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Oficinas Literárias
Trago-lhe, meu
caro leitor, matéria por demais interessante, da
Folha de São Paulo, 16.8.2009, sobre as oficinas
literárias.
Soares Feitosa
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16.8.2009
| A Ascensão
das oficinas literárias
CRESCE A PROCURA NO PAÍS POR CURSOS
QUE ENSINAM TÉCNICAS NARRATIVAS; NO RIO
GRANDE DO SUL, PROGRAMAS TRADICIONAIS JÁ
PRODUZIRAM UMA NOVA GERAÇÃO DE ESCRITORES
COM "DIPLOMA DE AUTOR"
filipe
Redondo/Folha Imagem
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Cena de uma oficina de
escrita criativa na Casa do Saber, em São
Paulo
ERNANE GUIMARÃES NETO
DA REDAÇÃO
O Brasil vive a emergência de um
movimento literário: o dos escritores com
diploma de autor. Centros culturais com
lotação esgotada e professores particulares
com fila de espera caracterizam a vicejante
versão brasileira da disciplina "creative
writing" (escrita criativa) das
universidades norte-americanas. Os
resultados são semelhantes: escritores
reconhecidos pela crítica e premiados nos
concursos de literatura.
A Casa do Saber é uma das escolas que
aderiram recentemente às oficinas de escrita
criativa: as aulas começaram neste ano.
Segundo o diretor Mario Vitor Santos, a
escola abriu uma exceção à regra de não
oferecer cursos práticos depois de discutir
a proposta da professora Noemi Jaffe.
A Casa das Rosas, em São Paulo, tem suas
aulas práticas lotadas. Para o poeta
Frederico Barbosa, diretor dessa instituição
mantida pelo Estado, a meia dúzia de
oficinas acontecendo em agosto e setembro,
com 30 vagas cada uma, não esgota a demanda.
Uma das atrações do período é Marcelino
Freire, que mantém outra oficina em São
Paulo (no espaço Barco) e recebe convites
para encontros em todo o país. Marcelino foi
aluno de Raimundo Carrero, pioneiro da
prática em Pernambuco.
Carrero começou suas oficinas nos anos 80,
trazendo para o Brasil sua experiência na
Universidade de Iowa. "Até meus romances
escrevo com meus alunos", relata. Para
profissionais como ele, a oficina ultrapassa
o clichê de que o professor aprende com os
alunos; todos aprendem praticando juntos.
No Brasil, imagens como um funcionário
público Machado de Assis, um diplomata
Guimarães Rosa ou um jornalista Nelson
Rodrigues estimulam a pensar no escritor
como uma figura excepcional surgida ou
sustentada em outras classes profissionais.
A vivência pessoal dispensou a programação
técnica.
O artista temeria o cerceamento de sua
criatividade, o choque entre tradição e
vanguarda, a profissionalização. Nos EUA, o
choque já aconteceu e discute-se quanto a
literatura do pós-guerra é marcada pelos
programas universitários (leia entrevista
abaixo). A classe dos escritores com diploma
já domina entre os laureados com o Pulitzer,
por exemplo (leia quadro ao lado).
Rasuras
Para o sociólogo Sergio Miceli, os cursos
livres aparecem como um sistema paralelo, a
partir da crescente quantidade de pessoas
com títulos que não estão incluídas no
sistema de produção cultural. Os
intelectuais "tentam ensinar em cursos de
grã-finos semiletrados, que procuram
assuntos considerados nobres; o professor se
sente valorizado porque ganha um dinheiro
que demoraria muito para ganhar de outro
jeito. A lógica disso é um pouco esquisita,
pois é uma tentativa abreviada de transferir
um sistema complicado de conhecimento".
Mas exemplos como o do Prêmio São Paulo de
Literatura, concedido no início do mês,
apelam em favor da "tecnicização". O prêmio
principal ficou com o cearense Ronaldo
Correia de Brito, médico -profissão de
escritor "à moda antiga".
O autor estreante premiado foi o gaúcho
Altair Martins, mestre em letras com
experiência em ministrar oficinas.
O escritor mais celebrado no ano passado,
Cristovão Tezza, é linguista e autor do
livro didático "Oficina de Texto" -"que não
é de criação estética", adverte. Tezza não
pratica as oficinas de escrita criativa, mas
pode ser considerado beneficiado por um
treinamento especializado nas letras.
"Rejeito a ideia do escritor como "profissionalizável".
