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Socorro Torquato (Côca)

Thomas Colle,  The Return, 1837
 

 

 

 
Manoel de Barros

 

albano Martins
 

 

 

 

 

 

 

 

 

 
 
Winterhalter Franz Xavier, Alemanha, Florinda

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Um esboço de Leonardo da Vinci, página do editor

 

 

Ariano Suassuna

Diário do Nordeste, Fortaleza, Ceará, Brasil

Caderno de Cultura, 12.9.2010


Todos os que acompanham mais de perto o meu trabalho de escritor sabem que, mais do que um ofício como qualquer outro - e, como qualquer outro, tão mais importante quanto mais nos ajude a enfrentar e corrigir os desconcertos do mundo em que vivemos -, sempre o considerei como uma espécie de missão, encarando-o muito mais como uma sina a carregar do que uma profissão a exercer.
 

Socorro Torquato, Cõca, realiza, em seu trabalho, um diálogo com inscrições de um passado remoto, como um dos caminhos por que a humanidade diz de si e de seu tempo


Lá bem dentro de mim, de fato, permanece acesa, desde eu muito jovem, a chama dessa convicção, profunda e exaltada, e que muitas vezes me leva a assumir um tom meio profético naquilo que afirmo sobre o Brasil, nosso povo e nosso destino, mesmo quando essas afirmações são eivadas das hesitações e dúvidas de consciência que me atormentam e o público parece não perceber.

De modo que, nos momentos em que aparentemente me desviei do áspero e duro caminho da Literatura para participar ativamente de movimentos culturais os mais diversos; para criar, com ou sem apoio oficial, grupos de música, de dança ou de teatro; para incentivar jovens artistas a procurarem um caminho verdadeiramente brasileiro para a sua arte; para ministrar aulas-espetáculo pelo Brasil afora ou mesmo para lançar, como fiz no início da década de 1970, um movimento tão abrangente como foi o Movimento Armorial, eu não estava, a bem da verdade, mudando de rumo ou direção, mas tão-somente juntando forças para levar adiante a missão a que me referi e erguer a lona de Circo sob a qual procurei abrigar, desde o início, a minha própria obra de artista e de escritor.

Hoje, olhando para trás, posso dizer, com segurança e alegria, que, se errei em muita coisa, eu não errei em relação ao Movimento Armorial. E é por isso que os seus princípios permanecem atuais, influenciando artistas das mais diversas regiões do Brasil e dos mais variados campos da arte.

O olho do outro

Alguns críticos, contrários ao Movimento Armorial, chegaram a dizer que ele nem sequer existe, e que assim não passaria, na melhor das hipóteses, de um "sonho", ou mesmo de um "delírio de Suassuna". Fecham-se assim os olhos, seja por inveja, seja por teimosia, não apenas para as inúmeras obras de arte ligadas ao Movimento, mas também para toda a fortuna crítica já produzida sobre ele em quase quatro décadas de atuação. Nos últimos anos, com frequência cada vez maior, vejo nos jornais notícias sobre teses acadêmicas e livros versando sobre o Movimento Armorial, surgidos tanto no Brasil quanto no exterior; isso quando não recebo em casa, pelo correio, exemplares desses trabalhos, que os autores têm a gentileza de me oferecer e dedicar. Ora: para algo que não existe, o Movimento Armorial até que vem dando o que falar, de modo a se perguntar se o que não existe, no caso, é o Movimento ou crítica séria, que deixe de lado rancores pessoais para se deter naquilo que é, de fato, o seu objeto de estudo ou interesse.

Os frutos

Foi no final da década de 1990, por exemplo, que recebi, do Ceará, notícias que davam conta dos trabalhos realizados pelo poeta Virgílio Maia e sua esposa, a ceramista e pintora Socorro Torquato, ambos inspirados nos princípios estéticos do Movimento Armorial. Oficialmente, Socorro estreou no campo das artes plásticas com uma exposição de pinturas em porcelana, sobre a qual escrevi as seguintes palavras: (Texto I)

O Romanceiro

É preciso esclarecer que, assim como ocorre comigo, Socorro Torquato é uma sertaneja de formação urbana. Explica-se, assim, o parentesco indiscutível de suas pinturas com o espírito poético e mágico do Romanceiro popular nordestino e das gravuras-em-madeira do Nordeste brasileiro. Ainda fiel a todo esse reino mítico do Sertão, a esse espaço geográfico que representa, no Nordeste, quase que um décimo estado, tal a unidade cultural que nele se mantém - sobretudo quando pensamos na região mais áspera, seca e pedregosa que, do Ceará à Bahia, foi palmilhada por Antônio Conselheiro antes de sua fixação em Canudos - , Socorro parte, agora, em uma nova fase de sua obra, para resgatar, através da revisão criadora do trabalho artístico, a rica e forte arte rupestre das nossas grutas, serras de pedra e itaquatiaras - pinturas e baixo-relevos com formas abstratas ou figurativas, imagens que ora lembram signos do Zodíaco, frutos, plantas ou estrelas, ora representam, indiscutivelmente, homens e bichos, entre os quais aparecem cervos, onças, assim como, às vezes, a serpente enrolada sobre si mesma, tão comum a todas as Mitologias latino-americanas.

