revista de cultura # 45
fortaleza, são paulo - maio de 2005






 

Vicente Franz Cecim: andar, Andara, onde começa a viagem?

Ana Godoy

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Vicente Franz CecimDe um modo bastante estranho meus percursos de pesquisa se cruzam com a escritura de Vicente, por isso não foi sem um imenso prazer que percorri os livros visíveis de Andara, mas também não foi sem alguma hesitação que escrevi o texto que vou ler hoje. Hesitação não por não saber o que dizer, mas por desejar imensamente encontrar um tom que comportasse a suavidade e delicadeza de Vicente e a intensidade dos livros de Andara. Assim, inicio minha leitura dando voz a essa hesitação:

Um livro: para que serve?

Não pretendo nenhum ineditismo ao formular esta questão. Outros antes de mim a formularam, talvez até com maior grandeza ou beleza, mas por isso mesmo, porque se trata de grandeza e beleza - porque é disto que tratarei aqui -, que vale a pena re-colocar a questão para produzir outras ressonâncias, talvez, estas sim, inéditas. No entanto, não nos deixemos equivocar, pois se um livro nos serve não é por ser útil, mas por colocar em funcionamento alguma coisa - na medida em que ele mesmo funciona -, alguma coisa com a qual podemos fazer ou inventar alguma outra coisa.

Proust via aí a beleza e a grandeza de um livro: incitar o desejo, incitamento que arrasta consigo a exigência de uma leitura investida pelo desejo, uma leitura insubmissa ao texto, desprovida de apoios e certezas, uma leitura que experimenta e se experimenta, sem começo e nem fim. Penso que é neste sentido que um livro serve: quando desafia e provoca a leitura que, liberada em seu movimento, associa-se ao movimento da escrita relançando-a: “alguém vive, alguém escreve”, [1] alguém lê: escritura e leitura apresentam-se indissociáveis do movimento de expansão da vida em que o jogo ensejado na/pela linguagem não é um exemplo a ser transposto para a vida, mas sua expressão ou desdobramento: a própria vida dobrando-se sobre si mesma e inventando.

Assim, escritura e leitura arrastam o pensamento, experimentando-se em viagem, viagem que é multiplicidade de percursos à deriva da Razão, em que a cada desvio surgem sempre novos encadeamentos e o pensamento tomado pela vida e nela imerso, torna-se, em seu funcionamento, uma questão de experimentação: não se sabe de antemão aonde se vai chegar, tampouco quais encontros se darão pelo caminho.

“Onde começa? Onde termina?”

Resistindo as investidas do didatismo, sempre a nos ensinar a começar pelo começo e terminar pelo fim - numa sorte de castigo ao olhar ou à escuta que derivam -, pega-se o livro pelo meio que nesse movimento sussurra:

“Viagem a Andara.”

Tomados por uma “estranha inquietude” lançamo-nos à viagem e nesse movimento abandona-se o gosto por um certo contentamento, uma certa conservação que a razão propicia, em proveito da procura pelo “temível e problemático que é próprio de toda existência”. [2]

“Onde começa, onde termina?”

Talvez ali na floresta - labirinto, na voz que “afirma a intensidade de uma revolta”, que inventa uma outra fala na qual as palavras que escrevem a viagem se tornam a própria viagem e “os livros de Andara, miragens, pois Andara, a viagem ela mesma, nunca será escrita diretamente.”

Assim é que não se lê os livros de Andara sem se dispor ao risco, à viagem como risco, pois Andara não tem lugar, é o não-lugar inscrito no nomadismo das palavras, convite irrecusável a um outro modo de habitar que já não nos prenda a uma determinação de lugar, a uma origem ou fundamento. Leitura que exige abrir-se ao desassossego, destituindo o lugar das certezas, mas exige também experimentar e dispor do livro traçando percursos singulares e ao fazê-lo experimentar-se em viagem, viagem na qual nada está terminado, os territórios são instáveis e provisórios, mundo sempre inacabado, sempre por vir.

“Esta viagem fala da vida e não vai parar antes do fim”.

“Onde começa? Onde termina?”

Nicolau SaiãoE são sempre descaminhos, nos quais acaba-se embaraçado e atordoado. Porém, já assim o desconhecido nos afeta. Andara, silêncio cujo murmúrio não cessamos de ouvir. Silêncio que cala o mundo, silêncio que libera sons, imensidão sussurrante: o lado de fora de toda fala. Andara. Silêncio povoado ao qual se refere John Cage, mas também o silêncio referido por Le Clézio em Índio Branco – silêncio animal, vegetal, elementar [3] -, o qual exige uma outra escuta, pois a escritura errante é também aquela capaz de engendrar uma escuta nômade.

“Escutará também o que não é Andara?”

Silêncio que confronta disciplinas e gramaticalidades, os marcadores de poder, os conjuntos de leis. Silêncio ruidoso, que toca os limites do dizível, roendo as ordens de dentro, tornando-as ocas, liberando coisas desconhecidas, [3] impedindo tanto o domínio da sintaxe quanto a sintaxe como domínio. Seria esta a potência ativa do silêncio, pois, ao arruinar a prisão – na palavra, nos livros, no pensamento -, abre-os para novas enunciações, para devires outros.

