Mais de 3.000 poetas e críticos de lusofonia!

Paulo Paiva

 

pfrpaiva@gmail.com

Thomas Colle,  The Return, 1837
 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Poesia:


 

Crítica, ensaio, resenha e comentário:

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Fortuna crítica:

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Uma notícia do poeta: 

Paulo Paiva tem 28 anos. Historiador de formação, atualmente estuda Filosofia e Direito em Brasília. As noites são, é claro, dedicadas ao mistério do poema. [2006]

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Velazquez, A forja de Vulcano

 

Sandro Botticelli, Saint Augustine, Ognissanti's Church, Firenze

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Paulo Paiva

 

POEMAS BISSEXTOS

 

Escreve com sangue e aprenderás que o sangue é espírito.

Nietzsche, Ecce Homo

 

 

 

Necrotério

 

... meus oito anos:

Futebol e sensação de abandono

O outro, cinqüenta e cinco, com desespero

Culpa histérica e ternura a procurar uma brecha

Impossível na armadura do infanto

 

Aos vinte e dois: já um juiz prematuro

A inquirir, friamente, um decrépito confessor,

Uma pessoa ferida de morte pela vida

Que não tive (é preciso que o leitor saiba a verdade)

Escrúpulos em devorar

 

Finalmente, um necrotério oficial previsível

Com um previsível cadáver que tive que olhar.

Com ele mortas muitas certezas,

No mesmo dia com ele enterradas.

Resta um Édipo com desmedido amor a olhos que sequer choram

 

 

10.janeiro.2005 

 

 

 

Humana janela

 

 

... o temporal na janela do espúrio

Era intenso. Impenetrável.

Não obstante, nesse confundir incessante

Em que a água não admitia as formas

Viu o poeta a imagem mais clara das coisas

 

 

Janeiro.2005

 

 

 

Exegese de João Cabral

 

... ser pedra.

Viver a vida da pedra significa permanecer? Imóvel?

Ao que flui e ao fluir?

Denota mais o sofrer as intempéries das

Estações,

Ser mutilado por elas,

De inteiro, restar em pedaços

Pedaços, não obstante, de pedra

 

 

05.novembro.2004

 

 

Beijo-os

 

... a fêmea incontinenti que transtornou-me e me levou ao vinho,

O zelo hiperbólico dos maus atores para com seu bom ofício,

Aquele amigo, de cigarro de palha na mão, lendo seus poemas rimados,

Mortos, visitantes de hoje que ontem me queriam bem,

Todos os que me fizeram e me farão sofrer – Beijo-os!

Meus humanizadores particulares

 

Dezembro.2004

 

 

 

O deserto povoado

 

... o que somos de verdade, manifesta-se no amálgama de sensações,

Sentimentos, pensamentos e seus respectivos consolos, que nos oprimem

Quando da quarta badalada da insônia.

Ora, como a imensa maioria da humanidade

Dorme quando grita a dita badalada e

Não têm, absolutamente, nenhum motivo que os mantenha

Em pé até tão profunda e inquieta solidão,

Agora mesmo,

Enquanto lês esse pedaço de papel,

Caminham sob sua janela milhares

De pessoas que nunca existiram, e

Que nunca existirão

 

 

15.janeiro.2004

 

 

 

 

Homem rio

 

Fluí outrora em torno de ti, fluí

Ainda, para longe de ti, fluo hoje, para dentro de ti.

Eu: afluente incerto.

Tu: teleologia começada com G.

 

 

Julho.2004 

 

 

 

Vida

 

... o que experimento não pode ser desenhado com letras.

Humano – sem ser humanista (sequer humanitário).

Em todo o sentir o pensamento se intromete

Na mais séria conjectura,

a porta dos fundos aberta para o insondável estético

Mesmo na abstração, o músculo tenso

Em toda a dor, uma clarabóia para o passado

Nessas palavras, o saldo de tal luta.

