revista de cultura # 45
fortaleza, são paulo - maio de 2005






 

Ednardo: na asa do vento
(entrevista)

Eleuda de Carvalho

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EdnardoNada melhor do que a música para expandir a consciência. Mais eficaz que um discurso, mais rápida que a leitura de um livro, é a mais democrática das manifestações artísticas. Muitos dos garotos e garotas dos anos 70 ouviram falar da Padaria Espiritual e da Confederação do Equador a partir de algumas composições de Ednardo. Foi ele também o responsável por fazer o Brasil inteiro ouvir e cantar um romance de cordel sob o batuque lento do maracatu, com Pavão Mysteriozo. Sozinho ou com os muitos parceiros, Ednardo incorporou ao repertório pop brasileiro - muito antes de caranguejos cerebrados cantarem a manguetown - os ritmos coletivos do povo nordestino, os bois, as cirandas, uma infinidade de maracatus. Renovou o baião e o aboio, com sua singularíssima voz. E ele continua a encantar as novas gerações.

Também produtor musical e ligado em cinema, Ednardo é autor do documentário Cauim, também nome de um disco seu. Ele próprio fez o personagem de um cantador no filme Luzia-Homem, de Pedro Jorge de Castro. Mas o feito mais emblemático da trajetória deste ariano, nascido há exatos 60 anos nesta cidade de Fortaleza, foi o coletivo Massafeira, quatro dias de sonho e festa no vetusto Theatro José de Alencar, de 15 a 18 de março de 1979, do qual nasceu, um ano depois, o álbum duplo com 24 composições, unindo diversos artistas cearenses. Foi a primeira vez que eu vi, junto com os belos cabeludos da cena musical local, a beleza ímpar de um homenzinho meio cego, vestido numa camisa de volta-ao-mundo, recitando sua visceral poesia ao vivo. Patativa do Assaré.

Nesta conversa feita por e-mail e em duas partes (no meio, Ednardo voltou rapidamente à cidade para fazer, junto com Belchior, o show de aniversário de Fortaleza), ele conta a sua trajetória sonora. Desde os festivais locais que revelaram sua geração, o impacto da canção Pavão Mysteriozo, os programas de tevê entre Rio e São Paulo, a Massafeira, os parceiros, os amigos, os percalços. Os sonhos e desesperanças. E seu amor incondicional ao Brasil. [EC]

EC - Queria começar no meio do caminho. Vamos marcar este antes e depois com a canção que, penso, significou também uma guinada na sua trajetória. Estou falando do “Pavão Mysteriozo”. Em que circunstâncias você criou esta música, como foi a primeira recepção à marcação solene da batida do maracatu numa canção popular? O que aconteceu com o disco e sua carreira quando o “Pavão” foi tema de abertura da novela Saramandaia?

Nicolau SaiãoE - Havíamos gravado o primeiro disco, Pessoal do Ceará - Ednardo, Teti, Rodger Rogério -, e a música de sucesso público foi “Terral”, a primeira dessa geração que alcançou nível nacional e internacional. Fiquei feliz é claro, e também angustiado, porque nosso projeto era fazermos shows juntos, mas a maior parte dos convites que chegavam de tevês, rádios e shows pedia somente minha apresentação. Cheguei a recusar apresentações, se não fossem os três. A situação era difícil porque havia a necessidade real de trabalhar para poder pagar minha própria subsistência básica, o Rodger tinha emprego de professor de Física na Universidade de São Paulo (USP), tempo integral, que garantia ele e família, e a Teti, mesmo com vontade de desenvolver carreira artística, ficava em casa com os filhos do casal. E eu ficava rolando entre Rio e São Paulo, morando de favor na casa de uns e de outros. O parceiro Rodger até pensou em sair da universidade e se dedicar somente à música, Teti foi contra, temia não dar certo. Na época dos três renovarem contrato na Continental, a gerência, com a objetividade dos homens de negócios, disse só se interessar em renovar meu contrato. Isso foi a gota d'água e pedi para sair da gravadora, junto com Rodger e Teti. Tempos depois, eu estava gravando O Romance do Pavão Mysteriozo na RCA, e Rodger e Teti gravando Chão Sagrado na mesma gravadora. Inicialmente não aconteceu nada com os discos. Achavam estranhas nossas letras, músicas, ritmos. O produtor Walter Silva disse: “O pessoal da gravadora não está gostando das músicas e principalmente deste 'Pavão Mysteriozo', com ritmo não conhecido e com palavras não usuais para o grande público, mas, justamente por isso, acho que vai ser um grande sucesso”. Esperei dois anos para ver concretizado este fato que o Walter Silva falou, realizado por Walter Avancini e Dias Gomes, que escolheram esta música para abertura de Saramandaia. Foram anos de espera e dificuldades, e meus companheiros Rodger e Teti não agüentaram, e se mandaram pra Fortaleza.

