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Henrique Marques Samyn


 

Notas poéticas: A “guarda de honra” de Bilac (II)
Henrique Marques Samyn
[publicado em 30/03/2006 na revista Speculum (http://www.speculum.art.br)]

 

Guimarães Passos, o terceiro membro da tropilha de Bilac, é uma destas figuras cujo perfil, quando resgatado do anedotário de outrora, sempre parece caricato. Viera de Alagoas, como clandestino em um navio; chegando ao Rio, logo tornou-se amigo de seus ídolos literários – Coelho Neto, Alberto de Oliveira, Luís Murat e, é claro, Olavo Bilac, sobre quem escreveria uma biografia e com quem assinaria alguns livros, entre eles o “Tratado de versificação”. Boêmio incorrigível, “espadaúdo e forte, com um par de costeletas a manchar-lhe o rosto amorenado e longo, lembra o ‘Fogo-foguinho’ da Marquesa de Santos”, nas palavras de Luís Edmundo, que acrescenta: “Linda dentadura e um bigode em sarilho, enfeitando-lhe o lábio grosso, fresco como uma flor”.

“Fogo foguinho”, para quem não se lembra, era um dos lúbricos epítetos com que D. Pedro I assinava suas cartas à referida Marquesa; e as semelhanças entre o “Guima” e o Imperador não estavam somente nos traços físicos, mas também nesta propensão à lascívia. Passos, afinal de contas, era conhecido e declarado “bolina”, ou seja: era um daqueles sujeitos que, nos bondes, costumavam sentar-se ao lado das mulheres mais formosas, aproveitando-se das curvas e dos solavancos para, alongando habilmente a perna, tocar, roçar, esfregar, até mesmo enlaçar – se a dama o permitisse – a perna feminina; e com tanto afinco o fazia que chegou a ganhar esta quadrinha do seu “comandante” Bilac:
 

Quando entrar na vida eterna,
Todo vestido de preto,
Encostará, logo, a perna
À perna de outro esqueleto.

 

Na verdade, é precisamente este sensualismo o que confere algum lirismo à poesia de Guimarães Passos. Há nele uma forte imaginação erótica que, embora expressa numa dicção muito próxima à de Bilac, comumente se afasta daquela temperança neste tão presente, aparecendo muito bem resolvida em sonetos como “... Depois” e “Mea Culpa”, este de notável feição bocageana. Aquele que talvez seja seu poema mais conhecido – indubitavelmente um dos melhores, em relação tanto ao fundo quanto à forma – retira sua força lírica justamente deste arrebatado erotismo; refiro-me a “Pubescência”:
 

PUBESCÊNCIA

Ei-la! Chega ao jardim, que estava triste,
Porque a sua alegria ausente estava,
E ela, que em vê-lo dantes se alegrava,
Agora a toda a tentação resiste.

Seria outra alma, pensa, que a animava?
Porque um desejo que a persegue insiste?
Qualquer cousa que ignora, mas que existe,
Pulsa-lhe ao coração que não pulsava.

Triste cismando segue, e em frente à fonte
– Um sátiro, de cuja boca escorre
Um fino fio d’água transparente –

Ri-se dos cornos que lhe vê na fronte,
Os lábios cola aos dele, e porque morre
De sede, bebe alucinadamente.
 

O soneto chama a atenção não apenas pela beleza das imagens, mas também pela engenhosa construção. A matéria narrativa é adequadamente distribuída pela estrutura do soneto, desde o quarteto introdutório até os tercetos, o penúltimo trazendo o momento de suspense que será resolvido no terceto final. No tocante à versificação, note-se a construção deste último terceto: o primeiro decassílabo é um sáfico que, rompendo o ritmo dos heróicos que formam a estrofe anterior, realiza no ritmo a mesma ruptura que encontramos no conteúdo dos versos, onde a hesitação e o suspense cedem espaço a uma certa acalmia. O verso seguinte, no entanto, é novamente um heróico, o que retoma o ritmo mais tenso no exato momento em que a menina se lança em direção ao sátiro; e, no verso final, o poeta utiliza novamente um heróico, mas também acentuado na quarta e na oitava sílabas, sintetizando com primor os andamentos anteriores.

José Veríssimo certa vez falou de Guimarães Passos qualificando-o como poeta “de emoção ligeira e superficial, risonho, de inspiração comum, mas de estro fácil, como o seu verso, natural e espontâneo, poeta despretensioso, poeta no sentido popular da palavra”. Há nisso tudo verdade, mas faz-se necessário ver que esta falta de pretensão e esta fidelidade ao lirismo fácil são precisamente o que confere alguma autenticidade à obra de Guimarães Passos, afastando-a da soberana sombra bilacquiana.

 

 

 

 

 

28.06.2006