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Rubenio Marcelo
Gêneros da Poesia Popular
(Principais Estilos de Cantoria e Cordel)
I – Considerações iniciais:
Além dos
diversificados gêneros de literatura popular originariamente
espalhados pelo nosso país, temos atualmente outros tantos estilos
concebidos pelos ecléticos violeiros e poetas cordelistas, que –
eivados de alegoria e resgatando as raízes singelas da beleza – são
os legítimos guardiões das lúdicas sublimações; jograis de almas
ufanas que rimam fazendo famas e brilham ostentando a chama dos seus
gênios criadores. Seus desenvoltos repentes, garridos irreverentes,
articulam-se ferventes, em compassos viajores... Nos galopes ou
sextilhas, sete linhas, quadrões, redondilhas e outras tantas
maravilhas, são fabulosos doutores.
O cantador,
representante legítimo de todos os bardos menestréis (como bem
definiu Luís Câmara Cascudo), acompanhado por sua viola-deusa-pura,
desperta as mais sublimes dádivas do sentido e do espírito,
delineando os ícones fraternos do existencialismo e aflorando a
doçura dos nossos sonhos esquecidos.
A nossa Poesia
Popular possui, hoje, dezenas de gêneros e estilos que são
desenvolvidos pelos artistas populares nas suas apresentações, o que
demonstra o admirável e infinito poder criativo dos nossos vates
sertanejos.
Entre as
criações dos poetas clássicos, que vieram a ser usadas pelos nossos
cantadores, estão a quadra, a décima, a sextilha em decassílabo com
rimas cruzadas, e sua variante. A sextilha de rima cruzada
originou-se da oitava de Ariosto (Ludovico Ariosto, 1474 -1533,
Ferrara – Itália). Este estilo de estrofação em oitava rima, criado
pelo italiano Ariosto, foi introduzido em Portugal – pelo poeta
português Francisco de Sá de Miranda – no século XVI, sendo
utilizado por Luís Vaz de Camões na composição da sua imortal obra
“Os Lusíadas” (primeira edição publicada por volta de julho de
1572). É importante assinalar que não se deve confundir sextilhas
(estrofes de 6 versos) com sextinas (antigos poemas de forma
fixa – compostos de sete estrofes, sendo seis sextilhas e um terceto
– que foram bastante cultivados pelos clássicos). Deveras, os dois
vocábulos só ganham identidade morfológica se abandonarmos o aspecto
histórico das questões.
Recentemente,
estive visitando, em Fortaleza (CE), o meu querido amigo
menestrel/cantador e sonetista Geraldo Amâncio, um dos maiores e
mais respeitados poetas cantadores brasileiros da atualidade,
possuidor de vastíssimo currículo e detentor de incontáveis troféus
e prêmios nacionais e internacionais. Numa cálida e poética tarde
alencarina, conversamos bastante, trocamos informações, bebemos
cultura e permutamos nossas obras literárias. Assim, além de outros
materiais lítero-musicais, recebi os livros “De repente cantoria” e
“Cantigas Que Vêm da Terra”, da autoria dos fantásticos vates
Geraldo Amâncio e Vanderlei Pereira.
Esse belíssimo
livro “De repente cantoria” – da lavra encantadora dos ilustres
poetas cearenses Geraldo Amâncio e Vanderlei Pereira – traz, na sua
introdução/dedicatória, alguns trechos que, por achar oportuno, eu
aqui transcrevo: – “Este trabalho é dedicado a todos os
violeiros, cantadores, repentistas que mantêm acesa a chama da
verdadeira poesia popular, apesar da indiferença com que são vistos
pelas elites da cultura de gabinete; – Esses menestréis do improviso
foram, são e continuarão a ser o eco autêntico de uma longa história
que o sertão escreveu: a história dos simples, do trabalhador da
roça, do vaqueiro destemido, da seca e da chuva, da vida e da morte;
uma história que continua sendo cantada em rimas e versos
improvisados...”
Vale-se
ressaltar que, após este nosso contato cultural, Geraldo Amâncio
esteve em Campo Grande (MS), por ocasião da XVI Noite Nacional da
Poesia, apresentando-se como convidado especial deste evento
literário que acontece anualmente na Capital Morena do Mato Grosso
do Sul. Assim, com o seu prodigioso show de cantoria e improviso,
Geraldo Amâncio – ao lado do seu parceiro, o também poeta/cantador e
cordelista, Zé Maria de Fortaleza – maravilhou a platéia
sul-mato-grossense.
