revista de cultura # 45
fortaleza, são paulo - maio de 2005

discos da agulha

Cordas Cruzadas, de Maogani1. Cordas Cruzadas, de Maogani - Quarteto de Violões. Rob Digital. Contato: contato@robdigital.com.br.

Cabe numa frase a apresentação mais bem acabada do quarteto de violões Maogani: “É o que há de melhor, hoje, em matéria de execução e arranjo para violão no Brasil”. A definição é insuspeita. Vem de um gênio do ramo. É de Guinga, referência maior da interseção entre popular e clássico na música brasileira contemporânea.

Bastaria a remissão a Guinga para dizer a que veio “Cordas Cruzadas”, segundo CD do Maogani. Porém, o disco é mais. Paulo Aragão, Carlos Chaves, Marcos Alves e Marcus Tardelli se superaram. Fizeram um CD ainda melhor que o primeiro, lançado em 1997 e singelamente batizado de “Maogani”, como quem modestamente dizia “muito prazer”.

Mais uma vez, os arranjos requintados beiram os céus da excelência. Dignos de antologia, conseguem não repetir os originais sem cair na tentação de reinventar as composições. Vale um destaque especial neste particular para Passaredo, canção de Chico Buarque e Francis Hime, que recebe arranjo instrumental estupendo de Paulo Aragão.

Apenas dois arranjos não levam a assinatura de integrantes do grupo - Bananeira, de João Donato e Gilberto Gil, entregue a Célia Vaz; e Pra Lúcia, de Itiberê Zwarg, baixista da banda de Hermeto Paschoal, arranjada pelo próprio autor.

Das 14 músicas (sete delas, inéditas), 10 são instrumentais. Em apenas quatro faixas, os violões são acompanhados de voz - e, no caso deles, não é exagero dizer que a voz acompanha o violão. Uma delas é Choro Réquiem, de Guinga e Aldir Blanc. A emocionada interpretação é de Guinga.

Aliás, recomenda-se logo um pulo à faixa sete do CD. É lá que está Choro réquiem, composição de beleza tão impressionante, em melodia e letra, que concorre para ser a peça mais importante da música brasileira nos últimos tempos.

Além da voz rascante de Guinga, “Cordas Cruzadas” traz participações de Ed Motta, Joyce e Mônica Salmaso - esta última, a maior revelação do canto popular brasileiro na atualidade.

É de Ed Motta A foggy day em Teresópolis, tema sem letra interpretado pelo autor apenas com vocalize, com participações de Cristiano Alves na clarineta e Alexandre Maionese na flauta. É também com vocalize, somente, que Joyce interpreta o seu For Hall, baião em que a compositora e cantora brinca com as palavras para homenagear o guitarrista norte-americano Jim Hall. Mônica Salmaso empresta suas virtudes a Guingando, choro de Edu Kneip e Mauro Aguiar, composto em louvor a Guinga.

O valor de “Cordas Cruzadas” pode ser medido ainda pelos compositores que reúne. Além dos já citados, estão lá Paulinho da Viola (Inesquecível, choro em homenagem a Jacob do Bandolim, gravado pelo autor no disco Memórias Chorando, de 1976); Hélio Delmiro (Chama, choro também já gravado pelo autor); Hermeto Paschoal (Ilza nº 83, valsa inédita composta em memória da mulher do autor, falecida em novembro de 2000); Tom Jobim (Chovendo na roseira, valsa que recebe arranjo renovado de Marcos Alves e Paulo Aragão); Baden Powell (Samba novo); Leandro Braga (Choro nº 2, com participação de Fabiano Salek no pandeiro); e Carlos Chaves (Choro de Bela, primeira composição de um integrante do Maogani gravada pelo conjunto).

Para quem ainda não conhece o Maogani, vale dizer que seus quatro integrantes são jovens: têm entre 24 e 30 anos. A informação certamente vai temperar com mais encantamento a infalível surpresa de quem os estará ouvindo pela primeira vez nestas "Cordas Cruzadas".

