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Aleilton Fonseca

Jornal A Tarde, Salvador. Bahia

29.06.2002

Acordes líricos goianos

Aleilton Fonseca

A poeta goiana Yêda Schmaltz publicou recentemente Chuva de ouro, o seu décimo quarto livro de poemas. Trata-se de uma edição da Universidade Federal de Goiás, que vem desenvolvendo um excelente programa editorial, com coleções de ensaio, ficção e poesia. Poeta atuante, premiada, reconhecida em seu estado, Yêda produz uma poesia de forte expressão lírica, moderna, numa linguagem ágil, dinâmica, rica em imagens. A autora às vezes tangencia temas e sentidos da mitologia clássica, outra hora incorpora elementos da cultura goiana, sempre em busca de imagens e efeitos líricos que surpreendem pela simplicidade com que traduzem significados profundos.

Yêda já vem sendo tema de estudos em alguns cursos de pós-graduação brasileiros. Na Itália, em 1998, foi defendido um trabalho intitulado Yêda Schmaltz: viaggio tra il mito clasico e l’ universo femmininile, de Gian Luigi de Rosa. Presente em várias antologias goianas, estudada por Nelly Novais Coelho no ensaio A literatura feminina no Brasil contemporâneo (São Paulo: Siciliano, 1996) a autora goiana faz por merecer um reconhecimento mais amplo. Aliás, precisamos urgentemente conhecer melhor a poesia brasileira de forma mais ampla e democrática. Não parece justo que apenas seja reconhecida a poesia produzida ou editada no sudeste do País, como geralmente acontece.

O mapa lírico que Assis Brasil começou a traçar nas antologias estaduais tem o mérito de ampliar o universo de autores e obras, através do registro de nomes e amostragem de poemas. Yêda está incluída no volume A poesia goiana no século XX, (Rio: Imago, 1997), onde é destacada como “a maior expressão da poesia feminina no Estado de Goiás”. Ali também encontram-se informações sobre a sua atuação intelectual, inclusive como professora da UFG. Na década de 60, a poeta participou do Grupo de Escritores Novos (GEN) “que procurava impor à poesia de Goiás um novo aspecto de liberdade estética e conteúdo social, já dentro da perspectiva evolutiva do próprio Modernismo nacional” (p. 181). Ao longo da carreira, construiu uma obra vasta, múltipla, rica em temas e motivos, de reconhecida importância na cultura goiana.

Chuva de ouro foi selecionado mediante edital público para edição pela UFG. Trata-se de um livro de poemas curtos, em que Yêda trabalha as palavras em liberdade, com ritmo solto, versos brancos, tratando temas do cotidiano, em reflexões pessoais sobre a existência, o dia-a-dia, e também sobre a poesia e o ato de escrever poemas. Aliás, o segundo poema do livro é emblemático de sua noção de poesia:

Ser poeta
Ter sol, malícia,
solenidade e insolência.
Calo no dedo médio
são os ossos que me embrulham
neste ofício intenso que me esbulha.
Carregar um nome comigo,
esta letra vazia, carregar
esta palavra tão pesada,
que te ilustra
como a última palavra
não escrita
Ter fúria
e o avesso desnudado,
anotando somente o necessário
e a muito custo mesmo
re/velá-lo.

A poesia de Yêda Schmaltz tem uma marca muito pessoal. A autora goiana afirma-se pela excelente performance estética que consegue imprimir nos seus versos. Dona de poemas expressivos, ela sabe adequar a forma do poema à expressão moderna. Exibe uma linguagem segura, consistente, domina bem os temas, usa as palavras certas para exprimir sua percepção lírica. Os poemas mostram sua sensibilidade aguçada para externar o lirismo amoroso, sem confessionalismo, com altivez, em estilo leve, simples, plástico. Consciente de sua irresistível vocação, a poeta entrega-se ao exercício de descobrir tesouros ao penetrar no reino das palavras, como exprime no poema-título:

Chuva de ouro

Então, aqui estou: herdeira.
O meu poeta
me legou tesouros,
Estes que nasceram
das minhas mãos
vazias - versos, linhas
de pétalas de ouros.

