revista de cultura # 63
fortaleza, são paulo - ma
io/junho de 2008






 

Fred Svendsen: objeto de arte ou arte-objeto
[
entrevista ]

Ricardo Anísio

.

Fred SvendsenO artista plástico paraibano Fred Svendsen sempre foi um dos mais preocupados com o debate estético em nosso Estado e um dos que melhor soube manter a fidelidade a uma obra arrojada com boa aceitação de mercado. Em entrevista […] admite que há uma inércia no debate sobre a produção artística do Estado e, sem falso pudor, afirma que o artista precisa usar sua fama para transformar isso em dinheiro, e poder sobreviver de seu ofício. [RA]

RA Você considera que uma obra de arte é um objeto?

FS Nem toda obra de arte é um objeto, mas todo artista pode fazer do seu trabalho também um objeto, isto depende muito do conceito com que o artista trabalha.

RA Como surgiu a idéia de realizar essa recente experiência?

Fred SvendsenFS Esta apresentação é uma prévia de uma mostra que estou formatando, chamada de “Jerusalém”, por isso ela não teve abertura, porque ainda está em desenvolvimento, mas brevemente farei, uma grande mostra, e estou estudando muito para isto.

RA Não acha que o mercado local se afunila cada vez mais?

FS Acho que sim, porém nunca me esqueço do que um dia uma amigo meu me falou, “Se Picasso fizer uma mostra na Paraíba, ele poderá ser um fracasso” foi Chico Pereira quem falou, porque as pessoas daqui criaram o hábito de só prestigiar vocês, são palavras sábias, de quem entende o mercado.

RA O debate estético me parece cada vez mais esgotado, que acha?

FS A maioria dos artistas plásticos da Paraíba não sabe nem o que faz, por isso eles fogem do debate estético, como o cão foge da cruz, a maioria deles não lêem, sobre nada, acham que é preciso apenas saber pintar para ser um artista plástico, e não tem nenhuma preocupação com a teoria, esquecem que os grandes mestres dominavam seu trabalho, de ponta-a-ponta.

RA A que se atribuir a falta de eventos que proponham uma discussão ampla sobre a produção de arte na Paraíba?

FS As artes plásticas formam uma área muito silenciosa, porque os artistas não dependem uns dos outros, para buscar, seu espaço, pensando assim, é que cada um se individualizou, e corre atrás do seu espaço, sem o outro saber, os artistas plásticos da Paraíba quanto menos se ver, melhor é, não se gostam, se toleram, exatamente por isso é que não se consegue nem fazer um debate, nem o órgão representativo da classe,foi possível se manter, morreu lá nos anos 80.

Fred SvendsenRA Que acha do dilema de quem faz arte e tem que sobreviver de sua comercialização?

FS É a coisa mais terrível do mundo, pelo fato de que os governantes sempre que convida um artista plástico para participar de uma mostra, a primeira coisa que diz, é que para nós não tem nenhum dinheiro, e isto não é dito para música, nem para o teatro, porque sabe que não faz um show, nem um espetáculo sem dinheiro, como é que poderemos manter nosso trabalho, nosso trabalho depende de um custo operacional, que sem ele não é capaz de acontecer, está na hora dos artistas plásticos cobrarem um cachê para participar de mostras públicas, nós não cobramos entrada para se ver nosso trabalho, e os outros segmentos da arte sim, você só assiste se pagar.

RA O fato de ter que pagar contas e comer da arte, faz o artista tornar sua arte mais “acessível”?

FS Sim o artista tem que transformar sua fama, seu conhecimento em dinheiro para viver, no início da minha carreira, ainda nos anos 70 para 80 eu trocava muitos quadros com um comerciante de arte aqui por dinheiro que só dava para comprar latas de leite para minha filha que tinha acabado de nascer, e talvez, este tenha sido o melhor negócio que fiz em toda minha vida. Perdi o romantismo pela arte ainda muito cedo, tive que me desvencilhar logo deste papo, de que um trabalho meu, era um filho, quem ficou pensando assim, hoje não faz parte do mercado.