Mas, pensando friamente, de uns 20 anos para
cá a literatura se aproximou bastante da
universidade".
Uma das críticas feitas a escritores
associados à academia é a de que se
distanciam da realidade. Frederico Barbosa
questiona a afirmação, mas apresenta outro
problema. "Tezza escreveu uma tese sobre
Bakhtin, mas sua obra não é distante da
realidade. Milton Hatoum é um estudioso, mas
sua obra não é acadêmica no sentido de
"chata". O problema na academia é que há uma
tendência a conflitos serem apaziguados:
"Não vou falar mal do sujeito porque ele
pode estar depois na minha banca.'"
Nos
EUA, a classe dos escritores com
diploma já é hegemônica entre os
laureados com o Pulitzer
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Diploma de autor
O escritor Evandro Affonso Ferreira teve em
julho sua primeira experiência como
professor de ficção, na Casa das Rosas.
"Você não constrói um artista", diz à
reportagem, mantendo a aura dos escritores.
"O curso é um exercício de leitura, dá
caminhos".
O ataque mais comum à oficina a reduz a nada
mais do que um trabalho que todo intelectual
já deveria fazer em casa: ler. Na pior das
hipóteses, é vista como uma sessão de ajuda
mútua pautada por elogios superficiais entre
os alunos.
Charles Kiefer, que leciona escrita criativa
na Pontifícia Universidade Católica do Rio
Grande do Sul, diz que na academia a crítica
ao texto alheio é rigorosa. "Não sou pago
para ser hipócrita."
A PUC-RS, que mantém oficinas há mais de 20
anos, abriu em 2006 o eixo de escrita
criativa na graduação. As turmas tiveram de
ser ampliadas para dar conta da demanda. O
professor Luiz Antonio de Assis Brasil, que
comemora também a criação do mestrado no
tema, integra com Kiefer o que pode ser
visto como o atual centro nervoso das
oficinas de escrita gaúchas, das quais
saíram nomes como Cíntia Moscovich, Daniel
Galera e Michel Laub.
Kiefer mantém uma das mais procuradas
oficinas de escrita do Brasil. "Tenho mais
de 1.200 pessoas na lista de espera", diz. E
conjectura: "A internet é que está gerando a
demanda enorme no Brasil. Todo mundo tem
blog, todo mundo escreve, mas uma hora se dá
conta de que precisa estudar, avançar".
"A formação do escritor inclui ler muito,
conhecer a crítica e, podendo, fazer um
curso de escrita", diz Assis Brasil. Para
ele, editores consideram esse item na
biografia do autor quando apreciam
originais.
O músico, editor e autor premiado com o
Jabuti de ficção Arthur Nestrovski estudou
música e letras em Iowa e não participou das
célebres oficinas de escrita daquela
universidade, mas declara ter visto uma
"convivência rica, produtiva" entre as
comunidades de teoria e prática. Ele diz
duvidar de que tais diplomas tenham poder de
convencimento sobre o mercado brasileiro de
publicação.
Veterano das oficinas, o crítico Silviano
Santiago afirma que a universidade
brasileira não está preparada para diplomas
de graduação em escrita. "Que concurso você
poderá prestar com um diploma desses?"
No fim da história, todas as personagens se
obrigam a concordar que escola não faz
gênio, mas pode desenvolver pessoas
interessadas. Cabe ao aluno escolher o
professor.
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| O
modelo americano
PESQUISADOR DESCREVE A
HISTÓRIA DAS OFICINAS DE ESCRITA NAS
UNIVERSIDADES DOS EUA, QUE NÃO PARAM
DE CRESCER, E DEFENDE QUE, MAIS DO
QUE "FORMATAR" OS ALUNOS, OS CURSOS
DÃO A ELES UM LUGAR NA SOCIEDADE
DA REDAÇÃO
Aulas práticas de literatura já
viraram história nos EUA.
Em "The Program Era" (A Era dos
Programas, Harvard University Press,
466 págs., US$ 35, R$ 64), Mark
McGurl argumenta que não dá para
compreender a literatura
norte-americana do pós-guerra sem
conhecer os programas universitários
de escrita criativa.
Compreender essa história ajuda a
identificar uma raiz de boa parte da
nova literatura brasileira. A
Universidade de Iowa pode ser tomada
como um exemplo central. Passaram
por oficinas em Iowa profissionais
da escrita como Raimundo Carrero,
Charles Kiefer e Affonso Romano de
Sant'Anna.