Apesar dos modelos oficiais excludentes, é preciso incluir a obra da poeta goiana no panorama nacional como uma contribuição relevante. Sua proposta é contemporânea, resultado maduro da assimilação das estéticas modernas, adotadas com senso de medida e apreço à tradição. Sem dúvida, sua obra constitui uma das vertentes que representam a atual voz feminina da poesia brasileira.


Aleilton Fonseca é escritor, co-editor de Iararana, professor titular da UEFS, e autor de O desterro dos mortos (contos), publicado pela Relume Dumará.

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Yêda Schmaltz


1
Rasgo a língua em pedaços:
este amor e as palavras
sangram.
Coisa cheia de vida,
a linguagem: vinho.
Venha. 
********





2
E as tuas mãos tão brancas,
lindas, minhas
e inalcançáveis.
Um sonho colorido:
esta vontade de tocar a bruma do ar
e de despir
o meu vestido. 
********




3
Música, iluminura,
cavalos, bois e mulas,
flâmulas da infância.
Epidemia sem argumento,
fermento, as peles se eriçando:
inundação, dilúvio.

********




4
Perto do meu peito ele suspira.
Sorrimos um pro outro, a sós no leito
e nos entendemos, (oh, eleito!)
alma e corpo penetrados,
no reino da loucura e da mentira.

********




5
Quando o arco do ccelo vibra as notas
e eu me selo em ti,
na angústia de sê-lo.
Quando o arco do ccelo vibra as notas,
cavalgo flores de seda
nos teus pêlos.
Amo-te ao som de tímbales e sinos,
na alucinada canção
desses versos latinos.
xxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxx




6. OFERENDA

Veio, no cheiro do tempo,
este tempo molhado
com pingos vermelhos.

Veio da terra sulcada,
na rosa de sangue
que não vai murchar.

Veio, no vento inconsútil,
nas asas do sonho,
no imo de mim.

Veio, no tempo das flores,
dos corpos salgados
de brisa e de mar.

Veio da pele sulcada,
o amor feito rosa
que eu quero te dar.




8. CONOTAÇÃO 

Lápis-lazúli,
eu acho bem chic escrever
— é cor azul de se derreter.

Meu estigma de ser
envolvida por signi-
fi(n)cados.

O que você não diz
tem profundeza demais:
um raio de sol esfiapado.
********
Bilíngüe

Ó, meu Lorde, me leve para a Ásia,
quero Shiva.
Há todo um Festival
In My Heart, que assim escrito,
fica bem mais bonito
que No Meu Coração.

Me leve para a Ásia,
me chame de Gu Quin,
estou tão alone,
tão moon,
tão no silêncio de um bamboo!

Me leve para a Índia
e elefantes;
livre-me da prisão
desta caneta de Nankim.

Ó, meu Lorde, music!
E um: ai!
Gold in my body, man!
E trompetes and brushes.
E violinos.
Fly.




9 - SABER O AMOR

I

Saber o amor.
Saber o doce favo
em mel
se arrebentando.

Saber o travo
e o cravo e
o fel
se acumulando.

Saber o amor
sabendo a graça,
calor e frio;
o tempo, a traça
e a desgraça.

Saber o amor
— eu gosto! —
sabendo o gosto
da maresia dos olhos
escorrendo até
a boca.

II

Amor, uma aurora,
um desgosto,
um sol posto.
Amor: amora
negra e doce
que esmigalha
e escorre
e evapora.

Saber o amor
na boca — sabor
sabendo a sal
somente:
líquidos-amor.

(Cálice inafastável,
corpo e alma
esvaídos,
vinho e sangue,
hóstia em ofertório:
pão-meu-corpo.
— Inscreve meu nome
no Teu livro
e meu espírito!)

III
Saber o amor:
tocá-lo, pesá-lo
como se fosse palpável
a forma
que me cabe
informe.
Sabê-lo incabível,
impossível.
Saber o amor enorme.

Saber o amor
no tempo
e contá-lo em meses,
anos, vida e morte.
Saber do amor
a História.
Saber o amor
sozinho
e neurótico.

