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Paulo Paiva
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POEMAS BISSEXTOS
Escreve com sangue e aprenderás que o sangue é espírito.
Nietzsche, Ecce Homo
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Necrotério
... meus oito anos:
Futebol e sensação de abandono
O outro, cinqüenta e cinco, com desespero
Culpa histérica e ternura a procurar uma brecha
Impossível na armadura do infanto
Aos vinte e dois: já um juiz prematuro
A inquirir, friamente, um decrépito confessor,
Uma pessoa ferida de morte pela vida
Que não tive (é preciso que o leitor saiba a verdade)
Escrúpulos em devorar
Finalmente, um necrotério oficial previsível
Com um previsível cadáver que tive que olhar.
Com ele mortas muitas certezas,
No mesmo dia com ele enterradas.
Resta um Édipo com desmedido amor a olhos que sequer choram
10.janeiro.2005
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Humana janela
... o temporal na janela do espúrio
Era intenso. Impenetrável.
Não obstante, nesse confundir incessante
Em que a água não admitia as formas
Viu o poeta a imagem mais clara das coisas
Janeiro.2005 |
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Exegese de João Cabral
... ser pedra.
Viver a vida da pedra significa permanecer? Imóvel?
Ao que flui e ao fluir?
Denota mais o sofrer as intempéries das
Estações,
Ser mutilado por elas,
De inteiro, restar em pedaços
Pedaços, não obstante, de pedra
05.novembro.2004
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Beijo-os
... a fêmea incontinenti que transtornou-me e me levou ao vinho,
O zelo hiperbólico dos maus atores para com seu bom ofício,
Aquele amigo, de cigarro de palha na mão, lendo seus poemas rimados,
Mortos, visitantes de hoje que ontem me queriam bem,
Todos os que me fizeram e me farão sofrer – Beijo-os!
Meus humanizadores particulares
Dezembro.2004
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O deserto povoado
... o que somos de verdade, manifesta-se no amálgama de sensações,
Sentimentos, pensamentos e seus respectivos consolos, que nos oprimem
Quando da quarta badalada da insônia.
Ora, como a imensa maioria da humanidade
Dorme quando grita a dita badalada e
Não têm, absolutamente, nenhum motivo que os mantenha
Em pé até tão profunda e inquieta solidão,
Agora mesmo,
Enquanto lês esse pedaço de papel,
Caminham sob sua janela milhares
De pessoas que nunca existiram, e
Que nunca existirão
15.janeiro.2004
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Homem rio
Fluí outrora em torno de ti, fluí
Ainda, para longe de ti, fluo hoje, para dentro de ti.
Eu: afluente incerto.
Tu: teleologia começada com G.
Julho.2004
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Vida
... o que experimento não pode ser desenhado com letras.
Humano – sem ser humanista (sequer humanitário).
Em todo o sentir o pensamento se intromete
Na mais séria conjectura,
a porta dos fundos aberta para o insondável estético
Mesmo na abstração, o músculo tenso
Em toda a dor, uma clarabóia para o passado
Nessas palavras, o saldo de tal luta.
À esperança? Um sorriso basta, ela entenderá.
No futuro, o igual.
Em mim: cansaço
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Ode a Vinícius
... minha lúcida vida. Que és hoje?
Uma clepsidra que calcula o sem sentido
Com lágrimas raríssimas.
Tivesse eu lido antes o teu Revolta...
Agora Vina, é tarde, o horror da solidão já me invadiu
E para sempre: uma vez que não é de bom tom
convidar as pessoas para o subterrâneo.
À noite de insônia e à solidão de um outro no nada
25.janeiro.2005
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Uma gota de lucidez
...uma gota de lucidez caiu ontem
Fundindo minhas sensações às dos cães aos meus pés.
É do lançar-se ao céu que a árvore
Colhe o raio que a destrói.
Raio que ao chão rasteiro só aquece.
Mas o chão não dá lar a belos pássaros nem conversa com o vento.
... uma gota de lucidez ajudou-me a entrever, em tudo, o simultâneo
e compassado apodrecer do que chamam realidade objetiva.
Sim! Sim! Recorro a imagem da decomposição
Recorro a ela para fugir ao ruído das explicantes palavras
06.fevereiro.2005
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não nomeado
... fito o chão que meu velho fitava
Há uma quinzena da morte, como explicar o que sinto?
