOTE ALHEIO

A dor que a minh' alma sente
não na sabe toda a gente.

VOLTAS

Que estranho caso de amor,
que desejado tormento,
que venho a ser avarento
das dores de minha dor!
Por me não tratar pior,
se se sabe ou se se sente,
não na digo a toda a gente.

Minha dor e causa dela
de ninguém ouso fiar,
que seria aventurar
a perder-me ou a perdê-la.
E pois só com padecê-la
a minha alma está contente,
não quero que a saiba a gente.

Ande no peito escondida,
dentro n'alma sepultada;
de mim só seja chorada,
de ninguém seja sentida.
Ou me mate ou me dê vida,
ou viva triste ou contente,
não ma saiba toda a gente.


 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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Luís Vaz de Camões


 

Já não posso ser contente


MOTE

Já não posso ser contente:
tenho a esperança perdida;
ando perdido entre a gente,
nem morro nem tenho vida.

GLOSA

Despois que meu cruel Fado
destruiu uma esperança
em que me vi levantado,
no mal fiquei sem mudança,
e do bem desesperado.
O coração, que isto sente,
à sua dor não resiste,
porque vê mui claramente
que pois nasci para triste,
já não posso ser contente.

Por isso, contentamentos,
fugi de quem vos despreza.
Já fiz outros fundamentos,
já fiz senhora a tristeza
de todos meus pensamentos.
O menos que lhe entreguei
foi esta cansada vida:
cuido que nisto acertei
porque, de quanto esperei,
tenho a esperança perdida.

Acabar de me perder
fora já muito melhor:
tivera fim esta dor
que, não podendo mor ser,
cada vez a sinto mor.
De vós desejo esconder-me
(e de mi principalmente),
onde ninguém possa ver-me;
que pois me ganho em perder-me,
ando perdido entre a gente.

Gostos de mudanças cheios,
não me busqueis, não vos quero;
tenho-vos por tão alheios
que do bem, que não espero,
inda me ficam receios.
Em pena tão sem medida,
em tormento tão esquivo,
que morra ninguém duvida.
Mas eu, se morro ou se vivo,
nem morro nem tenho vida.


 

 

 

Tiziano, Mulher ao espelho

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Herodias by Paul Delaroche (French, 1797 - 1856)

 

 

 

 

 

 

 

 

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Luís Vaz de Camões


 

Sem vós e com meu cuidado


MOTE ALHEIO

Sem vós e com meu cuidado...
Olhai com quem e sem quem!

GLOSA PRÓPRIA

Vendo Amor que, com vos ver,
mais levemente sofria
os males que me fazia,
não me pôde isto sofrer;
conjurou-se com meu Fado,
um novo mal me ordenou;
ambos me levam forçado
não sei onde, pois que vou
sem vós, e com meu cuidado:

Não sei qual é mais estranho
destes dois males que sigo:
se não vos ver, se comigo
levar imigo tamanho.
O que fica e o que vem,
um me mata, outro desejo;
com tal mal e sem tal bem,
em tais extremos me vejo.
Olhai com quem, e sem quem!


 

 

 

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Em tudo vejo mudanças


MOTE

Em tudo vejo mudanças,
senão onde as ver quisera;
passa a vida em esperanças,
nunca chega a que se espera.

VOLTA

E posto que chegue o bem
- o que duvido de ser – ,
que gasto se pode ter
na que firmeza não tem?
Vida cheia de mudanças,
tudo em ti cansa e altera;
porque dás mil esperanças
e não dás o que se espera.

O mal é que te conheço
já por falsa e sem firmeza;
e, com ter esta certeza,
inda te não aborreço.
De tuas vãs esperanças
ver-me já livre quisera,
por me rir das mudanças
do que espera e desespera.


 

 

 

Tiziano, Mulher ao espelho

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Lágrimas dirão por mim


MOTE

Lágrimas dirão por mim,
Senhora, nesta despedida,
em que termos vai a vida.

VOLTA

A tanto chega esta dor
que desconfio da língua.
quem pode suprir tal míngua
senão lágrimas de amor?
Elas vos dirão melhor,
Senhora, nesta partida,
que vai a vida sem vida.

A força da saudade,
quando a língua desvaria
a quem em lágrimas fia
as que lhe pede a vontade
..............................
que chore nesta partida
Irão dando fim à vida.

Não tem que ver a tenção
com palavras amorosas.
As lágrimas saudosas
línguas dos amores são;
elas por mim falarão,
quando a pena da partida
me tirar a fala e a vida.

Palavras podem mentir,
mostrar dor grande ou pequena;
mas lágrimas que dão pena
ninguém as sabe fingir.
Pelo que, quando partir,
qual for a dor da partida
tal será nelas sentida.


 

 

 

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No meu peito o meu desejo


MOTE

No meu peito o meu desejo
da razão se fez tirano;
vejo nele certo dano,
incerto remédio vejo.

VOLTA

Pera de todo defender-me,
este mal por passar tinha:
ir eu contra a razão minha
que morre por defender-me.
Da parte de meu desejo
me passo pera meu dano;
vejo que nisto me engano,
mas nenhum remédio vejo.


 

 

 

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29/03/2006