IV
Saber o amor
é se tornar pequeno
e se doar sem troca
— saber o amor
é oferecer.
Mas não se trata
de oferecer a boca
por saber
sabor de amor
e nem a castanha
entre as coxas
saberá do nós.
Saber o amor
é aquela unção
muito maior:
de nós, os fios
envolvidos,
ligados aos planetas;
estrelas em nós e luz
e sóis se acumulando.
Saber o amor:
O Cosmos.

V
Saber o amor
e não tomar seu
santo nome em vão:
tratá-lo em poesia.
Esquecer-se de si,
saber o amor
ao próximo
e ao longínquo.
Tê-lo onipresente
e onipotente
noite e dia.

Saber o amor
e não sabendo
a vida inteira
o que fazer com ele.
Ferida, fulcro, tumor,
remédios irremediáveis
— tranqüilizantes,
gotas homeopáticas —
câncer inoperável.

VI
O frágil ser se dobra:
junco ao vento,
joelhos em chagas
— cinco,
mais a espada no peito
e a ferida no sexo.
Saber o amor
sem nexo,
um vinco
— ligação e marca —
estar à mercê
da tesoura
da Parca.

Saber o amor.
Ah, não soubera!
Ah, não cantasse nunca
a primavera!
E não tivesse o amor
nas vísceras
untado, ungido
e ofertado
— rastejante verme
vermelho,
verve da transparência,
ver-me:
infinita estrela.

VII

Saber, sim, dele
somente a proposta
sempre enganosa.
Sabê-lo casca
apenas,
frágil, fútil, solto
e sempre, sempre
além do muro.
Saber o amor:
Um sol escuro.

Saber o amor assim,
somente na Escritura
— a sagrada
e a que é o pão
de cada dia
e que se sagra
muito mais
em poesia.
Saber o amor assim,
quem sabe
a dor? 

********
Fruta Madura
E saí
da adolescência
(quando eu era
transparente),
para amar
a transparência.
Meu coração
tinha um pássaro miúdo
de vôo curto e vão.

Agora
tem uma borboleta
de coração oferecido.
(meu coração colorido.)
Uma adolescência
com muitos vestidos rodados
e tristes:
flores, florzinhas.
Nenhuma saudade.
E a maturidade,
um sutianzinho rendado
e negro:
- laranjas e pêssegos.




 

BICHO DE SEDA

O amor,
esse bicho cultivado e doce
esse bicho da seda
que em sendo bicho,
mais parece estrela.

E eu plantei a amora
que não é só folha e flor,
é fruto cultivado e doce
— aurora: feminino do amor.

Agora,
esse bicho de seda
(o amor)
vai comendo o cerne
do feminino da flor
(a amora).

E os tufos de fios
vão sendo tecidos (o bicho)
— a trama incontrolável —
para os meus vestidos
serem desvestidos
na hora do amor,
na hora da alegria
C mais um ciclo de dor,
o ciclo interminável.

Esse bicho de seda (o amor).
Esse bicho de Yêda (a poesia).

********




Cavalo de Pau

Quando amo, sou assim:
dou de tudo para o amado
— a minha agulha de ouro,
meu alfinete de sonho
e a minha estrela de prata.

Quando amo, crio mitos,
dou para o amado meus olhos,
meus vestidos mais bonitos,
minhas blusas de babados,
meus livros mais esquisitos,
meus poemas desmanchados.

Vou me despindo de tudo:
meus cromos, meu travesseiro
e meu móbile de chaves.
Tudo de mim voa longe
e tudo se muda em ave.

Nos braços do meu amado,
os mitos se acumulando:
um pandeiro de cigana
com mil fitas coloridas;
de cabelo esvoaçando,
a Vênus que nasceu loura.
(E lá vou eu navegando.)

Nos braços do meu amado,
os mitos se acumulando,
enchendo-se os braços curtos
e o amado vai se inflando.

— O que de mais me lamento
e o que de mais me espanto:
o amado vai se inflando
não dos mitos, mas de vento
até que o elo arrebenta
e o pobre do amado estoura.
(Nenhum amado me agüenta.)




 

ECO I

A sombra de Narciso
que se afasta:
histórias de Abelardo,
do fundo das idades.

A boca amordaçada,
engendro a peste
e a desgraça.

