Jornal de Poesia

 

 

 

 

 

 

 

Mário Alves de Oliveira


 

Casimiro de Abreu e seu pai
 

 

 PROSA & VERSO
Rio, 15 de outubro de 2005


 

A obra escassa (pouco mais de 100 poemas) e uma vida muito curta (menos de 22 anos; de 4 de janeiro de 1839 a 18 de outubro de 1860) não impediram que Casimiro de Abreu se tornasse o maior ícone da cultura fluminense e um dos nomes mais lembrados da literatura brasileira. Sua biografia, contudo, se manteve muito rala, cercada de mistérios, fantasias e enormes distorções. Foi preciso que passasse mais de um século para que se pudesse compor um retrato mais fiel da sua vida, que é o que pretendo fazer em “Casimiro de Abreu e seu pai : uma tragédia luso-afro-brasileira”. Trata-se de uma monumental biografia do autor de “Primaveras”, fruto de 15 anos de obstinadas pesquisas. Serão, na verdade, duas biografias: a do poeta e a do seu pai, José Joaquim Marques de Abreu.

Tendo nascido em época duramente patriarcal e morrido muito jovem, Casimiro não teve tempo de traçar o seu destino. Daí que a melhor maneira de contar a sua história seja esta; contrastá-la com a do pai e, por extensão, com a da mãe, Luísa Joaquina das Neves. O livro terá 14 capítulos, dos quais já tenho prontos os sete primeiros, além de quatro apêndices que virão junto à obra.


Pai envolveu-se como tráfico de escravos
 

Decidi porém, por motivos que não cabe aqui citar, revelar alguns ítens do meu livro, segredos que guardei a sete chaves por mais de uma década. Revelo pois, para começar, que o ponto nevrálgico da biografia de Casimiro se situa no envolvimento do seu pai com o tráfico de escravos e nos problemas que veio a ter com a Justiça. E embora não se possa dizer dele que tenha sido mau pai, suas atividades clandestinas acabaram por mudar o destino do filho, acarretando-lhe a parada nos estudos, a ida a contragosto para Portugal, e o germinar da revolta e dos conflitos que lhe minaram a saúde. Digo sem medo de errar: se a escravidão deu a Castro Alves matéria para ascender à glória, a Casimiro deu degraus para descer à sepultura. Ele morreu de tuberculose, é verdade, mas muito também daquilo que se costuma chamar assassinato cultural.

Polêmicas não faltam à vida de Casimiro, como a que se refere ao lugar em que nasceu e que, por prudência, ele próprio fez questão de camuflar. Sim, porque tudo indica que tenha sido em Rio das Ostras, muito provavelmente no local em que existe a Padaria e Confeitaria Laticínios Rio das Ostras, ao lado da Fundação Rio das Ostras de Cultura, exato ponto em que seu pai teve casa de comércio. Disponho de documentos datados de 1840, 1845, 1847 e 1849, que dão José Joaquim Marques de Abreu como residente naquela localidade, onde se dedicava ao tráfico e à venda de escravos, desembarcados por ele no mesmíssimo local em que está hoje o Iate Clube de Rio das Ostras, ao pé do Morro do Limão, morro este que, não por acaso, era dele.

Acrescente-se que todo o arco de praia que vai do pé desse morro até 37 passos além da Rua Maria Letícia, era testada de um gigantesco lote que pertencia igualmente a José Joaquim. Eram 440 metros de frente para o mar, por quase um quilômetro de fundos, área superior a 40 campos de futebol. Coincidentemente, nesse arco de praia é que se encontra a figueira centenária, atração turística de Rio das Ostras, provavelmente a mesma “figueira velha que me viu nascer” citada por Casimiro em sua página “A virgem loura”, na qual, habilidosamente, tenta apagar as pegadas do pai, esquivando-se de identificar o local que amava mas lhe trazia vergonha : “Nasci em ... não, não digo o nome do lugar onde eu nasci.”
 


Um maçom na mesma loja a que pertenceu D. Pedro I
 

Quatro meses após a assinatura da Lei 581, de 4 de setembro de 1850, com a qual o governo brasileiro quis dar (e deu) um golpe mortal no tráfico de escravos, o pai de Casimiro foi denunciado. Diante disso, Eusébio de Queirós, Ministro da Justiça e autor da lei acima, enviou a Rio das Ostras o Chefe de Polícia da província fluminense, com ordens de demolir um barracão pertencente a José Joaquim e apreender os apetrechos por ele usados no tráfico. Só que o pai de Casimiro era raposa velha. Inteligentíssimo, sofisticado, detinha o grau de Mestre na Loja Maçônica Comércio e Artes, a mesma a que haviam pertencido D. Pedro I e José Bonifácio, a mais antiga e forte das que havia no país. Avisado a tempo, pulara fora do barco e viera para a Corte, onde fundou a firma Abreu & Irmãos, que entregou à administração de seus irmãos e sócios Francisco José e Manoel José. Feito isso, voltou para o vale do São João e, proibido de habitar o litoral, se instalou na sua Fazenda do Indaiaçu, núcleo da atual cidade de Casimiro de Abreu.

