revista de cultura # 45
fortaleza, são paulo - maio de 2005

artista convidado: nicolau saião






 

Omnia in unum: breves apontamentos sobre a pintura dse Nicolau Saião

Ruy Ventura

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Nicolau Saião1.

Quem olha, sem preconceitos, os quadros de Nicolau Saião (n. Monforte do Alentejo, 1946) tem sempre, antes de mais, uma sensação de estranheza. O olhar, habituado a ver o mundo representado segundo cânones artísticos actuais que, pendularmente, oscilam entre um hiper-realismo e um abstraccionismo puro, sente-se incomodado perante os seus quadros. A estranheza de quem vê nasce da estranheza do objecto visto. À parte algumas obras que se elevaram como resposta a “maneiras de pintar” plenamente alicerçadas na História da Arte, a maior parte das pinturas – pequenos formatos, quase sempre neste caso – transporta para o espectador um certo incómodo, entrelaçado com uma certa dose de encantamento que aquelas figurinhas grutescas (“bonecos” lhes chama NS) e aqueles traços aparentemente ingénuos, mas luminosos, produzem no observador.

Queremos ver os quadros como abstractos – mas os títulos e algumas imagens (nascidas por ilusão de óptica?) não deixam. Queremos vê-los como representações figurativas de mundos nossos conhecidos – mas os traços indefinidos fazem abortar, em parte, a tarefa. É verdade: há imagens que também estão no nosso interior, mas mesmo essas assumem uma dimensão pictórica e figurativa que as afasta do nosso convívio quotidiano (sem deixarem de pertencer, profundamente, à mundividência do Homem no tempo).

É nesta altura que procuramos referências. São tantas as imagens evocadas, invocadas e evocadoras nos seus quadros (mas logo sujeitas a deformação, para que não estejam demasiado presas ao mundo material), que o pensamento precisa de estruturar um quadro referencial para entender a proposta estética (e ética) que NS põe à nossa disposição. Há, então, uma frase que se impõe, como axis mundi, eixo que orienta a circulação: “Omnia in unum”. Vinda dos alicerces do tempo, surge como síntese de um percurso artístico individual, discreto, mas cuja importância interessa equacionar (para que não sejamos, no futuro, como alguns “reavaliadores” que por este universo deambulam e que durante a vida dos artistas não cessam de cuspir sobre a obra válida que estes vão propondo ao mundo, invertendo a sua postura logo que a morte os leva e os ventos da fortuna sopram para outro lado).

Nicolau Saião2.

Antes de conhecer Nicolau Saião como poeta e como cidadão, conheci-o como pintor. Melhor dizendo: antes de contactar com a poesia e com a vertical acção cívica deste homem, comecei por me interessar pela sua pintura. Houve mesmo uma época em que, para mim, ela era apenas pintor – não me passando sequer pela cabeça que navegava, sobretudo, nos oceanos da Poesia.

Recordo bem o dia em que descobri os seus quadros. Tinha 15/16 anos. Visitando, em Portalegre, uma exposição de artistas alentejanos, fui encontrar duas obras que me tocaram particularmente, pela sua estranheza, pela sua capacidade de penetração, através das cores e dos traços, na Alma humana. Uma das pinturas tinha o vidro partido, colado com fita-cola, o que lhe dava um interessante aspecto subversivo no meio de alguns óleos com farpela lustrosa mas com corpo mal-asado.

Quando, mais tarde, comecei a conhecer a sua obra escrita, foi-se em mim desenhando uma convicção que não mais deixei (e tenho aprofundado): a sua pintura é inseparável da sua poesia. Criação plástica e criação verbal são duas vertentes da mesma montanha, de que fazem parte também as suas crónicas e os seus ensaios (felizmente) heterodoxos, tábuas diversas de um retábulo ainda em crescimento.

