Linhares Filho

Pessoa na Visão de Benevides

Estudemos a contribuição metapoemática de Artur Eduardo Benevides (1923), ao conjunto das homenagens à obra pessoana. Um dos mais autênticos poetas que conhecemos. Talvez o mais premiado poeta brasileiro. Fluente, apresenta uma rica temática. Cantor do mar, da noite, da solidão, da morte, das grandes viagens, dos grandes sentimentos, sobretudo o amor. Cultiva o encantatório e o onírico, tem uma dicção grave, solene, envolvente, bem adaptada à elegia, à ode e, muitas vezes, assume uma leveza nas canções. Ligado à geração de 45, é um neo-romântico cultivador do símbolo e transfigurador do real. Possui o poder de exprimir o humano e de fazer-nos vislumbrar o eterno. Esse poeta também rende sua homenagem ao poeta luso. Leiamos dele Ode a Fernando Pessoa no Cinqüentenário de sua Morte.

1. Morreste, afinal, ó poeta geral, ou prossegues, lívido, a cantar à paz de teu silêncio e ao verde-azul do mar? Se ponho — sim, estás vivendo em mim. Se digo — não, contemplo-te em canção, qual fantasma, insone, a vagar em nossa solidão. Se morreste, também morreu Ricardo e Álvaro se foi, partiu Alberto. Ou todos esses e quantos mais tu foste — como as máscaras gregas da tragédia — só viveram no poema, no teu verso, pendurados na dor dos vilancetes?, no teu verso, pendurados na dor dos vilancetes? Pode um poeta perder o seu futuro ou a morte não passa de interlúdio no resfolgar fatal de seus ginetes? E o fingimento? E todo o sal do mar nascido das guitarras marinheiras na hora de cantar? Ai, cantar e chorar são sempre a mesma cousa! Ambos rimam conosco e inscrevem-se na lousa que vai cobrir o que de essência somos. E tu, irmão do Tejo, do Lima e do Montego, por que tão perto estás e és cacto com medo a perecer no meio de um deserto? Oh, o teu verso tão certo a brilhar sobre os homens e o mar português! Teu verso que se fez de sono, mito, encantação e olhar. Mesmo não crendo, creste. E assim criavas novas formas de fé que alimentavam a lenta sombra rubra da existência. E foste na tarde a sobretarde e no real/irreal a consciência em fome de verdade. E cantaste da vida a brevidade entre o sempre e o jamais, a mágoa e a História. E nossa foi tua vasta visão premonitória. 2. É certo: em brumas sobrevéns de Alcácer-Quibir. Foi-te dado com isso pressentir o mistério do tempo e da memória, o lá-dentro das cousas e o lá-fora, a estrada de Delfos e de Ofir. Então, se tal se deu, nunca morreste. Estás nos tombadilhos, a boreste, com capa e pince-nez, a viajar. E aqui ficamos a te reinventar como as nuvens inventam sua sombra de naves fantásticas no mar. O mar de Camões. O reino das canções. A concha dos mistérios e navegações. E aqui te esperamos. Virás — quem sabe — de qualquer ilhota (ao lado de Almada e Sá-Carneiro) no solitário voar das gaivotas. Ou te erguerás, triunfal, a qualquer hora, de algum poema teu, à luz de auroras. Ou talvez desardomeças num soneto inglês. E todos de uma vez gritaremos teu nome que não some e é camerata, e luz, e dor, e ritmo, ou sagrado logaritmo nas álgebras do poema. 3. No tempo te saúdo. Não te enxergo na morte silenciosa. E só estás mudo. A tua voz se oculta entre as ramagens da árvore da vida. A tua voz ferida. A tua voz tão perto e tão distante. Voz, como os perfumes, caminhante, na curva e contracurva de algum fado. E aqui estou, igual a ti, parado, a louvar tua face essencial. Teu sonho delirante e teu naval olhar. Ou o teu guitarreio e suspirar. Ou o maldizer. Ou o teu saber. Ou o teu grito crescendo em solidão no reino de Netuno ou de Plutão.