EC - E você, quando foi que saiu de Fortaleza e se radicou no Rio? Como foi esta viagem, esta mudança? Bateu uma vontade de voltar?

E - Saí de Fortaleza em 72. Antes, entre 69 e 70, fui ao Rio de Janeiro, passei pela Bahia, sondando ambientes, espaços onde minha música pudesse ecoar. Quando cheguei ao Rio, não conhecia absolutamente ninguém da área musical. Saí de Fortaleza dirigindo um fusquinha, com a cara e a coragem, ô estrada comprida, uns cinco dias pra chegar, mas eu estava com meus sonhos, e a vontade inabalável de fazer alguma coisa. Lembro com carinho da carta que o amigo Guilherme Neto da TV Ceará fez quando soube que eu estava indo pro Rio, era uma apresentação a um amigo dele. Nem procurei a pessoa indicada, por absoluta timidez. O parceiro Belchior estava há alguns meses no Sudeste, vez por outra enviava cartas contando a dureza da grande cidade. “Ednardo, vem que juntos podemos fazer muitas coisas, sozinho é difícil. Vem e traz alguma grana para os primeiros tempos. Juntei as economias para gastar só nos maus dias e gasto hoje afinal”. Não tem glamour nas dificuldades iniciais, todas são definitivas na decisão de ficar ou voltar, quando não temos por perto amigos, amigas, família. Quando estamos sós, quando se olha pro oco do mundo e nada do mundo olha pra você… O baque que sentimos é considerável, só os fortes resistem. Residi sete anos em São Paulo, grande parte em viagens entre Rio-São Paulo. Depois, voltei a Fortaleza, onde residi por quatro, cinco anos. Em 1985 fui de novo para o Rio, onde fixei residência e permaneço. Quanto ao lance de bater vontade de voltar, é característica quase atávica do cearense, que viaja ou mora pelo mundo. É retratado por Gustavo Barroso no “Hino de Fortaleza”, em parceria com Antônio Gondim: “Onde quer que teus filhos estejam,/ na nobreza ou riqueza sem par,/ com amor e saudades, desejam/ ao teu seio o mais breve voltar./ Porque o verde do mar que retrata/ o teu clima de eterno verão/ e o luar nas areias de prata/ não se apagam nos seus corações”.

EC - Aí pelos meados da década de 70, surgia com força toda uma geração vinda do Nordeste, o pessoal do Pernambuco, o Pessoal do Ceará. Havia um ponto de encontro onde a turma nordestina se encontrava? Rolava algum tipo de discussão ou projeto coletivo? Ou cada um estava tentando se firmar e prevaleciam as individualidades?

