Osvaldo Carneiro Chaves

A Granja dos Séculos

A Natureza, enamorada, um dia, Pôs um beijo de amor e simpatia Na face do sertão. E esse beijo fecundo fez brotar Entre as brisas do mar e o fogo do deserto — Granja — o pátrio rincão. E hoje, a fim de observá-la, Detenho o passo, absorto viajor: A terra é boa. A natureza é bela. Contemplo-a em derredor: O rio!... Olha também: Também o rio Represou na Barragem para vê-la. Mas vê-la é enamorá-la, e o rio não sabia. É vassalo, é escravo do oceano, Não pode demorar-se. Fita-a por um momento. E, de despeito, Precipita-se do alto da parede, Como o rio do poeta, e cai desfeito Em vísceras de espuma e de arco-íris. Um escravo não desposa uma rainha: Na dor da frustração, em ondas multifárias, Tristonho e saudoso vai seguindo Seu destino de águas tributárias... Para a rainha — um rei! O mar é um rei. Mas, feroz e sombrio, Um tigre de ciúmes, Tem ciúmes do rio. Por isso, Desde mais de dois séculos, vem, Sorrateiramente, Duas vezes por dia impreterivelmente, Para ver a cidade dos seus sonhos. E, na doce viagem, Traz-lhe sal, e traz peixe, e traz conchinhas, E um abraço de posse, largo, de oceano... E a cidade, tão meiga e conjugal, Sorri-se ao mar. E em resposta aos carinhos Cochicha-lhe, talvez, uma promessa em segredo. E o mar vai-se de novo, e ela pensa no mar... Pensa... Mas pensa mais nos seus filhos, Vive mais para eles. E, se um deles morreu, Silente e lacrimosa sobe a sepultá-lo Ali perto, bem alto, numa esplanada de outeiro, Porque quer vê-lo já perto do céu. E eu vejo agora a Granja do passado, Redivivo, glorioso, retratado Num cenário de sonho. Silêncio. A noite é tropical. O luar é lindo. E a cidade parece Uma virgem de mármore dormindo. O espírito de Lívio vagueia A vigiar-lhe o sono. Eternizado em seus vinte e seis anos Lívio Barreto, pálido, romântico, Passeia pelas ruas Vendo em cada janela os cravos brancos Que as mãos dolentes da prateada lua Derramam em profusão. E o poeta vai clamando... Eu o ouço ainda clamando: Umbelina! Umbelina! Estela, Estela! Sonho de adolescente, sonho vão... Agora, Somente agora é que o poeta colhe Os seus "brancos soluços de alvorada, Os cravos brancos que plantou no coração." Silêncio para dor. Meu poeta, silêncio: a Imortalidade É a tua Verônica... Há um sussurro de notas, um tropel de acordes, Trêmulo, soluçante, irradiando Das paredes que foram Filarmônica. A lua Continua Como prata. O vento, Sonolento, Açoita e zine. O espírito melódico de Ciarlini Pulverizou-se em luz, pulverizou-se em sons, Encheu de fosforescências a alma desta terra, E Granja adora a música. Beethoven, Rubinstein, Debussy E Tchaikovski ainda agora Têm cultores aqui. O frêmito dos teclados dos pianos É uma mediunização. O saxofone lânguido da esquina, Com o boêmio violão das serenatas, É vida, é organismo, é evolução. E os tamarindos velhos, ah! se eles falassem! Recordações De infâncias dos tempos que volveram Trepam-lhes pelos galhos E enroscam-se nos troncos Que as brisas livres dos séculos enegreceram. O nosso avô menino... O nosso bisavô... Paula Pessoa, o Senador... E o Pessoa Anta Brincando à sombra deles aguçava Os instintos de libertação da grande Raça Para a Confederação do Equador: "Soldados, apontar! Certeiro ao coração!" E Granja ia escrevendo a pátria História, E o padre Mororó, rolando no Passeio, Contava para a glória Um companheiro igual. Maior que isto, ó Granja, só o grande ideal De tua religião. Retas como a verdade, As torres da Matriz são dois braços alçados: Um marcando o tempo E o outro nos apontando a eternidade. São as torres dois braços levantados Para o céu, Em prece vertical. E o sino badalando é uma grande harpa eólia, Um tenor de metal. Um badalo sorrindo Diz adeus a um anjinho. Um badalo chorando Anuncia angustiado: Era pai e morreu. Era mãe e morreu. Era irmão, era filho, era esposo e morreu... Bem... muito além... Bem... muito além... No céu nos veremos, no céu nos veremos... Um badalo cantando, Um badalo chorando, Um badalo chamando Para os pêsames, Para a prece, Para o amor E para as núpcias. Noitários, procissões e a alvorada das bandas... Vejo o padre Galvão e Vicente Martins: Almas de impávidas Vestais, almas irmãs, Guardam o fogo sagrado De cultura e de fé das gerações cristãs De cem e mais cem anos. Granja de um, Granja de dois, Granja dos séculos! Debaixo deste céu tão azul e tão puro, A minha musa ingênua de criança É hoje uma canção de inteira confiança No teu futuro! Boa terra, Minha musa criança é hoje um hino De gratidão a ti: Granja dos carnaubais, Granja de São José, Foi no teu seio que eu primeiro Amei a terra, reconheci a Raça e exercitei a Fé. Granja de gente boa, Foi em ti que aprendi a confiar no Povo Cuja voz de trovão reboará em ecos Dentro da História, eternos, no porvir. Granja no Brasil E a Pátria pelos séculos!

Granja, 30 de agosto de 1957

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