Surrealista na melhor acepção da palavra, NS vem construindo há mais de trinta anos uma obra plástica dotada de coerência assinalável. Sem se revestir de monotonia, vai tocando diversas técnicas de expressão e múltiplas formas de representação, para melhor interpretar as imagens interiores e exteriores que a dominam. Chamo-lhe “surrealista” não apenas por saber que integrou o movimento logo no início dos anos ’70. Fugindo deliberadamente do catecismo banal que muitos epígonos vão imitando com maior ou menor técnica, os quadros de Nicolau assumem aquilo que, de melhor, o verdadeiro Surrealismo nos tem trazido: a libertação total do ser humano e a abertura dos seus olhos a um Universo cheio de maravilha, mesmo quando as sombras desejam obscurecê-la.

Dramaturgo com obra publicada, autor da poesia intensa d’ Os Objectos Inquietantes (Prémio Revelação – Poesia, da Associação Portuguesa de Escritores), de Flauta de Pan e d’ Os Olhares Perdidos – NS parece querer corporizar, também na pintura, “a grande aventura” que, segundo Fernando Batalha, no nosso interior “se desenrola”. 

Com uma liberdade notável, tem construído centenas (milhares?) de obras que combinam - com sabedoria – a nostalgia e o encantamento, imagens vindas da infância com o nojo da hipocrisia social, ironia e sarcasmo com uma religiosidade que tantas vezes timidamente assoma. Traço e cor reúnem-se para elevar formas mais ou menos nítidas, retratos mais ou menos claros – elementos que ultrapassam a representação do real para criarem outra realidade, inquietante e misteriosa.

Desassossega-nos, a sua pintura. Com uma figuração internamente multiplicada, com paisagens povoadas por pequenos seres e por pequenas coisas, faz-nos sentir estrangeiros neste mundo de onde se vai ausentando o maravilhoso, que ela contém na sua plenitude.

Nicolau Saião3.

Não conheço a data em que Nicolau Saião pintou o seu primeiro quadro. Sei, no entanto, que em Portalegre não terão sido frequentes as ocasiões de contacto entre o futuro pintor e obras fortes da Arte Contemporânea. Antes de 1974, as ocasiões de contacto da população portalegrense com a pintura moderna foram escassas, quase inexistentes. É certo: desde os anos ’50, Portalegre conta no seu seio com a Manufactura de Tapeçarias (cuja relação com a pintura do nosso tempo é justamente reconhecida além-fronteiras), mas a divulgação da sua produção na cidade restringia-se a obras de gosto clássico, fruto de encomendas oficiais presentes em dois ou três edifícios públicos. Galerias não havia (e não há, ainda hoje). As exposições eram sempre fruto de iniciativas bissextas, geralmente movidas por “artistas alentejanos” com maior ou menor técnica. Era, portanto, muito difícil para os olhos do futuro pintor apreciar ao vivo obras de arte moderna significativas. A presença na cidade do escritor José Régio não era suficiente para mobilizar as vontades locais, levando-as a uma acção sistemática de divulgação da pintura contemporânea. Régio vivia no seu mundo, criando a obra sólida que todos reconhecemos... Além disto, conhecia bem o material humano com que lidava todos os dias, tanto que o retratou, com a mestria de um narrador de mão-cheia, na sua mesquinhez e no seu fechamento sócio-cultural. (Alicerçamos esta convicção na leitura de “Davam grandes passeios aos domingos” (in Histórias de Mulheres) ou d’ “Os Alicerces da Realidade” (in Há Mais Mundos)).

Não havendo, na cidade, possibilidades de um contacto directo com obras de arte contemporânea, havia, no entanto, lugares onde o artista podia apreciar objectos artísticos significativos. Não existindo outros recursos, NS habituou-se a contemplar os retábulos existentes nalgumas igrejas da cidade, nomeadamente na Sé Catedral, repositório de um dos maiores conjuntos portugueses de pintura maneirista, com obras significativas de autores tão importantes quanto Luis de Morales, Fernão Gomes ou Simão Rodrigues. Eram-lhe também caros os painéis de azulejos existentes no interior e no exterior de edifícios da arquitectura civil e religiosa da cidade, tanto aqueles que representam séries narrativas (como os da igreja do Bonfim) quanto os meramente (?) decorativos, alguns deles tímidos representantes da chamada Arte Nova. A toda esta riqueza artística com séculos de idade somava-se outro recurso, talvez (?) inesperado: a leitura assídua de publicações de banda-desenhada, como por exemplo o Mundo de Aventuras e o Cavaleiro Andante.