( Este ofício de perder
o amor no lírico,
no pêssego do coração:
uma Ismália ex-
piral, uma lua engolida.)

A sombra que se arrasta
e o valor em calar-se
em meio a laranjas de sol.

A filha de Isadora
e de Pandora,
sustenta a tragédia do existir.

Afloram flores na sombra
do improviso, Narciso,
a eterna branca,
a cor de ouro
e o ópio da papoula:
orgasmo.

e o ópio da papoula: orgasmo.

********




UM NOME - SOBRE / NOME

Um nome: palavra essencial.
Luar, por exemplo, é lindo;
entender é que é difícil,
não é para todo o mundo.

A cobra no paraíso
e a ferocidade
do indeciso
bloqueio intelectual.
Um nome que reverbera
e draga peixes e escunas.

Poderia ser a Primavera,
poderia não ser o que já era,
poderia vir de Portugal.

Um nome — o que perpassa
claro, limpo; o brilho
de tudo o que há de doce
sobre a terra.
Um nome — o do Impossível.




ISSO

Não, não era isso! Pensei inconsolável,
mas se estendesse a mão,
tocaria, de novo, sua face.
A testa altiva — astro solitário
e dono dos meus versos —
brilha como um castiçal.
Silencia o corsário e as velas chama-
das, tremeluzem cindidas por sagarços.
No seu rosto sombrio, nem um traço
suave reconheço
e, a contragosto, sinto-me a casta
dos jardins de Vesta: acácias e narcisos e verb/enas;
mas no poema que assino, um sim é meu,
o outro é seu: isso alia ou aliena?
Na impossibilidade do entrevero,
suspira nossa vero-
similhança.
Meu seio treme a trama dos pastores
e sua esplêndida cobiça pelos aríetes.
Tenho fome da sua carne (mesmo que fosse
só sua presença) e, num esforço,
me contento com cereal e hortaliça.
Que verso saciaria a sede do que,
escrito, não existe?
Ah, fresca floração dessas tulipas disso
que é sem-nome
e é tão vasto que me ressoa
e, solto em aflição, perturba o sono
assustado de a/mor-
cegos, na sede da per- 
feição que me consome.
Os travesseiros molhados, respiram.
Tocaria, de novo, sua desespelhada face,
mas, impenetráveis, de aço, nos deixamos;
ressoam pelas calçadas nossos passos
— cegueira, isso —
e, impassíveis, seguimos.
********




 

LIRA - BETA (LIRA E LÍRICA) 

Venham, lira e lírica formosas,
(luzes do meu caminho),
venham consolar-me
com imagens de perda e desamparo.
Para onde foi meu Deus,
meu mito, a rosa, um nome,
aquela sensualidade luminosa?

O aedo realiza esse milagre,
perder-se enquanto eu
no amor-mais-que-perfeito.
E iêda também usa a
forma própria dos eólios:
vem, lira dos velhos manuscritos
greco-latinos, dar-me esta vitória
da linguagem sobre o sujeito.

A mão do homem que tocou meu corpo
(aquele eleito), como pensava Novalis, tocou
nesse momento (a lira, o verso) o universo inteiro.
E a lírica me salva, diz: poeta, exista!
É minha glória, é bomba
e explode, repercute
nos gabinetes dos sábios e artistas.




 

Poema 9 - Uma Lira

Uma lira: e como Apolo
cantarei a beleza,
cantarei como os aedos,
ainda que seja
para cantar meus medos.
Uma lira: acompanharei
o cântico dos homens
que estiverem no caminho
ou cantarei somente,
pois cada qual
tem que viver sozinho.

Uma lira: iluminarei
os artistas amigos,
embora vencido, inconformado,
depois de caminhar
entre os perigos.

Uma lira: é só
o que pretendo
para cantar o poema que escuto
na consciência e gritar:
não existe senhor absoluto!
******** 




 

PANDORA/ESCRITORA

Como escritora,
fui um fracasso.
Na poesia brasileira,
não existo,
fui marcando passo.

Podia ter sido ao menos
uma aluna de Isadora;
podia ter sido ao menos
a grande mulher de alguém
como o foi Olga Benário,
mas qual, cala-te boca, amei subs.