Este fez nos anos 70, com Silviano
Santiago, algumas das primeiras
experiências do gênero em uma
universidade brasileira (a PUC-RJ).
Sant'Anna explica como funcionavam
as coisas nos EUA.
"Havia dois conjuntos de
participantes: os americanos faziam
o curso de criação literária como um
curso normal de graduação e pós.
Tinham aula de conto, poesia,
epopeia, roteiros etc. Tinham que
apresentar trabalhos rotineiramente.
Na parte internacional, éramos mais
livres; durante nove meses, tínhamos
tempo para terminar projetos que
trazíamos e apenas deveríamos
participar de seminários expondo
nossos trabalhos."
Professor de letras na Universidade
da Califórnia, em Los Angeles, Mark
McGurl esmiuça as diferentes formas
como escritores viram a relação com
a universidade.
Da resignação pela necessidade de
sobreviver -caso de Nabokov, que
lecionava literatura em Cornell
enquanto escrevia "Lolita"- às
experimentações -como a ficção de
hipertexto na Universidade Brown-,
McGurl argumenta que o fato de
vivermos uma "Era dos Programas" não
é uma coisa ruim, afinal.
(EGN)
FOLHA - A ascensão da escrita criativa é devida mais a uma
disposição social ou a razões de
mercado?
MARK MCGURL - É difícil
separar as duas coisas. A natureza
do sistema de ensino superior nos
EUA o faz muito sensível à pressão
do mercado. Há um sistema
universitário em que é muito fácil
inovar e muitos alunos que querem
estudar escrita criativa.
FOLHA - O destino da
escrita criativa é se tornar tão
difundida quanto as matérias de
história da literatura?
MCGURL - Hoje a história da
literatura é muito maior que a
escrita criativa, mas as turmas de
literatura tradicionais não estão
crescendo. Departamentos comuns de
literatura ou teoria literária têm
ficado estáveis ou mesmo levemente
diminuídos nas últimas décadas,
enquanto os programas de escrita
criativa estão crescendo a taxas
extraordinárias. Alguns dizem que há
um limite no mercado. Outros
perguntam se as oficinas, a partir
deste momento de recessão e
reorganização da economia, serão uma
prioridade no futuro.
FOLHA - Quantos cursos
existem nas universidades dos EUA?
MCGURL - Cerca de 750 cursos
de graduação, de aproximadamente
2.000 faculdades. Cerca de 350
cursos de pós-graduação. É claro que
o mercado editorial não pode
absorver tantos escritores, há um
enorme excesso de oferta.
FOLHA - Que fará toda essa
gente?
MCGURL - Alguns se tornarão
grandes escritores. Vão escrever
poesia e prosa e ensinar poesia e
prosa. Outros se tornarão escritores
menos conhecidos ou professores de
escrita. Para o resto, é um
treinamento sem uso profissional, é
uma extensão da "educação liberal".
FOLHA - Os velhos exemplos
do escritor como jornalista viajado,
sábio isolado ou servidor público
com tempo livre... estão datados?
MCGURL - É claro que há
espaço para esses tipos de escritor.
Se observar a história da
literatura, especialmente nos EUA, o
jornalismo tem sido a
instituição-chave, com inúmeros
escritores que participam do
jornalismo de uma forma ou de outra.
Essa opção ainda existe, mas a opção
de ensinar a escrita junto com a
prática da poesia ou da prosa está
crescendo. Surge como uma carreira
de escritor: "escrever enquanto
ensina". Sempre haverá o forasteiro
vindo sabe-se lá donde, mas a
universidade cresceu a ponto de
recentemente se tornar o centro da
produção.
FOLHA - Quão
norte-americana é essa tradição?
MCGURL - O primeiro programa
de pós-graduação começou nos anos
1930, a multiplicação começou nos
anos 60 -por décadas, foi algo
exclusivamente americano. Isso se dá
em parte por conta do sistema
educacional do país, mas também
podemos amarrá-lo a uma tradição da
expressão individual: não importa
onde nasça, você pode ser o que
quiser, inclusive um artista.
FOLHA - Que autores
consagrados são os exemplos mais
extremos de entusiasmo e descrença
em relação aos programas de oficinas
de texto?