Vale lembrar que, a rigor, Casimiro nasceu no antigo e gigantesco município de Macaé, quando dele ainda fazia parte a Freguesia da Sagrada Família do Rio São João, que correspondia à soma dos atuais municípios de Casimiro de Abreu e Rio das Ostras, e cuja sede era o arraial (hoje cidade) de Barra de São João. Casimiro nasceu sim “na” Freguesia. Mas não na sua sede, o arraial. Disso estou convencido, como convencido estou também de que não nasceu no Indaiaçu, embrião da atual cidade de Casimiro de Abreu (RJ). Em “A virgem loura”, ele dá a entender que nasceu à beira-mar, afastando a hipótese de que tenha sido no Indaiaçu, quase 30 km distante da costa.

A partir de 15 de setembro de 1859, com a elevação da citada Freguesia à condição de Vila e sua conseqüente emancipação, passou-se a se tomar a parte pelo todo. Passou-se a se dizer que Casimiro nascera em Barra de São João, pura e simplesmente, dando margens a se pensar que ele nascera no antigo arraial, quando o certo seria dizer que ele nascera em “algum lugar” do território da antiga freguesia.


Trapiche de Barra de São João precisa ser preservado
 

Desastradamente, ignorando o fato que aqui revelo de que por 15 anos, de 1835 a 1849, os pais de Casimiro viveram na Freguesia da Sagrada Família do Rio São João, Nilo Bruzzi, o mais polêmico de seus biógrafos, o deu como nascido em Correntezas, no município de Capivari, hoje Silva Jardim (RJ). No meu livro desmonto essa tese, além desta outra que me trará problemas: a de que o poeta tenha nascido no trapiche de Barra de São João, a atual “Casa de Casimiro de Abreu”.

Ressalvo porém, desde já, que esse imóvel deve ser preservado. Não só por se tratar de uma relíquia arquitetônica, mas por ter de fato relação com Casimiro. Seu pai era dono de uma olaria no Gargoá, na margem oposta do Rio São João, em terras de Cabo Frio, e era no trapiche que ele estocava as telhas e tijolos produzidos e as madeiras e produtos que mandava para fora. O que não significa que Casimiro houvesse ali nascido.
 

Revelo outros pontos importantes do meu livro:

1) Localizei e fotografei em Lisboa o imóvel em que Casimiro morou. Está intacto. E o local é surpreendente.

2) Não é verdade que José Joaquim tenha morrido em sua fazenda. Casimiro o levou para o arraial de Barra de São João, onde chegou a ser operado de uma hérnia estrangulada, mas veio a falecer às 20h30m de 17 de abril de 1860.

3) Não é verdade que, antes de morrer, e a pedido de Casimiro, seu pai tenha se casado com Luísa, com quem vivera em concubinato. Ela estava em Niterói e só soube da morte de José Joaquim uma semana depois.

4) Além do meio irmão Bonifácio e das irmãs Maria Joaquina e Albina Teresa, Casimiro teve outra irmã e outro irmão, Carolina e Júlio, que morreram peque-nos.

5) Casimiro não chegou a ficar noivo de Joaquina Luísa da Silva Peixoto. Morreu antes. Quanto a ela, uma surpresa, era tia-bisavó de Tom Jobim.

6) Casimiro era profundamente religioso e bom caráter. Era moleque, gozador, e fumava charuto.

7) Seus últimos 8 meses de vida foram de pavoroso calvário.

8) Nasceram em Rio das Ostras dois outros moços que merecem ser lembrados, amigos de infância e vida adulta de Casimiro. O primeiro é Sílvio Pinto de Magalhães, poeta de pouco talento, mas que publicou bastante. Imitava vergonhosamente Casimiro. Era tenente do Exército, filho de José Tomás Pinto de Magalhães, vice-cônsul português na região, e de Flora, parda forra. Morreu três anos após Casimiro, também de tuberculose. O segundo é Manoel da Fonseca Silva Júnior. Era capitão da Guarda Nacional e namorava Florinda Ludugera de Sá Pinto, futura mãe de Washington Luís. Não se casou com ela. Morreu de cólera em 30 de dezembro de 1867, no acampamento de Tayi, na Guerra do Paraguai. Coube ao Marquês de Caxias anunciar oficialmente a sua morte.
 

E aqui, lanço uma idéia. Que no futuro, em Rio das Ostras, se erga um belo e rico monumento que junte no bronze esses três infelizes e sonhadores amigos: um herói e dois poetas.
 

MÁRIO ALVES DE OLIVEIRA é bacharel em literaturas portuguesa e espanhola (malves1860@yahoo.com.br)
 

 

Casimiro de Abreu

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18.11.2005