revista de cultura # 45
fortaleza, são paulo - maio de 2005






 

O silêncio da África em Fernando Pessoa

Lucila Nogueira

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A Arnaldo Saraiva e Gilda Santos 

Fernando PessoaNo mês de agosto deste ano é assinalado o centenário do retorno de Fernando Pessoa a Portugal, de onde não mais partiria até sua morte, ocorrida há setenta anos. Nascido a 1888, tendo ido à África do Sul em 1896, só irá voltar de modo definitivo em 1905, embora tenha passado um período de férias de agosto de 1901 a junho de 1902 em Lisboa e na Ilha Terceira, no arquipélago dos Açores, onde habitavam parentes de sua mãe.

Comenta-se que esses anos passados na África do Sul são curiosamente o “buraco negro” dos biógrafos, porque à parte as informações de escolaridade obtidas nas instituições onde estudou, nada mais se conseguiu averiguar: sobre o assunto, o poeta biografado teria literalmente silenciado. Também há uma quase queixa da ingratidão para com a cidade de Durban, na província de Natal, a qual, apesar de acolher Pessoa durante quase dez anos, não teve seu nome mencionado em sua poesia hoje universalmente conhecida.

Verificando-se os textos que aparentemente tratariam do tema, essa leitura consegue trazer-nos uma sensação de desconforto, face a um colonialismo provinciano bastante desagradável. Fala-se todo o tempo no “aluno” brilhante, que conseguia dominar a língua e a literatura inglesa com perfeição. Comenta-se com orgulho o prêmio da rainha Vitória que obteve com uma redação sobre superstições e a sua excelente classificação na Universidade do Cabo,que não lhe garantiu, contudo, a bolsa de estudos na Inglaterra, perdida injustamente para o colega que ficou em segundo lugar.Não sendo cidadão britânico, foi discriminado ostensivamente na colônia inglesa, assim como também o fora o indiano Ghandi, cuja família ali possuía negócios: formado em Direito na Grã-Bretanha, achou que poderia sentar-se em um trem na primeira classe; foi interpelado a retirar-se e, não obedecendo, expulsaram-no do veículo com ele em movimento – a partir daí começou a sua luta pacifista e vitoriosa de resistência ao domínio inglês, que futuramente iria atingir a votação popular com a eleição de Nelson Mandela, primeiro presidente negro da República da África do Sul.

Em tempos pós-apartheid, em que esse território tem sua população dizimada pela epidemia da aids, inclusive reclamando a falta de espaço para as covas das vítimas, mas já derrubada a segregação que impedia a cidadania igualitária para os negros, verificamos que a análise de Pessoa na África não foi objeto ainda de estudo verdadeiramente ligado à teoria literária, em termos de comparativismo e interculturalismo contemporâneos. Em 1956, Maria da Encarnação Tavares Monteiro estudou as “Incidências Inglesas na Poesia de Fernando Pessoa”, que publicou às suas próprias custas, na cidade de Coimbra. Em 1966 o brasileiro Alexandrino Eusébio Severino defendeu a tese de doutorado “Fernando Pessoa na África do Sul”, que depois viria a publicar tanto no Brasil como em Portugal, fixando após residência nos Estados Unidos. Seu trabalho teve por objetivo o excelente aproveitamento de Fernando Pessoa na Durban High School. No período de elaboração, manteve correspondência com H. D. Jennings, professor do liceu onde Pessoa estudara, que veio a escrever a história da instituição e, posteriormente, a biografia “Os Dois Exílios: Fernando Pessoa na África do Sul”, publicado pelo Centro de Estudos Pessoanos do Porto em 1984 (Fundação Engenheiro Antonio Almeida). Este último, tomou-se de tal paixão pela obra de Pessoa que chegou a aprender português e tornar-se conhecedor das coisas de Portugal.

