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Angela Gutierrez

Caderno de Cultura, 12.9.2010
Nas primeiras páginas do catálogo da exposição Itaquatiara, de
Côca Torquato, uma fotografia da artista integra-se, através de
técnica de collage/montage, a uma de suas aquarelas intitulada
"remotíssima civilização", que, ampliada, funciona como pano de
fundo ou paisagem para o retrato
A impressão visual dessa página remete a reflexões sobre alguns
modos de ver e apreender a mais recente coleção da talentosa Côca.
As cores da aquarela - que se restringem a branco, ocre, vermelho e
negro, apresentando-se o ocre com diferentes matizes - constituem a
mesma paleta de toda a coleção e repetem-se no retrato da artista,
onde se salientam o negro dos cabelos e o vermelho dos lábios, cores
que também ressaltam em "remotíssima civilização". Assim, a fusão
criadora-criatura entrega ao voyeur da coleção, uma chave simbólica
para abri-la e penetrá-la, como se fazia em tempos medievais, quando
os visitantes ilustres eram, então, recebidos às portas das cidades
- portas reais e metafóricas - pelo burgo-mestre.
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Essa coleção é, pois, uma cidade de cores e traços que se repetem e
encontram sua significação maior em um recorrido por toda a sua
geografia, mesmo que cada ponto do percurso por si só se valha.
Nossa peregrinação - voltemos ao catálogo -, inicia-se na capa, com
a reprodução de "remotíssima civilização", e termina com a mesma
aquarela, como a indicar que o trajeto é circular e o visitante ou
peregrino sabe que gira sempre em redor desse mundo remoto, de
acordo com as cartografias que a artista/construtora desenhou.
Uma aquarela
Numa das paragens dessa cidade-caverna, deparo-me, entre atraída e
surpreendida, com "A perene memória de seu nome", aquarela que me
transporta a diferentes mundos, através da figura que emerge, única,
e preenche quase todo o espaço do papel. Leva-me a um mundo tão
próximo e tão longe, como o da paisagem nordestina, sugerida pela
semelhança da figura com um mandacaru. Transporta-me ao mundo da
tradição judaica, ao lembrar a aparência de um menorá, castiçal que
ilumina o mundo hebraico. Alça-me, ainda, ao mundo da História: É o
Angelus Novus, de Paul Klee! exclamo, pois a figura faz-me recordar
o anjo que Walter Benjamin evoca em sua mais famosa alegoria, na
Tese IX de Sobre o conceito de história: um anjo que parece estar a
ponto de afastar-se de algo em que crava o seu olhar. Seus olhos
estão arregalados, sua boca está entreaberta e suas asas estão
estiradas. O anjo da história tem que parecer assim. Ele tem seu
rosto voltado para o passado. (Entre as inúmeras edições desse texto
de Benjamin, sugiro: Walter Benjamin: aviso de incêndio - Uma
leitura das teses ?Sobre o conceito de história, de Michel Löwy,
livro publicado pela Boitempo, em 2005).
Ao constatar a semelhança da figura de Côca com o anjo de Klee,
permito-me retomar um trecho de minha tese sobre Vargas Llosa que me
parece muito sugestivo na análise não só do anjo de Benjamin e Klee,
como do próprio antagonismo que o ofício do escritor e do artista
pressupõe.
Leitura alegórica
A partir de um pequeno e intrigante texto de Benjamin, escrito em
Ibiza, em duas versões, nos dias 12 e 13 de agosto de 1933 - "Agesilaus
Santander" -, Gershom Scholem, amigo de Benjamin e estudioso de sua
obra, propõe uma leitura alegórica que inter-relaciona os vários
anjos que passam a habitar a escrita benjaminiana, depois que o
escritor adquire o quadro Angelus novus de Paul Klee, em 1921. Para
Scholem, quando Benjamin, no enigmático texto a que aludimos, cria a
ficção de que seus pais, prevendo seu destino de escritor, deram-lhe
um estranhíssimo nome secreto que no futuro pudesse ser usado para
esconder sua condição de judeu, subentende-se que esse nome é o que
vem mencionado no título do texto, anagrama de anjo satanás, em
alemão. Assim, do anjo novo a que se refere o texto, explicando sua
origem cabalística - anjo criado por Deus, para cantar seus louvores
diante do trono divino e depois desaparecer no nada -, ao anjo
satanás, Benjamin passa do fugaz ao contraditório, reunindo as
energias angelicais e demoníacas em um mesmo ser, ele próprio como
escritor. (ver Angela Gutiérrez. Vargas Llosa e o romance possível
da América Latina. Rio: Sette Letras; Fortaleza: Edições UFC, 1996,
p.183)
Os caminhos
Recordei, ainda, que Ariano Suassuna, em sua Aula Magna na
Universidade Federal da Paraíba (reproduzida em publicação da
Editora dessa universidade, em 1994), compara a arte rupestre com a
arte do século XX, mostrando uma cópia de desenho de Paul Klee,
intitulado ?Vegetação sobre as rochas e, a seguir, a cópia de um
desenho rupestre. Após exibi-los, comenta, tendo em mão o último: É
menos bonito que o de Klee? Não é. Para meu gosto, é até melhor: se
eu pudesse escolher entre esse e o de Klee, eu queria esse
(p.31-32).
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O voyeur da coleção Côca consegue, também, conectar-se, em um átimo,
por suas sugestões de traços e cores, a mundos aparentemente
dissociados. Outra instigante aproximação entre artes que se dá na
coleção de Socorro Torquato é o entrelaçamento de seus textos
picturais com os textos poéticos de Virgílio Maia, pois a artista
escolhe versos do marido poeta para intitular suas aquarelas, o que
pode não só representar a comunhão matrimonial dos dois artistas,
como consagrar sua comunhão artística, que vem de muitos anos, sob a
bandeira do Armorial.
