Lêdo Ivo


A cadela



Atraídos pelo cheiro de sangue de suas entranhas os cachorros seguem a cadela no cio como se fossem o séquito de uma negra rainha. E a farejam num movimento impudico que talvez merecesse ser chamado de amor. A cadela finge que a perseguição a incomoda e negaceia como as mulheres requestadas. Um odor penetrante de vida a acompanha entre os dois sóis que limitam a passagem do dia. À noite, quando a encerram no galpão, os cachorros ficam do lado de fora, desolados e fiéis. E seus ganidos na escuridão nos ensinam que o amor é uma paixão inútil, uma porta fechada.



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