À esperança? Um sorriso basta, ela entenderá.

No futuro, o igual.

Em mim: cansaço

 

 

 

Ode a Vinícius

 

... minha lúcida vida. Que és hoje?

Uma clepsidra que calcula o sem sentido

Com lágrimas raríssimas.

Tivesse eu lido antes o teu Revolta...

Agora Vina, é tarde, o horror da solidão já me invadiu

E para sempre: uma vez que não é de bom tom

convidar as pessoas para o subterrâneo.

À noite de insônia e à solidão de um outro no nada

 

25.janeiro.2005

 

 

 

Uma gota de lucidez

 

...uma gota de lucidez caiu ontem

Fundindo minhas sensações às dos cães aos meus pés.

É do lançar-se ao céu que a árvore

Colhe o raio que a destrói.

Raio que ao chão rasteiro só aquece.

Mas o chão não dá lar a belos pássaros nem conversa com o vento.

... uma gota de lucidez ajudou-me a entrever, em tudo, o simultâneo

e compassado apodrecer do que chamam realidade objetiva.

Sim! Sim! Recorro a imagem da decomposição

Recorro a ela para fugir ao ruído das explicantes palavras

 

06.fevereiro.2005 

 

 

 

não nomeado

 

... fito o chão que meu velho fitava

Há uma quinzena da morte, como explicar o que sinto?

Pode-se acaso entender a mistura entre saudade e inveja?

Mais me valeria um instantâneo, um auto-retrato em que me pintaria

Com mais tristeza do que comporta um ser humano que não seja quadro...

Melhor! A imagem perfeita! Um quadro vazio.

Uma sinfônica em silêncio,

De instrumentos nas maletas

 

 

10.setembro.2005

 

 

 

 

não nomeado

 

... despertam-me a atenção os homens. - “Dão-me o mais puro horror!” Lamentou-me um amigo depressivo. Retorqui-lhe o óbvio: “Conviver Demasiado com eles contra a tua vontade,

Daí teu horror, de ti, não deles!”

Como são felizes! E que sorrisos!

Gosto decididamente de admirá-los,

Mas nunca juntarei aos seus os meus dentes (não que mais brancos):

Já não lhes compartilho a mesa da vida.

Bebo meu Dom José só.

E, enquanto troco com a taça um gole por seu aroma previamente roubado,

Penso em seus sorrisos.

Penso nos homens, mas bebo só.

Preteri-os por Dom José

 

 

 

 

O sublime em banho

 

 

Goya chamou-te Mostro lavado.

Ignorava o pintor que vazio talvez possa ser benção.

Não era monstro o infanto.

 

Nascestes sem tuas mãos para que

Com as dela

Tua mãe não as pudesse sujar

 

Nascestes sem tuas pernas para que

Nunca tomasses o vão caminho dos homens

Caminho que tomei, já que provido das malditas pernas

 

Quisera ser eu o Monstro lavado de Goya...

 

07.dezembro.2005

 

 

 

A poesia necessária

 

Borges certa feita conjeturou ser o Poema

O “silêncio do pássaro adormecido”.

Minha relação com a poesia é um tanto menos metafísica.

O poema me impele, por assim dizer, desde as vísceras,

Consome-me, e não posso prescindir-lhe para viver

Temos, em suma, uma relação.

 

Em noites de insônia e angústia,

A poesia coloca a mão em meu ombro e

Abraça-me por trás (como fazem as mulheres dos literatos que,

Por não terem tempo na vida para dormir acabam por derrubar pilhas de livros às quatro da madrugada), e, então ela dita-me algo.

Dita-me de tal forma que diz sempre, por trás de cada poema:

- “Estais justo na vida, não desistas de mim.”

 

Porém, há noites que em desespero eu a chamo

Para que me ajude a transmudar a dor em letras desenhadas e sono.

Grito. Grito, mas ela, a poesia

O poema, não vem.

