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Rubenio Marcelo
A bênção, Patativa do Assaré!
A Cultura Popular é um magnífico
tesouro que enobrece a alma do nosso país, encantando e dando
lenitivo aos nossos corações. O nobre Populário e seus legados
maliciosos, maganos, pueris, perpetuando-se genuinamente através das
gerações, são os pilares criativos, as raízes da memória viva da
nação.
Michel de
Montaigne, notável escritor francês, falecido no ano de 1592, já
preconizava que “a poesia puramente natural possui ingenuidade e
graça, por onde ela se compara à principal beleza da poesia perfeita
segundo a arte”.
Mais
recentemente, o dramaturgo e poeta alemão Eugen Bertold F. Brecht,
sabiamente, afirmava que “popular é o que as grandes massas
compreendem, o que documenta e enriquece a sua forma de expressão”.
E se Literatura
é o complexo de produções humanas, tendo por órgão a palavra
(especialmente a palavra escrita) cujo fim é despertar o sentido do
belo, distraindo o espírito e afagando a sensibilidade – quer pela
perfeição da forma, quer pela excelência das idéias, quer pelo
equilíbrio de ambas – não temos dúvida que essa sublime finalidade é
também (e tão bem!) alcançada através de um vocabulário usual,
prático, sem ornatos e ostentações, avesso aos esdrúxulos, onde a
coordenação sintática e a colocação direta das palavras predominam
numa linguagem clara, envolvente e pura.
Destarte, a
literatura popular e a chamada literatura culta ou erudita em nada
diferem quanto aos seus objetivos e processo de criação, vez que
ambas para atingirem a perfectibilidade moral, cuja aspiração
torna-se desejada por meio das emoções delicadas com que pinta o
ideal do belo, utilizam os mesmos expedientes e instrumentos:
palavras, inspiração e técnicas. Bastando, num caso ou no outro, que
se tenha espírito iluminado e nobreza de caráter para que se alcance
o essencial, através da palavra mágica e andarilha que transcende,
tem valor e glória.
Por essas e por
outras, é que expresso as minhas observações acerca da matéria
intitulada “Nem Mallarmé nem Patativa do Assaré”, publicada no
Caderno 2/Cultura de um grande Jornal paulistano, do qual sou leitor
assíduo, nesse domingo (dia 07.04.2002), versando sobre a escolha de
autores e obras para o Exame Nacional de Cursos de Graduação das
universidades (o conhecido Provão, que foi criado pela Lei 9.131/95
e nesse ano de 2002 avaliará 24 cursos).
O responsável
pela referida matéria, num determinado momento, ao analisar o
programa e conteúdos estabelecidos na área de Letras (Literatura),
lançando no ar sérias suspeitas e desconfianças a respeito dos
critérios adotados pelo MEC para essa seleção literária (o que
tachou de possíveis “questões de mero gosto pessoal... questões
extraliterárias que não vale a pena rastrear quais sejam”),
considerou uma “aberração” a escolha de alguns autores e obras que
ele classificou de “secundaríssimo escalão” (será que nessa análise
não foram empregadas também questões de mero gosto pessoal?...).
Continuando suas
explanações, no tocante aos poetas brasileiros selecionados, o
crítico afirma (ipsis litteris) não poder se conformar com “a
presença de uma Adélia Prado e muito menos ainda de um Patativa do
Assaré...” E encerra esse tópico, referindo-se ao poeta cearense,
incrivelmente, interrogando: “qual interesse há para um formando de
Letras tê-lo incluso num cânone de literatura? Será que é importante
para a formação de um docente, que deve conhecer em profundidade a
Literatura Brasileira, ter um conhecimento mais específico desse
poeta?”.
Ora, diante
dessas hostis colocações, data venia, quem não pode se conformar
somos nós!
Será que o
senhor crítico, de maneira imparcial, parou para conhecer e pensar
sobre a essência do silencioso ofício literário desse excelso vate e
a dimensão simbólica da obra do maior cantador e poeta popular do
Brasil?
Porventura, o
senhor crítico abalizou, formalmente, o expressivo e
reconhecidíssimo valor que tem o canto telúrico e a alquimia sagrada
dos versos desse Menestrel legítimo, autêntico e verdadeiro, no
universo acadêmico do contexto nordestino e no cetro da alma do povo
dessa importante região?
Por qual motivo
o senhor crítico, ao referir-se a Patativa do Assaré, pretendeu
ofuscar o reconhecimento (nacional e internacional) e a relevância
da obra desse personagem-chave do Panteão nordestino, que já teve
seus livros traduzidos e estudados na cadeira de Literatura
Universal da Sorbonne - uma das mais prestigiadas universidades da
França - e já recebeu homenagens com títulos de “Doutor Honoris
Causa” de vários reitores, apesar de não ter tido mais de que alguns
meses de alfabetização?
Esse poeta, que,
na minha infância, embalou minhas noites e dias com a singeleza do
seu canto mavioso. Esse poeta, autor do mais belo hino de imigração
nordestina – “A Triste Partida” – que ficou imortalizado na voz de
outro fascinante cantador: Luiz Gonzaga. Esse poeta, que, ainda na
minha adolescência, tive a honra de conhecê-lo de perto na sua
pacata Assaré, distante 623 km de Fortaleza.
... Esse mesmo poeta, que já virou nome de rodovia, ruas,
bibliotecas e escolas e, aos 93 anos de idade, poderá ser a primeira
pessoa física a ser declarada “patrimônio do povo brasileiro”,
segundo proposta do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico
Nacional (Iphan).
Isso mesmo: o
cidadão Antônio Gonçalves da Silva, o fantástico poeta Patativa do
Assaré, o mais querido bardo sertanejo, está prestes a ser aclamado
“patrimônio nacional”. O Conselho Nacional do IPHAN receberá a
fundamentada proposta através do núcleo cearense daquele órgão, que
incluirá também no dossiê livros, CDs, arquivos de mídia e
documentários do lendário vate.
Portanto - e de
uma vez por todas - está mais do que na hora de desassociarmos a
poesia popular de um elenco de conotações negativas que a rotulam
como literatura menor por oposição à Literatura.
Com efeito, como
enfoca Claude Roy, “o que nos toca do nosso folclore não é ele ser a
obra de quem não sabe, mas, ao contrário, nascer do sofrimento e da
alegria, da malícia e do coração daqueles que sabem muito bem”.
Por sua vez, o
pesquisador cultural francês Raymond Cantel ressalta que “a
literatura popular existe em outros países, mas nenhuma é tão
relevante como a do Nordeste brasileiro”.
Por isso, e por
muito mais, é que repudiamos e não podemos nos conformar com a
classificação supra, dispensada ao mais respeitado intérprete e
trovador do sertão nordestino: Astro de Primeira Grandeza da poética
popular brasileira! Poeta-Pássaro-Canoro, Profeta da glória e da fé.
Guardião-mor do bucólico tesouro...
-A bênção,
Patativa do Assaré!

Leia obra poética de Patativa do
Assaré
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