|
Tânia Alice Feix
De vez em quando, eu penso no vento
“Desconstruindo os muros até o sonho amanhecer... Meu amor, meu
grande amor, e agora?” (F. Nilo)
Nesta época, o
vento da Serra soprava em cima da gente e não nos levava mais pra
canto nenhum, e tudo começou a ficar simples, evidente, como um
beijo de cinema americano, um baião de dois, uma neblina na Serra,
ou meu olhar pra ele, tão simples que ele perguntava
invariavelmente: “O que foi?”.
O que era, mesmo?
Uma evidencia
clareando, momentos bons, redes balançando na Meruoca com a gente
comentando os poemas do criador do site Famigerado, as musicas de
Geraldo Azevedo “Se você vier”, lembranças, risadas, águas de coco,
momentos de delicadeza; o quotidiano, com aqueles gestos discretos
que continham toda nossa historia, inúmeras e pequenas felicidades
silenciosas, reverso das nossas dores silenciadas, e passadas.
Num desses momentos, disse para ele:
“Eu tenho medo,
se eu morrer, de não ter te dito suficientemente o quanto eu te amo,
então falo agora, te amo.”
Brega?
Ele estava
dirigindo, duas lágrimas desceram no rosto dele, e eu soube então
que meu avião podia cair, eu podia voar da moto, ter um infarto, não
tinha problemas, porque ele tinha entendido.
A minha frase era
um espelho daquele sentimento que a gente tinha buscando, buscando,
o tempo todo, e que a gente tinha finalmente encontrado, tanto que a
gente se permitia o luxo de brincar, como se éramos anjos postos na
eternidade, como se o tempo não cansasse de esperar por nos.
Mas nem Romeo e
Julieta tem final feliz: e as nossas asas, como os aviões, quando
chegam perto demais do sol, dão uma de Icaro, derretem, e, durante a
queda, com o vento rasgando o rosto e o sol cegando, durante um
segundo, antes do fracasso, a gente sabe que um dia disse “tu” para
a eternidade e se sente feliz, porque sentiu, pensou e falou aquilo,
dentro de um carro cinza perto da Igreja do Patrocínio, em Sobral,
um dia de chuva tropical, as nove horas da manha, num momento quase
eterno, vivemos, sim, vivemos, amor.
|