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Jornal do Conto

 

 

Jon Tonucci


 

O abraço

 

Naquela noite, o céu caiu sobre as cabeças dos belohorizontinos, sempre temerosos de uma vingança divina contra os seus pecados mais escusos, pecados de banheiros públicos, de dentes rangendo e de corpos contra paredes mofadas em motéis sujos na Rua dos Tupis. Os nervos abalados de Carlos sofreram um súbito espasmo com aquele dilúvio repentino, que espantava das calçadas mais movimentadas todas as felizardas pessoas que possuíam uma cama quente debaixo de um teto, enquanto os diversos mendigos lavavam a pele encrostada pelos milhares de dias se arrastando na sujeira. Pedrim, um velho maltrapilho, se acomodou sob a marquise de um edifício enquanto contava as gotas que escorriam em agonia pela pilastra em que estava encostado. Pouco posso dizer sobre o que ele pensava – existia uma distância insondável entre meus sentimentos e a forma como via uma pessoa e a alma daquela pobre criatura perdida em seu devaneio diário.

Carlos se remexia na cama, remoendo seu passado e se embrenhando em seu lençol. Porque ela me deixou naquela noite? Ainda posso escutar seus passos secos descendo a escadaria do prédio e meu coração se despedaçando até a vertigem de olhar pela janela e vê-la entrando em uma taxi com a cabeça resoluta enquanto minha cabeça tonteava com aquela distância que nos separava, aquela altura maior que o tempo que havíamos passado junto. Bons tempos, de muitas risadas e nenhuma segurança. Eu depositava confiança naquele relacionamento? Minha boca está seca, preciso de, de água ou qualquer outra coisa. Carlos se levantou e eu pude ver seus olhos vermelhos e túrgidos, olhos de desespero e que não deixavam transparecer nenhum sinal de salvação em sua alma. Passou diante do espelho, e eu vi seu pijama amarrotado e a sua derrota. Pedrim continuava contando as gotas, uma por uma, e com certeza não pensava em nada além daquilo. A chuva continuava com sua fúria inexpugnável, e eu me sentei à mesa e a luz da sala me doeu os olhos, cansados depois de inumeráveis noites de insônia.

O velho mendigo fez um gesto com sua mão, e deixou que algumas gotas deslizassem desesperadamente pela sua pele rota. Uma sensação de frescor lhe arrepiou os pêlos, e ele se levantou como quem acaba de vivenciar um êxtase espiritual. Tinha a expressão de um monge que, subitamente, sente o espírito invadindo a sua alma, mas que logo a deixa por ali não encontrar nenhum tipo de segurança. A chuva já dava sinais de calma, e seu barulho não mais assustava as crianças e os cachorros sarnentos que dormiam nas ruas, fazendo suas necessidades nos canteiros. Pedrim olhou para o céu e cambaleou, e acostou-se ao lado do interfone.

Eu me levantei da mesa depois de uma refeição modesta, e Carlos me seguiu pelos espelhos da casa, pela sombra morta que nos acompanhava. Decidi tocar o maldito interfone. Estava com frio, maldita chuva: depois de tantos anos de mendigagem eu continuava a me assustar com a água. Eu mesmo atendi. Não, não tinha pão nenhum, nenhum cobertor e nenhum espírito fraternal naquela noite desgraçada. Carlos se irritou com o interfone e pude vê-lo resmungando, como se ele não tivesse nenhuma relação com aquele pobre mendigo. Mas não tinha, como eu não tinha nenhuma relação com nenhum dos dois, como não conhecia os sentimentos e os medos dos outros mais do que os meus. Ele voltou ao quarto e violentamente arrancou suas roupas. Lembrou-se das noites de sexo com aquela garota, que delícia que era, talvez eu nunca mais vou dar uma trepada, e sentiu vontade de se castrar, uma vontade tão profunda e que veio com tamanho desprezo que não conseguiu dormir até a outra manhã, com a cabeça latejando e o desespero e o nojo aumentado.

