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Henrique Marques Samyn
Notas poéticas: Três martes,
de Davino Ribeiro de Sena
Henrique Marques Samyn
[publicado em 23/02/2006 na revista Speculum (http://www.speculum.art.br)]
Havendo estreado na poesia na década
de 90 com Castelos de Areia, obra premiada na 5ª Bienal Nestlé de
Literatura, Davino Ribeiro de Sena já mereceria algum destaque no
ambiente poético contemporâneo por aliar, em sua obra, a preocupação
formal à busca do lirismo, ambos comumente relegados pela maior
parte dos que atualmente se aventuram pela vereda da poesia -- que
confundem, geralmente, forma com formalismo e lirismo com pieguice.
Distante de ambos os vícios, Davino entrega-se a um labor
construtivista sem deixar de dar ouvidos à sua matéria lírica,
logrando, não poucas vezes, alcançar resultados notáveis.
Três martes, sua obra mais recente (7Letras, 2004), parte de uma
proposta artística tão interessante quanto curiosa: em uma espécie
de fantasia semântica, tenciona o poeta versar sobre Marte enquanto
planeta e enquanto ente mitológico, desvelando um terceiro Marte que
seria produto dos dois primeiros. Davino pretende, por esta via,
realizar uma reflexão sobre a alteridade; no entanto, sendo esta
alteridade tão enigmática, a meditação acaba sendo não sobre o
outro, mas sobre si mesmo e o que o cerca -- o mundo, a vida, a
História, a experiência humana. O terceiro Marte torna-se, enfim, um
espelho.
O longo poema segue uma estrutura fixa, com estâncias de doze versos
de medidas variáveis, somando ao final mais de dois mil versos.
Todavia, é nesta extensão que está sua fragilidade. Coexistem, no
poema, momentos de possante força lírica -- veja-se, por exemplo, a
descrição do “planeta frio”: “Nenhuma sombra, nada / que recorde a
vida / no horizonte monótono / quebrado pelas dunas / de areia
avermelhada / e pensar monossilábico (...)” -- e momentos em que o
ímpeto criativo perde o fôlego, tangenciando o prosaísmo, o que
resulta em versos que pouco se afastam do trivial -- “Um dia seremos
lúcidos / mais do que lúdicos. / Misterioso não é o anjo / mas o
homem com o banjo.”. É quando a dimensão contingente -- construtiva
e intelectiva -- sobrepuja a dimensão lírica, esta a verdadeiramente
essencial.
Davino destaca-se em meio à esterilidade lírica patente na poesia
surgida nas últimas décadas justamente por ser um poeta que tem
grande familiaridade com suas fontes de inspiração (o que, aliás,
rendeu belíssimas obras em seu livro anterior, Vidro e Ferro, de
1999). Ainda que tais fontes se façam presentes, aqui e ali, em Três
martes, o que compromete a inteireza do livro são precisamente os
momentos em que a razão se faz excessiva, esvaziando o verso de seu
substrato lírico. Davino procurou desvelar um terceiro Marte em meio
à tensão entre o Marte-planetário e o Marte-mitológico; poderíamos
pensar, analogamente, em uma tensão entre o Davino-lírico e o
Davino-construtivista. É quando o último não excede o primeiro,
quando ambos se harmonizam, que vemos despontar, verdadeiramente, o
Davino-poeta.
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