[Marceu Vieira]

Ao longo de sua trajetória, o Maogani se apresentou nos principais palcos cariocas (CCBB, Teatro Carlos Gomes, Espaço BNDES, Mistura Fina, Rio Jazz Club, Sesc, Ibam, Teatro Casa Grande, Casa de Cultura Laura Alvim, Circo Voador, Museu da Imagem e do Som, Museu do Telefone, entre outros). Esteve também em cidades como São Paulo, Brasília e Vitória.

Em 1996, o quarteto participou do projeto Pixinguinha no Centro, patrocinado pela prefeitura carioca em homenagem ao centenário do compositor. Apresentou-se durante seis meses em espetáculos ao ar livre no Centro do Rio de Janeiro.

Em junho de 1997, foi convidado especial do show Catavento e Girassol, da cantora Leila Pinheiro.

Em novembro de 1997, o Maogani lançou seu primeiro CD, pelo selo Rob Digital. Participaram do disco artistas tão consagrados quanto Guinga, Leila Pinheiro, Zé Nogueira, Jane Duboc e Célia Vaz. Por esse trabalho, o quarteto mereceu, em 1998, uma indicação para o 11º Prêmio Sharp de Música, na categoria Melhor Grupo Instrumental.

Em janeiro de 1999, o Maogani atuou como convidado de Guinga num show do compositor no Teatro do Planetário do Rio de Janeiro. No mesmo ano, acompanhou a cantora Rosana no projeto Carmem Miranda, o mito, numa série de shows realizados no Centro Cultural Banco do Brasil para marcar o 90º aniversário de nascimento da “pequena notável”. O espetáculo também foi apresentado em São Paulo e Brasília.

Ainda em 1999, em junho, o quarteto atuou no projeto Música do Mercosul, também no CCBB, ao lado de músicos argentinos, paraguaios e uruguaios. Coube ao Maogani representar o Brasil - tarefa cumprida em dois recitais que reconstituíram um panorama da música instrumental brasileira.

Em 2000, o conjunto se apresentou no projeto Rio Bossa Nova 2000, na Praia do Leblon. Logo em seguida, abriu o projeto “Compasso Samba e Choro”, no Paço Imperial, participando também de seu CD comemorativo, gravado ao vivo e lançado recentemente pela gravadora Biscoito Fino.

No final de 2000, o quarteto foi convidado a participar da gravação do CD Cine Baronesa, de Guinga. São do grupo os arranjos e os violões da faixa que batiza o disco (Guinga e Aldir Blanc) e de Fox e trote (Guinga e Nei Lopes).

Em 2001, o Maogani participou da gravação do CD da cantora Ana Martins, lançado em julho, no Japão. No mesmo ano, atuou na gravação do especial Brasil por natureza, da TV Globo, acompanhando o cantor e compositor Ed Motta. Em março, apresentou-se no BNDES, no Rio, com o show Miúcha e Maogani, acompanhando a cantora com arranjos inéditos.

Integrantes

Paulo Aragão é mestre em Musicologia pela UniRio, aprovado “com louvor” em seu estudo sobre o arranjo musical brasileiro na década de 30. Bacharel em Violão pela UFRJ, foi diplomado com o título de “Dignidade Acadêmica Summa cum laude”. Tem trabalho destacado também como arranjador (fez arranjos para discos como “Cine Baronesa”, de Guinga, e “Linda”, de Ana Martins). Atua também como solista. Como professor, ministrou a Oficina de Choro da UERJ, em 1996. Recentemente, apresentou-se no Japão com a cantora Ana Martins, em participação especial no show de Joyce.

Carlos Chaves é mestre em Música Brasileira pela UniRio. Bacharel em Violão pela UFRJ, venceu, em 1996, o concurso nacional Souza Lima, em São Paulo. Em agosto de 2001, venceu com sua composição “Choro de Bela” o Festival de Americana (SP), na categoria música instrumental. Estudou com os principais nomes do violão do Rio de Janeiro. Atua como solista, camerista e acompanhador.

