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Rubenio Marcelo
O cosmopolismo na arte musical de Rubenio Marcelo & Jorge Sales
*por Adelaido dos Anjos
“A arte é quase metade do caminho para a perfeição” (Mme. de
Puisieux)
“Para muita gente – inclusive para
quem fisiologicamente não pode ouvir – tudo pode ser música: o
movimento silente das constelações em contínua expansão, a escola
que passa sambando, um jogo, o pulsar cadenciado do coração, um
rito, um grito, o canto coletivo que dá mais força ao trabalho.”
Ledo engano. Este conceito simplista
e exageradamente humanista perde voz e se torna mudo eco quando se
depara com uma música ímpar, estruturada em letras inteligentes e
arranjos maestramente trabalhados. Melodias, ritmos e sons
harmonicamente envolvendo compositor/intérprete/ouvinte, os quais
levam a um crescente processo de energia e espetaculares estruturas
organizativas de inquestionável superior arte que dão à alma
insonháveis enlevos.
Quem tem o privilégio de conhecer e
ouvir “A Arte Maior de Rubenio Marcelo & Jorge Sales”, nas maviosas
vozes de Cecitônio Coelho, Mara Veloso, Barbosa Lima, Johnny Paz,
Marcão e Rubenio Marcelo, sem sombra de dúvida vai plenamente
concordar com o que aqui racionalmente irei expor.
Rubenio Marcelo – o versátil
manipulador das palavras. O ilusionista que as transforma em
palpáveis sentimentos para a alma e coração, haja vista seu poder de
jogar com os fonemas, frases e orações – é, além de exímio e
consagrado escritor, um mestre também na arte musical – não um
simples mestre – , mas um fantástico compositor (músico melodista),
um eclético artista nato, comprovadamente dono de uma prodigiosa
capacidade de criar sons e músicas e, assim, conquistar ecléticos
admiradores.
Juntamente com Jorge Sales, renomado
poeta e letrista capixaba, lançou um magnífico CD com 15 faixas
próprias, em que várias delas são freqüentemente tocadas em várias
partes do Brasil. Em Campo Grande-MS, pode-se ouvi-las nas FMs UCDB
(91.5) e Regional (104.7), com destaque para as músicas “Almas em
Chamas”, “Santa Leopoldina” e “Morro do Penedo”. O trabalho, que
levou 18 meses para ser finalizado, contou com a participação de
dezenas de profissionais especializados, entre músicos, vocalistas,
técnicos etc.
À guisa de análise lítero-musical,
pode-se afirmar que todas as composições são construídas com esmero
e singular capacidade artística, como podemos observar em (1) “Almas
em Chamas”, cuja letra-soneto de Geraldo Ramon Pereira, com arranjo
e melodia de Rubenio Marcelo e Jorge Sales, e interpretação de
Cecitônio Coelho, é obra prima musical (inclusive já regravada, com
igual competência, pelo cantor maranhense Airton Lopes).
Geraldo Ramon (parceiro e
companheiro de Academia de Rubenio Marcelo) dispensa comentários,
eis que é um dos maiores sonetistas de Mato Grosso do Sul e do
Brasil. A letra é uma das pérolas literárias. Vejam como ele encerra
com chave de ouro, em um envolvente jogo de palavras: ... “Nem sei o
que sentimos, qual amantes: / Se instantes de uma eterna eternidade
/ Ou a eterna eternidade dos instantes.”
2 - “Paz em Movimentos” (Rubenio
Marcelo / Jorge Sales. Voz: Mara Veloso) é uma primorosa composição
que esbanja recursos vocais e instrumentais (principalmente o
piano). Nela, o entrelaçamento de palavras - “A paz em movimentos /
Movimentos de paz...” - inteligentemente construído, dá o tom
refinado de uma arte inspirada e original, uma mensagem fortíssima,
mormente com o emprego sutil das apropriadas idéias em toda a
estrutura.
O que Érico Veríssimo diz quando
afirma que ”A vida é uma cartola de mágico. Com um pouco de
habilidade e imaginação, a gente tira dela tudo”, pode,
inegavelmente, ser aplicado na letra da faixa (3) “Coração” (Rubenio
Marcelo / Jorge Sales / Barbosa Lima. Voz: Barbosa Lima), eis que um
tema aparentemente prosaico foi transformado em inteligente ensaio
sensual: "Embora pareça absurdo, / O olho não mostra tudo, / Não que
ele não mereça; / E antes que a ficha caia, / Coração debaixo da
saia / É coisa da minha cabeça...”. Muito ritmo, violões e percussão
(aqui destacando-se o cajon / caixa flamenca) adornam de especial
beleza este baião-pop-estilizado.
4 - “Amiga do Peito" (Rubenio
Marcelo / Jorge Sales. Voz: Johnny Paz) mostra o simbiôntico amor de
uma amizade sem interesses escusos, que ... “Num lance de sorte,”
prestigia ... "seu jeito frágil / numa pessoa tão forte". E mais
ainda: “Como um poeta quase leigo, / Nesta condição me aconchego; /
Vivencio este anjo tão puro e tão meigo, / Num gesto tão perfeito e
eu confesso: / Te amo, amiga do peito!” . Nesta faixa, a melodia
envolvente (marca rubeniana) e os arranjos-solo de violões nylon
completam o conjunto magistral da obra.