E - As pessoas chegaram ao eixo Sudeste no início da década de 70, “vindas daqui e dali, de todo lugar que se tem pra partir”, como diz Edu Lobo, mas quando a gente chega à outra grande cidade, saindo, naquele tempo, de nossas províncias, a realidade é outra, o espaço físico das metrópoles, a arquitetura existencial de relacionamentos é diferente. Existia também a ditadura militar, que considerava reuniões e ajuntamentos sistemáticos de qualquer espécie de gente como perigo iminente e potencial contra o regime implantado. A gente andava em grupos como forma de proteção mútua, mas não existiam pontos de encontros determinados, saíamos pela noite de São Paulo, e aconteciam encontros inusitados. Nossa casa (chamamos de nossa por afetividade ao local que nos abrigou durante algum tempo), na realidade emprestada por alguns meses a Belchior pelo cineasta Mário Kuperman, enquanto era demolida, era o ponto de encontro dos cearenses: rua Oscar Freire, 1500, Pinheiros, São Paulo. O programa Mixturação, da TV Record, gravado semanalmente no Teatro Record - na rua Augusta, e depois o Mambembe da TV Bandeirantes, gravado no Teatro Paramount, ambos dirigidos por Walter Silva, também eram pontos naturais de encontros. Chegávamos de manhã e os ensaios e gravações demoravam bastante, então a gente aproveitava para colocar a conversa em dia. Participaram destes programas o Pessoal do Ceará (eu, Rodger, Teti, Belchior, Cirino, Pequim, Jorge Mello), os Novos Baianos, o Grupo Capote, Simone, Paulinho Nogueira, os irmãos Clôdo, Climério e Clésio (dos quais produzi o primeiro disco São Piauí, na RCA), Walter Franco, Secos & Molhados (Ney Matogrosso regravou “Pavão Mysteriozo”), Marcus Vinícius e Anah, Renato Teixeira, enfim era muita gente. Mas não havia o ambiente que tínhamos em Fortaleza, no Bar do Anísio ou Estoril.

Nicolau SaiãoEC - Sua música sempre esteve muito afinada com os temas de Fortaleza, do Ceará, do Nordeste. Tanto nas letras quanto nos ritmos. Mas você compôs também a linda “Serenata pra Brazilha”, tem “Carneiro” - com letra do Augusto Pontes, que fala desse sonho de ir-se embora, tem “Araguaia”.

E - Fortaleza e todo o Ceará são meus pontos principais de referência, são coordenadas existenciais queridas, das quais não abro mão. Mas isto não impede que, por tanto viajar por todo este Brasil, eu me sinta também à vontade em outros lugares. Gosto muito do Rio de Janeiro e São Paulo, da Bahia e Rio Grande do Sul, do Piauí, Brasília, Belém, Maranhão, Pernambuco… Isto não é uma média de simpatia, me identifico mesmo com este sentimento de brasilidade que emana desta pluralidade de pessoas, do nosso jeito de ser tão amplo. Tenho consciência que falo bastante do Ceará, desta sintonia nordestina, mas também aprendo tanto com outras paisagens e habitantes, que seria desperdício não me permitir emocionar e eivar o esteio principal da criatividade ao fazer este mapeamento sonoro rítmico com palavras que me aproximem daquilo que também prezo em ser: um cidadão do mundo.

EC - Queria que você falasse do primeiro disco, Pessoal do Ceará, com Rodger e Teti (também intitulado Meu corpo, minha embalagem, todo gasto na viagem). De quem foi a idéia da capa, com aqueles bilros, as mãos da rendeira?

E - Conheci Rodger e Augusto Pontes no I Festival Nordestino da Música Popular Brasileira, em Fortaleza - 68/69. Eu havia apresentado a música “Chapéu de Palha” (Ednardo), e o Rodger a música “Bye Bye Baião” (Rodger-Dedé). Estava assistindo outros artistas, quando chega Augusto e diz: “Boa noite, meu nome é Augusto Pontes, esse aqui é o Rodger. Gostei de sua música e Rodger também. Você faz Química, o Rodger faz Física, eu faço Filosofia, e estamos todos ali na UFC, a gente podia se encontrar”. Conversamos rapidamente ao lado do palco do clube Náutico e depois nos encontramos na cantina da Universidade, estava muito barulhento e resolvemos ir pra um barzinho que existia em rua próxima. Tinha um violão por lá, começamos a tocar e cantar algumas músicas. Depois fomos fazer uma visita ao Diretório Acadêmico da Escola de Arquitetura, que ficava quase em frente, lá encontramos: Brandão, Fausto Nilo, Pepe Capelo. Então foi se formando nossa turma boa.