Assim é que, nesta sua nova exposição, que possui o belo e significativo título de "Itaquatiara", apresentando trabalhos em nanquim e aquarela sobre papel canson, e seguindo os passos de outros artistas armoriais que também beberam dessa rica fonte, como Dantas Suassuna ou Romero de Andrade Lima, Socorro Torquato realiza uma arte de vanguarda a partir do nosso passado mais remoto, demonstrando mais uma vez que, em arte, não existe progresso, e sim mudanças e variações.

Itaquatiara

Os resultados finais, claro, sempre dependerão do talento individual de cada artista, cada qual conformando um referencial exterior e comum ao seu universo interior e pessoal, à visão-de-mundo singular de cada um, o que me leva a afirmar, mais uma vez, que o Movimento Armorial nunca representou qualquer tolhimento à liberdade criadora dos artistas que a ele se vincularam.

O que o Movimento fez foi t apontar direções que poderiam ser seguidas - como a desses estranhos reinos e impérios latino-americanos que moram em nosso sangue assim como estão enterrados em nosso chão. Uma vez estimulados à busca e à decifração do Enigma, surge o momento em que cada artista deve trilhar o seu caminho, numa viagem solitária e que só poderá empreender com os seus próprios pés. É essa a viagem que Côca vem realizando de uns anos para cá, com a minha aprovação e a minha bênção.

Trecho

TEXTO I
Agora surge Socorro Torquato, que assina seu trabalho com o carinhoso nome pelo qual é tratada por seus familiares - Côca. Dos pratos de Côca, meus preferidos são aqueles em que ela recria bichos como Onças, Peixes e Tatus, assim como aqueles em que, a exemplo de Virgílio Maia, aproveita os signos e insígnias dos ferros-de-marcar-bois.

ARIANO SUASSUNA
COLABORADOR*
 

   
 
 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Allan R. Banks (USA) - Hanna

Angela Gutierrez

Diário do Nordeste, Fortaleza, Ceará, Brasil

Caderno de Cultura, 12.9.2010

 


 

Nas primeiras páginas do catálogo da exposição Itaquatiara, de Côca Torquato, uma fotografia da artista integra-se, através de técnica de collage/montage, a uma de suas aquarelas intitulada "remotíssima civilização", que, ampliada, funciona como pano de fundo ou paisagem para o retrato

A impressão visual dessa página remete a reflexões sobre alguns modos de ver e apreender a mais recente coleção da talentosa Côca. As cores da aquarela - que se restringem a branco, ocre, vermelho e negro, apresentando-se o ocre com diferentes matizes - constituem a mesma paleta de toda a coleção e repetem-se no retrato da artista, onde se salientam o negro dos cabelos e o vermelho dos lábios, cores que também ressaltam em "remotíssima civilização". Assim, a fusão criadora-criatura entrega ao voyeur da coleção, uma chave simbólica para abri-la e penetrá-la, como se fazia em tempos medievais, quando os visitantes ilustres eram, então, recebidos às portas das cidades - portas reais e metafóricas - pelo burgo-mestre.



Essa coleção é, pois, uma cidade de cores e traços que se repetem e encontram sua significação maior em um recorrido por toda a sua geografia, mesmo que cada ponto do percurso por si só se valha. Nossa peregrinação - voltemos ao catálogo -, inicia-se na capa, com a reprodução de "remotíssima civilização", e termina com a mesma aquarela, como a indicar que o trajeto é circular e o visitante ou peregrino sabe que gira sempre em redor desse mundo remoto, de acordo com as cartografias que a artista/construtora desenhou.