Numa rica homenagem telúrica, em (5) “Santa Leopoldina” (Rubenio
Marcelo / Jorge Sales / Cecitônio Coelho. Voz: Cecitônio Coelho),
temos um autêntico retorno às raízes em tom sentimentalista e
envolvente, por meio de uma bem arquitetada letra
descritivo-dissertativa ... “E minha memória, meus amores... / Teus
macacos, tuas cobras, tuas rãs, / Quanta graça, tuas garças... / Já
aflora tua fauna e flora, tua superfície, / Floresta Atlântica de
encosta e planície...” . Em "Santa Leopoldina", além dos belos
falsetes do genial Cecitônio e os sons lapidados do fretless, temos
efeitos melódicos, backing vocals e contrapontos tão impressionantes
que não se pode definir com simples palavras a sensação de beleza
que aflora desta composição.
6 - “Destino dos Ventos” (Rubenio
Marcelo / Jorge Sales. Voz: Mara Veloso) é uma agradável balada
clássica repleta de ricas metáforas, como: “Nos salões da natureza,
/ A lua para bailar...”; e interpretativas personificações: “E o
esplendoroso vento, / Mesmo sem criar canções, / Canta num assobio /
Sacudindo os corações...”
7 - "Sina de Vaqueiro” (Rubenio
Marcelo / Jorge Sales / Barbosa Lima. Voz: Barbosa Lima) foge do
prosaico aboio para emprestar ímpar riqueza metafônica e poética:
“... Lá vai o vaqueiro levando o passado, / levando o seu gado,
buscando o futuro... / ” (...). É uma música regional de
primeiríssima qualidade.
8 - “Recurso da Alegria” (Rubenio
Marcelo / Jorge Sales. Voz: Johnny Paz) é um jazz harmônico - puro
jazz brasileiro - repleto de swing e improvisação, que nos remete à
busca do otimismo e à condição decifrável da felicidade que tanto
necessitamos: “Se no limiar da vida / Tens um triste acontecer, /
Não é a vez do lamento / Como possa parecer; / Já nasce contigo a
paz / Não importa o sofrimento, / Mas o que dele se faz!”. Aqui a
riqueza sonora dos metais, guitarras, percussão e vocais, é algo
fascinante.
9 - “Teu Corpo” (Rubenio Marcelo /
Jorge Sales / Cecitônio Coelho. Voz: Cecitônio Coelho), é uma
clássica e melodiosa MPB romântica onde há a mágica sensual/sensação
do prazer que liberta para a felicidade não apenas onírica, mas
palpável: ... “Nesta viagem no teu corpo... / Nestes beijos – gosto
de felicidade - / Mais que mulher és uma deusa de verdade."
10 - “Canção de Regresso” – “Canto
para Jean” – (Rubenio Marcelo / Jorge Sales. Voz: Mara Veloso). Uma
tocante composição que traduz o saudar elegíaco, com a prerrogativa
de mesclar a tristeza ao sentimento da alegria do reencontro amigo,
haja vista que “Agora retornas / menino crescido / Tudo valeu a pena
/ tua imagem serena / Regressa para ficar.”. É uma canção que muito
se identificou com a doce e límpida voz da grande cantora capixaba
Mara Veloso.
Enfim, neste extraordinário álbum
musical, é difícil escolher a melhor composição. Pode-se afirmar que
se encontra não apenas uma arte eclética mas, sobretudo,
cosmopolita. Citemos como exemplos complementares as faixas 11 -
"Praia da Costa” (Rubenio Marcelo / Jorge Sales / Barbosa Lima. Voz:
Barbosa Lima); 12 - “O que Faço” (Rubenio Marcelo / Jorge Sales.
Voz: Johnny Paz); 13 - “Você, o Vento e o Mar” (Rubenio Marcelo /
Jorge Sales. Voz: Cecitônio Coelho); 14 - “Rio de Janeiro” (Rubenio
Marcelo / Jorge Sales. Voz: Marcão) e 15 - “Morro do Penedo” (Rubenio
Marcelo / Jorge Sales; vozes: Johnny Paz e Rubenio Marcelo).
Faz-se mister dar ênfase ao termo de
que inusitadamente é um trabalho assaz abrangente - elegante e
moderno - onde letras, melodias, arranjos e interpretações formam um
conjunto que transcende.
Daí, concluímos que este ímpar CD,
recentemente lançado em turnê por várias localidades do Brasil,
merece ser apreciado e admirado, haja vista que a magnitude das
letras e a magia dos arranjos e melodias, além do caprichado
acabamento, capa e encarte belíssimos (farto material gráfico, com
todas as letras e dezenas de fotos de estúdio), proporcionam
indeléveis momentos de singulares êxtases. Realmente, um CD
completo.
Vale a pena conferir!
(*Adelaido dos Anjos - Formado em Letras
Português/Inglês pela UCDB. Escritor - poeta, cronista e
crítico de arte).
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