EC - Como surgiu o projeto Massafeira, juntar aquela turma toda, todas as artes, em quatro memoráveis dias de março de 1979…

E - Penso que o início mesmo da Massafeira é quando, em 78, realizei o show de lançamento do disco e filme Cauim, todo filmado em Fortaleza sobre maracatus, Confederação do Equador e outros assuntos mais, numa espécie de documentário-ficção. Para este show havia convidado como participantes especiais os parceiros Dominguinhos e Climério, para cantarmos juntos e lançarmos o livro do Brandão (Todas as Noites), que eu havia editado, e dois livros do Climério. Brandão havia feito a arte da capa do disco Cauim, e solicitei que ele realizasse o layout de palco do show. Em minha concepção, o filme seria projetado em rede branca estendida como tela, entre bandeiras de várias cores, no meio do espetáculo. O Brandão gostou da idéia e começamos a trabalhar, tinha convidado Régis e Rogério Soares para realizarem a parte da projeção do filme. Eles, na reunião, entre tímidos e sonhadores, falaram que seria legal se também artistas iniciantes se apresentassem para abrir o show. Ponderamos que seria inviável em termo de tempo, mas achávamos uma boa idéia que poderíamos ampliar depois. Que ampliação foi esta que, ao chegarmos para a passagem de som e luz, já estavam no TJA mais de 30 pessoas, dos mais jovens e promissores talentos da novíssima geração musical, que acompanharam toda a montagem, subiram no palco, em suma, uma demonstração inequívoca de suas boas vontades de participarem. Também antes da hora do show e após, a quantidade de visitas ao camarim foi muito grande e todos eles e elas estavam por lá. O grande fotógrafo Gentil Barreira, contratado por nossa produção, registrou desde a montagem deste lançamento de Cauim à realização do show. Então foi a constatação que poderíamos realizar a união de várias gerações artísticas em um movimento abrangente, de várias formas de artes. E nasceu a Massafeira.

Nicolau SaiãoEC - Bem, e depois, teve o disco duplo, lançado em 1980. Como foi levar a galera toda pra gravar no Rio?

E - Momento sem precedentes na história da indústria fonográfica brasileira. Jairo Pires, então diretor geral da CBS, veio especialmente para assistir Massafeira no Theatro José de Alencar, ficou impressionado, me chamou e disse que autorizava um disco com alguns artistas. Ponderei que um disco seria pouco, diante da diversidade e importância do que estava rolando. Para transportar uma parte da energia e clima artístico, seriam necessárias muitas outras pessoas. Em Fortaleza não havia estúdio de gravação com qualidade técnica, e para isso tivemos que ir de avião e de ônibus para o Rio, ficamos hospedados no Hotel Santa Tereza. Em dois meses de trabalho titânico, realizamos três discos com minha produção artística e direção, o álbum Ednardo e o álbum duplo da Massafeira. Além disso, em março, gravamos e filmamos ao vivo Patativa do Assaré se apresentando na Massafeira.

EC - Lembro de vê-lo, um dia, no Estoril, numa noite aí pelos idos de 80. Você, sua mulher e uma menina de imensos olhos cor do mar, sua filha Joana Limaverde (atriz). Fale um pouco de sua família e do lance de ser avô.

E - Do final de 79 ao início de 83, por causa da Massafeira, eu e minha família residimos em Fortaleza. Minha querida mulher guerreira Rosane me acompanhou nestas mudanças de cidades. De São Paulo, onde residíamos desde 72, voltamos para Fortaleza em 79, e retornamos ao sudeste em 83, desta vez para o Rio de Janeiro. Enquanto isso, os filhos e filhas foram nascendo, Joana, em São Paulo, Gabriel e Júlia, em Fortaleza, Daniel, no Rio de Janeiro. Com alegria vamos vendo todos crescerem, e a continuidade representada pela nova geração é sempre bem vinda.

Eleuda de Carvalho (Brasil, 1959). Jornalista, repórter do caderno Vida & Arte, do O Povo (Ceará). A dissertação de mestrado, Cordelim de novelas da Xerazade do sertão, sobre o Romance A Pedra do  Reino, de Ariano Suassuna, teve um capítulo publicado em coletânea da  Academia Cearense de Letras. Contato: eleudacarvalho@walla.com. Página ilustrada com obras do artista Nicolau Saião (Portugal).

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