Uma aquarela

Numa das paragens dessa cidade-caverna, deparo-me, entre atraída e surpreendida, com "A perene memória de seu nome", aquarela que me transporta a diferentes mundos, através da figura que emerge, única, e preenche quase todo o espaço do papel. Leva-me a um mundo tão próximo e tão longe, como o da paisagem nordestina, sugerida pela semelhança da figura com um mandacaru. Transporta-me ao mundo da tradição judaica, ao lembrar a aparência de um menorá, castiçal que ilumina o mundo hebraico. Alça-me, ainda, ao mundo da História: É o Angelus Novus, de Paul Klee! exclamo, pois a figura faz-me recordar o anjo que Walter Benjamin evoca em sua mais famosa alegoria, na Tese IX de Sobre o conceito de história: um anjo que parece estar a ponto de afastar-se de algo em que crava o seu olhar. Seus olhos estão arregalados, sua boca está entreaberta e suas asas estão estiradas. O anjo da história tem que parecer assim. Ele tem seu rosto voltado para o passado. (Entre as inúmeras edições desse texto de Benjamin, sugiro: Walter Benjamin: aviso de incêndio - Uma leitura das teses ?Sobre o conceito de história, de Michel Löwy, livro publicado pela Boitempo, em 2005).

Ao constatar a semelhança da figura de Côca com o anjo de Klee, permito-me retomar um trecho de minha tese sobre Vargas Llosa que me parece muito sugestivo na análise não só do anjo de Benjamin e Klee, como do próprio antagonismo que o ofício do escritor e do artista pressupõe.

Leitura alegórica

A partir de um pequeno e intrigante texto de Benjamin, escrito em Ibiza, em duas versões, nos dias 12 e 13 de agosto de 1933 - "Agesilaus Santander" -, Gershom Scholem, amigo de Benjamin e estudioso de sua obra, propõe uma leitura alegórica que inter-relaciona os vários anjos que passam a habitar a escrita benjaminiana, depois que o escritor adquire o quadro Angelus novus de Paul Klee, em 1921. Para Scholem, quando Benjamin, no enigmático texto a que aludimos, cria a ficção de que seus pais, prevendo seu destino de escritor, deram-lhe um estranhíssimo nome secreto que no futuro pudesse ser usado para esconder sua condição de judeu, subentende-se que esse nome é o que vem mencionado no título do texto, anagrama de anjo satanás, em alemão. Assim, do anjo novo a que se refere o texto, explicando sua origem cabalística - anjo criado por Deus, para cantar seus louvores diante do trono divino e depois desaparecer no nada -, ao anjo satanás, Benjamin passa do fugaz ao contraditório, reunindo as energias angelicais e demoníacas em um mesmo ser, ele próprio como escritor. (ver Angela Gutiérrez. Vargas Llosa e o romance possível da América Latina. Rio: Sette Letras; Fortaleza: Edições UFC, 1996, p.183)

Os caminhos

Recordei, ainda, que Ariano Suassuna, em sua Aula Magna na Universidade Federal da Paraíba (reproduzida em publicação da Editora dessa universidade, em 1994), compara a arte rupestre com a arte do século XX, mostrando uma cópia de desenho de Paul Klee, intitulado ?Vegetação sobre as rochas e, a seguir, a cópia de um desenho rupestre. Após exibi-los, comenta, tendo em mão o último: É menos bonito que o de Klee? Não é. Para meu gosto, é até melhor: se eu pudesse escolher entre esse e o de Klee, eu queria esse (p.31-32).
 


O voyeur da coleção Côca consegue, também, conectar-se, em um átimo, por suas sugestões de traços e cores, a mundos aparentemente dissociados. Outra instigante aproximação entre artes que se dá na coleção de Socorro Torquato é o entrelaçamento de seus textos picturais com os textos poéticos de Virgílio Maia, pois a artista escolhe versos do marido poeta para intitular suas aquarelas, o que pode não só representar a comunhão matrimonial dos dois artistas, como consagrar sua comunhão artística, que vem de muitos anos, sob a bandeira do Armorial.

Elementos do movimento armorial

Sob a inspiração do ficcionista e poeta Ariano Suassuna, o Movimento Armorial se concentra, sobretudo, na intenção de produzir uma arte que implique a fusão do erudito como popular, tendo como colheita fundamental o chão sagrado do Nordeste brasileiro, em suas mais diversas manifestações culturais. Desse modo, a produção artística espalha-se pela pintura, pela escultura, pela música, pela dança, enfim, por todas as criações em que o engenho humano se faz presente.

Há, portanto, na invenção desses artistas - não importa a direção por que se orientem os trabalhos - uma forte relação com o universo maravilhoso que serve de espaço aos folhetos do Romanceiro Popular do Nordeste, ou seja, a Literatura de Cordel, fonte de uma imenso patrimônio imaterial, no qual se realizam narrativas inventivas, como, por exemplo, a do "Pavão Misterioso" - texto talvez inspirado no voo de um dirigível.

Como se trata de uma arte múltipla, o Movimento Armorial percorre, também, os caminhos da Música de Viola, dos acordes da Rabeca, como ainda das artes impressas, em destaque a Xilogravura, esta presente, impreterivelmente, nas capas dos folhetos de Cordel. O Manulengo, a arte dos bonecos, é expressão viva dessa manifestação cultural.