MCGURL - É mais fácil
começar pela visão negativa. De
Algren [autor de "O Homem do Braço
de Ouro"], nos anos 60, e Kay Boyle
[1902-92], nos 40 e 50, a, mais
recentemente, Tom Wolfe, de "A
Fogueira das Vaidades", e o
contemporâneo Jonathan Franzen [de
"As Correções"], todos mostraram
extremo ceticismo, por vários
motivos diferentes. Muitos apontam
que os escritores ficaram
"institucionalizados", no sentido de
que não têm originalidade, copiam as
ideias dos colegas de classe. Em um
nível é inegável que a universidade
tenha ajudado muitos grandes
escritores a existir, pois deu a
eles uma chance de escrever.
Deu-lhes uma forma de ganhar a vida
enquanto escreviam. Os defensores da
escrita criativa seriam aqueles que
frequentaram ou ensinaram escrita
criativa. Não encontramos muitos que
se levantassem para dizer "isso é
ótimo". Há vergonha relacionada à
ideia.
FOLHA - O sr. não menciona
nenhum nome?
MCGURL - Que eu saiba essa
pessoa não existe. Há os que
defendem a escrita criativa em
reação aos ataques, dizendo "não,
não destrói a originalidade". Mas
tal defesa não é necessária porque
muita gente quer fazer oficinas.
FOLHA - O exercício prático
da oficina é sua única vantagem em
relação a outras disciplinas?
MCGURL - Por um lado, o
jovem escritor ganha conhecimento.
Ao sentar-se com colegas que leem
seu texto, ele ainda obtém uma forma
pequena de publicação, vê como as
coisas funcionam. Se estiver em um
programa famoso, como o da
Universidade de Iowa ou o da
Universidade Columbia, podem-se
estabelecer contatos. Além disso,
muitos pais de garotos de classe
média não querem que eles fiquem
tentando ser escritores, acham que
deveriam tentar ganhar a vida de
forma mais rentável. Para esses
jovens, o curso é um abrigo: "Estou
na faculdade!" É interessante ver
que, por temor, há uma tendência a
manter esses cursos dentro do
departamento de inglês. Assim temos
escritores lado a lado com
pesquisadores. Por outro lado, há o
medo do pessoal de escrita criativa
de que a teoria possa arruinar a
musa.
Sempre haverá
forasteiros, mas a
universidade cresceu a ponto
de se tornar o centro da
produção
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FOLHA - Por que há resistência
ao papel do aprendiz na literatura,
mas não nas artes plásticas ou no
teatro?
MCGURL - Uma das maiores
defesas da escrita criativa é esta:
em que ela é diferente de aprender
pinceladas? Tem a ver com a
mitologia específica do escritor. E
com uma tradição de esquecer a
história da literatura -pois grupos
sempre foram importantes para os
escritores, aprender também. Dizem
que se pode aprender a escrever em
casa, sem ir à escola, que "o
aprendizado deveria ser ler; depois
comece a escrever". Em parte o que
os alunos de escrita criativa fazem
é isso: ler e escrever. Mas a
formalização incomoda.
FOLHA - Quanto a literatura
de hoje é "programada"?
MCGURL - É programada, mas é
preciso pensar na ideia de
"criatividade programática".
Precisamos superar noções românticas
de criatividade -de que é
inexplicável, de que vem de um lugar
estranho para um escritor solitário.
Instituições podem gerar programas
que tenham criatividade autêntica.
FOLHA - A oficina apresenta
uma receita para a respeitabilidade?
MCGURL - Sim. Vivo em Los
Angeles, onde há milhares de
roteiristas. É difícil dizer "sou um
roteirista". Vão perguntar que
filmes você escreveu. Isso vale para
o escritor. O curso permite ao
sujeito dizer "tenho um diploma,
portanto sou escritor".
FOLHA - Os escritores
formados em oficinas logo dominarão
a literatura de internet?
MCGURL - É tentador pensar
que a internet democratiza a
literatura, que ter um diploma, ter
contatos não sejam mais importantes.
Mas o problema da internet é: quem
vai prestar atenção ao que aparece,
com tal volume de informações? Ainda
haverá quem nos conduza a alguns
sites e não a outros. Um "romance
Twitter" de Thomas Pynchon eu leria
-só não sei se seria bom.
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Relato de um escritor aprendiz
DANIEL GALERA DESCREVE SUA
PARTICIPAÇÃO NO CURSO DE TÉCNICAS DE
LEITURA E ESCRITA QUE, DE FORMA
"SURPREENDENTE E INEVITÁVEL", FEZ
DELE UM AUTOR
DANIEL GALERA
ESPECIAL PARA A
FOLHA
Surpreendente, mas inevitável.