Nicolau SaiãoTomando conhecimento de que a Revista Tabacaria número 11, de 2003, publicara um especial volume intitulado “Pessoa em África”, julguei que aí existiriam estudos mais atualizados do ponto de vista acadêmico. A única colaboração voltada para o assunto era a ficção de Clara Ferreira Alves com o nome de “Os Dias de Durban”, com fotos da cidade por João Francisco Vilhena. A autora finaliza o texto (escrito em nome de Álvaro de Campos) encontrando em Durban o filho de um antigo colega de Pessoa, Mr. Jenkins, que lhe entrega uma carta nunca aberta do poeta a seu pai. Uma carta de despedida, em que Fernando Pessoa afirma que vai riscar a África dos seus escritos, dos seus sentimentos, do seu coração. Porque a África, segundo ele, seria um lugar de sentidos e não de sonhos. Verdade ou não, uma abordagem ficcional.

Comecei a pensar nessa lacuna biográfica imensa e na orfandade tão triste de Pessoa. Arrancado de Portugal aos sete anos e devolvido aos dezessete, com a formação lingüística inglesa, e uma cabeça multicultural, a partir da observação e convivência com várias etnias. Parece-me notadamente estranho que se tenha deixado de observar a inserção de Pessoa em uma comunidade tão rica, onde ele teve oportunidade inclusive de tomar conhecimento de várias religiões. O que não se tem feito, nos estudos pessoanos, é verificar o comprometimento local do poeta, ou seja, com o território e a cultura africana ali tão especial, inclusive pelo alto número de indianos, além de holandeses, franceses, alemães, conjugados aos zulus e seus rituais, ao que entre eles havia de muçulmanos, todos sob o colonialismo inglês, que haveria de aguardar algum tempo para ser derrotado. Esta é a verdadeira África de Fernando Pessoa, e não um pedaço hipotético de uma Inglaterra artificial imposta pelas armas imperialistas a um povo que já reivindica – e obtém – das instituições internacionais de direitos humanos a condenação dos colonizadores pelo genocídio contra ele cometido historicamente, além da violência absurda na ocupação de suas terras, crimes étnicos sobre cuja omissão da Igreja já pediu desculpas publicamente o falecido papa João Paulo II.

O que está sendo dito aqui é que não foi apenas o brilho de Shakespeare que influenciou a escrita e o modo de ver o mundo do poeta lusitano. Como a vida não se resume ao horário escolar, também foram importantes as informações e contatos obtidos por Fernando Pessoa dos marinheiros de várias nacionalidades com quem conversava no consulado português de Durban e nas duas viagens de navio que fez sozinho quando adolescente; as conversas com a empregada Paciência e o escravo vindo de Moçambique; também das várias gentes que encontrava na noite de Durban, pois aos quinze anos seu padrasto o matriculara em uma escola de comércio (!) distante de casa cujas aulas eram noturnas. O puritanismo vitoriano do lugar, mencionado por alguns autores, deve ficar nos limites das famílias inglesas imperialistas associado à sua conseqüente hipocrisia: dentro dos muros residenciais e escolares. Porque, ao contrário do que imaginou João Gaspar Simões, como um porto internacional,cosmopolita, Durban tinha a liberdade dionisíaca característica de lugares onde acorrem aventureiros, comerciantes e desbravadores de muitos lugares. Lembra H. D. Jennings que as fichas dos bordéis de Durban daquela época até hoje são disputadas por colecionadores, pois os mencionados bordéis lá só foram extintos em 1918.O que significa uma prática hedonista constante, marcada pela alegria de uma comunidade aberta ao progresso e á industrialização.

É preciso também não esquecer que a cidade se tornou capital asiática do continente africano e que o contingente de indianos chegou inclusive a superar o número de brancos. Há uma influência oriental na própria arquitetura, com torres semelhantes a mesquitas e templos do oriente.O que quer dizer que se Pessoa recebeu a marca escolar do imperialismo inglês, ele também recebeu a marca do modo de ser indiano, oriental, que tanto iria estar presente nos poemas de Alberto Caeiro, a quem ele considera o próprio paganismo. Esta expressão é sempre utilizada por Pessoa em oposição ao cristianismo e, em alguns momentos, como sinonímia do budismo – leia-se o claro manifesto constante do oitavo poema de “O Guardador de Rebanhos”. Também o elogio feito ao grandioso mistério do Oceano Índico é bastante revelador.

