Luiz Cláudio
de Castro
Rua Araraquara, 184
Jardim das Indústrias
12.240-270 - São José dos Campos,
SP
A poesia de Soares Feitosa
Infelizmente, não sou crítico literário nem tenho
pretensão de criticar o ensaio Os Poemas da Besta. Digo apenas o
que senti. Vi um novo Apocalipse dentro de um escrínio de ouro.
Li e me embriaguei de beleza e de verdade. Maravilha o simbolismo entre
o estábulo do Menino-Deus e as maternidades que fizeram holocaustos
de criancinhas ao Anti-Cristo, já nascido, acho eu, e andando por
aí. Não há mais tempo, mesmo!
Thiago: conheci Thiago quando, ainda jovens, trabalhávamos
no gabinete do cearense Parsifal Barroso, Ministro do Trabalho, de então.
O Secretário do Ministro era o meu colega de Seminário, Hesídio
Facó, o mesmo Hesíodo de quem falo em O dia da Ira,
e homenageio, em memória, em Gogó de Sola. Voltemos ao Thiago.
Quando anos depois, em perigrinação, passei pelo ninho antigo,
procurei Thiago. "Fugiu para o coração da mata, para produzir
poesia" foi o que me contaram. Barreirinha é um nome que sempre
andou de bubuia na minha lembrança. Foi onde tia Belinha viveu com
o marido dela, Farias, ainda na minha infância. Fazendo o quê?
Francamente, não sei. O nome entra, em curta referência, no
romance que estou escrevendo e será, salvo melhor escolha, Covão
dos Sonhos.
De novo, os grandes Poemetos. O conteúdo de Thiago, que você
me assinalou ao telefone, e lhe sou gratíssimo, mastiguei suave
e gostosamente. E ainda volto a ele com o mesmo apetite. Afinidade, o cheiro
da terra, eis a questão. Antes, contei-lhe os constrastes vividos
no nosso Siarah, para bem destacar o sabor encontrado ao ler Thiago.
Meus olhos se assombraram quando li:
"Comuns de nós
a ancestralidade das águas desejadas,
minhas,
escassas, sofridas, minháguas;
enquanto as tuas, Thiago,
são as águas dos silêncios,
talvez reparações de alguma
reforma inconclusa
do dilúvio primevo".
Daí pra frente, Feitosa, foi aquele banho de cascata, como o
que tomou, num verdadeiro Eden, o seminarista de O Dia da Ira. Quando cantas:
"...que as águas dos teus rios, maiores que sejam,
jamais encharcariam estas terras secas,
terras que foram feitas para se irrigarem
tão somente quando daqui fugimos
...
nos
olhos
das que
ficaram.
Lembrei-me da mulher e dos filhos do João (Gogó de Sola),
deixados por ele no sertão. E me emocionei profundamente. Para depois
rir comigo mesmo dos "gritos plangentes dos macacos-pregos". Sabe por quê?
Parecei doideira, mas não é. Veja bem: eu criança
no castanhal da Tia Joana, impressionado com os gritos dos macacos, perguntei
ao caboclo Cecílio o porquê.
E ele: Os macacos quebram os ouriços de castanha, enganchados
no galho da árvore. Vez em quando acertam no preguinho deles.
Para concluir, conterrâneo Feitosa, até na "vastidão
terçã", fugindo e voltando, como aqueles pés que emigram
e povoam (Demócrito Rocha) encontrei paralelos sinais dos meus personagens
in Gogó de Sola. A febre terçã maligna da borracha,
no Desengano, onde você também, Feitosa, deve ter peregrinado
agora.
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