Quando, em algum momento de 1999, o
professor Assis Brasil [que coordena
oficinas de texto na PUC-RS] colocou
nesses termos para seus alunos o
desfecho ideal de todo conto, eu
sabia exatamente do que ele estava
falando. Sabia porque, aos 20 anos,
já tinha lido centenas de contos.
Mas eu sabia sem saber.
Tinha a experiência, mas não a
consciência da experiência.
Sabe lá quanto tempo eu levaria para
chegar sozinho a uma fórmula tão
elegante para definir o instante em
que o subtexto, tão essencial ao
conto moderno, vem à tona. Talvez
nunca chegasse. Foi esse tipo de
coisa que a oficina de literatura do
Assis me deu de bandeja.
Quando entrei na oficina, eu já
escrevia contos e os divulgava na
internet, mas me considerava um
diletante. Era um sujeito que só
começava a suspeitar que a
literatura talvez não fosse um
interesse passageiro como outrora
foram o violão, as histórias em
quadrinhos, o web design.
Eu cursava publicidade e propaganda
sem convicção nenhuma, e o futuro me
parecia um shopping center onde
teria de passar a tarde a
contragosto num domingo de chuva.
Mas eu lia muito desde piá, e aquela
coisa de escrever ficção estava
ficando séria. Por isso me inscrevi
na oficina.
Recuemos um pouco. Um dos contos que
mais marcou minha, cof, juventude,
foi "O Beijo", de Anton Tchekhov. O
enredo é simples. Um batalhão de
soldados russos acampa num vilarejo
e é convidado por um aristocrata
local, o general Von Rabbek, para um
chá festivo. Um militar
particularmente tímido e apagado, de
nome Riabovitch, perde-se nos
corredores escuros da mansão e é
beijado por uma mulher desconhecida
que estava à espera de um outro
qualquer.
O incidente afeta o ingênuo
protagonista de maneira duradoura.
Ele passa as semanas seguintes em
deslumbramento, fantasiando sobre a
identidade e a aparência da mulher.
O sentimento de alegria persiste.
Marchando à noite, ele tem a
impressão de que a luz distante de
uma janela ou fogueira está piscando
secretamente para ele, como se
soubesse do beijo.
Tempos depois, o batalhão acampa de
novo no vilarejo.
Riabovitch torce para que o general
os convide para outro chá, na
esperança de rever a mulher. Mas a
essa altura ele já começa a
reconhecer a insignificância do
episódio do beijo, constatando o
abismo entre o fervor de sua
imaginação e a indiferença do mundo
ao redor. E então o mensageiro do
general de fato vem e novo convite é
feito ao batalhão. Riabovitch,
amargurado, decide não ir e se mete
na cama.
Esse conto sempre me causou profunda
impressão, e fiquei muito tempo sem
entender o motivo. Há elementos
óbvios com os quais todo ser humano
se identificaria. "Todo esse sonho
que agora me parece tão impossível e
excepcional é na verdade bastante
ordinário", conclui Riabovitch ao
escutar as conversas vulgares de
seus companheiros sobre encontros
com mulheres.
Subtexto
Quem não passou longos períodos
entregue a fantasias, amorosas ou
não, apenas para "cair na realidade"
de uma hora para outra? Quem não
conhece a frustração ou a melancolia
que disso resulta? Mas o conto é
muito mais do que isso. Do que,
então, ele realmente trata?
Numa das várias aulas em que abordou
o subtexto literário, Assis Brasil
nos deu como exemplo uma famosa
anotação para um conto encontrada
num caderno de Tchekhov:
"Um homem vai ao cassino de Monte
Carlo e ganha uma fortuna na roleta.
Volta para o hotel e se suicida".
Essa é a história aparente do conto,
e supõe-se que o elemento crucial, o
motivo de o homem matar-se nessa
estranha circunstância, seria
infiltrado no enredo como história
oculta, ou subtexto. Cabe ao leitor
captar o subtexto. Cabe ao escritor
dar-lhe pistas na dose exata para
que a descoberta exija esforço e
seja recompensadora na mesma medida.
O suicídio deve ser surpreendente.
Mas também deve ser inevitável. Como
a atitude de Riabovitch no final de
"O Beijo".
Por trás de todo conto há uma
parábola, ou seja, a projeção de uma
história em outra história. O conto
aponta para outra narrativa que o
extrapola, e que se encontra em
grande parte na experiência de vida
do leitor. Construir essa ponte faz
parte da nossa natureza.
