Osvaldo Carneiro Chaves

Sonho Medieval

Véspera de São José. Em Fortaleza. No Ceará. As duas torres magras da Prainha Estiram os pescoços para cima: Duas garrafas brancas cheias de luar! São dois poetas hirtos, absortos no infinito, Cismando à beira-mar! E com os olhos perdidos na luz rala Sonham o sonho medieval Das grandes catedrais, Essas catedrais monumentais Que falando a linguagem Das ogivas e dos vitrais Só elas falavam; Porque naquele tempo o homem Só ouvia, Só podia Entender o que falasse do grandioso, Do que há de sublime No ideal religioso. E a Prainha está sonhando, Tão satisfeita por julgar que abriga O coração da Idade-Média orando! E as sombras vão cada vez mais baixando... E a igrejinha, tão linda, Sonha ainda. E no sonho levanta um dos seus dedos góticos Cheios de escamas batidos pelo malho do luar: Um dedo colegial, taful, Borrado de tinta azul. Um dedo sonâmbulo Que ela põe na boca da noite de asas de jaçanã Para ao mar reclamar Um momento de pausa no seu rataplã! E o mar se cala Para ouvir a sua fala... Então diante do silêncio sentinela, Do silêncio vespertino, Ele começa dando a palavra Ao badalo solene dum grande sino, O Centenário Que entoa o hino Milenário Do universo cristão; Assim Para o coração Da Idade-Média ouvir: "Adágio, andante, allegro, largo, maestoso..." E lentamente as badaladas pelo espaço lá se vão... "Marziale" agora, "prestíssimo, scherzo, molt piano", Vão também muito além do sentimento humano, Lá para onde os sinos, Mínúsculos, Franzinos, Da humana razão em vão badalarão! Este além, porém, aonde elas vão E a fé que tem o coração cristão E a melodia que os ares corta, num frenesi, São acordes sem nomes, Alguma coisa de Carlos Gomes No prelúdio do Guarani! E o Centenário continua, À luz da lua, Dobrando, badalando, bimbalhando, Desmanchando-se em hinos Ao sonzinho infantil de mais três sinos Argentinos, Cristalinos, Que pulam, pinotam, saracoteiam Em tomo de si mesmos De boca aberta, gritando, Assombrados com o Centenário Virando e revirando! De fato É tão grande o aparato Daquele declamador de badaladas, Que quando recita os seus poemas de bronze Parece com uma boca escancarada Que engoliu ferozmente o próprio corpo; Uma boca enorme, colossal, Cuja língua secou de tanto badalar Contra os rígidos beiços de metal! E a Prainha acordou do sonho medieval, No dia seguinte, Cheinha de fiéis do século vinte.

Fortaleza, março de 1946.

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