Conjurar a vida no silêncio no qual pulsa o mundo implica abrir-se a ele, [4] já aí o habitar não se confunde mais com o recolhimento ou retraimento “na casa, na cidade, na comunidade reaquecedora da multidão”. [5] O habitar torna-se inseparável de uma experimentação de si a qual não se reduz mais ao estreitamento da proximidade, pois se faz onde o mundo está presente.

Assim percorre-se as muitas páginas escritas e não escritas.

Andara. Viagem-risco e experimentação, em que se vai ao encontro do Mundo. A questão, então, já não é o conhecimento investido, mas o desconhecimento conquistado, perdido e novamente conquistado, que nos põe diante do desconhecido, acessível à palavra apenas enquanto não for compreendido ou identificado, dispondo-nos ao surpreendente, ao imprevisível, ao ainda não dado à visão, mas que nem por isso é inexistente.

“Onde começa? Onde termina?”

Começa-se por aqui e por ali e já é sempre um re-começo e a cada vez um outro livro e um outro do livro, um não-livro a espreita, inesgotável, inexaurível, remetendo à invenção constante de uma atmosfera sempre mais rarefeita arrastando-nos para fora do domicílio habitual. Perde-se o chão sobre o qual a Razão se sustenta, mas também as telhas que mantêm-nos fechados para o mundo, ou mantêm o mundo velado, não para soçobrar, mas para reinventar-se nesta errância.

Não mais habitaremos da mesma forma, pois em viagem os percursos se multiplicam, dobrando-se um sobre os outros, e a cada livro, a cada leitura uma dobra e por toda parte “não se vê senão dobras, não se tateia senão dobras, não se habita senão elas.” [7] Uma outra ecologia talvez? E assim a cada re-começo já são outras e tantas linhas de errância, afirma-se uma força de desvio, [8] confronta-se “as tolices da racionalidade”, por meio das quais exalta-se a eficácia, a medida e a causalidade, trabalho de colonização, catequização e domesticação. Porém, algo de selvagem foge. Havia um labirinto ali.

“Onde começa? Onde termina?”

“E no labirinto deve-se dizer aos outros: sem um texto não há tempo.”

“E assim, há a maneira infinita de ler Andara” em que salta-se de uma coisa a outra para fazer uma dança, uma música, uma encantação. Sua potência vital é a mesma que, há séculos, despertou nos europeus, quando se aproximaram do estranho continente, “êxtase e aturdimento diante do inédito, da anarquia da flora, da umidade, do calor e do barulho ensurdecedor, da superabundância destruidora de toda a regularidade, labirinto da louca vegetação”. [9]

“E no labirinto deve-se dizer aos outros”:

os caminhos nunca se encerram, mas modificam-se ao cruzarem-se e bifurcarem-se, linhas sinuosas de uma estranha topologia, um labirinto que se transforma ao ser tomada esta ou aquela direção, mas no qual se está irremediavelmente perdido para o razoável, para o convencionalismo das divisões em regiões, para as classificações e hierarquias.

Havia um labirinto ali e havia e há esse gentio sem fé, sem lei e sem rei.

Nicolau Saião

Lutava-se e ainda se luta contra o labirinto, a floresta, pois para o colonizador de ontem e de hoje, é preciso vencer o espaço habitado pela duplicidade, labirinto espacial ao qual nos arrastam catequizadores de todas as espécies. Ali onde a Razão pretende imperar, há sempre alguma coisa a domesticar, por vezes mais de uma quando se trata de domesticar o animal, ou almas para a cristandade, ou a floresta, desemaranhando-a para domar os percursos, domesticar o selvagem, como o fizeram Anchieta e Vieira. Todos os homens da fé e da razão se propõe à grande tarefa de vencer o labirinto.

No entanto, neste labirinto não há espelho: não nos vemos; pois não é preciso se ver na floresta, mas se saturar dela. Andara. Já não se trata de querer ser índio, voltar a uma cabeça primitiva, mas de associar-se às forças selvagens e liberar a vida, inventando outras combinações que não passem pela sujeição, tampouco pela dominação, e não reponham as hierarquias – melhor ainda: esconjurem todos os processos de sujeição.

“Os livros de Andara.”

“O que eles estão tramando?”

Traços, linhas partidas, cujos arranjos móveis e fugidios descrevem percursos em que a cabeça e a floresta encontram uma estranha semelhança, pois ambas não param de se inventar. A floresta deixa de ser um labirinto no qual nos perdemos, para se tornar um labirinto no qual se afirma a multiplicidade de percursos [10], em que se é sempre um clandestino, sem fé, sem lei, sem rei. Andara, viagem sem roteiro a deriva pela vida, pois é na deriva que a vida se inventa. Mas,

“Os livros de Andara.”

“O que eles estão tramando?”

“Onde começa? Onde termina?”