Narramos sem parar, seja na
comunicação com os outros ou no
domínio da introspecção. É o que
fazemos ao procurar o "sentido" de
"O Beijo", e é o que faz Riabovitch
ao combinar detalhes de todas as
moças presentes na mansão para criar
sua musa particular e transformar o
beijo acidental numa elaborada
fantasia.
Eis o "nocaute" do conto: o autor
cria condições para que uma potente
parábola seja escrita com a
participação do leitor, mas entrega
a chave só no final. O desfecho é o
começo.
Depois das conversas sobre subtexto
na oficina, reli "O Beijo" e
finalmente percebi como esse
mecanismo entrava em ação. Por mais
tocante e lindamente narrada que
seja toda a história aparente de
Riabovitch, e por mais que em seu
desfecho ele sufoque a alegria
momentânea, abdique da possibilidade
de rever a mulher e se meta na cama,
resignado, sentindo raiva de seu
destino, a verdade é que ele toma a
decisão correta. E o faz porque seu
exaustivo exercício de fantasia o
transformou numa pessoa melhor.
Tchekhov tenta esconder isso ao
máximo, e chega a apelar, numa das
últimas frases, quando põe seu
personagem a observar a água do rio
que passa pelo vilarejo: "Em maio
ela tinha corrido para o grande rio,
e do grande rio para o mar; então
subiu em forma de vapor, virou
chuva, e talvez a mesma água
estivesse correndo agora de novo
diante dos olhos de Riabovitch...
Para quê? Por quê?".
A oficina nos exigia um
conto por semana. Narrar uma
saga familiar em cinco
linhas. Um episódio de dez
segundos em dez páginas
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Releitura
E eu respondo, projetando a história
que Tchekhov me deu numa outra que
ele me convida a criar, com base no
pouco que já sei do mundo: para que
Riabovitch perceba que nesse retorno
a água pode ser a mesma, mas ele
próprio não. Ele mudou para sempre.
Para que vá se deitar um pouco mais
próximo de si mesmo, sem gastar suas
energias inutilmente na tentativa de
ser sociável e mulherengo como seus
companheiros de batalhão, pois ele
sabe faz tempo que é diferente de
todos eles e já concluiu que um dia,
cedo ou tarde, uma mulher passará
por sua vida. Para que seja capaz de
abrir mão. Podemos nos surpreender
com sua decisão, mas ela é
inevitável.
Não creio que uma oficina literária
possa forjar um talento. Mas esse é
um exemplo de como ela pode, sim,
aprofundar e instrumentalizar a
relação de um possível autor com as
narrativas que lê e escreve.
Uma lição da oficina me levou a uma
releitura definitiva (para mim, é
claro) de um dos contos que haviam
marcado minha adolescência.
Encontrei palavras e conceitos
adequados para explicar aspectos da
ficção que minha experiência como
leitor me levava a intuir, e isso
foi um ponto de partida para pensar
a literatura com um pouco mais de
ambição.
Nunca escrevi tanto quanto naquele
ano. A oficina nos exigia em média
um conto por semana. Narrar uma saga
familiar de cinco séculos em cinco
linhas. Narrar um episódio de dez
segundos em dez páginas.
Contar uma história apenas com
descrições do cenário. Os textos
eram analisados pelo professor e
exaustivamente debatidos pelos
alunos, que acumulavam cada vez mais
ferramentas para a tarefa. Clichês,
técnicas de diálogo, modalidades de
narradores.
Ao longo de 1999, eu decidi que
escrever seria minha prioridade.
Passei 20 anos me distraindo disso,
mas de repente, como no final de um
bom conto, o subtexto veio à tona.
Até então, sinceramente, eu não
planejava nada disso. Surpreendente,
mas inevitável.
DANIEL GALERA , escritor e
tradutor, é autor de "Cordilheira"
(Cia. das Letras).
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Quem é
Daniel Galera
DA
REDAÇÃO
O escritor Daniel Galera
nasceu em São Paulo, em
1979, e cresceu em Porto
Alegre (RS). Publicou, em
2001, o volume de contos
"Dentes Guardados" (ed.
Livros do Mal).
Tem outros três livros
publicados, todos pela Cia.
das Letras. O romance "Até o
Dia em que o Cão Morreu",
adaptado para o cinema em
2007 por Beto Brant e Renato
Ciasca, expõe os impasses na
vida de um jovem. Escreveu
também "Mãos de Cavalo" e
"Cordilheira" -este último
faz parte da coleção "Amores
Expressos".