O Armorial, por fim, consoante pensamento de seu realizador maior, Ariano Suassuna, compreende o conjunto de brasões, insígnias, estandartes, bandeiras - símbolos de um povo. Assim, a heráldica sintetiza o seu espírito.

Ora, a própria estética a que o casal Virgílio-Côca se integra - o Armorial - valoriza e estimula a relação entre as artes, em especial, como o faz o pioneiro dessa corrente nascida no Nordeste, Ariano Suassuna, a relação entre desenho e escrita, de que é exemplo seu monumental Romance d´ A Pedra do Reino e o Príncipe do Sangue do Vai-e-Volta. Tal relação é, como a civilização recriada por Côca, antiquíssima e apaixonante. Em alguns textos publicados sobre a obra de Vargas Llosa, a de Antônio Bandeira ou sobre o tema de Canudos, tenho ressaltado a riqueza de percepção artística que essa relação pode proporcionar. A propósito da integração das artes plásticas com a escrita, da forma como acontece na coleção em estudo, lembro que as legendas em figuras remontam à arte bizantina religiosa e, que, no ocidente, a partir dos séculos XIII e XIV, aparecem epígrafes embaixo dos afrescos, para explicar e comentar os conjuntos retratados. De certa forma, as histórias em quadrinhos, as tiras humorísticas, que casam escrita e desenho, são herdeiras dessa tradição que tem suas origens, naturalmente, na escrita pictórica rupestre.

Os novos rumos

Como lembra Ariano Suassuna, no texto Socorro Torquato e o Movimento Armorial, que abre o catálogo e abençoa a exposição: Socorro parte agora, em uma nova fase de sua obra, para resgatar, através da revisão criadora do trabalho artístico, a forte arte rupestre das nossas grutas, serras de pedra e itaquatiaras - pinturas e baixos relevos com formas abstratas ou figurativas. Imagens que ora lembram signos do Zodíaco, frutos, plantas, estrelas, ora representam, indiscutivelmente, homens e bichos às vezes, a serpente enrolada sobre si mesma, tão comum a todas as Mitologias latino-americanas.

O interesse de Côca pelas inscrições rupestres não é recente, mas se consolidou com sua visita à Região do Seridó, no Rio Grande do Norte, e à Pedra do Ingá, na Paraíba, a partir de que recriou sua própria civilização remotíssima. Nessa civilização, onde predomina o mundo, vasto mundo mineral - pedra e água -, o reino primeiro coexiste com vegetais e animais; enfim, toda a =remotíssima civilização surge pela mão do ser humano que recria a natureza e que a modifica quando a representa. Assim, se itaquatiaras são recriações da natureza pelo homem primitivo, no jogo especular da arte, de mise-en-abyme em mise-em-abyme, Côca recria sua Itaquatiara, gerando um novo mundo que representa não só o mundo do homem primitivo, mas o mundo em que a artista vive ou sonha, a partir do mundo primevo.



O atemporal

Essa criação de um mundo atemporal, que mescla tempos e estágios de civilização diferentes, através da recriação dos desenhos rupestres, é reforçada em muitas aquarelas, como "Um desafio às forças das marés", "Sagres boiou no mar o desafio", "Um ancestral chegou nessa ribeira", entre outras, com a presença do ser humano ao lado de seus artefactos (roda, timão, remo, embarcação, cajado) e os indícios de trabalho gregário, como o pastoreio e a navegação. E, o que, nessa análise, é de capital importância, entre os artefactos do homem, é perceptível a sugestão da criação da linguagem através do que está escrito ou desenhado nas paredes da caverna. Ou seja, e finalizo minha explicação pedindo de empréstimo um dos títulos das aquarelas da coleção: Côca apreende o momento em que o ser humano se constrói como membro da grei, ao entender que precisa deixar "Vestígios de sua passagem" no mundo.

Como membros da imensa grei humana, continuamos a buscar ou a inscrever vestígios da nossa passagem na Casa-Mãe, a Terra, como Côca, e, certamente, a bela coleção dessa virtuosa artista deixará, por sua vez, vestígios marcantes em nossa sensibilidade.



ANGELA GUTIÉREZ
COLABORADORA*
 


 


Nota do Editor: Vale a pena conferir Estudos, Catálogos — Mãos, sobre a obra de Virgílio Maia/ Socorro Torquato
 

Allan R. Banks (USA) - Hanna

 

 

 

 

     
 
Wilson Martins

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Herodias by Paul Delaroche (French, 1797 - 1856)
 

 

 

 

 

 

 

  12.9.2010