César Leal

Canção ao Sul da Linguagem

Quando os dias e semanas nos trazem sempre a rotina: — labores, cinemas gordos enchendo os magros domingos; quando um nutrido cigarro se torna lívida cinza e nossos dedos amargos mudam-se em garfos de cal fincados dentro da terra como agulhas ou espinhos; quando fluidas mãos erguidas como chamas ou estrelas buscam luz, anestesiadas, em sonâmbulos espelhos; quando recordamos ventres de mulheres olvidadas — ausentes ou estendidas no seu exílio de sono onde translúcidos anjos quebradiços, montam guarda; quando sonhamos famintos no fundo escuro das fábricas e sirenes nos preservam de bombardeio ou naufrágios: quando a espuma desfalece por circunstâncias ou ventos e os hospitais nos acolhem — leitos de éter, gaze e linhos — para a luz que nos acende ou trevas que nos apagam; quando armas apocalípticas libertam ódios em chamas devorantes sobre as cousas mais que bocas devorantes; quando algo ao mar se acrescenta — mar noturno em sua origem — dele o sal que nos habita busca no amor novas órbitas de temporária albumina e eternas metamorfoses; quando é removida angústia do coração da linguagem, emigrando como vozes de prantos atormentados, e gira em torno do limbo que oculta nossas mensagens transportadas em vogais submersas, invisíveis — símbolos indecifrados pesando em nós como números; quando tudo isso acontece não procuro substâncias, o mais belo tem legendas lúcidas, definitivas — posto que meu coração seja usina de palavras mais luminosa e potente que os obesos dicionários meu engenho nada explica, não responde nem indaga quem decifra esta mensagem vivida no ponto extremo de raízes que se ocultam nas águas deste poema.


Chanson au sud du Language
Trad: Olivier Luneau

Quand jours et puis semaines ne nous apportent que routine: Labeurs, maigres dimanches que les cinémas gras, remplissent; Quand une cigarette épaisse devient cendre livide et quand nos doigts amers fourches de chaux deviennent enfoncées dans la terre comme aiguille ou épine; Quand de fluides mains levées comme des flames, des étoiles cherchent lumière, anesthésiées, auprès des miroirs somnambules; Quand nous nous rappelons les ventres de femmes rejetées. é tendues et absentes dans leur sommeil d'exil où montent la garde, fragiles, des anges translucides; Lorsque naus révons affamés au fond des usines obscures et nous prèservent les sirènes du bombardement, des naufrages, Lorsque l'écume se disperse au gré des vents, des circonstances; Quand on franchit les hôpitaux aux lits d’éther, de gaze et lin pour émerger à la lumière ou pour sombrer dans les ténèbres; Quand de terribles armes crachent des haines enflamées qui fondent sur les choses plus que bouches voraces; Lorsque la nuit gonfle la mer dont le sel nous habite et dans l'amour recherche de nouvelles orbites à l'albumine temporaire, eternelles métamorphoses. Quand du coeur du langage s'éloignie enfin l'angoisse pour émigrer comme une voix tourmentée, gémissante et puis tourner autour des limbes qui cachent nos messages transportés en voyelles englouties, invisibles, symboles mystérieux qui tels des chiffres nous oppresent; Lorsque tout cela arrive peu m'importent les substances, le plus beau a des légendas lucides, définitives: — bien qu'il existe en mon coeur une usine de paroles plus lumineuse et puissante que d'obèses dictionnaires, Mon esprit n'explique rien, il ne sait ni ne souhaite déchiffrer un tel message eprouvé au point extrême de racines qui se cachent dans les eaux de ce poème.




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