Folha
Online
Confira lista e informações
sobre oficinas de texto em
vários Estados
www.folha.com.br/0922515
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| O
que fazer com um texto?
TRÊS PROFESSORES DE OFICINAS
LITERÁRIAS CHAMAM A ATENÇÃO PARA
REGRAS BÁSICAS DE LEITURA E ESCRITA
"Use em abundância
o ponto final"
LUIZ ANTONIO DE ASSIS BRASIL
ESPECIAL PARA A
FOLHA
PARA LER
1. Ignorar os best-sellers, por
maior que seja a tentação. Deixe
passar cinco anos.
Se o livro ainda respirar bem, pode
investir.
2. Ler com desconfiança o que lê. Se
o livro resistir a essa leitura, é
porque é bom.
3. Ler com um lápis na mão. E
usá-lo.
4. Conhecer pessoalmente o escritor
só depois de ler o livro; caso
contrário, a figura do escritor
ficará colada ao texto, como um
fantasma.
5. Ler edições que tenham bom gosto.
Uma edição amadora piora
dramaticamente o livro.
PARA ESCREVER
1. Dedicar mais tempo à leitura do
que à escrita.
2. Usar em abundância o ponto final,
especialmente quando a frase resiste
a qualquer conserto.
3. Usar material de primeira
qualidade: bom computador, bom papel
de impressão, bons cadernos (sugiro
o Moleskine), boas canetas, bons
lápis.
4. Não levar o laptop para a cozinha
ou para a sala de visitas. Se não
tiver um gabinete exclusivo, o
quarto é uma boa escolha.
5. Escrever apenas sobre o que
conhece perfeitamente, mesmo que
seja um romance passado no futuro.
LUIZ ANTONIO DE
ASSIS BRASIL é professor na
Pontifícia Universidade Católica do
Rio Grande do Sul e autor de
"Ensaios Íntimos e Imperfeitos"
(L&PM), entre outros livros.
"Desconfie das
dicas que lhe dão"
MARCELINO FREIRE
ESPECIAL PARA A
FOLHA
PARA LER
1. Quanto mais um livro fizer mal,
melhor.
2. Confortável precisa ser a cama,
não a literatura.
3. Evitar lista dos mais vendidos.
4. Livro não é para ser entendido, é
para ser sentido.
5. Desconfiar das dicas que te dão.
PARA ESCREVER
1. Cortar palavras.
2. Não usar gravata na hora de
escrever.
3. Ouvir, mesmo que baixinho, a
própria voz.
4. Desconfiar daquele texto que sua
mãe gostou.
5. Ler e beber muito. E, no mais:
viver.
MARCELINO FREIRE
é autor, entre outros livros, de
"Contos Negreiros" (ed. Record) e
organizador de "Os Cem Menores
Contos Brasileiros do Século"
(Ateliê).
"Leia como se
fosse o psicanalista que ouve um
paciente"
LUÍS AUGUSTO FISCHER
ESPECIAL PARA A
FOLHA
PARA LER
1. Se você estiver diante de um um
clássico provado pelos tempos
-Shakespeare, Voltaire, Machado de
Assis- e acontecer alguma
dificuldade na leitura, pode ter
certeza de que o problema é seu, não
do texto. Bons textos muitas vezes
exigem mais de uma tentativa de
leitura.
2. No concreto de uma leitura, pode
acontecer que a fruição fique
embaçada. Antes de entrar em pânico,
tente localizar o foco do impasse:
se for uma palavra específica que
seja desconhecida, para isso existe
o dicionário; se não, volte a
atenção para os "que", para os nexos
entre as partes da frase.
3. Um texto literário, obra de arte
que é (ou aspira a ser), tem direito
de ser como é, em sua integridade.
Isso alerta para a necessidade de a
leitura ser respeitosa: o leitor
deve dispor-se a receber as
informações e as formas do texto tal
como o autor as concebeu. Mas isso
não impede que o leitor comum pule
fora ao perceber que seu honesto
empenho de leitura não está sendo
recompensado.
4. Um texto literário merece ser
lido em pelo menos duas dimensões,
uma linear e a outra enviesada. A
segunda é menos perceptível, mas
muitas vezes é decisiva, e tem sua
carnadura num plano alusivo, nas
chamadas entrelinhas, num patamar
figurado ou alegórico. A boa leitura
não pode contentar-se com a
decifração daquela primeira
dimensão, necessitando uma atenção
mais difusa, próxima da atenção que
os psicanalistas praticam ao ouvir o
paciente.
