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Sânzio de Azevedo
Palimpsesto & outros sonetos

12/09/2004
Apesar
da confusão reinante, por tanto tempo, a respeito das origens do
soneto, tudo indica haver tido ele realmente ´por berço a Itália,
ou, com mais precisão, a Sicília´, na Idade Média, como nos informa
Cruz Filho, poeta, historiador e ensaísta cearense.
Tendo sido
consagrado na Itália, por Dante e principalmente Petrarca, foi
introduzido em Portugal por Sá de Miranda. Boileau, na sua Arte
Poética, chegou a dizer: ´Un sonnet sans défaut vaut seul um long
póëme.´ Cultivado na Espanha por Cervantes, Gôngora e outros, o
esquema rimático mais usado por Camões é dos quartetos em ABBA/ABBA
e dos tercetos em CDC/DCD, com variantes em CDE/CDE e até mesmo CDC/CDC,
este mais raramente.
No Brasil, do
Barroco ao Romantismo, não encontramos um soneto que não siga os
esquemas clássicos. Com os realistas (alguns dos quais se tornarão
parnasianos e outros, simbolistas) começam a surgir rimas cruzadas
nos quartetos (ABAB) e variações nos tercetos. Mas é interessante
notar que depois das Flores do Mal (1857) de Baudelaire é que
apareceram os sonetos cujos quartetos não rimam entre si, para não
falar dos tercetos antepostos aos quartetos, prática encampada por
alguns simbolistas. O Parnasianismo que, sob muitos aspectos, foi um
novo Neoclassicismo (com perdão para o aparente pleonasmo), buscou
fugir a essas liberdades, mas de Baudelaire alguns poetas herdaram
as rimas emparelhadas nos quartetos.
Com o Modernismo,
quase desapareceu o soneto, vítima de um preconceito que
lamentavelmente confundia fôrma com forma. Mas como não havia razão
para morrer um tipo de poema que foi barroco com Gregório de Matos;
neoclássico com Cláudio Manoel da Costa; romântico com Castro Alves;
parnasiano com Olavo Bilac e simbolista com Cruz e Souza, hoje o
soneto é praticado ora dentro dos mais rígidos esquemas de rimas,
ora com rimas independentes nos quartetos, ora com rimas toantes, ou
mesmo sem rima alguma.
Toda essas conversa
foi para falar de Virgílio Maia, poeta cearense que se apresenta ao
público com nada menos do que um livro de sonetos. O que não é
novidade para ele, pois Palimpsesto, o livro com que estreou em
1992, já era composto só de sonetos. No presente volume está esse
primeiro livro, os sonetos de Os Quatro Elementos (1996), a plaqueta
España-Doce Ciudades e una Aldea (1993) e vários sonetos estampados
no jornal O PÃO (editado pelo poeta, e cujo título é uma homenagem
ao periódico da famosa Padaria Espiritual), além de outros.
A verdade é que
Virgílio Maia, em seu primeiro livro, já se definia como autêntico
sonetista. E é oportuno esclarecer aqui: ao contrário do que pensam
alguns (movidos talvez pelo preconceito já aludido), não há demérito
algum no fato de um poeta ser considerado um sonetista. O que nem
todos sabem é que não basta perpetrar sonetos para ser um sonetista.
O poeta mineiro Belmiro Braga, embora fazendo humorismo, acertou em
cheio ao dizer, em tom de queixa: ´Ora o assunto transborda do
soneto / Ora sobra soneto, e falta assunto.´
Virgílio Maia
compõem seus sonetos de tal forma que não os podemos imaginar senão
nos dois quartetos e nos dois tercetos do poema petrarquiano,
exceção, claro, para o ´Soneto Inglês´ que, seguindo a fórmula
criada no século XVI por Wyatt e Surrey, tem três quartetos e um
dístico. Apenas o poeta permitiu a liberdade de usar, nos quartetos,
rimas abraçadas quando, no esquema original, devem ser cruzadas.