Marcos Alves é bacharel em Violão pela UFRJ, graduado com nota máxima. Compositor, destaca-se por explorar sua formação erudita e jazzística como intérprete e arranjador de música popular. Atualmente, acompanha as cantoras Carol Saboya e Adriana Romano.

Marcus Tardelli é bacharel em Música pela UFRJ. Iniciou seus estudos em 1985, em Petrópolis, com o violonista Dorival Lessa. Desde então, vem se destacando pelo repertório que passeia do erudito ao popular. Solista da Orquestra Petrobrás Pró-Música no Festival Villa-Lobos, em novembro de 2000, já teve seu trabalho reconhecido em palcos de diversos estados brasileiros.

Corpo do som, de Barbatuques2. Corpo do som, de Barbatuques. Tolteca Produções Artísticas. Contato: tolteca@tolteca.com.br.

Corpo do som é um trabalho de percussão corporal. É também o registro de uma linguagem artística e pedagógica em pleno desenvolvimento. O CD conta com a presença de várias pessoas que vêm caminhando comigo na busca de ampliar as possibilidades de expressão musical pelo corpo. Estão presentes também as principais descobertas: ritmos, métodos de improvisação, técnicas de combinar sons e a diversidade de timbres que temos em nós.
Vou contar um pouco dessa história: minha primeira descoberta, ainda na adolescência, foi a de que o corpo era um brinquedo sonoro. Quando andava a pé gostava de me entregar a devaneios musicais, imaginando melodias e cadenciando os passos no ritmo. Sem perceber, as mãos pra acompanhar já iam buscando algum batuque, misturando sons de batidas no peito, palmas e estalos. Claro que a brincadeira já vinha desde batuques na cozinha, no chuveiro e nos delírios sonoros infantis, mas agora o brinquedo era novo.

Os primeiros encontros foram resultado do contágio que essa mania despertava nos outros, começavam a aparecer rodinhas de batuque no corpo. Naturalmente também nasciam ritmos e variações desse brinquedo. Em algum tempo eu já tinha repertório pra ensinar, e com o convite de amigos este corpo sonoro foi virando corpo docente.

Durante minha formação musical essa pesquisa seguiu paralelamente. No curso de Música Popular da Unicamp tive o prazer de ser aluno de José Eduardo Gramani, que abriu meus olhos pra novas maneiras de sentir o ritmo e desenvolver a coordenação de movimentos.

A grande virada se deu mais tarde quando já desenvolvia um curso de percussão corporal e conheci o trabalho de Stênio Mendes. Ao me inscrever em seu curso, logo na primeira aula fizemos no final uma sessão de improvisação vocal dirigida por ele. O exercício era de luz apagada e ao improvisar comecei a explorar um mundo interno de imagens e sensações que eram sugeridas pelos sons. Uma nova dimensão de diálogos, dinâmicas e sonoridades começava a se abrir, era o que ele chamava de música espontânea. A partir daí passei a conhecer novos sons e jogos e nossos trabalhos se somaram de forma definitiva.

Nessa época de tanto me bater, o brinquedo ganhou o apelido de Barbatuque por sugestão de Lu Horta. Aí nascia também o grupo Barbatuques, formado pelos amigos que acompanhavam essa pesquisa e que tinham também o desejo de apresentar esse trabalho em palco. Com o incentivo de Luiz Gayotto para participar de seus shows o grupo tomou gosto pela coisa e não parou mais.

Desde então o Barbatuques vem desenvolvendo um trabalho musical baseado na exploração dos inúmeros sons que podem ser produzidos pelo corpo humano. Palmas, estalos, batidas no peito, sapateados, efeitos de voz, vácuos, entre vários outros sons, são encadeados na produção de ritmos e melodias. O resultado é uma "orquestra de roda" onde todos tocam e improvisam sobre o mesmo instrumento: o corpo.