Elementos do movimento armorial
Sob a inspiração do ficcionista e poeta Ariano Suassuna, o Movimento
Armorial se concentra, sobretudo, na intenção de produzir uma arte
que implique a fusão do erudito como popular, tendo como colheita
fundamental o chão sagrado do Nordeste brasileiro, em suas mais
diversas manifestações culturais. Desse modo, a produção artística
espalha-se pela pintura, pela escultura, pela música, pela dança,
enfim, por todas as criações em que o engenho humano se faz
presente.
Há, portanto, na invenção desses artistas - não importa a direção
por que se orientem os trabalhos - uma forte relação com o universo
maravilhoso que serve de espaço aos folhetos do Romanceiro Popular
do Nordeste, ou seja, a Literatura de Cordel, fonte de uma imenso
patrimônio imaterial, no qual se realizam narrativas inventivas,
como, por exemplo, a do "Pavão Misterioso" - texto talvez inspirado
no voo de um dirigível.
Como se trata de uma arte múltipla, o Movimento Armorial percorre,
também, os caminhos da Música de Viola, dos acordes da Rabeca, como
ainda das artes impressas, em destaque a Xilogravura, esta presente,
impreterivelmente, nas capas dos folhetos de Cordel. O Manulengo, a
arte dos bonecos, é expressão viva dessa manifestação cultural.
O Armorial, por fim, consoante pensamento de seu realizador maior,
Ariano Suassuna, compreende o conjunto de brasões, insígnias,
estandartes, bandeiras - símbolos de um povo. Assim, a heráldica
sintetiza o seu espírito.
Ora, a própria estética a que o casal Virgílio-Côca se integra - o
Armorial - valoriza e estimula a relação entre as artes, em
especial, como o faz o pioneiro dessa corrente nascida no Nordeste,
Ariano Suassuna, a relação entre desenho e escrita, de que é exemplo
seu monumental Romance d´ A Pedra do Reino e o Príncipe do Sangue do
Vai-e-Volta. Tal relação é, como a civilização recriada por Côca,
antiquíssima e apaixonante. Em alguns textos publicados sobre a obra
de Vargas Llosa, a de Antônio Bandeira ou sobre o tema de Canudos,
tenho ressaltado a riqueza de percepção artística que essa relação
pode proporcionar. A propósito da integração das artes plásticas com
a escrita, da forma como acontece na coleção em estudo, lembro que
as legendas em figuras remontam à arte bizantina religiosa e, que,
no ocidente, a partir dos séculos XIII e XIV, aparecem epígrafes
embaixo dos afrescos, para explicar e comentar os conjuntos
retratados. De certa forma, as histórias em quadrinhos, as tiras
humorísticas, que casam escrita e desenho, são herdeiras dessa
tradição que tem suas origens, naturalmente, na escrita pictórica
rupestre.
Os novos rumos
Como lembra Ariano Suassuna, no texto Socorro Torquato e o Movimento
Armorial, que abre o catálogo e abençoa a exposição: Socorro parte
agora, em uma nova fase de sua obra, para resgatar, através da
revisão criadora do trabalho artístico, a forte arte rupestre das
nossas grutas, serras de pedra e itaquatiaras - pinturas e baixos
relevos com formas abstratas ou figurativas. Imagens que ora lembram
signos do Zodíaco, frutos, plantas, estrelas, ora representam,
indiscutivelmente, homens e bichos às vezes, a serpente enrolada
sobre si mesma, tão comum a todas as Mitologias latino-americanas.
O interesse de Côca pelas inscrições rupestres não é recente, mas se
consolidou com sua visita à Região do Seridó, no Rio Grande do
Norte, e à Pedra do Ingá, na Paraíba, a partir de que recriou sua
própria civilização remotíssima. Nessa civilização, onde predomina o
mundo, vasto mundo mineral - pedra e água -, o reino primeiro
coexiste com vegetais e animais; enfim, toda a =remotíssima
civilização surge pela mão do ser humano que recria a natureza e que
a modifica quando a representa. Assim, se itaquatiaras são
recriações da natureza pelo homem primitivo, no jogo especular da
arte, de mise-en-abyme em mise-em-abyme, Côca recria sua Itaquatiara,
gerando um novo mundo que representa não só o mundo do homem
primitivo, mas o mundo em que a artista vive ou sonha, a partir do
mundo primevo.

O atemporal
Essa criação de um mundo atemporal, que mescla tempos e estágios de
civilização diferentes, através da recriação dos desenhos rupestres,
é reforçada em muitas aquarelas, como "Um desafio às forças das
marés", "Sagres boiou no mar o desafio", "Um ancestral chegou nessa
ribeira", entre outras, com a presença do ser humano ao lado de seus
artefactos (roda, timão, remo, embarcação, cajado) e os indícios de
trabalho gregário, como o pastoreio e a navegação. E, o que, nessa
análise, é de capital importância, entre os artefactos do homem, é
perceptível a sugestão da criação da linguagem através do que está
escrito ou desenhado nas paredes da caverna. Ou seja, e finalizo
minha explicação pedindo de empréstimo um dos títulos das aquarelas
da coleção: Côca apreende o momento em que o ser humano se constrói
como membro da grei, ao entender que precisa deixar "Vestígios de
sua passagem" no mundo.
Como membros da imensa grei humana, continuamos a buscar ou a
inscrever vestígios da nossa passagem na Casa-Mãe, a Terra, como
Côca, e, certamente, a bela coleção dessa virtuosa artista deixará,
por sua vez, vestígios marcantes em nossa sensibilidade.
ANGELA GUTIÉREZ
COLABORADORA*
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