Lina de Villar

Ao Mar
                  
 
Ó Mar! Gosto de ti de te sentir bem perto
Muito perto de mim, gosto de teus lamentos
Da tua fúria, do seu riso claro e aberto
De teu choro infeliz cheio de desalentos.

Não me canso de olhar-te ... É uma coisa tão boa
Viver a beira mar na minha idade
Essa ventura imensa me atordoa
Canto a aleluia da felicidade.

Saio pela manhã e à tarde ... Horas a fio
Quedo-me a ouvir-te a voz tristonha e langue
E assim num flavo por do sol de estio
Em vez de espuma, as tuas ondas vertem sangue.

Sangue! No mar, no céu. Dupla rosa encarnada
De contrates brutais de florações ardentes
Quem diria que o mar e o céu de madrugada
Eram duas turmalinas transparentes?

E as rochas negras onde estou sentada
Lembram carvões dispersos de um braseiro
E a voz do mar recorda a voz magoada
De alguém que andou chorando o dia inteiro.

A voz do mar lembra a de um doente que ressona
Exausto de uma dor no paroxismo
O Mar! Se o teu azul impressiona
A tua voz atrai como um abismo.

Ouvindo-a sinto a graça sinto o encanto
Das sereias de sonho e de mistério ...
A tua voz é linda ó mar, no entanto
É ela que me lembra com o seu canto
Que não és mais que um grande cemitério.

E quando levo sob as palmas dos coqueiros
Olhando as ondas desenroladas
Penso no fim cruel de tantas vidas
Nas cantigas exumes dos marinheiros
Em tantas noivas sós desventuradas ...
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Que tristeza nas barcas recolhidas!
Que alegria nas velas desfraldadas!
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Ai quanta gente já mataste! És um selvagem
Tens remorsos talvez quando choras assim
Essa tortura se reflete na paisagem 
E a paisagem vai se refletir em mim ...

Apesar disto adoro-te os gemidos
Fogem para longe os pesadelos
Quando as ondas salpicam-me os vestidos
Quando a brisa desmancha-me os cabelos.

Esta angústia feroz que tu não sondas
Lutas debalde porque ma revelas
Na palpitação verde das ondas
E na palpitação branca das velas.

E até me vem ao pensamento, às vezes
Que me entendes tão bem quanto te entendo
Que adivinhas o que sinto e que não digo
 Alegrias, tristezas e revezes ...
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O velho Mar! Como eu te compreendo!
E és afinal o meu melhor amigo.
Tudo aquilo que eu busco, tudo, tudo,
Vou encontra oMar quando de fito
E ao fitar-te, esqueces a vida, esqueço tudo ...
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Nossa alma é como tu um segredo infinito!
Miraculoso templo!
És sempre grande, és sempre forte, és sempre o mesmo
Mas, entretanto, cada vez que te contemplo
Te encontro diferente de ti mesmo ...

 
                                                                          
Remetente: Walter Cid

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 Página editada  por  Alisson de Castro,  Jornal de Poesia,  02  de Abril de 1998