Linhares Filho

A Minha Mãe, Habitante da Morte

Tua branca rede já não se arma para a sesta. Todavia guardo, com o ranger longínquo dos armadores, a placidez do teu sono a entreter o meu sonho No teu aposento, mansa e invisível, dorme uma ave. À mesa posta, entre o apetite e a lembrança, há uma cadeira sem dono. Falta ao alimento o tempero que de tuas mãos ninguém pôde aprender. Mas junto a mim está um cântaro que se encheu de lágrimas que libertam. As dálias do jardim continuam a florescer, cada ano, tão brancas, tão viçosas! Contudo parecem reclamar a sutileza de um carinho que o meu sono não esquece... Teus pincéis dormem com a resignação de pincéis, Minha alma imperfeita, a despeito de teres sido artista perfeita, pede, todo dia, os últimos retoques. Santa e elmo, no navio em que eu encontrar borrasca, os teus olhos serão santelmo... No silêncio noturno não se ouvem mais os passos cautelosos com que fechavas a janela que dá para a rua, no entanto percebo, na lã escura da noite, o abrigo do teu xale.


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