Uma multiplicidade de vozes se faz ouvir, mundo distendido em todas as direções. As contorções da natureza em seu impulso violento, primitivo e selvagem são aquelas dos corpos: a língua distendendo-se numa selvagem e ilimitada paisagem, selvagem e invisível paisagem furtando-nos ao mundo objetivo e a nós mesmos, pois o selvagem já não diz mais respeito a um lugar ou coisa, homem ou bicho, mas ao modo como cada um extrai os elementos com os quais constitui um mundo. É o sentir: um modo de habitar não só uma casa ou um território, mas também um gesto, uma cor, um som. Uma ecologia menor, uma outra ecologia. Andara.

Sem começo e sem fim.

É a viagem, os percursos por meio dos quais constituímos arranjos singulares pondo em relação os lugares, as coisas, abrindo-nos para a Terra, único limite à liberdade de invenção, pois “existem mil percursos que ainda não foram trilhados, mil saúdes e ilhas escondidas da vida. O homem e a terra dos homens continuam inesgotados e inexplorados” [11].

Toda uma outra política se põe em movimento: já não se trata de um olhar, escuta ou pensamento movidos ou agidos, e, portanto, coagidos e submetidos. Não há espelho nas paisagens invisíveis; desfigura-se o rosto, aniquilam-se identidades e referências. Uma outra política, pois já não se trata de um fechamento, o movimento da vida é o de expandir-se e reinventar-se, explorando o entorno e suas intensidades. Uma outra política, porque trata-se da invenção de possibilidades de vida, de modos de existência; de invenção e experimentação de si, um querer mais, aquém e além das alternativas pobres ou estéreis que se nos oferecem.

“Tu escreves um livro com tinta invisível. Por que fazes isso?”

Talvez porque a vida não cesse de inventar desvios que se fazem nos encontros aletórios, cujos percursos atravessam as rotas, embaralhando-as, produzindo outros sentidos. Experimenta-se, nesses e com esses arranjos transitórios, vidas intensas com suas pequenas mortes, cujo movimento abre-se ao ilimitado de outros e surpreendentes arranjos em que os percursos são como os rastros de um pássaro, com os quais inventa-se mundos nunca vistos, afirmando a força de uma deriva na qual corpo e pensamento transformam-se. Inventa-se uma terra que já não é e está em vias de se fazer, pois se tornamo-nos com o mundo, o fazemos sempre correndo o risco na invenção do mundo no qual nos tornamos, terra incógnita, nunca reconhecida e nem reconhecível. Andara.

Nicolau Saião 

NOTAS

1. Todas as citações entre aspas sem nota de referência correspondem a trechos dos livros visíveis de Andara e a excertos de entrevistas dadas por Vicente Franz Cecim ao longo dos anos.  
2. F. Nietzsche em Humano, Demasiado humano, § 7, p. 128 (Obras Incompletas).  
3. Cf. J.M.G. Le Clézio em Índio Branco, pp. 30-31.  
4. Le Clézio em Índio Branco (Haï), p. 54.  
5. Nietszche em Assim Falou Zaratustra  
6. Eugen Fink em A filosofia de Nietzsche, p. 100.  
7. Michel Serres em Atlas.  
8. Gilles Deleuze e Félix Guattari em Mil Platôs, vol. IV, p.117. No v. V de Mil Platôs, p.57 os autores referem-se explicitamente a uma força de desvio, “como uma cunha que se introduz” pois o espaço liso ou nômade situa-se entre dois espaços estriados.  
9. A este respeito cf. Carlos de Mello-Leitão em Histórias das Expedições científicas no Brasil e Camilo Loureiro Bento em ...das verdadeiras e legítimas causas do clima e seus effeitos, respectivamente pp. 24-25.  
10. Gilles Deleuze em Crítica e Clínica, p. 121; v. também Gilles Deleuze e Félix Guattari em Mil Platôs, v. III, pp. 60-1. Umberto Eco destaca três tipos de labirinto: o grego, labirinto clássico – tão-somente o fio de Ariadne -; o maneirista, diferenciado do grego por ter muitos becos sem saída, mas a ele se assemelha por também ter apenas uma saída; enfim, o rizoma, labirinto-rede em que cada caminho pode se ligar com qualquer outro, de maneira que o labirinto já não possui centro e periferia, tampouco saída, porque ele é potencialmente infinito. O labirinto constituído pelo rizoma já é processo, e não apenas distribuição espacial. Como diz Borges em “O jardim dos caminhos que se bifurcam”, um labirinto de labirintos... Cf. Umberto Eco em Pós-escrito a O Nome da Rosa, pp. 46-7.
11. Fiedrich Nietzsche em “Da virtude dadivosa” (2), in Assim falou Zaratustra, p. 104.

Ana Godoy (Brasil, 1960). Doutora em Ciências Sociais pela PUC-SP. Seu livro A menor das ecologias, uma experimentação nas fronteiras entre arte e ecologia, permanece inédito. Conferência apresentada no evento Vozes poéticas: semeaduras, em homenagem a Vicente Franz Cecim, PUC-SP, abril/2005. Contato: anadgp@uol.com.br. Página ilustrada com obras do artista Nicolau Saião (Portugal).

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