II –
Principais gêneros da Poesia Popular:
a) –
SEXTILHA:
Pertencente à
família dos versos setessílabos (redondilha maior), e usada
geralmente – como que uma forma de aquecimento vocal – nas aberturas
das apresentações e programas de cantorias, a Sextilha, apesar de
ser o gênero mais comum, é considerada a “deusa inspiradora dos
poetas repentistas”. A Sextilha é uma estrofe com rimas deslocadas,
constituída – conforme a própria denominação – de seis linhas, seis
pés ou seis versos de sete sílabas (a métrica é fator muito
importante para a beleza final da composição). As rimas nesse gênero
de seis versos acontecem nas linhas pares (2ª, 4ª e 6ª),
conservando-se as demais (1ª, 3ª e 5ª) em versos brancos (sem rima).
Esquema rimático:
xbybzb. – Exemplo:
Está com mais de cem anos
A nossa Literatura
De Cordel, que no Brasil
Já é parte da Cultura;
Seu legado traz renovo,
Qual chama ardente e pura!
® RUBENIO MARCELO
b) –
SETILHA, Sete Linhas ou Sete Pés:
Sendo uma
adaptação da sextilha, criada pelo cantador Manoel Leopoldino
Serrador, o estilo Sete Linhas caracteriza-se também por versos em
redondilha maior (sete sílabas poéticas) com rimas nos versos pares
até o quarto, como na sextilha; o quinto verso rima com o sexto; e o
sétimo com o segundo e o quarto. Esquema rimático: xbybzzb.
Difícil? – Não,
fácil! Veja nesta estrofe de minha autoria, que cito como exemplo:
Está vivinho da silva
O nosso belo Cordel;
Já é tema de mestrado,
Estudado com laurel;
Cada dia, aumentam mais
Os prestígios triunfais
Do cantador-menestrel!
® RUBENIO MARCELO
c) –
DÉCIMA:
A Décima, embora
de origem clássica, é um estilo muito apreciado tanto pelos poetas
cantadores como pelo público que assiste aos inesquecíveis encontros
e festivais de cantoria. Como indica o nome, as décimas são estrofes
ou estâncias de dez versos, assim distribuídos rimaticamente: o
primeiro verso ou linha rima com o quarto e o quinto; o segundo rima
com o terceiro; o sexto, com o sétimo e o décimo; e o oitavo verso
rima com o nono. Esquema de rimas nos versos: abbaaccddc. –
Exemplifico com uma das estrofes do meu elegíaco cordel-poema
“Partida e Saudade”:
Era manhã, brisa mansa,
Quando deixei Fortaleza,
Com um misto de tristeza,
Calma, fé e esperança...
Trago tudo na lembrança,
Jamais eu pude apagar
Três faces a acenar:
Meu pai, minha mãe, meu irmão.
Foi com dor no coração
Que deixei o meu lugar.
® RUBENIO MARCELO
Obs: A Décima,
também denominada Glosa, é o gênero escolhido e apropriado para os
chamados “motes”, onde os cantadores fecham cada estrofe com os
versos da sentença dada ou pedida pelo público.
Mote é um
pensamento formado de um ou dois versos, com que se finalizam as
estrofes (as décimas). Os motes de dois versos são os mais usuais,
como, por exemplo o meu “Foi com dor no coração / Que deixei o
meu lugar”, que fora recentemente ‘pedido’, a Geraldo Amâncio,
pelo nobre companheiro poeta/escritor e ativista cultural José de
Sousa Dantas, numa recente cantoria em João Pessoa (PB), e o exímio
repentista menestrel Geraldo Amâncio assim improvisou numa das suas
belas estrofes:
Minha mãe cortou a fala,
Quando eu disse: vou partir.
Porém antes de eu sair,
Botou a roupa na mala;
Depois veio até a sala,
Só para poder rezar;
Pra Deus me acompanhar,
Ela fez uma oração.
Foi com dor no coração
Que deixei o meu lugar.
Já o grande
poeta e amigo Almir Alves Filho, em Teresina (PI), honrou-me com
este meu mote plangente, cantando assim:
Sei que Rubenio passou
Pela triste experiência;
O Dantas me deu ciência,
Geraldo Amâncio cantou;
E meu Cordel aprovou
Esta canção de ninar
Que vai alguém embalar,
Superando a inquietação...