Pedrim tinha medo da água. Tinha medo, porque perdera seu barraco em uma enchente, daquelas que arrasavam e devastavam as redondezas do rio Arrudas, rio de lixo, de merda. Perdeu sua família, sua geladeira e alguns trocados que estavam debaixo do colchão surrado. Tinha medo da água porque a única lembrança viva que tinha era dos gritos de seus filhos afogando e sua mulher sendo levada pelo arrastão de garrafas de plástico, móveis, galhos, lixo e espuma borbulhante. Lembrava-se do cheiro podre daquele rio desgraçado, daquele deus calmo que se rebelava nas épocas de chuva, derramando sua imundície por toda a cidade, espalhando nossa sordidez sobre nossas cabeças. Penso em vingança. Com certeza aquele rio revoltado com a quantidade de rejeitos que recebia tinha que se rebelar, e os homens pagavam com a vida as fezes que despejavam em seu curso. Pedrim nunca mais se aproximara dos pequenos muros de cimento que anunciavam o abismo em que se encontrava o rio.

A luz do sol perpassou os galhos das árvores e invadiu o quarto de Carlos. A chuva já havia parado, e seu único resquício era aquele cheiro de terra molhada que penetrava nas narinas dos habitantes de Belo Horizonte. Carlos se levantou e foi direto para o banheiro, onde vomitou toda a escória de seu corpo. Depois tomou um banho, e quando já se sentia melhor vestiu uma roupa limpa e criou coragem para dar um passeio. Sentia-se verdadeiramente pronto para encarar os carros, as buzinas. Um certo ânimo o tomou, mas nenhum ânimo de general que ganha batalhas atrás de batalhas, mas um ânimo tímido que crescia paulatinamente em seu coração e lhe incitava à porta de casa. Procurou pelas chaves. Onde estão, onde se escondem nesses momentos em que mais preciso delas, meu Deus, não me deixe perder esse momento por causa das chaves, por favor, Senhor, e ele engatinhava por debaixo da mesa e da cama como um cão farejando seu alimento, e o desespero de uma felicidade e uma oportunidade perdidas o fez se jogar de bruços no chão de madeira frio e dormir como um derrotado.

Os carros passavam velozmente, as buzinas enchiam o ar de pressa e os mendigos já saiam de baixo dos viadutos para encherem a manhã da cidade com o apelo da miséria e da tristeza. Pedrim conhecia todos os tipos de gente. Pessoas que fechavam o vidro da janela do carro antes de pararem em um sinal, pessoas com medo de sua aproximação, pessoas que davam um trocado sem nem mesmo olhar para seus olhos, como se estivessem livrando de uma obrigação exaustiva e lhes fosse garantido um lugar no Paraíso, e havia aquelas pessoas em que ele se reconhecia, pessoas com os olhos tão distantes e tristes que Pedrim esquecia o muro que os separava e se dispunha de todo coração a chorar as mágoas da vida com eles. Mas nem esses paravam, nenhum descia do carro, pois a vida tem pressa, e todos correm desesperadamente para seus trabalhos, para casa, almoço, para o trabalho, e dormem, e lêem jornal, e fazem sexo, e não percebem que estão cada vez mais perto da morte, enquanto um velho mendigo espera que tudo aquilo termine, que alguém desça de um carro qualquer e lhe dê um abraço verdadeiro, sem esperar nada em volta, sem pensar em deveres ou mesmo em Deus, pois o que Ele quer é que as pessoas façam o bem não para que Ele veja, porque isso é apenas mais um tipo repugnante de exibição e de auto satisfação, mas que elas se amem simplesmente por serem seres humanos, por perceberem que não estão sozinhas, mas que isso não significa entregar aos outros toda a responsabilidade de gastar o infinito amor que enche seus corações. E Pedrim esperava esse dia de ternura e fraternidade, e por isso sorria, porque tinha um pavio de esperança em seu peito que só precisava de uma faísca para atear fogo na sua breve existência.

Acordei com a cabeça tonta, e quando abri lentamente os olhos pude vislumbrar com dificuldade os contornos metálicos da chave que arrombavam minhas retinas. Levantei-me e aceitei aquele milagre para não ter outra coisa assolando minha cabeça. Chega de perturbações, é só uma chave, vou descer e entrar no carro, ligar o motor e ser uma pessoa comum, já está na hora de superar minhas derrotas, eu não sou tão burro e idiota com dizem, vou mostrar para o mundo que eu sou alguém. Eu via em sua cara a determinação, impulsionada por um rancor contra a raça humana, contra a corja que lhe humilhara, contra as garotas que zombaram do seu tamanho, tanta sacanagem e nenhum sinal de redenção. Mas eu o acompanhava com orgulho, eu também estava resoluto, podia sentir a vitória vibrando na minha frente, lá fora, onde gritavam as multidões enfurecidas e homens e mulheres desesperados buscavam ajuda em igrejas e psicólogos. Carlos abriu a porta e desceu pelas escadas: dessa vez não se lembrou dos passos dela, do baque súbito da porta fechada na sua cara.