Rabisquei sempre nas costas
dos talões de cheques
e nas agendas; podia ao menos
ter feito um Diário
como o de Guevara;
mas qual, imensamente trágica,
escrevi para mim mesma;
minha opinião é irrelevante.

Como escritora,
fui mesmo um fracasso.
Por que não inventei algo exemplar
como A Turma da Mônica?
Os tempos são bicudos:
camiseta com bermudas.
É muito difícil ver
uma menina de saia.
Leu Rosa de Luxemburgo?

Preferem-se os compiladores
de enciclopédias.
Teve a Junta Militar
estuprando os artistas:
bagunçaram o coreto
com estórias de Xerezade,
sucessos de venda, vulgaridades.
(Ai, meu português! )

Serei sempre anárquica
e não me amarro ao mastro
quando as sereias cantam.
Mas gritei, como num conto de fadas,
que mulher inteligente não morde,
que mulher não é enfeite. Bastou.
Saí de cena como Cinderela.

Como escritora,
fui mesmo um fracasso:
vida de pobre remediado.
Nem tudo são flores!
Dinheiro, só de vaquinha.
Direitos autorais,
nem que a vaca tussa!
Mas não roubei,
não delatei ninguém: amei.
A vida pré-AIDS era outra coisa.

Como não possuo a beleza
da Gabriela Sabatini;
não gosto de filmes de guerra;
odeio novelas e filmes de terror;
neste mundo cão de Liliput,
eu, uma moça cafona da roça,
vou sair por ai
e tomar um banho de loja.

Pois fui mesmo um fracasso
como escritora.
Mas cessa tudo o que a antiga musa canta,
que um valor mais alto se alevanta. 





CANTO X
A flor se faz de terra, de chuva,
e muito cuidado, e muito carinho,
e se faz, principalmente,
da espera da flor.
é preciso lembrar
que a flor se faz duma semente
deste tamaninho!
Mas é preciso, também, não esquecer,
que tantas vezes uma rosa
não é uma rosa
porque lhe falta a cor.

Depois surgem alcovitices
de borboletas e de passarinhos
para trançar amor de flor a flor,
e cinco grãos de pólen bem fininho,
somente cinco grãos são necessários
pra fecundar outra flor.
Tudo se transfigura em água, sol e ar:
são as núpcias das pétalas,
o momento mais preciso
em que precisamos cantar.
Então, em tênue música,
a flor se tece e retece,
sozinha em veludo, luar
e um pouco de vento,
para que haja dança e movimento,
o que faz uma flor sentir-se mulher.

De quanta chuva se faz uma flor?
De muita ou nenhuma.
Importa é ser flor:
tecida de tempo,
de um pouco de chuva,
de muito de amor.




O DESVIO

A mim pouco me importa
aberta ou fechada a porta,
vou entrar.
E pouco me importa estar
sendo amada ou não amada:
vou amar.
Que a mim me importa tanto
eu mesma e o sentimento,
quanto!
A mim pouco me importa
se a tua amada é doente,
se a tua esperança é morta.
E me importa muito menos
se aceitas solenemente
nossa vida parca e torta.
Porque a mim me importaria
deixasse de ser eu mesma
e a poesia.
A mim pouco me importa
se a lira quebrou a corda:
vou cantar.
E pouco me importa estar
no picadeiro do circo:
vou rodar.
Que a mim me importa tanto
eu mesma e o sentimento,
quanto!
A mim pouco me importa
se estamos todos presos
por uma invisível corda.
E me importa muito menos
sermos todos indefesos
ante o destino que corta.
Porque a mim me importaria
deixasse de ser eu mesma
e a poesia.
********




AMOR DE POETA

Quando começo
eu sou terrível: tema.
Um poeta é aquele
que faz um poema
de nenhum assunto,
o que se alimenta de nada,
o que morre de medo
mas fica gratificado
com tudo.

Contudo,
não permita o início: corte.
Caia num precipício.
Melhor a morte à rima,
ao forte amor danado
de um poeta,
amor melífluo e obsceno.

E todo o amor do mundo
fica muito pequeno
se houver comparação.

(Que estou fazendo no mundo
com este nome alemão,
este ar desconfiado
e essa cara de quem
vê cara, não vê coração?)

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