Foi com dor no coração
Que deixei o meu lugar.
d) –
MARTELO AGALOPADO
O Martelo
Agalopado atual, que é um gênero variante da Décima, é uma criação
do violeiro paraibano Silvino Pirauá. Pois originalmente o Martelo –
que ganhou esta denominação devido ao seu criador, o diplomata
francês e professor de literatura Jaime de Martelo – era composto em
estrofes de seis versos com rimas cruzadas (ababab).
Estilo
extremamente fascinador e de pegada assaz difícil – a “pedra na
garganta” dos fracos repentistas –, e, por outro lado, a
consagração dos bons menestréis – o nosso Martelo Agalopado (Décima
de versos compridos) é cantado em estrofes de dez versos
rigorosamente decassílabos. O esquema rimático é o já mencionado
abbaaccddc. Segue, como exemplificação, uma das estrofes do meu
descontraído Martelo “Marcelo em Martelo Agalopado”:
Certa vez eu subi ao infinito,
Peguei duas estrelas só c’uma mão;
Passeei de Mercúrio a Plutão,
Derrubei dois cometas só c’um grito.
E São Pedro já foi ficando aflito,
Indo logo a Jesus, preocupado...
E o Mestre, em tom equilibrado,
Disse a Pedro, ouvindo cantilenas:
– Fique calmo, amigo, isto é apenas
O Marcelo em Martelo agalopado!
® RUBENIO MARCELO
e) –
GALOPE À BEIRA-MAR:
Também um estilo
em forma de Décima de versos compridos, o Galope à beira-mar é outro
belo e dificílimo gênero de improviso. Criado na beira da Praia de
Iracema (Fortaleza / CE), pelo violeiro cearense José Pretinho, e
assim chamado em virtude de ser abordado em temas praianos, o Galope
à beira-mar é constituído por estrofes de dez versos de onze sílabas
(ou versos de Arte Maior), sempre constando no final do estribilho a
palavra mar. O esquema rimático (disposição das rimas) do Galope à
beira-mar é o mesmo do Martelo agalopado (abbaaccddc).
Ilustro estas
considerações, com uma das estrofes do meu poema elegíaco-telúrico
“Galop(e)legia”, que escrevi em Galope à beira-mar:
Tocando meus dedos nas cordas plangentes
Da minha viola-deusa-companheira,
Relembro os dias com mamãe na feira,
Brincando, fagueiro, ao som dos repentes;
Saudosos instantes, distantes, ausentes,
Que a minha memória não pode olvidar,
Pois foi esse carme que fez germinar
A paz verdadeira no meu coração;
Com ele eu cresci e vi inspiração,
Cantando galope na beira do mar.
® RUBENIO MARCELO
f) –
PARCELA:
Conhecida também
pela denominação de décimas de versos curtos, a Parcela é gênero de
cantoria constituída por estrofes com versos de quatro ou de cinco
sílabas. Destacaram-se neste estilo os cantadores Pedra Azul, Manoel
da Luz Ventania, José Félix e o cego Benjamim Mangabeira, este
último recentemente falecido em Fortaleza (CE).
Como é outra
variante das décimas, o esquema de distribuição rimática das
parcelas é também abbaaccddc. Ilustrando estas informações, enfoco
abaixo uma das estrofes da minha Parcela “Insólito Prelúdio”
(págs. 39, 40, 41 e 42 do meu Livro “Estigmas do Tempo” – Ed.
Pantanal, 2001):
Quero viajar
Nas crinas do vento
Sem planejamento
Meu afã traçar
Por onde apontar
Meu baço nariz
Minh’ausente cerviz
E o vago coração
Pra além de Plutão
Pro “Planeta X”
® RUBENIO MARCELO
g) –
QUADRÃO:
De todos os
gêneros de poesia popular e cantoria, o Quadrão – que apresenta a
terminação das suas estâncias sempre com o estribilho da sua
denominação (quadrão) – tem sido aquele estilo que talvez tenha
sofrido um maior número de alterações e adaptações na sua estrutura
geral. Originariamente, os quadrões eram compostos em estrofes de
oito versos setessílabos, onde rimavam o primeiro com o segundo e o
terceiro versos; o quarto com o oitavo; e o quinto verso com o sexto
e o sétimo.
Após
modificações no universo multifacetado da cantoria, os quadrões
foram incluídos nas décimas e hoje temos quatro modalidades deste
gênero com dez pés (dez versos ou linhas), todos mantendo o
estribilho na última linha das estrofes.