Trata-se da celebração de Fernando Pessoa, considerado imortal por muitas causas. A linguagem, de um lirismo solene, próprio de uma ode, transmite elevação por entre lances de evocação, de metafísica e às vezes indireta argumentação defensiva da imortalidade do poeta, lances de saudação e louvor, tudo se impregnando, de sentimento intenso, mas não afetado, e tudo decorrendo num discurso entre neo-romântico e neo-simbolista.

As três primeiras frases interrogativas do poema, iniciadas pela alternativa "ou", aparentemente exprimindo dúvida, têm na verdade valor estilístico-poético de afirmações da imortalidade de Pessoa, abrangendo o último caso qualquer poeta. A palavra "interlúdio", do verso 17, lembra "Ficções do interlúdio", poema do ortônimo e título geral da produção heterônima. As duas frases interrogativas, a partir do verso 19, trazem, com a sua elipse verbal, um valor sugestivo. Além de sugerir, diante do contexto, que o fingimento, sendo marca pessoal do "poeta geral", é um dos fatores da defendida imortalidade, o autor sugere que tal imortalidade também aconteça por haver Pessoa cantado o sal do mar (veja-se a "Ode Marítima", de Campos, e a Mensagem, do ortônimo) como motivo de canto e pranto, motivo já metonimicamente "nascido das guitarras marinheiras". Para exprimir-se do verso 19 ao 23, o autor teria presentes na imaginação os célebres e criativos versos pessoanos "Ó mar salgado, quanto do teu sal / São lágrimas de Portugal!" embora Antônio Nobre já cantasse, referindo-se ao mar: Quais mais salgadas? As vossas ondas / Ou as que eu choro, que eu chorarei?"

Os versos 26, 27 e 28 estranham que o poeta tão identificado com a toponímia de Portugal, representada por três rios dessa nação, que por sua vez representam a cultura lusa, se encontre "cacto com medo" na distância do "deserto" da morte. Mas logo o autor sugere, como em outras partes do poema, que o verso pessoano resgata a memória do seu criador, e surgem os versos 29, 30 e 31, valorizados pela elipse verbal e pelo tom interjectivo-exclamativo. O verso pessoano é bem caracterizado pelo autor: "de sono, mito, encantação e olhar". O sono é leitmotiv do ortônimo e de Álvaro de Campos em sua 3a fase; o mito, matéria importante de toda a obra em estudo, máxime da Mensagem; a encantação, enquanto beleza estética, espalha-se admiravelmente por toda a obra ortônima e heterônima e, como magia, está no esoterismo pessoano; o olhar aparece principalmente na poesia de Alberto Caeiro, que o privilegiou: "O meu olhar é nítido como um girassol". Prossegue o poema com o propósito do autor de caracterizar poeticamente a obra pessoana. Os três versos seguintes referem-se à religião do poeta por uma espécie de instinto nacionalistas daí o paradoxo: "Mesmo não crendo, creste". O verso 37 aludiria, em sua imagem, aos "Dois Excertos de Odes", em que Campos, sugerindo estar na hora do anoitecer ("sobretarde"), fica na perspectiva da chegada da noite como símbolo da morte, mas o verso referir-se-ia sobretudo à situação de lusco-fusco muito cultivada pelo espírito paúlico e interseccionista de Fernando Pessoa.

Os versos 38 e 39 apreendem a extrema lucidez da obra pessoana, a envolver a tensão entre o real e o irreal. A brevidade da vida, muito presente na poesia de Ricardo Reis, focaliza-se nos versos 40 e 41. A "mágoa e a História" ligam-se particularmente à Mensagem, em que se lê "Screvo meu livro à beira-mágua" (OP, p.86) e em que vários vultos da História de Portugal se celebram. Nos dois últimos versos da 1a parte da ode em estudo, o autor identifica-nos com o messianismo da Mensagem, o profetismo sebastianista e com versos como estes: "Ah, já está tudo lido,/Mesmo o que falta ler!"

