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Henrique Marques Samyn
Notas poéticas: A “guarda de honra”
de Bilac (I)
Henrique Marques Samyn
[publicado em 16/03/2006 na revista Speculum (http://www.speculum.art.br)]
A expressão é de Luís Edmundo, que
afirma que Bilac sempre entrava na Confeitaria Colombo – um dos
principais lugares de encontro dos homens de letras no Rio de
Janeiro na virada do século XIX para o XX – acompanhado de sua
“guarda de honra”, composta por uma tríade de epígonos: Guimarães
Passos, Pedro Rabelo e Plácido Júnior. Dos três, o mais talentoso
era o primeiro; nenhum deles, entretanto, logrou sair da sombra
bilacquiana.
Curiosamente, Plácido Júnior e Pedro Rabelo pareciam opostos um do
outro. O primeiro, apelidado “Pipa” ou “Pipinha” – porque
frequentava assiduamente a Pipinha Invencível, famosa taverna na rua
Uruguaiana – , era um sujeito magro e franzino, sempre tão sem
dinheiro que, segundo se dizia, fora capaz de certa vez extorquir
quatro mil réis de um ladrão que invadira seu precário quarto. Por
sua vida de boêmio miserável ou por seus fracos versos (ou, talvez,
por ambos os motivos), foi o único da tropa bilacquiana a não
ingressar na Academia Brasileira de Letras, que acolheria entre seus
fundadores tanto o comandante quanto o resto de sua guarda –
incluindo o irreverente Guimarães Passos. Se não deixou marca alguma
como poeta, ao menos ficou conhecido como o mais valente guarda da
tropilha de Bilac: adorava-o de tal modo que não admitia que
qualquer tipo de crítica a ele fosse feita em sua presença,
avançando ferozmente contra o blasfemador que ousasse atacar seu
ídolo.
Melhor sina teve Pedro Rabelo. Funcionário público, pai de família,
era boêmio disciplinado, de rígidos horários; conta-nos Luís
Edmundo: “Ninguém o viu, jamais, à noite, num teatro, no Moulin
Rouge, ou em qualquer casa de chope, por aí (...) No máximo, quando
batem sete horas, bebe o último calisto de conhaque, cumprimenta os
da roda e parte. Mora em S. Cristóvão. Lá chega, janta e
arquiva-se”.
Seus versos revelam um pertinaz seguidor de Bilac, ainda que bem
menos talentoso que o mestre. Sua dicção é eloqüente, mas mais
tortuosa que a bilacquiana; seu gosto pelo efeito é patente, mas não
desfruta da engenhosidade do autor da Via Lactea. Rabelo lança mão
sobretudo das repetições vocabulares (epanalepses), das quais abusa,
utilizando-as inclusive em chaves de ouro; indiscrição que, às
vezes, chega a soar constrangedora. Contem-se, por exemplo, as
repetições no soneto “Tenebras”:
Porque mais te não vejo, mais te sinto
Perto... Mais perto dos teus olhos ando.
Diz-mo não sei que delicioso e brando,
Como os vagos instintos, vago instinto.
Estás perto, sinto-te... E de quando em quando,
“Busca-a!” - manda uma voz. “Busca-a!” Consinto.
E ando de labirinto em labirinto,
Cego, paredes úmidas tateando...
Quem me há de os olhos descerrar? Teus olhos,
Pela doce alegria de trazer-mos,
Quem mos há de mostrar nesta ansiedade?
E amontoam-me escolhos sobre escolhos...
- Almas enfermas, corações enfermos,
Qual de vós é que sofre esta saudade?
Cerebrino e artificial, Pedro Rabelo foi, enfim, mais versejador que
poeta – estirpe que em todas as épocas faz-se presente no mundo da
poesia; mas que o parnasianismo, com seu pendor excessivamente
formalista, cuidou de multiplicar.
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