Além dos
cantadores Antônio Batista Guedes, Simplício Pereira da Silva e
Manoel Furtado, os saudosos irmãos Batista (Dimas, Lourival e
Otacílio) foram os grandes mestres deste estilo especial de
cantoria, inclusive tendo sido (os Batistas) os criadores do famoso
“Quadrão Perguntado”, que recebeu esta denominação por ser uma
espécie de diálogo constituído de perguntas e respostas
intercaladas, obedecendo-se rigorosamente à métrica e à rima (além
da oração).
A seguir, à
guisa de exemplificação, transcrevo duas das estrofes de Quadrão
arquitetadas pela verve sagrada do improviso da laureada dupla de
cantadores, composta pelos excelsos bardos Geraldo Amâncio (GA) e
Moacir Laurentino (ML), quando se apresentavam – recentemente, para
grande público, na capital paraibana – e, mais uma vez,
homenagearam-me com vários versos de repente, dentre os quais os
seguintes:
GA – RUBENIO MARCELO mora
ML – Num lugar aconchegante,
GA – Campo Grande é importante,
ML – Qual Fortaleza e Aurora;
GA – Do Ceará foi embora,
ML – Só tem a recordação,
GA – E um filho longe do chão
ML – É mesmo que estar atado.
Isso é que é quadrão cantado,
Isso é que é cantar quadrão!
ML – RUBENIO receba aí
GA – O nosso fraterno abraço;
ML – Da vida, o repente eu faço,
GA – De Dantas, de mim, de ti;
ML – Incumbência eu recebi
GA – De todos que aqui estão,
ML – Por isso, os repentes vão
GA – Dizendo muito obrigado.
Isso é que é quadrão cantado,
Isso é que é cantar quadrão!
h) –
MOURÃO ou MOIRÃO:
Os moirões são
estilos de Poesia Popular dos mais difíceis, onde os cantadores
também se alternam dentro da mesma estrofe. Aqui, neste gênero, que
possui várias modalidades, deve haver uma interação muito afinada
dos dois poetas/repentistas, uma vez que a articulação das estâncias
cabe à criatividade de ambos, revezando-se nos versos e nas
estrofes, e respeitando fielmente as três características essenciais
de uma boa composição poética popular (métrica, rima e oração).
Nesta categoria,
temos os “Moirões de Seis Pés”, os “Moirões de Sete Pés”, o “Moirão
Trocado”, o “Moirão Que Você Cai” e o “Moirão Voltado”.
Nos Moirões de
Seis Pés (seis linhas), no processo métrico-rimático das sextilhas,
um cantador lança dois versos, o parceiro intercala mais dois, e o
que iniciou encerra a estrofe, procurando manter o sentido principal
da oração. *® Exemplo:
Cantador A – No ano setenta e sete,
Por uma Lei Federal
Cantador B – O Mato Grosso do Sul
Fora criado, afinal.
Cantador A – Campo Grande é nomeada
Para ser a Capital.
*RUBENIO MARCELO
Nos Moirões de
Sete Pés, que é o mais divulgado atualmente, as estrofes de sete
linhas são formadas da seguinte maneira: o cantador que inicia forma
cincos versos da estrofe, ou seja, os dois primeiros (1 e 2) e os
três finais (5, 6 e 7); enquanto o segundo cantador articula dois
versos (os versos das linhas 3 e 4). *® Exemplificando:
Cantador A – A partir desta conquista,
Campo Grande, a Capital
Cantador B – Do Mato Grosso do Sul,
Estado fenomenal,
Cantador A – Acelerou os motores
Da Economia e os setores
Político e Cultural.
*RUBENIO MARCELO
Temos ainda
outras modalidades importantes da Poesia Popular, também bastante
exploradas – em cantorias – pelos nossos poetas/repentistas, como,
por exemplo: o “Martelo Alagoano”, o “Coqueiro da Bahia”, “Brasil
Caboclo”, “Gabinete”, a “Toada Alagoana”, a “Gemedeira”, os “Dez Pés
de Queixo Caído”, a “Meia Quadra”, o “Rebatido”, e a “Ligeira”.
______________________
® RUBENIO MARCELO
(Membro e Secretário-Geral da Academia Sul-Mato-Grossense de Letras)
OBS:
Obra constante do Livro “O Reino Encantado do Cordel – A Cultura
Popular na Educação”, de Rubenio Marcelo, e registrada na Fundação
Biblioteca Nacional (Ministério da Cultura - Escritório de Direitos
Autorais) sob o nº 332.220 – Livro: 609 – Folha: 380 .
ISBN 85.87452-20-7
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