Dentro do propósito de considerar imortal o poeta que homenageia, o autor faz decorrer de toda a 2a parte do poema. E aquele que cantou o Quinto Império e o Encoberto, D. Sebastião, é confundido com esse rei. Como este, que viria entre brumas, de Alcácer-Quibir, o autor concebe que sobrevenha Pessoa. Assim como este foi visionário em relação ao Desejado, também Artur Benevides enche-se de visionarismo em relação ao poeta português. O oracular e a fabuloso de obra de Pessoa representam-se respectivamente pela alusão a Delfos e a Ofir. Frases com "nunca morreste", "aqui ficamos a te reinvendar", "aqui te esperamos", "Virás", "te erguerás", "talvez desadormeças", "teu nome que não some", compõem na 2a parte da ode o visionarismo poético de Benevides. Os versos 8 e 9 da mesma parte, com a menção a capa e pince-nez, dão-nos impressões muito vivas da atuação do sobreviver de Pessoa, encarada pela concepção visionária do autor de ode. O "Virás de qualquer ilhota" assemelha-se à crença de que D. Sebastião viria de ilhas onde mora, como se lê na Mensagem: "São ilhas afortunadas,/São terras sem ter lugar,/Onde o Rei mora esperando." A referência a soneto inglês fundamenta-se, como se sabe, no fato de Pessoa haver escrito os XXXV sonetos em inglês. Digno de registro o significante e fantástico modo como concebe o autor vir Pessoa ao lado de Almeida e Sá-Carneiro: "no solitário voar das gaivotas". Digno de registro também a concepção do entusiasmo unânime da nossa saudação ao poeta que chega: "E de todos de uma vez/gritaremos teu nome". Merecedores de notas ainda os sucessivos conceitos metafóricos do fim da 2a parte do poema.

Na 3a parte, continua o resgate da figura poética do Pessoa centenário. Formaliza-se a saudação: "No tempo te saúdo". E o louvor: "E aqui estou, igual a ti, parado,/a louvar tua face essencial". Corrobora a imortalidade do poeta este entendimento eufêmico: "Não te enxergo na morte silenciosa. E só estás mudo". Versos seguintes velam e revelam com habilidade a voz de Pessoa. Nesse âmbito, um paradoxo e sinestesias intensificam a poeticidade. A voz do poeta entremeia-se por algum fado conforme a concepção do autor. O certo é que há na estrofe uma tensão, ao imaginar o autor a voz do vate português ora muda ora atuante. Mas, porque existe a "face essencial" de Pessoa, que é a da Poesia, é possível vislumbrar-lhe imortais para o louvor o "sonho", o "olhar", o "guitarreio", o "suspirar", o "maldizer", o "saber", e até o "grito", que é voz enfática, embora ouvida a distância, porque vinda do reino de Netuno ou de Plutão. Daí, no fim da celebração poética, o elegíaco "(Hélas)".

Observe-se de passagem que o sistema rítmico e rímico do poema é bastante coerente, mantendo-se o autor numa espontaneidade com certa disciplina, ora usando versos polimétricos, ora adotando o ritmo psicológico, às vezes utilizando versos brancos, muitas vezes rimas consoantes, outras vezes rimas toantes.

Por essa análise, vemos a identificação, através de muitos aspectos, de um altíssimo poeta, Artur Eduardo Benevides, com um dos maiores poetas do mundo, Fernando Pessoa.



NOTAS


1. BENEVIDES, Artur Eduardo. A rosa do caos ou canções de quase amanhecer. Rio de Janeiro: Philobilion, 1987. p.111-113.

2. Queremos referir-nos com tal sigla, em todo o trabalho, a: PES-SOA, Fernando. Obra poética. Rio de Janeiro: Aguilar, 1969.

3. NOBRE, Antônio. Só. Porto: Tavares Martins, 1971. p.l3O.

4. Cf. QUADROS, Antônio. Fernando Pessoa-vida, personalidade e gênio. 2 ed. Lisboa: D. Quixote, 1984. p.301-305. O autor explica, na admirável parte do seu importante livro denominada "Um império espiritual, um império de cultura, a distorção que Fernando Pessoa dá à compreensão bíblica do Quinto Império, tendo em vista o interesse nacionalista da Cultura Portuguesa. Sugere o crítico que o misticismo de Pessoa compromete-se com os seus propósitos nacionalistas. Lê-se como interpretação do pensamento pessoano dada por Antônio Quadros: "Portugal não tem condições, nem para ser uma grande potência guerreira, nem para ser uma grande potência econômica, mas, tem-nas sim para ser uma grande potência construtiva ou criadora, um Império espiritual, um Império da Cultura. p.302



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