Neste CD estão presentes desde faixas bem fiéis ao que apresentamos ao vivo até utilizações do "sintetizador humano". Sons de baixo volume como o esfregar de mãos são amplificados, vozes e efeitos de uma mesma pessoa são somados e em alguns momentos até arriscamos um diálogo técnico e estético com a música eletrônica. Também estão presentes fragmentos de improvisações que sempre fizeram parte de nossa prática musical.

Desejo a você uma boa audição, sabendo que algumas sonoridades poderão ser estranhas ou novas. Espero também que dê vontade de tocar conosco, pois pra mim este trabalho sempre evocou o contágio e a brincadeira.

[Fernando Barba]

Flores em vida, de Nelson Sargento3. Flores em vida, de Nelson Sargento. Selo Rádio MEC. Contato: ouvinte@radiomec.com.br.

A trajetória de Nelson Mattos, que no quartel era Sargento Nelson, e na Mangueira virou Nelson Sargento, está muito bem sintetizada no verbete a ele dedicado no livro/CD Mangueira Sambas de Terreiro e Outros Sambas publicado pelo Arquivo Geral da Cidade do Rio de Janeiro:

"Compositor, cantor, escritor, pintor, ator. Com dez anos de idade desfilou pelo G.R.E.S. Azul e Branco do Salgueiro pela primeira vez, tocando tamborim. Aos doze, teve como padrasto Alfredo Lourenço, o conhecido sambista Alfredo Português. Menino e adolescente, conviveu em casa com Cartola, Nelson Cavaquinho, Carlos Cachaça, Aluísio Dias. Mais tarde, veio a ser parceiro de Cartola e do próprio padrasto.”

Ingressando na Ala dos Compositores da Mangueira, também foi seu presidente, sempre demonstrando forte consciência da importância cultural e do papel social da escola de samba. A sua longa e apaixonada vivência do universo do samba o transformou em um dos mais importantes detentores da memória da Mangueira,tendo sido co-autor do livro Um certo Geraldo Pereira.

Seu samba-enredo de 1955, com Alfredo Português e Jamelão, Cântico à Natureza, chamado vulgarmente Primavera, é considerado como um dos mais belos da Estação Primeira. Possui grande e notável produção tanto de sambas de terreiros como de sambas-enrêdo. É ótimo intérprete das próprias composições, acompanhando-se ao violão, e tem suas criações gravadas por altos nomes da música popular brasileira, como Paulinho da Viola, Elizeth Cardozo, Nara Leão, Maria Bethania, Clementina de Jesus, entre outros.Beth Carvalho fez sucesso ao interpretar o belo e lúcido protesto em defesa do samba contido em Agoniza mas não morrre.

Com CD’s gravados no Brasil e no exterior, o nome de Nelson Sargento faz parte da história da música popular brasileira. Também é pintor autodidata com ótima repercussão na imprensa, e, em 1999, revelou-se ator de qualidade no filme O Primeiro Dia, de Walter Salles."

Late passenger, de Markos Resende4. Late passenger, de Markos Resende. Rob Digital. Contato: contato@robdigital.com.br.

Depois de uma primeira fase européia, Markos Resende voltou ao Brasil em 78, armou a banda Index e gravou um total de oito discos, além de fazer trilhas para cinema e ballet. Retomou a carreira na Europa em 1990, e em 91 montou a banda Status com músicos de várias nacionalidades, época em que iniciou suas composições com instrumentos eletrônicos. Fez muitos shows em diferentes países e tocou na abertura de shows de Elton John, Phil Woods, Stan Getz, Art Blake e Cannonball Aderley. Seu último disco "About Jobim", gravado ao vivo no Festival de Jazz de Copenhagen em 96, foi distribuído pela BMG na Europa e EUA. "Late Passenger" marca a busca de Markos por um mercado nacional, com o melhor da linguagem contemporânea européia, aliada a maturidade musical do compositor.