Quanto à situação de Fernando Pessoa em Durban, haveremos de ver que, se não era negro nem amarelo nem escravo, era, por outro lado, um estrangeiro, no caso específico, um cidadão de segunda classe, que não tinha direito a estudar em Oxford, ainda que fosse o primeiro da turma. Há por sinal uma teoria de que não teria voltado a estudar no liceu, quando do retorno das férias de Portugal, porque havia sido vítima de maus tratos.Daí o padrasto o ter recambiado à Escola Comercial. Aliás, o rigor com que eram tratados os alunos nas instituições inglesas já foi motivo de vários registros históricos. De qualquer forma, Pessoa era também um cidadão de segunda classe em casa, aquela família que crescia não era verdadeiramente a sua; ao que consta, somente a meio-irmã sobrevivente conviveu com ele fraternalmente, após voltar a Portugal, por motivo da morte do pai cônsul; os outros meio-irmãos foram viver na Inglaterra, desconheceram completamente as necessidades econômicas do poeta, que chegou a morar em uma leiteria e a pedir dinheiro emprestado a Armando Cortes-Rodrigues, quando da mudança de sua tia Anica para a Suíça.

Nicolau SaiãoDe modo que foi na África do Sul que o poeta começou a ser injustiçado: pelas suas próprias palavras, “mandado” para estudar coisas do comércio, quando era uma brilhante futura carreira de professor ou jornalista, à parte e em conjunto com o seu grande talento de poeta. De quem foi a responsabilidade? Do padrasto. Órfão de pai, órfão de pátria: assim era Pessoa em África. Estrangeiro em tudo,casual na vida como na alma.No entanto, ali estava ele, a confrontar o catolicismo com o luteranismo, o islamismo com o budismo, Cristo com Buda, com Alá e com os ritos sagrados dos ancestrais zulus – esse o seu real aprendizado curricular da natureza humana. Atribuo a esse ambiente de fés entrecruzadas o seu grande misticismo, desde cedo se desviando da ortodoxia. Também ao carisma imenso dessa África tão forte, que mesmo vindo para o Brasil como escrava, nos impôs suas crenças no sincretismo que hoje cultuamos, África onde se encontrou o ser humano mais antigo, África da civilização riquíssima do Egito, onde Platão aprendeu um conhecimento singular que falava da reencarnação de uma vida em outra vida. África dos rituais xamânicos ao som de tambores e atabaques, da cura atingida através do transe, do êxtase religioso, das comunicações mediúnicas. África do livro dos mortos embarcando no rio Nilo, África esotérica das pirâmides e da esfinge, das alucinações do deserto, da busca de um oásis no meio do caminho.

O exílio africano há de impregnar a obra de Fernando Pessoa de um misticismo integral, ainda que não ortodoxo. Essa sabedoria inicial e iniciática haverá de o levar ao espiritismo, à teosofia, à maçonaria, às ciências ocultas.Sua temporada na escola das freiras irlandesas (Convent School), na Durban High School e na Escola de Comércio, lamentavelmente para a Inglaterra, não o vinculou à literatura dita inglesa, e Pessoa tratou de publicar seus poemas ingleses mesmo em Portugal. Quando estréia em sua língua e em sua terra é como crítico – só depois os poemas irão surgindo, pois passou quase três anos para se readaptar ao português. Quando retorna, há cem anos, da Africa, o motivo seria para matricular-se na Faculdade de Letras de Lisboa. Mas só um ano e um mês após, com a chegada da mãe, padrasto e filhos para uma temporada de seis meses, já em 1906, é que o poeta é matriculado na instituição, da qual se afasta por haver participado em um movimento grevista, débito que o mundo acadêmico português tem para com ele – como duvidar do testemunho de seu próprio meio-irmão, de que ele teria sido expulso da Faculdade?

