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José Pascoal


 

Nocturno aqui e em toda a parte


Na triste madrugada da partida
apanham os comboios ascendentes do sonho,
enchem os aeroportos de plástico fantástico.

São milhares de vozes no planalto,
bocas que se abrem como gritos de amor,
luzes que cegam como o sol dos signos.

Solitário, sob a máscara negra da noite,
ergues o punho contra a injustiça das palavras
e acendes um cigarro proibido pela Inquisição.

Então, nas praias sedentas de angústia,
adormeces com o livro das horas sobre o peito
e a mão que escreve entre as coxas da esperança.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Jean Léon Gérôme (French, 1824-1904), Consummatum est Jerusalem

 

José Pascoal


 

Linhas defensivas


Com palavras inúteis
construo frágeis castelos.

São castelos de areia.
Brancos de tudo e nada.

São castelos de cartas.
Próximas na distância.

São castelos de luz.
Castros iluminados.

Da morte me defendem.
Das trevas me separam.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Entardecer, foto de Marcus Prado

 

José Pascoal


 

A primavera em outubro


É tempo de deixar de dizer eu,
de destruir o imarcescível trevo
de quatro folhas
da complacência.

É tempo de beber das fontes
com o coração limpo de toda a mácula,
com as mãos puras
da inocência.

É tempo de dizer segredos por correio,
sem medos, nem avisos
de recepção.

É tempo de deixar de lado
os fúteis mecanismos
da decepção.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Goya, Maja Desnuda

 

José Pascoal


 

Imagem e semelhança


Não sou adepto de peregrinações.
Basta-me um caminhito na erva.
Certas ausências em parte incerta.

Não tenho alma de Fernão Mendes Pinto.
Sei apenas de momentos memoráveis:
uma nuvem no céu, uma sombra no poço.

Os meus passos não vão dar a parte nenhuma.
Não tenho encontros. Não me arrisco.
Não faço nada que me obrigue a ir e vir.

Os meus desígnios são insondáveis.
É a minha única parecença com Deus.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Poussin, The Judgment of Solomon

José Pascoal


 

Boletim meteorológico


Há climas temperados
em que se desespera.

De longe a longe, gritam
por livre liberdade.

Certas palavras são mais justas
no pino do silêncio.

Os barcos libertários são tragados
por mágoas profundas.

O tempo transfigura o corpo
e os seus sentidos.

Sinto os meus olhos rasos
das tuas lágrimas.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Poussin, Venus Presenting  Arms to Aeneas

 

José Pascoal


 

Soneto


Sou ledo como um campo cultivado
uma janela aberta, um canto nono,
um gato novo, um vinhedo no Outono,
uma nave no céu, um país libertado.

Sou triste como um deus abandonado,
uma porta sem fecho, um cão sem dono,
uma chave perdida, uma noite sem sono,
uma carta sem selo, um relógio parado.

Composto de contrários, vou andando,
umas vezes subindo, outras descendo,
agora, sempre e nunca, ao desmando.

Composto de mudança, vou sabendo,
umas vezes sorrindo, outras chorando,
que, de maneira certa, vou morrendo.

 

 

 

 

 

 

27.04.2006