Este CD é fruto das andanças pelo mundo do tecladista e compositor capixaba Markos Resende, cuja carreira tomou impulso depois de participar do Newport Jazz Festival em Cascais, com Dexter Gordon.Gravado entre Paris, Londres e Copenhagen, e com excelente acabamento técnico o disco é moderno e rico de influências que juntam o techno, a bossa nova, o ska e o drum and bass com uma fusão latina de ritmos, guardando, no entanto um encadeamento harmônico bem brasileiro. Três faixas trazem a percussão do grupo "A Parede", e nas demais destacam-se as cantoras norueguesas Naja Storebjerg e Mia Sorgenfrei, e a brasileira Kakau Gomes na única faixa em português. Fiel a suas origens, Markos fecha o disco jazzisticamente tocando um belo piano acústico na faixa "When I saw You".

Sincronia carioca, de Sincronia Carioca5. Sincronia carioca, de Sincronia Carioca. Selo Rádio MEC. Contato: ouvinte@radiomec.com.br.

O grupo Sincronia Carioca estréia em grande estilo. Seu primeiro disco foi gravado no estúdio sinfônico da Rádio MEC, produzido pelo trombonista e maestro Víttor Santos e conta com a participação ilustre de Hermeto Pascoal, que fez o arranjo e toca diversos instrumentos na faixa "Essa é a nossa cara", música que compôs especialmente para eles. Todas as outras faixas são de autoria dos integrantes do grupo,também responsáveis pelos arranjos,e são inspiradas em fontes brasileiras como o samba, música nordestina, choro e bossa nova. Os jovens e talentosos Gabriel Improta, Daniela Spielmann, Alexandre Caldi e Rodrigo Villa e o veterano percussionista Don Camilo - ex Galo Preto - são os cinco nomes que fazem parte deste conjunto que marca presença forte no cenário musical brasileiro,exibindo uma rara combinação de sólida interpretação instrumental com ótimos arranjos para composições inspiradas.

Siri, de Ricardo Siri6. Siri, de Ricardo Siri. Produzido por R. Siri. Contato: siri@siri.etc.br.

Ao contrário do que normalmente se espera da maioria de cds de música instrumental brasileira, “Siri”, disco que utiliza o nome do músico e autor, é uma agradável surpresa indo muito além das fórmulas à que o gênero está acostumado.

Guiando-nos por uma linha invisível como numa trilha de filme, ou numa estrada onde vão se sucedendo as paisagens, o universo explorado em “Siri” - além de vigorosos ritmos e de belos temas - é antes o das “texturas sonoras”.

De carácter essencialmente conceitual, e costurada por um inteligente jogo de semelhanças e contrastes, estas misturas criam diferentes atmosferas, nos revelando uma música pictórica e sensorial. Simples em sua ousadia, é música onde à força rítmica se somam a noção de profundidade e perspectiva. Tão dançante quanto melódica, tão expressiva quanto sofisticada.

Ricardo Siri, partiu para o seu 1º cd solo depois do encontro com Fernando Morello(co-produtor musical do cd) quando pôde realizar plenamente suas originais idéias. Somado as participações especiais de Marcos Suzano, Alessandra Belloni (pandeirista e cantora italiana), Mestre Darcy do jongo, Carlos Trilha (teclados), Antonio Saraiva (arranjos de trombone), Jota Moraes (vibrafone), os franceses Nicolas krassik (violino) e Marion Del'8 (piano), Aramis Guimaraes (trombones), Denner Campolina(contrabaixo), Rodrigo Sebastian e B.J.(baixo), Dona Sú(voz)e André Moreno, Dudu Fuentes, Fabão, Pepê, Christiano Galvão, Fred Castilho, Pedro Paiva, Pitito, Schmidt e Sidon Silva (batucada), foi possivel ao longo de três anos, construír de forma zelosa e minimalista o complexo sonoro de “Siri”.