Pode-se acaso entender a mistura entre saudade e inveja?
Mais me valeria um instantâneo, um auto-retrato em que me pintaria
Com mais tristeza do que comporta um ser humano que não seja quadro...
Melhor! A imagem perfeita! Um quadro vazio.
Uma sinfônica em silêncio,
De instrumentos nas maletas
10.setembro.2005
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não nomeado
... despertam-me a atenção os homens. - “Dão-me o mais puro horror!”
Lamentou-me um amigo depressivo. Retorqui-lhe o óbvio: “Conviver
Demasiado com eles contra a tua vontade,
Daí teu horror, de ti, não deles!”
Como são felizes! E que sorrisos!
Gosto decididamente de admirá-los,
Mas nunca juntarei aos seus os meus dentes (não que mais brancos):
Já não lhes compartilho a mesa da vida.
Bebo meu Dom José só.
E, enquanto troco com a taça um gole por seu aroma previamente roubado,
Penso em seus sorrisos.
Penso nos homens, mas bebo só.
Preteri-os por Dom José
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O sublime em banho
Goya chamou-te Mostro lavado.
Ignorava o pintor que vazio talvez possa ser benção.
Não era monstro o infanto.
Nascestes sem tuas mãos para que
Com as dela
Tua mãe não as pudesse sujar
Nascestes sem tuas pernas para que
Nunca tomasses o vão caminho dos homens
Caminho que tomei, já que provido das malditas pernas
Quisera ser eu o Monstro lavado de Goya...
07.dezembro.2005
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A poesia necessária
Borges certa feita conjeturou ser o Poema
O “silêncio do pássaro adormecido”.
Minha relação com a poesia é um tanto menos metafísica.
O poema me impele, por assim dizer, desde as vísceras,
Consome-me, e não posso prescindir-lhe para viver
Temos, em suma, uma relação.
Em noites de insônia e angústia,
A poesia coloca a mão em meu ombro e
Abraça-me por trás (como fazem as mulheres dos literatos que,
Por não terem tempo na vida para dormir acabam por derrubar pilhas de
livros às quatro da madrugada), e, então ela dita-me algo.
Dita-me de tal forma que diz sempre, por trás de cada poema:
- “Estais justo na vida, não desistas de mim.”
Porém, há noites que em desespero eu a chamo
Para que me ajude a transmudar a dor em letras desenhadas e sono.
Grito. Grito, mas ela, a poesia
O poema, não vem.
Um dia. Em meio a um de seus costumeiros abraços, perguntei-lhe:
- “És como um Deus, não me respondes quando a agonia se me aninha.
Prova-te pela indiferença?”
- “Amado – respondeu-me paciente -, quando não te venho, não é que o
ignores, é por estar ocupada com meu próprio sofrer
Que te poupo de conhecer, mas que é amenizado por teus chamados.
Não me deixes de chamar, e abraçar-te-ei para sempre.”
08.12.05
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Mudanças
... já me deram prazeres as mulheres, os carros, o dinheiro.
Hoje, no entanto, prefiro os vapores que se juntam
Vindos do vinho e do molho feito do sangue de algum animal
Que metodicamente parasitamos.
A brisa mais que a paisagem,
O ócio mais que o poder.
Estaria ficando sabido ou cansado?
14.12.05
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Tragadas que me prometem a morte
... por esses dias estive no Doutor,
Doutor daqueles que recebem o título do jaleco branco (não da
inteligência).
Me disse, o tal Doutor, que tenho um cisto.
A fumaça de meu cachimbo, desde então, cismou de metamorfosear a Palavra
cisto na palavra morte.
Moral da estória?
Não me seria difícil estar em boas relações com o não-ser
29.12.05
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O cuchillo vital
... a vida, com seu punhal pintado com o verde da esperança,
Me deu poucas estocadas.
Entretanto, todas no coração. E, daí a pergunta:
Porque não morro? Não se esgota o meu sangue?
É nobre, porém, triste, sangrar regando os campos da poesia
31.12.05
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Noites na Grécia Antiga
... entre o Cocito e o Aqueronte e,
Paradoxalmente, ainda entre os vivos,
Vejo meus dias passarem à gargalhar
De meus olhos que, tentando não vê-los,
Fecham-se,
Chamando um sono que nunca vem
22.01.06
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