Tem um trocado, senhor? Janelas fechadas, agora inventaram esse tal de vidro fumê, isso acaba com a dignidade da gente. Um real, alguns centavos, dá pra comprar uns pão, mas só naquela padaria lá longe, aqui nesse bairro o pão tá custando ouro, mais de trinta centavos. Deus lhe pague, obrigado senhora, obrigado, Deus te abençoe, vidros fechados, não tem nada hoje não, tô sem nada, não tenho trocado nenhum agora, suspiros dentro de carros, o sinal abre verde tudo corre buzinas barulhentas pessoas apressadas com isso não dá nem pra comprar um cobertor. Pedrim se sentou no meio fio e ficou divagando olhando para o céu, pensando em qual seria a utilidade de ele pensar alguma coisa, ou qual seria a sua utilidade para alguém. Porque a vida só tem sentido quando somos úteis para os outros, mas um mendigo, um mendigo não tem ninguém e não serve nem aos políticos. Mas ele sabia que havia um deus sobre a sua cabeça e que no final dos dias, no dia do fogo e do vinho, lhe seria dado um lugar especial lá nas nuvens, onde deve ser aconchegante. Ele se lembrava da primeira vez que a mãe havia lhe levado à igreja, alguma coisa sobre a dificuldade de um rico entrar no céu, isso lhe dava muita esperança, mesmo que em seus olhos só podermos ver amargura e sofrimento, e achar que essa palavra esteja enterrada como está em nossos corações.

O carro ligou! Quanto tempo sem escutar esse barulho, achei que ele nem fosse funcionar, já tem, um mês? Talvez. Dirigiu durante alguns minutos, por ruas que já conhecia, viu pessoas caminhando, algumas construções, operários e trabalhadores, e foi ao pouco se lembrando que existia um mundo fora do seu apartamento. Quando a gente fica muito tempo enclausurando, a gente fica achando que o mundo é aquela caverna, e é a mesma coisa agora: eu sei que tem muito mais além de Belo Horizonte, mas calma, um passo de cada vez, mas até quando? Não dá pra fugir pra sempre, não dá mesmo. Mas não é questão de fugir, é só conhecer o mundo: aliás, eu já me conheço demais, e estou cansado de mim. Carlos parecia feliz, parecia ter tomado alguma atitude, mesmo que não fosse possível traduzi-la claramente em palavras. Sim, ele tinha um sorriso, aquele sorriso que revestia uma tristeza velada, que revestia a certeza da impossibilidade de uma vitória plena, mas que não escondia a satisfação com aquele momento, aquela vitória.

Carlos parou o carro em um sinal vermelho. Eu me aproximei daquela lataria velha, com certeza ele não me daria um trocado. Quando bati no vidro, ele virou o rosto e vi seus olhos faiscando um amor tão verdadeiro que fiquei com medo. Medo de amor, é, depois de anos de rua, a gente fica com medo de qualquer coisa, também tem que dormir com um olho fechado e o outro aberto, se não tacam fogo na gente. Teve um amigo meu que morreu assim, tacaram fogo no cobertor dele, foi um desespero e ninguém sabia o que fazer. Tamos sempre com medo, até mesmo de amor. Sua mão buscou desesperadamente a maçaneta, e ele saiu do carro enquanto uma multidão de carros atrás buzinavam e lançavam seus escárnios mais terríveis contra aquele homem. Aquele velho espantado me olhou, ele estava com uma roupa tão velha, seu cabelo estava tão sujo, ele era um mendigo, mas quem não era, eu não tinha nada, a não ser algumas economias, mas minha solidão era infinita com a daquele homem. E eu quis compartilhar isso como ele, eu quis diminuir nossa dor num abraço. E eu vi os dois se abraçando, se abraçando e chorando. E eu chorei como os dois, depois de tanta chuva, depois de tantas noites sozinhas, de tanta tristeza e aquela solidão que destrói qualquer pessoa. Naquele abraço, senti a redenção de toda a humanidade. Naquele minuto, o homem fez História. Naquele minuto. Naquele abraço.