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Tânia Alice Feix
Post-mortem
Um homem, uma mulher,
num quarto de hotel, perto de uma estação de metro subterrânea.
Luzes. Penso nesta imagem que me faz inevitavelmente pensar em ti,
revejo o teu terno cinza, tua camisa branca e essa gravata... Teu
hábito, convencional odiado, usar uma gravata nos grandes
acontecimentos.
Acabei de entrar e você
já está ai, como naquela tarde de novembro, em que – nervos
rangendo, te vi decuplado, projetado pra cima do carro como um ícone
sórdido em quadricromia, gritos e você chorou, ou era sangue, eu
levantava as minhas mãos para o meu rosto que desaparecia em cada
sacudida, cada uivada dos pneus, a nossa vida inteira, anterior, sob
esta chapa de ferro, a chuva corria ao longo do teu rosto, tão fino,
naquele dia...
As nossas pequenas
mortes concretizadas no fim de partida final, na ambulância, você
(ou então, já era ela), fisionomia branca ossuda, a morte com a sua
mão esquelética, de sobretudo marrom, celebrava o casamento de Eros
com Thanatos, aliança diante da eternidade, enquanto eu olhava para
o firmamento urbano que se apagava aos poucos...
Te vejo deitado, penso
nos teus rins apoiados nas minhas costas, esta maneira de nos
agarrar, mesmo no sono. Você me abraçava mesmo durante a noite,
lembra? Eu adorava o teu modo de dormir somente pela metade... É
você que me havia permitido consentir a tudo isto e a não esperar,
deixar passar, aturar. Você.
Desde o início, você
sabia que em algum lugar nesta cidade existia esta casa onde ela
vivia, criança. Você sabia desde o início, tinha consciência do que
acontecia, o calor pesado atrás das cortinas, a televisão ligada com
o som altíssimo, a presença sufocante.
Você tinha adivinhado,
percebido o frio que tinha tomado conta de mim, e o medo...
Estou só.
Na casa em frente, há
alguém que não consegue dormir de noite, talvez assustado por este
halo sedutor de luz vermelha e ocre que foge da casa...
Eu poderia ir ver esta
pessoa, sentar-me perto dela para falar um pouco de ti, fugir de teu
corpo para me sentir menos abandonada. Mas para qualquer lugar que
for, carregarei comigo o peso de tua inadmissível ausência.
Então, permaneço onde
estou, um pouco mais. Pela última vez, evoco a presença de tuas mãos
sobre os meus quadris, o teu sopro e as nossas peles que sempre
falavam a verdade, mesmo quando mentíamos.
As crianças felizes têm
a imaginação preguiçosa; nós, era mundos que inventávamos a partir
de cada cor, cada viagem, cada passagem.
São cinco horas da
manhã. A morte colocou o seu chapéu de veludo, e você me abandona
definitivamente enquanto que a mulher em frente tira uma chave de
sua sacola e abre a cancela do jardim.
Dentro de alguns
instantes, ela estará aqui. São nossos últimos instantes de solidão
compartilhada.
Um dia, numa cidade que
nunca visitamos, nas margens de um rio que nunca atravessamos,
alguém lira os traços de nossa história, escutará o eco destes
instantes que aconteceram.
Escrever é ficar mais
um pouco perto de ti. Mas, ouço alguém. O halo amarelo torna-se mais
forte, os faros, sempre. Buscam-te, e ouço as presenças bem
intencionadas, insuportáveis, condenando a nossa vida, condenando
tua morte.
Elas invadem o espaço,
te recobrem, o carro lá fora está te esperando. Eles te transportam,
mas não te vêem.
Eu, eu te vejo e te
sigo aonde estas indo.
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