Quando me foi dada a
honra de prefaciar Os Quatro Elementos, com sonetos de Francisco
Carvalho, Jorge Tufic, Luciano Maia e Virgílio Maia, tive a
oportunidade de afirmar que ele, tal como o irmão (pois Luciano e
Virgílio são irmãos no sangue e na arte), tem no soneto alguns de
seus melhores momentos, cônscio que é, plenamente, do poder e do
sortilégio das palavras. E chamava a atenção do leitor para a
ocorrência, em alguns de seus versos, do suarabácti, ou seja, a
criação de uma vogal de apoio, o que, em Gonçalves Dias,
representava, para Manoel Bandeira, a presença do ´brasileiro de
fala mole´. Falava eu então no verso ´a / b / sur / do / ne / gror /
em / que / se / per / dem´ (´O Mundo do Mar´), e podem se ver casos
de suarabácti ainda em ´Marc Chagall´, ´Um bujão de gás´, ´A Senha´
e ´Chove no Recife´. Sabemos que essa figura, presente nos versos de
vários românticos, aparece em vários passos da obra de Cassiano
Ricardo, Mário Quintana e outros poetas modernos.
Num livro
fundamental, conta Manoel Bandeira: ´De certa feita fui, muito
encalistrado, perguntar a meu tio Cláudio se ´vésper´ rimava com
´cadáver´. A sua resposta negativa me inutilizou um soneto. Hoje
vejo que quem tinha razão, era o meu ouvido.´ E, depois de falar nas
rimas toantes, em que só as vogais se correspondem, confessa: ´Só
muito mais tarde vim a saber que os ingleses rimam ´be´ com ´eternity´.´
A propósito desta última rima, no ´Soneto alado com Cavalo Branco´
rima Virgílio Maia nuvens/aléns, em ´Itinerário de um verso´, temos
âmbar/bar, em ´Visagem´, repetem/vêm, e em ´Eras´ além de avos/avós,
temos rima quebrada (ou partida), rima da qual há exemplos tanto em
Artur Azevedo e Martins Fontes quanto em Jorge de Lima e Cassiano
Ricardo.
Talvez alguém possa
estranhar a contagem de sílabas de alguns versos, mas o que se
verifica é a presença de ectlipse: ´As sacrossantas letras sobem ao
Céu (´Do Talmud da Babilônia´); ´algum lugar seguro buscam em vão´
(´Revoada´), ou este: ´imersa em imensa luz neste papel´ (´Soneto´).
Em todos, houve a anulação do m, desfazendo-se o travamento da
sílaba. A ectlipse (e não falamos na preposição com) está em Varela
(´Ai! a não serem as vívidas lembranças´), Augusto do Anjos (´Ah! um
urubu pousou na minha sorte´) e em Augusto Fredetico Schmidt (´De
incerteza em incerteza a vida corre´).
É interessante o
caso de algumas síncopes, justamente por não estarem assinaladas. No
verso ´esse pássaro retinto que me acorda´ (´A graúna cega´),
poderíamos contar 11 sílabas, mas o certo é que o poeta contou as
sílabas de pássaro como se estivesse grafado pas´ro. Assim fazia
Álvares de Azevedo (como demonstrou Péricles Eugênio da Silva
Ramos), e assim fizeram poetas modernos como Jorge de Lima neste
verso, em que temos de ler pet´la: ´A de pétala fugaz e caule
obscuro.´ E Cassiano Ricardo, com o mesmo vocábulo usado pelo poeta
cearense: ´Eva é o primeiro pássaro da manhã.´
Mas vou parando por
aqui, e ao leitor, a quem peço desculpas por tanta teorização na
entrada deste livro, quero dizer apenas que Virgílio Maia, com esta
coleção de poemas de catorze versos, se impõem como um dos mestres
do soneto moderno no Ceará.

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