5. Em narrativas, um detalhe
radicalmente importante, em especial
nos romances e contos escritos a
partir do final do século 19 (no
Brasil, o marco é Machado de Assis,
mas você pode pensar em Dostoiévski,
em Poe, em Flaubert), é o jeito de
ser do narrador. O bom leitor sempre
mantém em vista que o narrador pode
ser parte interessada no enredo,
pode ser parcial na avaliação dos
fatos e das pessoas que menciona,
pode saber mais ou menos do que
aparenta.
PARA ESCREVER
1. Tenha sempre em conta que do
outro lado de seu texto há, na
melhor hipótese, um leitor; e que
essa figura, preciosa e fugidia,
pode abandonar o barco a qualquer
momento. O autor tem todo o direito
de radicalizar sua escrita, ser
inventivo e ousado, mas também o
leitor tem o direito de radicalizar
por sua parte, caindo fora.
2. Uma das escolhas básicas para
quem escreve um relato diz respeito
à distância que o texto vai colocar
entre a voz narrativa e o(s)
personagem(ns), entre as palavras
que o leitor vai ler e a vida íntima
do personagem, dentro do enredo.
Mesmo um narrador de terceira pessoa
pode ser muito próximo dos fatos e
das pessoas envolvidas, pode
acompanhar as ações muito de perto,
assim como um narrador de primeira
pessoa pode manter uma distância
relativamente serena a respeito dos
fatos.
3. Embora no sentido trivial o
leitor é quem escolhe o texto que
vai ler, num sentido muito profundo
é o texto que escolhe seu leitor:
suas escolhas vão delimitando o
universo potencial dos leitores, que
serão mais ou menos sofisticados ou
numerosos conforme as opções do
autor. Confrontar ou agradar o
leitor, eis uma questão que é bom
ter em mente, para fazer a escolha
que interessa (nisso os grandes
revolucionários têm muito a ensinar;
veja como Miguel de Cervantes,
Honoré de Balzac, Machado de Assis e
outros tratam o leitor).
4. Escrever é, em grande medida,
administrar entre conhecido e
desconhecido, redundância e
informação. Um dos riscos sempre
implicados nesse campo é o de
depender do "background" do leitor,
das informações que ele traz (ou
não) consigo. Muitas vezes um relato
sucumbe porque espera que o leitor
aporte conteúdos para compor o
sentido de alusões, entreditos,
sugestões que o enredo contém.
5. Quem inventa uma ficção está
mentindo e espera que o leitor
aceite a mentira. Mas sobre essa
base há uma outra camada de
indispensável verdade: o escritor
nunca deve trapacear, nunca fazer
pose ou jogar para a torcida. Se
começar a contar uma história, tem
que assumir o compromisso de contar
tudo que importa para que ela
aconteça.
LUÍS AUGUSTO
FISCHER é crítico literário,
professor na Universidade Federal do
Rio Grande do Sul e autor de
"Machado e Borges" (ed.
Arquipélago), entre outros.
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Obras didáticas
A Preparação do Escritor
Raimundo Carrero, autor de "O Amor
Não Tem Bons Sentimentos" (ed.
Iluminuras), divide o texto em 11
"aulas" sobre temas como "a invenção
do personagem" ou "como são feitos
os diálogos". Inclui sugestão de
exercício ao final dos capítulos.
Lançamento da ed. Iluminuras.
Para Ler Como um Escritor
Francine Prose é autora de "A Vida
das Musas" (Nova Fronteira) e
romancista. O título entrega o
segredo dos demais professores de
escrita: ler atentamente os
clássicos. Ela analisa autores como
Jane Austen e Vladimir Nabokov. Ed.
Zahar.
Oficina de Escritores
Autor de "O Ponto de Ruptura" (ed.
Difel), Stephen Koch foi professor
de escrita criativa em Columbia e
Princeton. Com frases de autores
consagrados sobre o ato de escrever,
o livro dá dicas como "o que faz a
legibilidade não é a clareza, mas a
atitude". Ed. Martins Fontes.
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Veja mais coisas,
muito mais, o
cordelista Rouxinal do Pinaré
ministrando ofincina literária. Por que não?
Matéria de real valor, Diário do
Nordeste, Dellano Rios |
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