 

Um dia. Em meio a um de seus costumeiros abraços, perguntei-lhe:

- “És como um Deus, não me respondes quando a agonia se me aninha.

Prova-te pela indiferença?”

- “Amado – respondeu-me paciente -, quando não te venho, não é que o ignores, é por estar ocupada com meu próprio sofrer

Que te poupo de conhecer, mas que é amenizado por teus chamados.

Não me deixes de chamar, e abraçar-te-ei para sempre.”

 

08.12.05

 

 

 

 

Mudanças

 

... já me deram prazeres as mulheres, os carros, o dinheiro.

Hoje, no entanto, prefiro os vapores que se juntam

Vindos do vinho e do molho feito do sangue de algum animal

Que metodicamente parasitamos.

A brisa mais que a paisagem,

O ócio mais que o poder.

Estaria ficando sabido ou cansado?

 

14.12.05

 

 

 

Tragadas que me prometem a morte

 

... por esses dias estive no Doutor,

Doutor daqueles que recebem o título do jaleco branco (não da inteligência).

Me disse, o tal Doutor, que tenho um cisto.

A fumaça de meu cachimbo, desde então, cismou de metamorfosear a Palavra cisto na palavra morte.

Moral da estória?

Não me seria difícil estar em boas relações com o não-ser

 

29.12.05

 

 

 

O cuchillo vital

 

... a vida, com seu punhal pintado com o verde da esperança,

Me deu poucas estocadas.

Entretanto, todas no coração. E, daí a pergunta:

Porque não morro? Não se esgota o meu sangue?

É nobre, porém, triste, sangrar regando os campos da poesia

 

31.12.05

 

 

 

Noites na Grécia Antiga

 

... entre o Cocito e o Aqueronte e,

Paradoxalmente, ainda entre os vivos,

Vejo meus dias passarem à gargalhar

De meus olhos que, tentando não vê-los,

Fecham-se,

Chamando um sono que nunca vem

 

22.01.06

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Caravagio, Tentação de São Tomé, detalhe

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Paulo Paiva

 

Aforismos

 

 

1. ... não temas o diabo. Evoque-o, chame-o com um bom vinho. Pese, pondere as maldades que ele lhe proporá que faça, fará mesmo suas próprias, que mal que sejam inspiradas? Nasci cético, o que por si só já é volta de vantagem sobre a culpa

 

hoje tenho ótima relação com o temido, jogo seu jogo, somos como que parceiros de xadrez que se enfrentam todos os dias há décadas, vezes me arranca uma perversidade, vezes dou-lhe uma de bandeja, dessas ele não gosta, diz-me: - “Julgas poder me dar presentes?”, riu-me dele, como riu-me de ti, leitor, que, juntando-se a ele, como fiz, talvez o engabelasse em seu próprio jogo

24.setembro.2005

 

 

2. ... as escolhas que um homem faz durante seu pequeno hiato de existência não lhe mitigam fartamente suas dores. No entanto, existe uma pequena diferença que talvez essas escolhas possam vir a somar aos homens em seu derradeiro fim. Posto que seremos todos cinza, com nossos atos podemos misturar nessa cinza ordinária algo de estético, hercúleo ou, mesmo louco, pois toda loucura faz pensar.

08. dezembro.2005

 

 

 

3. ... os homens de sabedoria mais bela são aqueles que, depois de comentarem um tema, deixam-no mais instigante e um tanto igual ao modo como o encontraram e, depois, ninguém se recorda de sua passagem pelas calçadas do assunto. Encontrei esse tipo de beleza na sabedoria de Borges, de Quevedo, de Chesterton, de Frost – espero encontrar mais dessa beleza em meio a tantas sentenças aristotélicas que buscam dar explicações definitivas que transformam a brasa do pensamento em pó estéril!

 

 

 

Tiziano, Mulher ao espelho

Maria Conceição Oliveira Carneiro