RA Qual a sua opinião sobre a chamada ‘arte conceitual’, as instalações?

FS Em todas as modalidades de arte existem as boas e as ruins, não gosto de arte conceitual, quando ela é uma repetição, mas toda arte tem um conceito, até a mais primitiva, que conhecemos, agora aqui na Paraíba, a maioria dos artistas conceituais, nada mais fazem, do que repetir ‘desavergonhadamente’, o que se produz em São Paulo e Rio, e que já é chupado dos americanos, imaginem a qualidade deste trabalho, que termina sendo a cópia da cópia.

Fred SvendsenRA Não acha que a instalação se sustenta muito mais no discurso do que na obra?

FS Sim a instalação tem que se sustentar em alguma coisa, pois ela não tem um produto, na maioria das vezes, elas são efêmeras, precisa alguém bancar, eu me lembro de uma bienal de São Paulo que um artista americano fez uma escultura de gelo que só durou o tempo da cerimônia de abertura, e enquanto os fotógrafos fizeram as fotos, ela derreteu.

RA Há uma década atrás, pelo menos, havia um movimento de arte na cidade. Por que isso acabou?

FS O movimento de arte que você fala, só foi subtraído daí as artes plásticas, porque o resto, continua, nós artistas plásticos, é que no momento estamos em baixa, mas isto também é cíclico, daqui a pouco voltaremos, isto é um defeito dos governantes, porque somos os artistas plásticos mais respeitados do país, digo isto sem nenhuma margem de erro, as artes plásticas estão no sangue do paraibano, se você olhar melhor vai ver que temos um trabalho, que pouco ou muito pouco se assemelha, ao de outros estados, quando falo nisto não incluo os copiadores, que falei anteriormente.

RA Em que sua obra mudou nesses últimos anos?

FS Eu sou uma das pessoas que mais estudo meu trabalho no Brasil, porque estou sempre tentando inovar-me sem perder o fio da meada dos meus trabalhos antigos, estou sempre olhando para o que fiz, para não me perder, como vi acontecer, com muitos artistas daqui, principalmente, com os músicos, e hoje eu tenho 300 obras no mercado do Rio, que nenhuma foi vista na Paraíba, e isto, me dá a tranqüilidade de que eu poderei morrer a qualquer dia, e sei que meu trabalho vai ser lembrado, para sempre, pois que investiu no meu trabalho não fez investimento para perder, um dia desses farão uma grande mostra minha em um grande museu do Rio, não mais estou no anonimato, enquanto muitos artistas, se preocuparam em conquistar a Europa, que isto é uma coisa que nunca vai acontecer, eu estava preocupado era de conquistar, o meu país, e ainda estou.

Fred SvendsenRA Olhamos à nossa volta e lá estão você, Flávio Tavares, Miguel dos Santos, Clóvis Júnior etc. Onde estão os novos talentos?

FS Os novos artistas estão acontecendo, e muito melhor do que os artistas da geração 90, são artistas que vem maturando seu trabalho a um longo tempo, e sem pressa, agora coloca seu trabalho para fora, tenho a impressão que estamos vivendo um grande momento no que diz respeito aos artistas novos, porque a maioria deles não precisam vendeu seu trabalho para comer, aí sim eles podem crescer, e fazer o que querem.

RA Figurativo ou abstrato?

FS Consigo ser os dois, e acho isto muito bom, precisamos só prestar atenção, para fazer os dois bem feitos, com qualidade, porque é muito mais fácil se derramar uma lata de tinta sobre uma tela do que pintar um trabalho feito o de Goya, a consciência de um trabalho abstrato é muito mais simples se chegar até ela.

Ricardo Anísio (Brasil, 1958). Jornalista e produtor musical. Tem escrito sobre música, cinema, literatura e artes plásticas. Autor de vários livros, dentre eles MPB de A a Z, dicionário comentado de compositores brasileiros. Contato: ricardoanisio@jornalonorte.com.br. Página ilustrada com obras do artista Fred Svendsen (Brasil).

RETORNO À CAPA ÍNDICE GERAL BANDA HISPÂNICA JORNAL DE POESIA

procurar textos