Para esse interessante “jogo de texturas”, utilizaram algumas formações bem inusitadas, como na faixa de abertura “No Tranco” , onde um motor de Fusca e sua carroceria são a base de percussão para um naipe de trombones que nos remete a buzinas e a diversos outros sons urbanos.
Na divertida “N'água”, inteiramente gravada numa banheira, sons da água interagem e modulam os tons de panelas, travessas e garrafas. Em oposição à esta, aparece “Seca”, em que vozes distantes de sotaque nordestino e um didjeridoo (sopro aborígene), mesclam-se com ruídos semelhantes a vários arados ritmando na areia seca do agreste. Em “Pandeirata” Marcos Suzano, Alessandra Belloni e o próprio Siri formam um trio de pandeiros, onde acompanham o canto num dialeto italiano de Alessandra, e depois, marcham para um comovente contraste entre o imediatismo da percussão e a bela melancolia de um arranjo de cordas.
Em faixas como “Luzia Dheli” e “Bangladesh” um sincretismo sonoro amplia o calor dos temperos, onde Siri toca quase todos os instrumentos. Na primeira, algo como um “forró hindú”, tabla, moringa, caixa, triangulo e violão (tocado com uma caneta como se fosse um cello), dançam em meio a ecos e vozes distantes. Em “Bangladesh” , uma das composições de mais impacto, uma verdadeira “saga étnica” comandada por três berimbaus de capoeira, unindo-se a um maracatu - drum'bass na caixa, alfaias, congas e baixo elétrico, eleva a emoção quando o tema reaparece no violino, alçando vôo para o retorno apoteótico da orquestra de cordas.

Nas únicas duas formações mais tradicionais do disco encontra-se ainda assim soluções interessantes. Em “Gretch”, vibrafone, orgão, baixo, bateria e talking drum, misturam-se em uma atmosfera lúdica, num mix de trilha de filme de espionagem anos 70 com música eletrônica - com destaque para os endiabrados improvisos de Jotinha Moraes. Em “ Homenagem ao Mestre” , à estranha poliritmia entre um piano tocado à seis mãos e palmas, juntam-se tambem bateria e contrabaixo. Logo depois surge um ambiente mais soturno e onírico, onde um jongo tocado com tambores africanos é o sinal para a aparição da voz de Darcy, fazendo a ponte para “Caxambu” . Aqui, a história do Jongo é contada e cantada de improviso pela voz do falecido Mestre Darcy - considerado o último grande mentor deste ritmo no Brasil - e sua mulher Dona Su.

Esta gravação é antes de mais nada um importante registro do músico pouco tempo antes de sua morte. Sob base de congas executadas pelo próprio Mestre e por Siri, soma-se uma sanfona que anima a batucada. É uma das faixas mais fortes e emocionantes, ainda mais se considerarmos o curioso relato inicial de Dona Sú que, se referindo ao Mestre, como numa premonição, celebra: “…e no fim do túnel vai ter uma luz pra você…”

A última faixa, “Trombada”, reintroduz em meio ao som de ruídos de trânsito e um tamborim, os incríveis “trombones urbanos”. Uma pesada batucada surge dançando um maxixe até a volta do Fusca que nos carrega para outros ritmos. Como não podería deixar de ser, “tudo acaba em samba”, onde todos se desligam felizes, junto a morte do claudicante motor, responsável por essa nossa saborosa viagem ao longo das 10 singulares faixas de “Siri”.

“Siri” é um cd milimetricamente elaborado e produzido em todos os seus detalhes. Até a bela e elegante capa em P.B. ao ser idealizada e projetada durante um ano pela fotógrafa Deby Engel, é exemplo de dedicação e critério nas escolhas da imagem como na escolha de cada som do cd. De carácter universal, é uma obra que se ouve de um fôlego só, e quando menos se espera, estamos de volta à primeira faixa para começar a viagem toda de novo. 


parceiros da agulha nesta seção

Zabumba Records   Rob Digital (Brasil)

 

Discos para Agulha deverão ser enviados aos editores, nos endereços a seguir:
Floriano Martins - Caixa Postal 52874 Ag. Aldeota - Fortaleza CE 60150-970 Brasil
Claudio Willer - Rua Peixoto Gomide 326/124 - São Paulo SP 01409-000

retorno à capa
 desta edição

índice geral

banda hispânica

jornal de poesia