Observamos de modo claro as injustiças de que foi vítima o poeta, muito especialmente a da Durban High School, no dizer de Angel Crespo não mais do que uma das muitas arbitrariedades que costuma gerar o nacionalismo exacerbado, a mentalidade tribal das sociedades coloniais; apesar de obter a nota 1098, a melhor de todos os estudantes da província de Natal, Pessoa perdeu a bolsa para o seu colega C. E. Geertds, com apenas 930 (questionado sobre o fato quando já estava idoso, este respondeu que com certeza “Pessoa não podia concorrer, porque se pudesse, o premiado seria ele, pois era muito mais inteligente e preparado”). O poeta, a partir daí, verbalizou em sua inocência a condição de estrangeiro, com toda a carga discriminatória que ela encerra do ponto de vista das chances profissionais. Ou seja, o sistema de educação britânico dava a escolaridade, mas não dava a oportunidade. A conseqüência foi determinar o padrasto que abandonasse Pessoa imediatamente a África do Sul.(Contudo, um dos filhos do padrasto, João Maria, mesmo nascendo em Portugal, na temporada de 1901 a 1902, teve seus estudos assegurados na Inglaterra; após quinze anos de residência ali, foi a Portugal e visitou o meio-irmão – quantas cartas dele a Pessoa existem no espólio, na famosa arca depositada em Lisboa, na Biblioteca Nacional?).

Nicolau SaiãoRetornando, há cem anos, a Portugal, deu Fernando Pessoa o início ä sua vida literária, intelectual. Há informação de que teria escrito um poema em português na temporada na Ilha Terceira, ainda adolescente. O resto, é o que todos já sabem: a consagração da obra, a tentativa oficial – jamais atingida – de dizer que todos foram ótimos com ele, o qual seria alguém do tipo passivo e conservador. Consta que houve mesmo em seu enterro, há setenta anos, um parente que pronunciou: “um inútil”. Há que se observar o caráter revolucionário de Pessoa não apenas na vanguarda literária que instaurou o modernismo português, mas também em atitudes corajosas que o fizeram alvo de perseguições. E a apreensão da Revista Portugal Futurista? E a censura aos livros que editou pela Olisipo? Como estranhar sua escrita de heterônimos/pseudônimos em uma atmosfera tão repressiva que proibiu até a maçonaria – instituição que Pessoa bravamente defendeu.

Neste centenário do retorno do escritor à sua pátria – que ele definiu como “a língua portuguesa” (não necessariamente o território), nada melhor que lembrar um fragmento da “Ode Marítima”, esse tipo de diário de bordo em que pinta com detalhes suas impressões de viagem pelo mar da adolescência que lhe foi dado atravessar:

Homens que erguestes padrões, que destes nomes a cabos!
Homens que negociastes pela primeira vez com pretos!
Que primeiro vendestes escravos de novas terras!
Que destes o primeiro espasmo europeu às negras atônitas!
Que trouxestes ouro, missanga, madeiras cheirosas, setas,
De encostas explodindo em verde vegetação!
Homens que saqueastes tranqüilas povoações africanas,
Que fizestes fugir com o ruído dos canhões essas raças,
Que matastes, roubastes, torturastes, ganhastes
Os prêmios de Novidade de quem, de cabeça baixa,
Arremete contra o mistério de novos mares!
Eh-eh-eh-eh-eh!

Lucila Nogueira (Brasil). Poeta e ensaísta. Autora de livros como A dama de Alicante (1990), Zinganares (1998), e Bastidores & Refletores (2002). Palestra proferida no Seminário “A Cidade e o Campo”, no evento “Nomadismo e Cidadania”, 22/12/2004, no Centro de Artes e Comunicação da UFPE. Contato: luc.nog@terra.com.br. Página ilustrada com obras do artista Nicolau Saião (Portugal).

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