É talvez difícil compreender os fundamentos da pintura de NS sem conhecer estes passos da sua biografia, que aqui revelamos graças a generosas confidências do autor. Difícil se torna ainda entendê-los sem fazermos uma visita à sua “Casa da Muralha”, cujo quintal se encosta à semi-destruída fortaleza seiscentista de Arronches (a 30 quilómetros de Portalegre).

Quem aí entra sente cair sobre si a tal sensação de incómodo ou de estranheza, de que falei atrás. As paredes de todos os compartimentos estão revestidas por quadros. Há mesmo muros totalmente preenchidos por obras do autor, algumas reproduzidas em painéis de azulejo de razoáveis dimensões. Da visita à “íntima exposição”, ficamos com uma imagem que não conseguimos apagar. E, nessa imagem, uma certeza: utilizando técnicas diversas, apreendendo registos diferenciados, a pintura de Nicolau Saião é profundamente narrativa. Os seus quadros contam-nos histórias... Tivesse ele vivido nos séculos XVI-XVII e teria sido um pintor de retábulos historiados; se a sua vida decorresse no século XVIII, teria pintado grandes painéis de azulejo azul e branco; tivesse a sua vida nascido e crescido noutro meio, com outra formação técnica, e teria sido – talvez... – um grande narrador de aventuras através da banda desenhada...

Nicolau SaiãoComo não viveu há trezentos/quatrocentos anos, resolveu contar-nos histórias de outra forma. Em muitos dos seus quadros (autênticas pranchas) estão semeadas múltiplas vinhetas, povoadas por seres e ambientes, mais sugeridos do que representados. As histórias tanto podem vir da noite dos tempos como da sabedoria tradicional e/ou alquímica, tanto podem nascer de uma profunda nostalgia radicada nas memórias da infância e da adolescência quanto emergem de um olhar profundamente crítico sobre o mundo contemporâneo (português e planetário). As histórias observadas nos retábulos e azulejos portalegrenses ou nas revistas dos primeiros anos de vida aparecem transfiguradas. Delas resta apenas a forma (a vestimenta, ouso escrever), desfeita e refeita, assumida por outras figuras que fazem parte da estrutura óssea e mental do pintor. Nesta arte – apresentada numa multiplicidade de retábulos, tornados pranchas miniaturais – contactamos já não com as narrativas da vida de Cristo, dos santos ou dos super-heróis, mas com uma riquíssima memória pessoal que, vinda do Passado através da imaginação criadora, entra no Presente do artista e de quem as pode contemplar para nele lançar uma iluminação física e espiritual.

Há algo que, contudo, não podemos esquecer: a presença das palavras. No primeiro dia em que falei com NS, este disse-me uma frase que jamais esqueci: “Eu sou sobretudo Poeta!”. Não podemos esquecer-nos disto. A sua pintura e a sua poesia são indissociáveis. Muitos dos seus quadros são, por isto, povoados por palavras, como se estas fossem legendas que visam orientar o espectador, legendas que são autênticos poemas, ou fragmentos deles – que bem poderiam, em dias futuros, ser publicados em livro.

Há, assim, um mundo inteiro dentro dos seus quadros. Palavras e imagens, seres minerais, vegetais e animais, monstros e anjos, heróis e vilões. Tudo para nos levar a concretizar a máxima de Fernando Batalha: “a grande Aventura é no interior que se desenrola”. 

Ruy Ventura (Portugal, 1973). Poeta e ensaísta. Autor de livros como Arquitectura do silêncio (2000), Sete capítulos do mundo (2003), e Um pouco mais sobre a cidade (2004). Contato: ruy.ventura@clix.pt. Página ilustrada com obras do artista Nicolau Saião (Portugal).

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